Confesso que há tempos sinto vontade de escrever este artigo, e o ótimo artigo escrito ontem pelo C. Aquino, do Retina Desgastada, meio que me motivou. Fui também motivado pelos recentes acontecimentos envolvendo a EA, o Steam, a Valve, etc. Há algum tempo, já, somos desrespeitados pela “grande indústria de games”. Pelas grandes desenvolvedoras e publishers, que colocam o dinheiro acima de tudo e não possuem a mínima preocupação em pelo menos esconder suas ações escandalosas. Como parte desta triste saga, assistimos à remoção de Crysis 2 do Steam e à EA dizendo logo em seguida que a Valve é a culpada. Estranhamente, até o momento, a Valve não se pronunciou, e algo que o leitor Ivan Carlos disse em um comentário aqui mesmo no XboxPlus, a respeito da maneira de aquisição de DLC’s em Crysis 2, a respeito do fato destas transações serem feitas totalmente dentro do jogo,  pode nos dar uma luz a respeito da remoção.

Aliás, o Ivan escreveu um artigo interessantíssimo em seu blog, o Gamepad, o qual tem a ver com este meu artigo, também. O fato é que sinto medo. Recentemente, percebemos que até mesmo uma franquia consagrada e profunda como Mass Effect corre riscos. Nem mesmo jogos imersivos e dotados de um intenso e profundo enredo talvez sejam poupados da ganância das distribuidoras. Durante a E3 2011 vimos o Shepard “sofrer” com comandos de voz via Kinect em Mass Effect 3, o que nada acrescenta ao jogo em si. E, pior: a publisher de Mass Effect é justamente a EA. Será também a série Mass Effect exaurida pela “Síndrome de EA” que o Gamepad mencionou? É triste sequer pensar nisto.

Aliás, o que foi a E3 2011? Wii U e seu “controle-iPad”? Microsoft tentando “empurrar” o Kinect a todo mundo, como se ele fosse a última maravilha do mundo e como se o simples fato de comandar o chefão da Normandy com sua voz fosse algo maravilhoso? Em minha opinião, a Microsoft e a Nintendo não mostraram nada demais na feira. Já quanto à Sony, não acompanhei muito a seu respeito durante a E3, então prefiro não comentar. Muita coisa bacana aconteceu, entretanto, fora da área de atuação destas 3 gigantes. Muita coisa que, talvez, tenha passado despercebida por grande parte do público.

O quase triste mundo dos games

Crysis 2, Crytek, Steam, Valve, EA, Origin, etc: todos “protagonistas” de um triste conto que acaba envolvendo pessoas que, na maioria das vezes, nada mais querem do que comprar seus jogos e serem tratadas como clientes valiosos, e não como simples números em uma base de dados, números estes que posteriormente serão processados e utilizados em estatísticas, sendo mais tarde transformados em lucros absurdos.

Até é possível sentir saudades dos tempos em que jogávamos videogame “desconectados”. Singleplayer total. Nada de Xbox Live, PSN, jogos online, etc. O gamer comprava ou alugava seu jogo, ía para casa e “se matava” até finalizar o título em questão. Nada mais. Produtoras, distribuidoras, etc, se esforçavam para oferecer títulos de qualidade, com conteúdo riquíssimo, e a indústria era movida pela criatividade e pela vontade de fazer um bom trabalho para vender mais, é claro, e não pelas monstruosidades que determinadas gigantes hoje em dia promovem.

O tal do Call of Duty Elite é um absurdo. Quer dizer, o jogador paga pelo jogo, paga a assinatura da Xbox Live ou da PSN, dependendo do caso, e ainda tem de pagar mais alguns trocados caso deseje fazer parte da “turminha legal” no multiplayer? O pior de tudo é que 2 milhões de jogadores já se inscreveram para o beta do serviço. A Activision diz que tudo permanecerá igual para quem não “aderir ao clube”, mas sabemos que com o decorrer do tempo os assinantes do Elite terão mais vantagens, além das iniciais, e até mesmo poderão criar um certo sentimento de desprezo por quem não é “da elite”. O próprio nome do novo serviço é infeliz, pois de certa forma cria uma distinção entre jogadores assinantes e não assinantes que poderá, muitas vezes, acabar em brigas e insultos. O próprio nome em si ajuda a reforçar o caráter nefasto do novo serviço criado pela detentora dos direitos autorais da franquia Call of Duty, pois quem não for da elite pertencerá a qual grupo? À ralé?

