Talvez o primeiro jogo que venha à nossa mente quando falamos em “god games” seja Populous, da Bullfrog, lançado em 1989. O título marcou época, colocando o jogador no papel de um verdadeiro deus e deixando o destino de uma civilização inteira à sua mercê. Já The Universim, lançado no Steam Early Access em 28 de Agosto de 2018, é também um “god game”, sendo o primeiro título da Crytivo Games, e possui uma proposta bastante ambiciosa.

Ele também coloca o jogador no papel de um deus, o qual deve guiar o destino de uma civilização. Tudo começou através de uma campanha de financiamento coletivo bem sucedida no Kickstarter, em 2014, e de lá para cá o jogo evoluiu bastante.

The Universim

Ainda não temos em mãos a possibilidade de sermos deuses onipotentes em um universo inteiro: podemos, por enquanto, cuidar de um único planeta, no qual vivem nossas pequenas criaturas, os Nuggets. Tudo começa à partir do pressionar de um botão, o qual dá início a uma espécie de big bang, com a subsequente criação de um universo inteiro que poderá ser explorado (e colonizado) talvez no futuro. Por enquanto temos nos contentar com nosso pequeno planeta.

Tais planetas, vale lembrar, são sempre gerados de forma aleatória. Não existirá um planeta igual a outro caso você inicie um novo jogo, e cada um deles pode ser mais ou menos adequado à colonização, contendo mais ou menos recursos naturais, fauna e flora distintas, configurações de terreno diferentes, etc. Alguns poderão ser realmente locais de difícil adaptação, enquanto outros poderão ser verdadeiros paraísos. Tudo depende da inteligência artificial do jogo.

The Universim

Você começa o jogo com um casal de Nuggets, os quais então devem iniciar a colonização do planeta. Como Adão e Eva no cristianismo, tais criaturas são os pais de uma futura civilização que poderá se dar bem ou mal, dependendo de suas ações e também da influência de seu criador: você.

Bebês vêm ao mundo da maneira natural, mesmo: Nuggets fazem sexo, e os bebês, estranhamente, nascem logo após terminado o ato. The Universim promete colocar o jogador em contato com um universo inteiro, com diversos planetas prontos para serem explorados, com Nuggets atingindo níveis de tecnologia suficientes para que possam explorar o espaço e, assim, colonizá-los. Mas não por enquanto. Não agora.

O jogador, no papel de um deus nada onipotente, funciona mais como um guia. Você pode influenciar seus Nuggets de diversas maneiras diferentes, fazendo com que eles se apaixonem e deem início a uma família (resultando no nascimento de bebês), curando-os diretamente quando estão doentes ou machucados (o que aumenta a fé deles em você), dando-lhes um sopro de felicidade quando eles estão desanimados, ou até mesmo lançando sobre eles alguns tipos de desastres naturais que funcionam como punição, como furacões, por exemplo.

The Universim

Mas você não tem o controle direto sobre eles. Cada um destes pequenos personagens possui personalidade e características próprias, agindo por conta própria grande parte do tempo e, muitas vezes, atuando de forma desleixada em meio ao ambiente que os tolera. Você perceberá que eles começarão a desmatar, que eles começarão a andar para lá e para cá formando famílias e fazendo sexo, e que eles também começarão a “rezar” para você, muitas vezes reclamando, sendo que tais reclamações podem também serem as mais mundanas possíveis.

Eles também possuem características próprias que estão diretamente ligadas a traços de suas respectivas famílias, ao DNA, mesmo. Assim, alguns serão mais preguiçosos, enquanto outros serão mais propensos ao trabalho árduo. Alguns deles serão mais propensos à tristeza, enquanto outros poderão se tornar mais resilientes frente às dificuldades do mundo onde vivem (tudo isto pode ser consultado em painéis extremamente informativos a respeito de cada uma das criaturas). Alguns serão mais fortes, enquanto outros serão mais fracos, embora tudo isto possa ser melhorado e/ou ajustado através da enorme árvore científica presente no jogo (mais abaixo).

The Universim

The Universim conta com um ecossistema realmente vivo e vibrante, e suas ações, bem como a de seus Nuggets, afetarão a maneira como o planeta como um todo irá evoluir e reagir. Desmate florestas descuidadamente e pode ser que todos sejam “agraciados” com um grande aquecimento global. Acabe com florestas ao redor de suas cidades sem pensar nas consequências e você poderá estar também eliminando o habitat natural de diversas espécies de animais selvagens que aí vivem, as quais poderão então passar a representar perigo, atacando suas pobres criaturas.

The Universim

O mesmo vale para a extração de recursos como ferro e rocha, por exemplo, mas aí entra também em cena uma grande questão: devemos deixar o mundo à nossa volta incólume, atrasando assim o nosso progresso, ou devemos fazer o máximo para evoluir colocando nossa própria segurança (e a de nossa civilização) em risco? Este talvez seja um debate pertinente até mesmo ao nosso querido mundo real.

