Terror

Dentro dos próximos dias será lançado Amnesia: A Machine for Pigs, a continuação para um dos jogos que redefiniram o gênero que até então conhecíamos como survival horror. Na verdade, tudo o que o antecessor The Dark Descent precisou fazer foi abordar o survival horror ao pé da letra, algo que vários outros títulos de alto orçamento que ousaram se inserir neste mesmo gênero falharam em fazer.

Do seu lançamento em setembro de 2010 até agora, dezenas — senão centenas — de jogos independentes surgiram com a mesma proposta, sendo um dos mais conhecidos Slender: The Eight Pages. E junto com eles, vieram avalanches de canais no YouTube dedicados ao que se chama de “Let’s Play”, gravações comentadas de bravos jogadores exibindo suas reações e medos diante da câmera (e de milhões de espectadores). A verdade é que o survival horror deixou de ser um nicho extremamente específico e caiu nas graças dos público — pelo menos daqueles corajosos o bastante.

Silent Hill e Resident Evil provavelmente foram os primeiros nomes de terror que tive contato. Porém, o “batismo de fogo” aconteceu somente em 2005, com Doom 3. Foi nele que percebi que minha fácil imersão poderia me render sustos, pulos da cadeira, taquicardias e algumas noites sem sono. Ao mesmo tempo que essa imersão me rendia momentos de extremo pânico, ela também gerava um grande fascínio pelo jogo e sua história. Logo, o único jeito de chegar até o final era superar esses medos, usando maneiras nem sempre convencionais. Mas que funcionaram — pelo menos até eu conhecer o infame Amnesia: The Dark Descent, em 2011.

Ninguém é de ferro: mesmo aqueles que conseguem achar graça em jogos de terror também são surpreendidos nos momentos menos oportunos. Na tentativa de amenizar a tensão inerente dos títulos desse gênero, eis abaixo alguns tópicos que podem ajudá-lo a encarar os survival horror de uma maneira mais racional, mas nem por isso menos imersiva. Boa leitura!

Terror

1. Uma visão racional sobre o medo

Primeiro de tudo, temos que entender o que é horror, terror e suspense. Esses termos são quase sempre utilizados como sinônimos e, como já aconteceu no texto acima, aparecem em substituição entre si. É bem verdade que a diferença entre horror e terror é pequena, mas ainda assim relevante para entender porque esses jogos são capaz de provocar tal sensação.

Horror é a impressão física de repulsa ou desagrado de algo que foi experimentado. Nós ficamos horrorizados ao testemunhar eventos desagradáveis à nossa percepção. Terror é o sentimento de expectativa que precede o testemunho ou experimentação de algo desagradável. Nós ficamos aterrorizados diante da iminência de uma ameaça. Suspense é a situação em que um desfecho ou explicação é aguardada com expectativa angustiante. Nós ficamos em clima de suspense quando vamos ouvir uma história.

Os jogos atacam nossos medos em dois frontes: terror físico e terror psicológico. Ambas as classificações estão presentes em títulos da temática, mas um sempre vai se sobressair ao outro. O terror físico consiste em causar medo através da eventos “palpáveis”, evidentes e óbvios. É o caso de Doom 3 e Dead Space, por exemplo, que utiliza monstros nada amigáveis, mortes horrendas e litros de sangue para nos horrorizar através da repulsa de tais elementos. Já o terror psicológico é uma forma bem mais “silenciosa” e profunda de horror, que faz uso de tramas perturbadoras, ambientação hostil e acontecimentos imprevisíveis para tirar a sensação de controle do jogador. É o caso de Amnesia.

O “grau de aterrorização” de um jogo vai depender de qual terror, físico ou psicológico, seus medos são mais suscetíveis. Se você não gosta de tripas, sangue, mutilação e monstros feiosos, é provável que você se sinta desconfortável jogando Dead Space ou Condemned 2, por exemplo. Já se você sente incomodado com tramas que exploram aspectos profundos da psique humana, abordam temas de compreensão lógica ainda limitada (paranormalidade), e retiram seu poder de controle sobre a situação (deixá-lo desarmado, por exemplo), Silent Hill, F.E.A.R. e Amnesia podem ser um grande desafio.

O Vale da Estranheza

O Vale da Estranheza

O motivo pelo qual alguns jogos podem nos assustar mais do que outros depende não apenas dos seus aspectos técnicos, mas de um conceito emprestado do campo da robótica chamado “O Vale da Estranheza” (Uncanny Valley). Ele diz que à medida que um ser se aproxima da aparência humana, nossa resposta torna-se cada vez mais empática e positiva até um certo ponto onde nossa aprovação é violentamente substituída por forte repulsa. É nesse “vale” que se encontram, por exemplo, os zumbis, cadáveres e algumas próteses robóticas.

Ser assustado ou não por um jogo vai depender do quão profundamente seus elementos se situam no “Vale da Estranheza”, pois é ali onde nossa compreensão falha em criar empatia e nos leva ao temor, ao medo, pois trata-se de algo que não nos é familiar. Somos facilmente hostilizados por coisas que se aproximam da aparência humana, mas que ao mesmo tempo não são racionalmente identificáveis (caso de alienígenas humanoides, vultos e pareidolias). É seguro dizer, portanto, que um jogo de terror nada mais faz do que te pretender no interior desse vale.

Terror

2. Prepare-se para ser assustado

A frase a seguir extravasa redundância, mas lá vai: jogos de terror foram feitos para assustar, dar medo. E sentir medo é uma experiência legal. Pelo menos para o seu corpo e especialmente quando não há perigo imediato à vida (estamos falando aqui de um jogo, afinal de contas).