Se você quer continuar a jogar Call of Duty como sempre fez, você ainda será capaz de fazer justamente isso, incluindo a possibilidade de comprar pacotes de mapas ‘ala carte’. Com o Call of Duty Elite, estamos adicionando uma nova opção para aqueles que querem obter ainda mais do game. Mesmo os ‘haters’ podem jogar de graça“, diz a Activision. E foi assim mesmo que eles divulgaram o press release relativo ao Call of Duty Elite. “Even haters can play for free“. Em negrito. Haters. Hate. Ódio. Rancor. Aversão. Um serviço que incita à discórdia já em seu anúncio.

Desrespeito total. Logo de cara afirmam nas entrelinhas que aqueles que não optarem pelo serviço receberão uma esmola. Serão capazes de “jogar de graça algo pelo qual pagaram”. Que insanidade. Quer dizer: o jogador compra o jogo e “pode jogar de graça”. Onde a Activision está com a cabeça? Pensando no meu ou no seu bolso é que não estão pensando, é claro. Já não é de hoje que a empresa de Bobby Kotick é conhecida por sua ganância. Mas agora eles foram longe demais.

O Elite poderá ser um sistema pago dentro de outro sistema pago. Um sistema independente que, quem sabe, será até mesmo capaz de provocar problemas com algumas redes e plataformas. Não no tocante à parte tecnológica, mas no tocante às questões financeiras e contratuais, pois todos sabemos que diversão é uma coisa, e negócios são algo totalmente à parte. Não foi isso que supostamente aconteceu entre EA, Crytek, Valve e Steam? O Elite permitirá que os assinantes, por exemplo, acessem informações à partir de dispositivos iOS e Android, acessem “milhares” de estatísticas, criem leaderboards personalizadas, obtenham informações a respeito de qual armamento é melhor em cada situação, etc, além de uma série de recursos sociais.

Mas eu me pergunto se tudo isto não poderia ser oferecido de graça, como um extra. Um bônus àquele jogador que todos os anos compra lá o seu Call of Duty. Àquele jogador que todos os anos ajuda a publisher a comprar as toneladas de toner necessárias para suas copiadoras. Àquele jogador que todos os anos, independentemente de qualquer coisa, compra o jogo e se mantém fiel à franquia. Pelo que vi até agora, nada inovador será oferecido pelo Elite, e tudo já está meio que quase pronto e/ou necessita de pequenos ajustes que, com certeza, uma empresa do porte da Activision não demoraria muito tempo para realizar.

O que me vem à mente quando ouço falar deste triste serviço é a imagem de milhões de jogadores lobotomizados. Milhões de gamers que, infelizmente, pegos nas garras do marketing ganancioso de uma publisher que visa lucros acima de tudo, acabam nem se dando conta de que estão jogando dinheiro fora. Aliás, a própria empresa diz que tudo continuará igual.  Então, para que pagar a mais? Para que cobrar mais uma taxa?

A Activision tem o seu Elite, e a EA, com o Origin, meio que tentou iniciar uma guerra entre distribuidores digitais, e um artigo de hoje do site Gamesindustry menciona que “as intenções da EA são claras – ela quer fragmentar o mercado de downloads para PC e cortar um pedaço da dominação da Valve. Mas o que a EA parece não entender é que a Valve é desenvolvedora, distribuidora e loja, enquanto a Electronic Arts não é isso tudo. A Valve lançou o Steam há quase 10 anos atrás, e possui know-how mais do que suficiente para inovar e melhorar quando bem entender. E ela o faz constantemente.

O Origin vende apenas títulos da própria EA, e seu catálogo, assim sendo, é minúsculo, perto do catálogo do Steam e até mesmo de diversos outros sites de distribuição digital de games. Não estou aqui defendendo o Steam, a Valve, nem tampouco a EA, o Origin ou a Activision. Estou expressando meu medo de que tudo isto leve a uma situação insustentável, e que o mercado de jogos para PC sofra ainda mais, como se já não bastassem os DRM’s e outros absurdos que tanto nos afligem.

O blog Retina Desgastada mencionou um artigo muito interessante do site cracked.com , chamado “The 6 most ominous trends in video games”, ou “As 6 tendências mais ameaçadoras nos video games”. Nele, o colunista David Wong menciona realmente diversas coisas amedrontadoras, e que fazem todo o sentido do mundo. Falando rapidamente de alguns trechos, Wong menciona um futuro onde todos os jogos deverão ser ligados a uma conta online, com o respectivo e prévio (além de obrigatório) login, mesmo para partidas singleplayer. A Ubisoft tem muito a dizer a este respeito, aliás.

