Ultimamente tenho jogado alguns games cuja história é contada sem palavras. Títulos bastante inusitados, até, contando com protagonistas mudos, sem cinemáticas, sem HUDs ou qualquer outro elemento visual que atrapalhe a imersão, sem legendas, sem tutoriais. Títulos como FAR: Lone Sails e Planet Alpha, por exemplo. E Downward Spiral: Horus Station, jogo da desenvolvedora finlandesa 3rd Eye Studios, é mais um jogo assim, sem uma história contada, porém com uma história que deve ser descoberta pelo jogador, até mesmo de acordo com a própria empresa por ele responsável.

O protagonista sem nome desperta em uma estação espacial chamada Horus, e bastam alguns poucos minutos para que o jogador perceba que algo errado aconteceu ali. A estação encontra-se em colapso, e avisos a respeito de níveis alarmantes de poluição na Terra são também exibidos em monitores espalhados pelos quatro cantos da mesma. Aparentemente, o protagonista é o único sobrevivente à bordo da Horus Station, e deverá fazer de tudo para resolver quebra-cabeças, energizar e ativar máquinas e equipamentos diversos que pararam de funcionar, e também lidar com ameaças na forma de drones e robôs de diversos tipos.

Downward Spiral: Horus Station

Vale destacar que a proposta do jogo é deixar que o jogador descubra o que aconteceu através da observação, através da leitura dos sinais espalhados pela gigantesca estação, através da interpretação com base naquilo que ele vivencia. Não existe, em Downward Spiral: Horus Station, nenhum tipo de HUD. Nada existe em tela que atrapalhe a imersão do jogador, e tudo isto é imensamente reforçado pelos efeitos sonoros e também pela trilha sonora eletrônica ambiental, a qual é realmente sensacional, composta por Ville Valo, vocalista da banda finlandesa HIM. Tal trilha sonora, aliás, em diversos momentos me lembrou do álbum “Mask”, do Vangelis.

Bem, o jogo gira em torno de um princípio básico: abrir caminho à qualquer custo, de maneira tal que o personagem principal consiga prosseguir/progredir. Isto se dá através da abertura de fechaduras, da resolução de puzzles, da inserção de baterias em máquinas e computadores que voltam então a funcionar, da destruição de robôs e drones de diversos tipos, ou até mesmo de breves porém sensacionais investidas através do espaço, fora da estação.

Downward Spiral: Horus Station

Vale lembrar que dois tipos de experiência estão à nossa disposição: uma experiência bem mais amena, sem ameaça alguma, para que possamos apenas curtir a narrativa, ou então a experiência completa, com todas as ameaças à bordo da estação Hórus (modo que joguei).

O título da 3rd Eye Studios, além disso, conta com suporte a diversos dispositivos de realidade virtual, como por exemplo HTC Vive, Oculus Rift e mais adiante (no próximo dia 18 de Setembro) ao PlayStation VR. Deve ser uma experiência e tanto jogá-lo desta maneira, com muito mais imersão, com a possibilidade de interagirmos com os diversos mecanismos da estação através de RV.

Bem, voltando ao jogo, o protagonista consegue coletar, ao longo do gameplay, uma série de equipamentos e armas, os quais são extremamente valiosos. Dois deles, aliás, são essenciais: eles auxiliam na movimentação do personagem. Isto porque os geradores de gravidade artificial da estação foram desligados, e estamos, portanto, em gravidade zero. Flutuando.

Downward Spiral: Horus Station

A movimentação pode acontecer de três maneiras diferentes: podemos nos agarrar a paredes e objetos e então nos impulsionarmos na direção em que desejamos ir (algo um tanto quanto complicado) e podemos utilizar dois dispositivos coletados logo no início do jogo. Um deles lança uma espécie de cabo com uma espécie de ventosa em sua ponta, o qual se agarra a objetos e paredes e nos puxa, e o outro lança para trás um jato de ar, nos impulsionando de forma semelhante, se bem que mais lenta (este último é essencial nos breves momentos em que estamos largados no espaço sideral).

Downward Spiral: Horus Station

Downward Spiral: Horus Station coloca o jogador em contato com diversas pistas a respeito do que aconteceu com a estação Hórus, porém, nada é forçado, nada é empurrado goela abaixo. As poucas informações escritas que recebemos se originam em monitores espalhados pelos ambientes, e mesmo assim, elas não são lá muito explicativas, dizendo respeito mais à situação atual (necessidade de ativar determinada área da estação, necessidade de interligar algumas seções, etc) do que qualquer outra coisa.

Toda a narrativa do jogo está escondida em meio a sugestivas pistas. Somos expostos a drones violentos que entram em atividade, a uma necessidade premente de colocar a estação em ordem e reativar sua inteligência artificial, e também a indícios de que mortes ocorreram (vislumbramos cadáveres flutuando pelos corredores, vez ou outra) no local, embora a natureza de tais mortes não seja muito bem explicada.

Downward Spiral: Horus Station

Entretanto, não se engane: não temos aqui um jogo de terror. Você não sentirá medo em nenhum momento, e pode esquecer quaisquer semelhanças, por exemplo, com jogos como Dead Space (parte 1 e parte 2 de minha análise) e Dead Space 2. A própria trilha sonora do game remove por completo qualquer suspeita de horror, logo no início, e o que temos está mais para um “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, do que qualquer outra coisa.