Medo é uma resposta natural ao desconhecido que pode ser desenvolvida a partir de um trauma. Nós aprendemos a sentir medo de algumas coisas como forma de evitá-las — é um traço evolutivo. Ao sentir medo, seu corpo dispara uma avalanche de hormônios que causam a sensação de “adrenalina” e logo depois relaxamento e exaustão. E adrenalina vicia. É por isso que jogos e outras obras dessa temática nos causa fascínio e nos leva a viver tais experiências, várias e várias vezes.

Por isso, fica o conselho: prepara-se para sentir medo. O objetivo final dos desenvolvedores do jogo é ver você arregalando os olhos e pulando da cadeira. Não espere nada diferente disso e aprenda a gostar da sensação, que provavelmente será memorável (sob estresse do medo, nossa memória consegue armazenar uma imensa quantidade de detalhes). Entretanto, vá com calma: se você começar a ter pesadelos, insônia ou paranoia, é hora de parar — jogos de terror definitivamente não são pra você.

Terror

3. Nervos à flor da pele? Quebre o gelo!

Jogos survival horror têm o incrível capacidade de brincar com sensações muito primitivas, o que nos pode deixar traumatizados. O medo provocado por certos jogos pode ser, algumas vezes, sufocante. Por mais que a experiência de se sentir aterrorizado diante de situações inofensivas (um jogo, livro ou filme) seja por si só algo divertido, nem todo mundo vai conseguir achar graça nisso — especialmente aqueles que estabelecem forte imersão, como eu. A solução: quebre o gelo, nem que seja por alguns instantes.

Há diversas formas de diminuir a carga de tensão sobre os seus nervos. Uma delas é apelar ao bom humor e fazer graça dos inimigos, rindo de cada susto tomado. Outra é narrar em voz alta seus próprios atos dentro do jogo: “estou saindo dessa sala”, “parece que tem há algo estranho naquele corredor”, “que som é esse?”. Isso ajuda a racionalizar e a refletir sobre suas próprias ações, mostrando a si mesmo que você está no controle da situação — puramente virtual. Outra ótima sugestão é jogar conversando com seus amigos através do Skype ou TeamSpeak por exemplo. Eles vão adorar ouvir você gritando.

Você ficará surpreso ao ver como essas medidas, aparentemente bestas, são tão eficientes.

Amnesia: The Dark Descent

4. Noite + Solidão + Fones de Ouvido = A combinação perfeita

Não é segredo pra ninguém que apreciar obras de terror durante a noite e sem ninguém por perto pode potencializar significativamente a experiência, tornando-a bem mais gratificante. No caso de jogos, outro poderoso instrumento pode ser adicionado a essa conta: os fones de ouvidos. É claro que aqueles que são amedrontados facilmente, tal combinação pode e deve ser ignorada. Porém, ela é quase obrigatória para quem realmente deseja apreciar a obra e imergir de vez no universo.

A noite e a solidão são elementos frequentes das tramas de jogos de terror e nada mais realista do que reproduzir esse cenário na sua sala ou quarto, seja escurecendo o ambiente ou aguardando até altas horas e jogando quando tudo estiver em completo silêncio. Só cuidado para não acordar os vizinhos com seus gritos!

Por fim, bons fones de ouvido tem um efeito quase tão poderoso quanto os outros dois elementos já citados. Headphones de boa qualidade e no volume máximo criam um senso de imersão extremamente poderoso, inserindo-o de vez no universo do jogo. A aproximação de hostilidades pode ser detectada previamente, por exemplo. Sem falar na apreciação das belas trilhas sonoras que normalmente acompanham os jogos do gênero, com tons e ritmos que se adaptam a cada situação enfrentada.

Dead Space

5. Não jogue para vencer e não espere um final feliz

Já falamos aqui que o objetivo final dos criadores de um jogo de terror é fazer você sentir medo. Tomou um susto? Teve que dar uma pausa para recuperar o fôlego? Parabéns, você alcançou o objetivo de toda a experiência. Tais jogos não são construídos com fins competitivos. Inicialmente, eles podem até puni-lo severamente. Entretanto, isso ocorre para impedir a repetição de erros e forçar a adaptação ao seus universos quase sempre hostis.

A verdade é que a competição pode ofuscar seriamente a imersão, pois o foco deixa de ser a sobrevivência e experimentação da história e dos ambientes para se tornar uma tarefa repetitiva e mecanizada, criando a (falsa) sensação de controle. E jogos de survival horror são mestres em nos deixar completamente sem controle. No momento que não o fazem, deixam de ser imprevisíveis e, portanto, deixam de pertencer a esse gênero.

Outro erro bastante comum é esperar um final feliz. Ou melhor, esperar que você chegará de fato ao final. Imagine jogos survival horror como grandes simuladores de pesadelos: você toma parte de seus universos para experimentar algo diferente e explorar os seus limites, da mesma forma que você vai ao parque de diversões andar de montanha-russa. Carregar-se de expectativas antes de encarar o desafio pode culminar em decepção quando tudo acabar.

Finalmente, por possuírem um objetivo diferenciado e se tratarem de experiências virtuais que brincam com sensações primitivas e carregam finais nem sempre agradáveis, os survival horror permitem algo bastante único: você pode abandoná-los a hora que se sentir satisfeito. O indie Anna nos dá um grande exemplo disso, que pode ser perfeitamente estendido aos outros jogos do gênero: não veja o fracasso ou a exaustão como uma derrota, afinal, o objetivo aqui nunca foi vencer mas simplesmente deixá-lo horrorizado.

Boo!

Artur Carsten

Catarinense, amante da música eletrônica, estudante de medicina e jogador nas inexistentes horas vagas. Ocasionalmente, escreve artigos e coloca em dia a pilha interminável de jogos comprados em promoção no Steam. Já passou pelo Campo Minado, Continue, Guia do PC, Gemind e Oxygen e-Sports.

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