…ao invés de criar jogos que explorem novos mundos e experiências, o design se transforma totalmente em vício e repetição. Games que fazem o jogador trabalhar árdua e infinitamente com o propósito de ganhar itens que só podem ser utilizados para uma coisa: trabalho árduo para mais itens. Para sempre“, diz Wong.

O fantástico artigo do Wong ainda menciona algo que me deixa preocupado. Talvez estejamos à beira da falência criativa. Ele inclusive cita Modern Warfare 3 (cenas que foram mostradas durante a E3 2011) e Crysis 2. Em ambos os títulos, tudo começa com ação sob as águas, o jogador nadando até a superfície e encontrando Nova Iorque sob ataque, barcos queimando e a Estátua da Liberdade. É claro que Crysis 2 é um ótimo jogo, mas a tal “falência criativa” agora não me sai da cabeça.

Ultimamente o “nicho” de onde tem surgido grande parte da inovação no campo dos games é o dos indie games. O dos jogos desenvolvidos por pequenas empresas, ou muitas vezes por pequenas equipes ou uma única pessoa. Jogos sem uma grande publisher por trás, onde os desenvolvedores injetam dinheiro do próprio bolso nos projetos e trabalham árduamente, sem saberem ao certo se obterão pelo menos o retorno daquilo que investiram.

Não é difícil também tomarmos conhecimento de alguns desenvolvedores antes independentes que assinaram acordos com pequenas ou médias distribuidoras, e isto prova também a qualidade de muitos trabalhos independentes. Se isto será bom ou ruim para os mesmos, só o tempo dirá. O que quero dizer com este artigo é que, talvez, tenha chegado o momento em que tenhamos de ser mais seletivos. Não defendo nem apoio a Valve, o Steam, a Activision, a EA, o Origin, etc. Sou um consumidor e procuro aquilo que é melhor para mim.

Vou comprar Modern Warfare 3 em algum momento. A mesma coisa para Battlefield 3. Já comprei Alice: Madness Returns, e no Origin, pois foi onde encontrei mais vantagens. Não deixo de aproveitar uma oferta só porque ela é vendida no site X ou Y. Não sou melhor ou pior que ninguém, e muitas vezes também compro por compulsão. Tenho diversos jogos, muitos mesmo, que sequer cheguei a instalar. Comprei apenas para aproveitar uma promoção. Claro, procuro me resguardar o máximo possível no tocante à segurança de meus dados e à continuidade daquilo pelo qual paguei. Não estou dizendo que devemos deixar de comprar games.

Entretanto, se algo é nocivo, este algo deve ser boicotado, com certeza. Este algo deve ser combatido. Se determinada empresa o trata mal e/ou não trabalha de acordo com o que foi prometido, você deve procurar os seus direitos. Se todos os anos determinadas franquias de jogos repetem a mesma fórmula, somente trocando o rótulo do vidro, os jogadores devem reclamar e encher os fóruns da desenvolvedora e da publisher com pedidos de melhorias. Temos diversos exemplos, também, de empresas que tratam os jogadores com atenção e carinho.

A própria BioWare, pelo menos por enquanto, não me desapontou, e os DLC’s lançados para Mass Effect 2 são um verdadeiro primor. E ainda me referindo ao que disse no parágrafo acima, vou comprar Modern Warfare 3 mesmo sabendo que ele, talvez, repita velhas fórmulas, mecânicas, clichês, etc. No meu caso, aliás, dependendo da situação, é até mais complicado, pois frequentemente tenho de escrever reviews de jogos, e nem sempre os consigo de graça, junto à publisher ou à desenvolvedora.

Voltando ao assunto, na pior das hipóteses, não comprar, mesmo que por um certo tempo, apenas, é até uma solução em que se pode pensar, dependendo do caso. O grande problema é o apelo que muitos jogos possuem, e não será diferente este ano, com Modern Warfare 3, Battlefield 3, etc. Torço para que chegue o dia em que não tenhamos medo de desinstalar temporariamente um jogo para liberar espaço devido aos problemas que podem surgir na próxima ativação. Torço para que chegue o dia em que a concorrência seja sadia, e todas as lojas, digitais ou não, não inventem ou provoquem guerras entre si e/ou com distribuidoras e desenvolvedoras.

O futuro pode até parecer negro, mas como dizem, depois da tempestade sempre vem a calmaria. Que ela chegue logo e que nosso passatempo preferido não sofra muito, assim como nós enquanto gamers. E, findo o desabafo, voltemos à vida normal. Qual o próximo trailer? 🙂

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