Depois de ser eleita a pior empresa dos Estados Unidos, depois de deixar bem claro, nos últimos tempos, que para ela, jogadores e clientes nada mais são que meros números em uma base de dados, depois de criar um serviço de distribuição digital de jogos para PC capenga, “castrado” (pelo menos no Brasil, mas isto talvez mude) e insosso, e depois de iniciar uma “briguinha” com a Valve (mas calma, Crysis 2 já voltou ao Steam – em uma super-extra-power-plus-turbinada edição que nada mais é que o jogo mais algumas firulas inúteis), a Electronic Arts agora afirma que seu objetivo é transformar o Origin em uma versão melhor do Steam.

David DeMartini, vice-presidente sênior de comércio global na EA, disse ao MCV “que o Origin está em ‘um caminho de aperfeiçoamento constante‘”. Até aí tudo bem (não vi até agora estes tais aperfeiçoamentos, entretanto –  o que vi foram novos recursos que ainda estão bem aquém do que aquilo que o serviço da Valve nos oferece), nada impede que o Origin seja melhorado, que mais publishers e desenvolvedoras passem a oferecer seus títulos através do serviço, e que ele chegue a se tornar um concorrente pelo menos do mesmo nível de alguns que estão abaixo do Steam. É, não sou nem um pouco otimista em relação ao Origin (posso estar enganado, entretanto).

O grande problema é quando analisamos a situação da Electronic Arts como um todo, e nos deparamos com a notícia de que o valor de suas ações caiu 50%, como parte de um processo que já vem ocorrendo desde Novembro de 2011. A empresa vale menos, agora. Investidores estão preocupados, e pode ser que a gigante esteja, também, muito mal das pernas. Bem mais do que aquilo que imaginamos. Não se sabe com certeza se suas práticas abusivas e gananciosas contribuíram ou não para esta queda, mas com certeza a EA deve ser uma das empresas que mais possui clientes insatisfeitos no mundo.

David DeMartini ainda diz que, trocando em miúdos, inovações demandam que outras pessoas tentem fazer algo melhor do que outros já fizeram. Ele também menciona que não espera um Origin melhor que o Steam em menos de 12 meses (executivo otimista, hein?), e que sua empresa está começando a adicionar valor ao Origin. Bem, gostaria de saber onde isto vai dar.

DeMartini também menciona que mais de 12 milhões de pessoas realizaram o download do cliente Origin, o que, para mim, não significa muita coisa. Muitas destas pessoas se sentiram obrigadas, como eu, para poder jogar Mass Effect 3, por exemplo. E outras, bem, o que significa um mero download, se nada for comprado, se o serviço não cair nas graças dos usuários? Infelizmente, entretanto, a EA pode ter sido beneficiada por este fato.

É até mesmo difícil falarmos em boicote quando franquias que amamos estão nas mãos da empresa, e somos obrigados a utilizar seu cliente para jogar estes últimos lançamentos. Eu, por exemplo, jamais deixaria de jogar Mass Effect 3, portanto, no meu caso e no de muita gente, tenho certeza, boicotes estão fora de cogitação. E temos também de nos lembrar de que várias ótimas franquias estão nas mãos da EA, o que faz com que o problema seja maior ainda.

O executivo continua mencionando números e diz que a EA está em uma posição muito interessante. Bem, analisando o caso da EA e da queda de suas ações, o panorama que obtemos não é tão bom assim como DeMartini alardeia. Os investidores estão muito preocupados com os rumos que a coisa toda está tomando. Fala-se que algo terrivelmente errado ocorreu. De quem, ou do que, seria a culpa?

O fato de que o valor das ações da empresa começaram a cair depois do lançamento do MMORPG Star Wars: The Old Republic, jogo que provocou extrema ansiedade entre os investidores e cujos custos de desenvolvimento foram extremamente altos, não deve ser desconsiderado, bem como o fato de que SWTOR já perdeu 400.000 assinantes desde fevereiro, e já cogita-se inclusive em transformá-lo em um título free-to-play.

Alguns investidores também viram em SWTOR um teste para a gestão de John Riccitiello, CEO da Electronic Arts desde 2007. Uma falha aqui significaria, talvez, a cabeça de Riccitiello. Todos estes elementos, em minha opinião, apontam para um caminho: a EA não vai bem, e talvez as declarações de David DeMartini sejam uma forma de tentar tampar o sol com a peneira, meio que lançando todas as esperanças e atenção da mídia em um serviço de distribuição digital que, para muita gente, já nasceu morto.

Tenho comigo, também, que a empresa fundada em 1982 por Trip Hawkins pode estar colhendo os frutos de sua própria mania de grandeza e de suas práticas predatórias. Quantos estúdios foram comprados pela empresa? Bullfrog, BioWare, PopCap, Maxis. Quantos mais? A PopCap, aliás, foi adquirida em uma transação que custou à EA 750 milhões de dólares. Foram gastos cerca de 200 milhões de dólares no desenvolvimento de SWTOR , e o valor da empresa é de cerca de 4 bilhões de dólares. Números bem perigosos, não? Ainda mais se levarmos em conta o fato de que Star Wars: The Old Republic não atingiu os resultados esperados, e em minha opinião, não vai atingir.

Além disso, quantos estúdios foram fechados pela gigante? Me lembrei agora da Pandemic Studios, aliás. Parece que a EA caminha para um ponto onde terá de rever diversos de seus conceitos, caso não queira ser engolida (ou coisa pior). Até mesmo a Activision parece um cordeiro, perto da EA, mesmo com sua franquia Call of Duty recebendo títulos anuais pouco inovadores e o tal do Call of Duty Elite.

Pelo menos não vemos a empresa de Bobby Kotick tentando a todo custo entrar em um nicho no qual não possui experiência e carisma algum, e dizendo que jogos em promoção não são algo legal. Não vemos a Activision (nem a Ubisoft, me lembrei dela agora) dizendo aos quatro ventos, com outras palavras, que seu novo serviço de venda de jogos via download será melhor, dentro de pouco tempo, que outro que já está no mercado há muito tempo. Claro, nem Ubisoft nem Activision tentaram, até agora, criar um serviço deste tipo.

Bem, o fato é que a Electronic Arts agora se encontra em uma posição delicada, e que trunfos ela tem em suas mãos? Origin? Medal of Honor Warfighter? O novo Sim City? Battlefield 3 Premium? SWTOR? O final estendido para Mass Effect 3? Complicado. E você, já percebeu que não há mais redirecionamento no Origin? Agora a “grande loja da EA” aparentemente está aberta também para os brasileiros. E que grande catálogo, não?

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