É um tanto quanto triste, por falar nisso, que não existam ferramentas para terraformação em The Universim: eu adoraria erguer alguns montes e criar alguns vales, além de posicionar lagos próximos a meus Nuggets em momentos de necessidade. Mas tudo bem, é assim que o jogo foi planejado, e creio que isto não mudará. Temos em mãos planetas prontos, gerados de maneira aleatória, com características bem distintas um do outro conforme iniciamos novos jogos.

The Universim

The Universim me lembrou um pouco de Reus, também, devido à maneira como o planeta nos é apresentado e também à forma como com ele interagimos. Podemos aproximar a câmera a níveis próximos do solo, vale ressaltar, mas também podemos observar o planeta à partir do espaço. Com níveis diferentes e variados de zoom, somos capazes de ter uma ideia bastante precisa a respeito do tamanho de nossa civilização.

The Universim

O título da Crytivo conta com ciclos completos de dia e noite, e também somos surpreendidos com variações climáticas bastante convincentes. As quatro estações do ano marcam presença fortíssima, o que impacta diretamente a saúde, a moral e o dia a dia de nossas criaturas. É assim que, no inverno, podemos nos ver em meio a quantidades escassas de água e comida (a água armazenada nos reservatórios congela), enquanto no verão intenso podemos perceber que a água estocada começa a evaporar rapidamente. Este é o momento, então, de acionarmos nossos poderes e darmos aquela ajudinha através de uma chuvinha muitíssimo bem vinda.

The Universim, na verdade, está muito mais para um jogo de construção e gerenciamento de cidades, pelo menos em seu estado atual, do que para um “god game”. Temos poderes divinos à nossa disposição. Podemos fazer com que árvores e rochas levitem até o local onde estão sendo construídas obras as mais diversas, podemos fazer com que uma chuva abundante caia durante verões causticantes, podemos também curar doentes diretamente (o mesmo poder também serve para consertar construções que estão quase indo à bancarrota), e podemos até mesmo lançar sobre nossos próprios Nuggets desobedientes alguns desastres naturais, como tornados, por exemplo.

The Universim

Existe uma árvore tecnológica gigantesca, aliás, através da qual desbloqueamos melhorias e tecnologias diversas que certamente melhorarão a vida de nossos Nuggets. No entanto, o jogo permite que avancemos apenas da idade da pedra para a era medieval, e é bastante estranho perceber que podemos destravar tecnologias modernas como eletricidade, baterias, torres de previsão meteorológica, etc, ainda na idade da pedra. Isto representa um certo contraponto à proposta do jogo, a qual é nos deixar avançar paulatinamente através das eras. De qualquer forma, funcionamos mais como construtores e influenciadores do que qualquer outra coisa. Infelizmente, e pelo menos por enquanto, assim espero.

E por falar nisso, vale ressaltar nossa impotência para deter desastres naturais como tornados, por exemplo. De tempos em tempos eles atingirão nossa civilização, destruindo tudo o que encontrarem em seu caminho, incluindo nossos Nuggets. É um fato que podemos construir abrigos subterrâneos para que as pessoas aí se abriguem durante tais acontecimentos, mas os estragos na superfície podem atingir níveis alarmantes. É estranho, também, que nós, no papel de deuses, não possamos decidir quando e como tais desastres acontecerão. Somos, em tais momentos, apenas meros espectadores, e tudo o que podemos fazer é soar um alarme para que todos busquem abrigo.

The Universim

Além disso, o jogo nos coloca em contato muito direto com tarefas não lá muito pertinentes a um deus, como por exemplo a construção de usinas, instalações de beneficiamento de madeira e rocha, cemitérios, hospitais, escolas, arquivos, cabanas de caça, torres de vigia, etc. Nossos Nuggets são incapazes de construir tais instalações por conta própria (a não ser suas próprias casas), e aí, nos tornamos então parte da mesma civilização que nos adora, interagindo com eles de maneira extremamente direta e próxima.

O jogo possui um começo lento, também. As coisas demoram para engrenar: você atingirá um número razoável de Nuggets apenas após algumas horas de gameplay, e a menos que tenha criado um edifício para a formação de engenheiros, terá de lidar pessoalmente com o reparo de diversas instalações, como os hospitais e os cemitérios, por exemplo (casas são reconstruídas automaticamente pelos seus respectivos proprietários, como mencionei acima).

O jogo brilha, no entanto, durante as variações climáticas. Podemos sentir o outono se aproximando conforme as folhas vão caindo e o vento vai se tornando mais forte. Podemos observar a neve cair e a água de lagos congelar durante o inverno, e podemos também acompanhar como os mesmos lagos secam durante os duros verões, impedindo a pesca por parte de nossas sofridas criaturas (e, sim, você é quem deve construir a cabana de pesca rente aos lagos).

