Beholder é um título um tanto quanto pesado. Ambientado em um país fictício onde uma espécie de ditadura se estabeleceu, o jogo do pequeno estúdio siberiano Warm Lamp Games esbanja crueldade. Crueldade no trato com o povo, crueldade na maneira como os cidadãos convivem entre si, crueldade na maneira como o jogo trata o jogador.

Na pele de alguém chamado Carl Stein, você é um síndico de um pequeno prédio, prédio este no qual você passa a morar juntamente com sua família. Não apenas isso: você é um síndico à serviço do Estado, o mesmo estado que oprime o povo, que oprime os moradores do prédio e que também oprime você. É importante ressaltar que o antigo síndico foi destituído de seu cargo de uma maneira não lá muito agradável, e tal risco também pesa sobre sua cabeça.

Em posse de chaves de todos os apartamentos (as quais lhe são dadas no início da história), você deverá literalmente invadi-los (na ausência de seus respectivos inquilinos, obviamente) e xeretar. É isto mesmo: você deverá vasculhar tudo e todos em busca de crimes contra o Estado. Em busca de evidências de que os moradores estão agindo de maneira errada, de maneiras que vão de encontro às leis e diretrizes do Estado opressor. E que fique bem claro: na maioria das vezes, os crimes são coisas banais – pelo menos em nossa realidade.

Beholder

Existe uma lista de diretrizes emitida pelo estado, a qual vai crescendo conforme o gameplay avança. Coisas as mais absurdas são proibidas. É proibido, por exemplo, possuir determinados livros, é proibido obter e armazenar moeda estrangeira, é proibido cantar em determinados locais e na presença de determinadas personalidades, é proibido armazenar maçãs, etc.

Enfim, muitas coisas são realmente proibidas, e embora muitas das proibições sejam verdadeiramente absurdas (a proibição das maçãs, por exemplo), grande parte delas nos levam a imaginar algumas ditaduras e Estados espalhados pelo nosso mundo, atualmente ou no passado. A liberdade individual e a privacidade de cada morador do pequeno condomínio é violada à todo momento, muitas vezes por você, e dentre as armas que você pode utilizar para prejudicá-los estão a chantagem e os relatórios.

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Existem alguns ministérios no tal Estado, e você pode então para eles enviar relatórios completos a respeito de qualquer morador. Encontrou algo que vai de encontro às regras? Reporte e observe a polícia ir em busca do tal infrator, com grande violência. É até mesmo interessante e trágico ressaltar a violência dos agentes policiais, que batem, esmurram, chutam e empurram os “criminosos” durante o “passeio” até a viatura.

Obviamente, Beholder lida com um tema bastante complicado e delicado. No papel de um agente do Estado ditatorial e inclemente, você tem também de manter-se à salvo, além de cuidar de sua família. Você pode inclusive se ver às voltas com a morte de um ente querido, e, bem, é claro que o jogo deixa bem claro que a culpa, aqui, é toda sua.

Mas o fato é que você pode realizar atos realmente reprováveis em prol das ordens que recebe de seus superiores. Expulsar alguém do prédio apenas por uma aparente insignificância? Sim, você pode, ou melhor, deve, utilizando para tanto meios violentos ou não. Você também pode ajudar tal personagem, vale lembrar, e aí entra em questão o sistema de moralidade de Beholder, que testa o jogador constantemente. Atos desprezíveis em prol de um Estado opressor, com respectivos ganhos de experiência e dinheiro, ou benevolência e bondade sob risco de morte ou destituição? São coisas para se pensar, e o jogo testa você muitas vezes, neste sentido.

Beholder

Carl também pode instalar câmeras de vigilância nos apartamentos. Várias delas em vários apartamentos, sem que seus respectivos ocupantes desconfiem, obviamente. Caso algo indevido, que vá contra as diretrizes do Estado, seja encontrado, também é possível preencher um relatório a respeito do achado, e deixar que o estado aja (quase sempre com truculência – e se você se lembrar de algum país neste nosso mundo, do presente ou do passado, não se assuste).

O protagonista também deve interagir constantemente com todos os moradores: é assim que side-quests podem aparecer, por exemplo, aumentando sua reputação e/ou melhorando suas finanças (é possível, por exemplo, fazer o papel de cupido).

Beholder

Vale lembrar também que Carl pode contrabandear itens proibidos. Isto é uma faca de dois gumes, entretanto: apesar da possibilidade de altos ganhos, é possível que as futuras negociações deem errado, e eu me vi em uma situação em que, devendo ao contrabandista e tendo me recusado a pagá-lo, fui morto com um tiro quase à queima-roupa. Sim, o jogo é cruel: você também pode morrer pelas mãos daqueles que vigia, dependendo da maneira como conduz os diálogos, inclusive (ameaçar, algumas vezes, é um tanto quanto perigoso).

Beholder, lançado em Dezembro de 2016, para PC, chega agora também ao Xbox One e ao PlayStation 4, ao mesmo tempo em que uma sequência foi anunciada. O título da Warm Lamp Games é interessantíssimo e pode agradar bastante àqueles que jogaram games como This War of Mine e Papers Please. O gerenciamento, aqui, é muito mais crítico e carregado de decisões morais que afetam de maneira brutal o desenrolar da história, porém.

Carl pode se render totalmente ao estado, e cometer atrocidades terríveis, ou pode manter um pouco mais de sua humanidade e ser visto com bons olhos por alguns dos moradores. Os caminhos estão lá, basta que o jogador os trilhe.

Beholder

Os gráficos de Beholder são bastante simples, mas isto não tira o brilho nem tampouco o apelo do game. Todos os personagens, NPCs ou não, são “pesados”, escuros, negros, mesmo, lembrando bastante até o garotinho de Limbo, outro game bastante soturno.

Há um pouco de confusão no jogo, também. A jogabilidade é um pouco difícil, o jogo não pega o jogador pela mão em nenhum momento (ele nem ao menos acena). Muitas vezes é difícil, no meio de uma missão, saber o que fazer. É comum sentir-se perdido em Beholder.

O journal não fornece muitas informações, não existe nenhum tipo de guia, nenhum tipo de lista de ações necessárias para completar esta ou aquela tarefa, e o que nos resta é perambular pelo cenário conversando com todos e fuçando em tudo, para tentar descobrir qual o melhor modo de realizar a tal ação X. Com isto, horas e horas (in-game e fora dele, quem sabe) se passam, e a frustração pode tomar conta do jogador.

Beholder

Mas trata-se de um ótimo e soturno jogo. E não se esqueça: estamos sob o jugo de um Estado ditatorial, e ao menor deslize, somos engolidos por uma monstruosa máquina repleta de burocracia e crueldade. Vale uma olhada, com certeza. Apenas tenha em mente que a experiência é bastante curta: algo em torno de 5 a 7 horas para chegar a um dos diversos finais disponíveis.

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