O game meio que obriga o jogador a ter um contato mais profundo com vários mecanismos da estação. Em determinados momentos, por exemplo, você deve utilizar uma espécie de chave de grifo para abrir portas ou então para destrancar compartimentos que expõem vulnerabilidades de robôs inimigos. Em diversos momentos, é preciso remover e/ou adicionar baterias a equipamentos os mais diversos. É preciso também lidar com vários tipos de botões, alavancas, switches e teclas, e aqui acredito que a realidade virtual possa garantir uma experiência ainda mais interessante.

Downward Spiral: Horus Station

A experiência como um todo, entretanto, acaba sendo um pouco repetitiva. Você vai de um canto a outro da estação ativando maquinários diversos, ligando e desligando equipamentos, reativando seções, reconectando partes da estação que foram desconectadas (isto se dá através da manipulação de um manche), abrindo portas e tentando descobrir para onde ir a seguir. Com o tempo, você percebe que já realizou a mesma tarefa dezenas de vezes, e aí um certo cansaço aparece.

Tudo bem que a movimentação em gravidade zero é muito bacana, fazendo inclusive com que você se perca muito facilmente. Entretanto, Downward Spiral: Horus Station acaba perdendo parte de seu brilho à partir do momento em que recicla várias de suas excelentes ideias, revestindo-as de uma capa translúcida que não esconde lá muita coisa.

Downward Spiral: Horus Station

O enredo é interessante, isto não podemos negar. A estação espacial, a ambientação, a trilha e os efeitos sonoros são sensacionais. Você se sentirá realmente imerso naquele ambiente muitas vezes angustiante, desejando ansiosamente encontrar a próxima saída, o próximo túnel, a próxima alavanca que abrirá a última porta do ato em questão (o jogo conta com 8 atos). Mas com 4-5 horas de gameplay, você poderá se sentir cansado, muito cansado, mal esperando para terminar a experiência.

Existem também problemas relacionados a quedas bruscas nas taxas de framerate, as quais chegam a oscilar de 60-70 (ou mais) FPS para 8-10, e isto em trechos de jogo aparentemente desprovidos de elementos capazes de causar tais problemas (aberturas de portas, por exemplo).

O jogo também parece se estender além do necessário, da mesma forma que We Happy Few, em minha opinião, e não são poucas as salas em que você entrará apenas para descobrir que ali existe… nada. Trata-se apenas de um recurso aparentemente introduzido para “encher linguiça”, o que é uma pena.

Downward Spiral: Horus Station

Puzzles, além disso, não são lá nem um pouco criativos, embora eu creia que eles possam ser bem mais interessantes quando experimentados através de um dispositivo de realidade virtual. Isto porque todos eles exigem a manipulação de algum dispositivo, de alguma alavanca, de algum botão, de algum slider (ou até mesmo o giro da chave de grifo). Aliás, selecionar o armamento através de RV deve ser muito bacana, vale a pena dizer.

A experiência, apesar do grande tamanho da estação espacial, é um tanto quanto linear, e caso você se desvie do caminho, nada de mal acontecerá: você apenas cairá nas tais “salas de encher linguiça” que eu mencionei acima. Também existem problemas com o sistema de colisão, e não raro você perceberá objetos (e até suas próprias mãos) atravessando paredes, vale a pena dizer também.

Enfrentei, aliás, um bug muito chato, e mais de uma vez: armas e equipamentos simplesmente desapareciam de minhas mãos. Isto visualmente, pois pude perceber que os mesmos continuavam lá, empunhados, ao pressionar ambos os gatilhos do controle e ouvir seus respectivos sons.

O problema causado por tal bug, porém, era a ausência de mira (tanto na arma quanto nas ferramentas para movimentação), o que me atrapalhou bastante em alguns combates e fez com que minha movimentação se transformasse em um verdadeiro inferno (acredite, o problema só foi resolvido ao recarregar o último checkpoint).

Downward Spiral: Horus Station

O jogo é curto, entretanto: levei algo entre 8 horas para finalizá-lo, e posso dizer que gostaria que ele tivesse durado menos. Como eu disse, os desenvolvedores se alongaram demais. O enredo é interessantíssimo, por outro lado, principalmente da maneira como ele é contado, sem palavras, exigindo bem mais do jogador. A ambientação também é fantástica, muito bem auxiliada pela trilha sonora de Ville Valo.

Existem também diversos momentos no jogo em que o protagonista é transportado para uma espécie de realidade alternativa, e aí experimenta coisas que não têm nada a ver com a realidade gelada e crua da estação espacial. A narrativa também está ligada, de certa forma, ao destino do planeta Terra, e ao longo do gameplay você perceberá alguns detalhes bem legais a respeito. O final do jogo é surpreendente, vale também a pena ressaltar.

Downward Spiral: Horus Station é um jogo interessante, mas que peca ao se alongar demais e ao fornecer ao jogador doses excessivas de repetitividade. Se você se interessou, adicione-o à sua wishlist e adquira-o em alguma promoção, para evitar quaisquer problemas. Ele encontra-se disponível no Steam, para PC, e conta com interface em português do Brasil.

Downward Spiral: Horus Station

O título também está chegando ao PlayStation 4, com suporte ao PlayStation VR, no próximo dia 18 de Setembro.

Ficha técnica

Título: Downward Spiral: Horus Station

Gênero: indie, ação, ficção científica

Desenvolvedora: 3rd Eye Studios

Publisher: 3rd Eye Studios

Data de lançamento: 31 de Maio de 2018

Plataformas: PC, PlayStation 4

Versão analisada: PC

Fique agora com o trailer do jogo:

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