The Universim

Quando os tornados aparecem, o chão chega a tremer. Tudo fica assustadoramente escuro, e o cone pode ser observado nitidamente, cada vez mais perto, cada vez mais assustador. O alarme que você, como o deus protetor, faz soar, tem também a ver com a torre de previsão meteorológica (sem ela é impossível avisar aos cidadãos), e terminada a catástrofe tudo o que resta é reconstruir o que sobrou.

Antes de me dar conta da importância da torre meteorológica, fui assaltado algumas vezes por tornados inclementes que levaram embora vários de meus Nuggets. Tudo bem, observá-los fazendo amor, depois, com objetivo de trazer mais bebês ao mundo, é bastante engraçado, temos de convir. Mas veja bem: você não vê o ato em si. Tudo o que é exibido é uma cabana se movimentando, o barulho de uma cama rangendo freneticamente e pequenos corações sendo lançados ao ar. É bastante simpático.

O jogo também conta com boas doses de humor, e ela está presente nestes “momentos sexuais” e também quando o narrador entra em ação, com piadinhas em relação à sua atuação como um deus e outras coisas. É uma pena, porém, que durante tais momentos não contemos com nenhum tipo de legenda, e é uma pena também que a interface de usuário, apesar de lindíssima, seja algumas vezes um tanto quanto desprovida de detalhes e rótulos, além de informações importantes.

Durante grande parte do jogo, você deverá se virar por sua conta e risco. O tutorial não cobre quase nada, itens da interface são um verdadeiro mistério no início (você descobre pouco a pouco para que servem e o que eles são), e os tais creator points acabam se transformando em um verdadeiro empecilho para que possamos utilizar nosso verdadeiro potencial como deuses.

The Universim

Isto porque cada ação divina requer o uso de determinada quantidade destes pontos, os quais são ganhos conforme mais Nuggets se tornam crentes, conforme mais deles passam a acreditar em você. Isto acontece conforme você interage com a civilização deles, conforme você atua entre eles, conforme você os beneficia, e até mesmo conforme você os ajuda durante as construções, trazendo madeira e rocha através de telecinese.

Mas é certamente questionável a existência de tais pontos do criador quando você deveria ser onipotente em um mundo e em um universo criados por você. Eles também acabam por ser um tanto quanto impeditivos, e isto é mais sentido em pequenas civilizações, onde o número de crentes pode ser bem menor.

Os gráficos de The Universim são lindíssimos, vale ressaltar. Observar seu planeta e todo o ecossistema é uma experiência e tanto, e você poderá perder bastante tempo apenas perambulando pelo mesmo, enquanto aguarda que mais Nuggets nasçam (acredite, este é um processo bastante demorado). O jogo conta com tradução para o português do Brasil, além disso, apesar de diversas falhas e momentos em que o inglês toma conta (e esqueça das legendas).

Sua curva de aprendizado também é bem longa, além disso, e parte disso se deve a falhas na UI, a qual deixa o jogador “a ver navios” com sistemas e mecânicas não lá muito bem explicados (alguns dos botões não possuem nem mesmo rótulos que digam para que eles servem).

Com o tempo, e conforme sua civilização evolui, você percebe que a temperatura global começa a subir cada vez mais. Você pode lançar uma chuvinha de vez em quando, é claro, mas mesmo assim o problema não é totalmente solucionado: ele é apenas amenizado. Somos também capazes de localizar qualquer criatura de nossa civilização, mas não temos em mãos nenhuma ferramenta que nos permita ir diretamente a determinada construção. Isto é um tanto quanto problemático, pois caso uma mina, por exemplo, esteja prestes a desmoronar e os engenheiros não estejam dando conta da manutenção, nosso trabalho fica bastante complicado, principalmente se nossa civilização já tiver atingido um tamanho considerável (é como tentar achar uma agulha no palheiro).

The Universim

The Universim por enquanto ainda não nos disponibiliza ferramentas para “dominarmos” o universo inteiro, mas mesmo assim ele é bastante charmoso e interessante, apesar de suas falhas. Falhas estas, é importante ressaltar, totalmente naturais, pois trata-se de um produto ainda em Early Access (Acesso Antecipado).

Muita coisa mudará, acredito que seremos capazes de perambular pelo universo e colonizar outros planetas, e também creio que os Nuggets serão realmente capazes de evoluir além da era medieval e chegar aos tempos modernos, criando meios para inclusive colonizar outros mundos.

A desenvolvedora vem lançando patches atrás de patches, e ontem mesmo foi disponibilizado um deles, o qual corrigiu diversos bugs e trouxe inúmeras melhorias. O título da Crytivo tem um futuro bastante promissor pela frente, e eu mal posso esperar pelo produto acabado. Retornarei a ele com certeza.

O jogo pode ser adquirido na loja da Valve, por R$ 56,00.

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