O Prey lançado em Maio de 2017 a respeito do qual escrevo agora pouco tem a ver com o Prey lançado em 2006. Sai de cena o herói indígena como protagonista e entra um personagem totalmente diferente, um asiático chamado Morgan Yu (o qual pode ser tanto um personagem masculino quanto um feminino – depende da escolha do jogador).

Entram também em cena uma abordagem e uma ambientação totalmente diferentes, e talvez tenhamos aqui alguns pequenos resquícios do jogo de mais de uma década atrás, tais como, por exemplo os alienígenas; estes, no entanto, bastante diferentes, diga-se de passagem.

Prey

No Prey de 2017, estamos à bordo de uma gigantesca estação espacial chamada Talos I. Nela, o protagonista sofreu uma espécie de perda de memória, e deve “reaprender” muitas coisas a respeito de seu passado, bem como de tudo aquilo que ocorre ao seu redor, através de diários, anotações e gravações, enquanto perambula pela bela e assustadora estação.

Há também um aliado extremamente importante em Prey, o qual auxilia Morgan de forma bastante próxima (inclusive em relação às memórias): trata-se de January, uma espécie de robô criado e programado pelo próprio personagem principal antes da perda de memória.

À bordo da estação Talos I e sob o comando de uma megacorporação conhecida como TranStar, experimentos eram realizados com uma espécie alienígena conhecida como Typhon, sendo que alguns deles, dentre outras características, eram capazes de se transformar em objetos inanimados os mais diversos, como por exemplo copos, cadeiras, mesas e outros utensílios de uso diário e comum.

Prey

Prey é, antes de qualquer coisa, é importante ressaltar, um FPS com doses de horror e ação furtiva. Mas retornando à explicação sobre os Typhon, vale dizer que os experimentos deram errado: de alguma forma, as criaturas conseguiram escapar da contenção e passaram a aterrorizar Talos I, assumindo o controle quase que total da mesma.

Tão logo inicia-se o gameplay, o jogador é colocado em contato com ambientes desprovidos quase que totalmente de presença humana: quase sempre, apenas os extremamente agressivos alienígenas (alguns deles com características humanoides) são encontrados perambulando pela estação.

Os poucos humanos sobreviventes encontram-se escondidos e preocupados ao extremo, para não dizer desesperados. É possível também, vez ou outra, mantermos contato com tais pessoas, espalhadas por diversos cantos de Talos I, seja via rádio, seja pessoalmente.

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Desenvolvido pela Arkane Studios, empresa competentíssima e também responsável por Dishonored e Dishonored 2, por exemplo, Prey conta com uma excelente ambientação. Muitos dos ambientes nos apresentam um fantástico estilo art déco, por falar nisso, e de vez em quando podemos até mesmo encontrar lampejos de um BioShock aqui e ali.

A trilha sonora também é digna de nota, vale ressaltar, incluindo aí a presença de muitíssimo bem vindos sintetizadores, o que acaba conferindo um ar meio oitentista à experiência, principalmente se prestarmos bastante atenção ao ambiente que nos rodeia e a seu ar meio retrofuturista.

O horror espreita o jogador em todos os lugares, e o combate nem sempre é o melhor caminho. Agir furtivamente ou fugir desesperadamente podem ser as melhores soluções, dependendo da situação, e eu chego a dizer que o confronto direto nunca é apropriado. Acontece que temos aqui um jogo extremamente difícil, mesmo se jogarmos no modo “fácil”, com uma inteligência artificial inimiga extremamente desenvolvida e desafios que exigem bastante atenção e rapidez.

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Isto sem falar na escassez de munição, problema que acaba por tirar um pouco da dinamicidade do jogo. Temos uma quantidade verdadeiramente incrível de armas à disposição, mas é muito difícil mantê-las sempre municiadas, fator este que acaba limitando bastante seu uso, obviamente, exceto pelo canhão Gloo.

O canhão Gloo, é importante explicar, é uma arma capaz de disparar uma espécie de espuma que se solidifica bastante rapidamente, a qual é capaz não apenas de paralisar inimigos temporariamente como também de criar verdadeiras plataformas nas quais podemos subir e alcançar locais antes inatingíveis.

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O canhão Gloo, aliás, talvez seja a arma mais utilizada em Prey, uma vez que munição para ele é mais facilmente encontrada e também devido ao fato da paralisia temporária que ele causa, a qual acaba abrindo brechas para outras abordagens (facilitando, assim, a nossa vida): podemos paralisar os inimigos, por exemplo, e então atacá-los com nossa chave inglesa (a primeira arma com a qual temos contato no jogo).

Agir furtivamente é a melhor saída, quase sempre, uma vez que os Typhon (salvo raras exceções) são extremamente resistentes e agressivos, capazes de darem cabo de nosso pobre e perdido personagem bastante rapidamente.

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É uma pena, entretanto, que mecânicas que possibilitem abordagens stealth sejam quase que inexistentes: o máximo que podemos fazer é nos agachar e caminhar entre objetos diversos, tomando sempre cuidado com uma barra que indica o quanto fomos percebidos pelos inimigos.

Isto nem sempre funciona 100%, entretanto: não foram raras as vezes em que eu estava totalmente escondido e mesmo assim fui detectado, o que sempre acabava transformando radicalmente a experiência, no momento, e fazendo com que tudo descambasse para a correria desenfreada.

Prey também conta com uma árvore de habilidades que podem ser desbloqueadas com o uso dos Neuromods que vamos encontrando ao longo do gameplay. Trata-se de elementos criados à partir das experiências com os Typhon e que permitem a alteração da estrutura cerebral dos usuários, fazendo com que eles aprendam novas habilidades e, assim, ganhem inúmeras vantagens durante o combate e a exploração.

