A essa altura do campeonato, todos nós já ficamos sabemos a respeito dos rumos tomados pelos estúdios e propriedades da THQ, agora oficialmente extinta, depois de um longo e agonizante processo de falência. Também sabemos que a Vigil Games e sua franquia Darksiders, surpreendentemente, acabaram ficando para trás, depois de não ter encontrado nenhum comprador. Pois saiba que a criadora de um dos hack ‘n’ slash mais divertidos dos últimos anos não foi a única a cair no limbo. Diversos outros resquícios da extinta produtora também não encontraram compradores e ficaram para trás.

Pois bem, um desses pedacinhos perdidos no meio do burocrático processo de concordata é a franquia Homeworld, iniciada em 1999, cujo desenvolvimento ficou a cargo da Relic Entertainmentcomprada pela SEGA por US$ 26 milhões. A compra da Relic, que também é dona de Company of Heroes e Warhammer 40.000, aparentemente não incluiu os direitos da tal franquia Homeworld, que terminou o leilão sem compradores. É uma pena, uma vez que a série é uma das mais aclamadas do gênero de estratégia sci-fi em tempo real, carregando três episódios: Homeworld (1999), Homeworld: Cataclysm (2000) e Homeworld 2 (2002).

Durante o leilão da THQ, a SEGA aparentemente resolveu não levar a licença da franquia e deixou a legião de fãs do título ainda mais desesperançosa em talvez, algum dia, ver um novo Homeworld. A resposta veio em nome da desconhecida teamPixel, LLC, uma desenvolvedora independente voltada para design de aplicações da web e aplicativos portáteis, que iniciou a campanha “Save Homeworld” para arrecadar fundos por crowdfunding e tentar comprar os direitos da franquia da moribunda THQ.

“Nós da teamPixel, LLC estamos cansados de esperar pelo próximo Homeworld e gostaríamos de reunir todos os fãs para trazer a franquia de volta. A falência da THQ nos deu a enorme oportunidade de colocar Homeworld de volta nas mãos dos jogadores”, diz a campanha, que planeja arrecadar 50 mil dólares em pouco menos de duas semanas.

Com a grana no bolso, o estúdio pretende adquirir a licença e dar início a três projetos: levar os primeiros jogos da franquia ao GOG e ao Steam; criar uma versão com interface de toque para dispositivos portáteis (Homeworld Touch); e desenvolver Homeworld 3.

Agora vem a dúvida: será que um estúdio pequeno e que nunca desenvolveu um jogo por conta própria é realmente capaz de se responsabilizar pelo desenvolvimento de uma das franquias mais famosas do gênero de estratégia sci-fi? De acordo com a própria teamPixel, sim. “Nós somos relativamente novos na indústria de jogos (nós até fizemos alguns jogos sob encomenda de empresas locais), mas entrar na indústria por nós mesmos sempre foi um objetivo da companhia. Todo nosso trabalho no meio interativo foi uma preparação para isso”, diz o desenvolvedor-chefe Robert Santos na página da campanha.

Se em algum momento a empresa perceber que não vai conseguir alcançar seu objetivo, seja por falta de recursos do crowfunding ou por empecilhos jurídicos envolvendo o burocrático processo de falência da própria THQ, a teamPixel garante que devolverá o dinheiro de todos os contribuidores. “Se nós não conseguirmos os direitos da franquia Homeworld através da falência da THQ ou pela negociação com o vencedor do leilão, nós reembolsaremos sua doação. […] Sem a franquia Homeworld, nós não temos como colocar em prática nossas ideias, e você merece seu dinheiro de volta”, diz a campanha.

Apesar da sinceridade da empresa em reconhecer sua inexperiência no segmento e de todas as garantias, a campanha possui uma pequena jogada que pode passar despercebida por muitos contribuidores. A “Save Homeworld” está classificada como uma “Flexible Funding campaign”. Ou seja, mesmo tendo como objetivo alcançar 50 mil dólares, os responsáveis podem flexibilizar a quantia-objetivo a qualquer momento. Em outras palavras, se a empresa ver que não vai alcançar a quantidade desejada (está em US$ 5.836 nesse momento), ela pode baixar o valor e terminar a campanha imediatamente, levando embora todo o dinheiro doado.

O tiro saiu pela culatra e vários leitores levantaram a suspeita da campanha ser fraudulenta. Nos comentários da notícia no site da PC Gamer, muita gente criticou ferozmente a empreitada: “Eles vão acabar com a franquia. É um estúdio de web design. Isso vai acabar mal”, “Eu vejo isso apenas como uma tentativa de ganhar dinheiro sobre uma propriedade amada por todos. TeamPixel quem?”. No site Gamefront, mesma coisa: “Homeworld desenvolvido por qualquer outra pessoa a não ser a equipe original não é Homeworld, mas sim um insulto ao legado do jogo”.

Infelizmente, não tive a oportunidade de jogar nenhum Homeworld, mas reconheço o seu legado deixado à outras franquias do gênero, como Sins of a Solar Empire, Galactic Civilizations e Eve Online. A atitude da TeamPixel em tomar a frente da legião de fãs e tentar reviver a franquia é amável e, se for realmente verdadeira, merece todo o respeito e colaboração. Entretanto, antes que você se proponha a investir na campanha, analise os fatos com cuidado: muito provavelmente essa é a primeira vez que você ouviu falar no nome “TeamPixel”. Será que esses caras não estão tentando dar um salto maior que a própria perna?

E você, caro leitor, o que acha?

Artur Carsten

Catarinense, amante da música eletrônica, estudante de medicina e jogador nas inexistentes horas vagas. Ocasionalmente, escreve artigos e coloca em dia a pilha interminável de jogos comprados em promoção no Steam. Já passou pelo Campo Minado, Continue, Guia do PC, Gemind e Oxygen e-Sports.

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