Conheci 35MM através do Carlos Aquino, do Retina Desgastada, o qual, aliás, analisou o jogo aqui. O Carlos também gravou uma série de vídeos sobre o jogo, e você pode conferi-los no canal do Retina Desgastada no Youtube.

Bem, 35MM é um jogo realmente estranho. Uma mistura de walking simulator com ação, puzzles (bem gentis) e horror, tudo isto embalado em um belo pacote, com gráficos realmente muito bonitos e cenários de cair o queixo.

O jogo foi lançado em 2016, e eu o adquiri em uma promoção no Steam por menos de 5 Reais. Valeu cada centavo, mas isto também não quer dizer que o jogo me deixou totalmente satisfeito. Mas vamos por partes.

35MM

Em 35MM encarnamos um fotógrafo que perambula por uma Rússia pós-apocalíptica e bastante melancólica. A paleta de cores utilizada/escolhida, aliás, o uso de tons acinzentados, contribuem bastante para fazer com que o jogador sinta toda a tristeza que permeia aqueles ambientes todos. E vale também ressaltar que o título é extremamente imersivo, e que não existe HUD nem tampouco nenhum outro elemento em tela para nos atrapalhar.

Estamos em uma Rússia, na verdade em um mundo, que passou por uma epidemia global que matou muita gente. Um vírus mortal (anotações no jogo fornecem indícios de que se trata de uma mutação do Ebola) devastou cidades e países inteiros, e culminou em uma espécie de colapso global. Existem, também, por outro lado, pessoas totalmente imunes ao vírus, por razões desconhecidas, e este é o caso do protagonista.

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Mas o jogo se foca na Rússia. Na melancolia de uma Rússia em decadência. Nos prédios em ruínas que visualizamos ao perambular pelo país. Na floresta onde tudo começa, e através da qual começa nossa exposição ao espetáculo visual do jogo (salvo algumas exceções). Nos túneis opressores do metrô.

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Temos um companheiro de viagem, o qual fala pouco, assim como nosso protagonista. O objetivo do jogo é chegar a uma determinada cidade e aí obter acesso à antiga casa do personagem principal, onde ele espera, quem sabe, relembrar pedaços de um passado distante.

Durante o gameplay, existem momentos de ação e também momentos em que temos de lidar com alguns puzzles. Durante a maior parte do tempo, entretanto, o que temos é uma mistura entre walking simulator e grande tensão. Existem também outros sobreviventes, neste novo mundo devastado pelo vírus mortal, e nem todos são amistosos. Teremos de com eles lidar, em alguns momentos, mas este não é o ponto central de 35MM.

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O jogo se foca mais na ambientação sombria e triste, mais no barulho das árvores e dos pássaros em uma floresta intimidadora, na qual o jogador é “convidado” a olhar para todos os lados ao mais leve barulho, esperando se deparar com algo horripilante (o que nunca acontece).

O jogo se foca mais no contraste entre a escuridão de túneis amedrontadores e a luz de nossa lanterna. Na criação e na sustentação de um grande clima de suspense que só é suplantado pelo horror à partir do momento em que abandonamos a superfície e nos afundamos em túneis intermináveis de um metrô há muito tempo esquecido.

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À partir daqui, temos algumas doses de terror, e é também à partir daqui que 35MM começa a cansar. O jogo como um todo demora algo entre 4-6 horas para ser finalizado, e em minha opinião tudo é mais interessante antes de sermos inseridos à força no metrô.

Aí, acabam os belos gráficos do jogo, pois por mais que tentemos observar belezas nas profundezas utilizando nossa frágil lanterna, esta é bastante ineficiente para tanto. Por mais que tentemos nos lembrar do belo visual que nos aguarda acima, e do qual fomos arrancados, somos forçados a permanecer nas trevas e a esquecer, por um bom tempo, que a bela Rússia melancólica ainda está lá. Pedindo para ser explorada.

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É também aqui, à partir de nossa entrada no metrô, que acontece uma separação entre os dois personagens do jogo, e é aqui, também, que coisas estranhas começam a acontecer, todas elas brincando bastante com o sobrenatural, algo que destoa totalmente da proposta do jogo até então.

É como se o sobrenatural tivesse sido introduzido à força no jogo. Antes tínhamos um walking simulator com pitadas de suspense, e em determinado momento nos é enfiado goela abaixo uma espécie de novo jogo, com momentos de ação intensa e horror, incluindo combates insanos contra inimigos capazes de nos matar com grande facilidade (são duas, tais situações angustiantes, as quais quebram totalmente o ritmo do jogo).

35MM

Um momento em especial (também parte de um combate), ainda no metrô, é tão estranho e destoa tanto de tudo o que pensamos a respeito de 35MM quando começamos a jogar, que é totalmente aceitável que alguns jogadores abandonem a experiência à partir daí (tanto pela dificuldade extrema quanto pela mudança de tom).

35MM

E à partir daí o que temos são acontecimentos insossos, totalmente sem graça e sem nada a ver com o belo walking simulator + suspense que parecíamos entrever no início do gameplay. O final do jogo, apesar do protagonista atingir seu objetivo, é também ele sem graça e abrupto, isto após algumas sequências totalmente desnecessárias, incluindo um ataque surpresa totalmente sem nexo que sofremos.

35MM é um belo jogo, não restam dúvidas. Seus gráficos são lindíssimos, e passam muito bem a noção de ambientes desprovidos de vida, de esperança. Mas ele poderia ter sido muito melhor, caso tivesse seguido até o final com a proposta inicial, e não tivesse se desviado de maneira tão abrupta e insensível, incluindo aqui a introdução dos elementos sobrenaturais meio que sem razão de ser.

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Obs: vale ressaltar que, pelo que tudo indica, e segundo uma conquista que desbloqueei, existe mais de um final em 35MM. Mas não creio que valha a pena um segundo playthrough. Agora, em uma bela promoção, pegue o jogo sem medo.

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