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As habilidades humanas passíveis de aquisição estão divididas em três categorias: “cientista”, “engenheiro” e “segurança”, e também existem habilidades alienígenas que podem ser adquiridas, distribuídas através das categorias “energia”, “transformação” e “telepatia”.

Existem grandes vantagens no desbloqueio e no uso de habilidades Typhon, mas vale a pena ressaltar que neste caso, torretas e robôs antes amigáveis de Talos I passam a enxergar o protagonista como um alienígena, passando então a agir contra ele, de maneira hostil. Vai do jogador optar pela abordagem e estratégia de sua preferência, utilizando ou não neuromods alienígenas, dependendo de suas preferências e do quão preocupado ele está em relação à dificuldade do jogo.

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Grande parte da história do game é contada através de bilhetes, anotações, cartas e emails disponíveis em terminais espalhados por Talos I. Também existem inúmeros áudios que podemos coletar ao longo do gameplay, os quais contam bastante a respeito do que aconteceu ali, a respeito do que houve com as pessoas e com a própria estação em si, e também a respeito das experiências e problemas com os alienígenas.

January e o irmão mais velho do protagonista, Alex Yu (via rádio), também fornecem informações importantes e interessantíssimas a respeito de todos os acontecimentos, e ao caminharmos pelos corredores desertos e perigosos da estação podemos até mesmo nos deparar com locais que outrora foram palco de acontecimentos nefastos.

Prey é um jogo que conta com um backtracking enorme, entretanto. Com bastante frequência temos de retornar a áreas já visitadas em busca de cartões ou códigos de acesso. Com muita frequência, também, passamos pelo enorme lobby da estação no meio de jornadas tendo como objetivo o acesso a diferentes áreas da mesma. É interessante também ressaltar que o design da estação é extremamente inteligente: temos uma área central que funciona como uma espécie de ponto de acesso à todas as demais áreas, e é realmente difícil nos perdermos, principalmente se utilizarmos com atenção o ótimo sistema de mapas fornecido pelo jogo.

É apenas complicado lidar com o backtracking e com as constantes necessidades de retornos a áreas já visitadas, principalmente porque tais áreas podem sempre contar com presença Typhon, independentemente de quantas vezes já as tenhamos visitado. Estas idas e vindas, além disso, acabam gerando um certo cansaço no jogador, principalmente quando este tem de lidar com ameaças diversas e não conta com munição suficiente.

Prey

Outro grande problema de Prey, além disso, está ligado ao fato de que passamos quase que todo o tempo utilizando única e exclusivamente o canhão Gloo como arma, tentando então dar cabo das ameaças desesperadamente com nossa chave inglesa (pelo menos no que diz respeito aos inimigos mais fracos).

Isto até que funciona bem no caso dos pequenos mímicos (os Typhon que se transformam em objetos diversos), mas no caso de ameaças maiores, como Pesadelos ou Fantasmas, por exemplo, esta estratégia quase sempre é um tanto quanto mais complicada, e os momentos de diversão podem bem rapidamente, então, descambar para o desespero completo.

Obs: outro problema um tanto quanto chato no jogo são as telas de loading – demoradíssimas. Isto pelo menos na plataforma na qual testei o game (PC).

Vale até mesmo ressaltar que a quantidade de armas é bem grande, incluindo aquelas mais tradicionais (além do canhão Gloo), como por exemplo pistolas e escopetas, e armas mais futuristas, passando também por granadas de diversos tipos, cada uma delas eficaz contra determinado tipo de ameaça. É frustrante, portanto, o fato como somos limitados pelo próprio jogo no momento de utilizar todo este arsenal muito mais do que bacana.

Existem também momentos em gravidade zero, os quais são espetaculares. Momentos em que abandonamos a “segurança” de Talos I e podemos perambular pelo espaço, sempre em busca de acesso mais fácil a outras áreas da enorme estação. Estamos sempre devidamente preparados para tais momentos, devido a nosso traje especial, o qual é envergado durante todo o jogo. No espaço, aliás, também encontramos inimigos, vez ou outra, incluindo pequenas colônias Typhon que são bastante vulneráveis à espuma do canhão Gloo.

Mas a experiência proporcionada pelo título da Arkane Studios é no geral bastante divertida, guardadas as devidas ressalvas em relação aos problemas acima mencionados, valendo também a pena lembrar que a dificuldade extrema do jogo pode afugentar alguns jogadores.

Prey

Temos um enredo interessantíssimo e com algumas reviravoltas, temos também uma ambientação soberba, à bordo de uma estação espacial que convida à exploração, e temos criaturas enigmáticas e dotadas de poderes especiais, alguns deles inclusive ligados à telepatia.

Os diários e gravações que encontramos à bordo de Talos I também agregam bastante, e de maneira extremamente positiva, à experiência como um todo, e no final de tudo podemos dizer que a experiência compensa bastante.

Prey é um jogo e tanto, uma experiência capaz de deixar os jogadores amantes de um bom FPS futurista e com doses de horror bastante empolgados. Finalizando, vale também a pena dizer que seus gráficos são bastante competentes, com alguns momentos verdadeiramente incríveis (o jogo faz uso da CryEngine, da Crytek). Eis aí mais um belo trabalho da Arkane Studios.

Ficha técnica

Título: Prey

Gênero: FPS, ação, horror, espacial

Desenvolvedora: Arkane Studios

Publisher: Bethesda Softworks

Data de lançamento: 04 de Maio de 2017

Plataformas: PC, PlayStation 4, Xbox One

Versão analisada: PC

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