AC III

Já parou para pensar porque diabos existe um abismo de qualidade entre os últimos dois grandes títulos da franquia Assassin’s Creed? A recepção medíocre de Assassin’s Creed III, lançado em 2012, fez com que o seu sucessor, Assassin’s Creed IV Black Flag, de 2013, fosse recebido como uma das maiores surpresas do ano, graças a um salto de qualidade que ninguém esperaria para a continuação de uma série que quase foi para o buraco em 2012.

Aparentemente, os problemas tem raiz no desenvolvimento conturbado de Assassin’s Creed III, como indicou um usuário no Reddit que alega ter trabalhado na Ubisoft durante a criação do título. Em um longo texto, o tal usuário fornece alguns detalhes interessantes que ajudam a explicar os motivos por trás de diversos problemas de design, implementação e otimização que o jogo sofreu. Excesso de equipes e estúdios trabalhando, e a péssima coordenação e distribuição de recursos são alguns desses motivos.

Segundo ele, o desenvolvimento “foi uma experiência de destruir a sua mente”, mas que mesmo assim gostou da experiência de trabalhar na Ubisoft “apesar de toda a besteira”. “Por que Assassin’s Creed III foi um desastre? Sem entrar em muitos detalhes, foi por causa das expectativas irrealistas e das constantes alterações feitas pelos produtores/diretores criativos que tornou impossível deixar tudo pronto”.

“Para que tudo fosse finalizado a tempo do lançamento anual (ugh!), o tamanho da equipe flutuava constantemente. O jogo foi trabalhado pela maior parte do estúdio em Montreal, além da Ubisoft Quebec, Ubisoft Annecy, Ubisoft Bucharest e Ubisoft Singapore. Entre 500-600 pessoas tocaram no jogo antes de seu lançamento, em contraste com outros estúdios como Naughty Dog e Sony Santa Monica que operam com 80-100 funcionários”, diz o ex-produtor.

“A coordenação de recursos entre todas essas equipes separadas por milhares de quilômetros e diferentes fuso horários foi uma piada. Ao mesmo tempo, recursos foram constantemente roubados para a produção de Watch Dogs e Far Cry 3“.

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Uma das partes mais criticadas de Assassin’s Creed III foram as missões envolvendo o protagonista secundário Desmond nos dias atuais. Isso ocorreu porque, segundo o depoimento, “um time B cheio de recém-contratados e menos talentoso” foi designado a produzir toda a parte envolvendo Desmond. “Eles raramente se comunicavam com o resto da equipe. Mas nós não podíamos dizer nada, os diretores basicamente tampavam os ouvidos e se convenciam de que eles eram incríveis”.

O motivo pelo qual vários elementos de Assassin’s Creed III pareciam mal implementados entre si também teve raiz em outro sério problema ao longo do desenvolvimento: a péssima coordenação entre os trabalhos individuais de cada funcionário. “Grande parte da equipe não fazia a menor ideia da existência das missões em Homestead, as missões de Caravan e as missões paralelas de assassinato. Havia tanto conteúdo que ao se aproximar da data de lançamento, eu e muitos funcionários ainda estávamos descobrindo funcionalidades que nós nem sabíamos que existiam e que precisavam da nossa atenção”.

“Deixar tudo 100% foi de algo divertido, para uma tarefa hercúlea de tédio e sorte cega”, diz ele. Diversas partes do jogo, envolvendo animações, áudio e missões inteiras tiveram que ser cortadas faltando apenas duas semanas para o lançamento. “Enquanto isso, as (enormes e descoordenadas) equipes de testes estavam sentadas a espera de mais conteúdo e centenas de problemas que eles haviam indicado foram marcados como ‘Não serão corrigidos’ devido ao tempo reduzido”.

Quanto às reclamações envolvendo problemas de performance e otimização, o ex-produtor alega que a engine utilizada foi desenvolvida para os consoles da nova geração e as tecnologias futuras do PC. Logo, “ela foi super ineficiente no PS3/X360”. Levou algum tempo até que os programadores conseguissem se acostumar com o motor gráfico e, aparentemente, isso não ocorreu a tempo do lançamento do jogo.

É claro que por se tratar de um depoimento anônimo, dificilmente teremos qualquer confirmação oficial sobre isso. Entretanto, a correlação dos problemas descritos com o que vimos no jogo final dá sentido às declarações. Felizmente, toda essa confusão ensinou uma boa lição à desenvolvedora e a franquia parece ter entrado nos eixos novamente. Assassin’s Creed IV Black Flag, inclusive, recebeu indicações para jogo do ano em várias publicações.

Artur Carsten

Catarinense, amante da música eletrônica, estudante de medicina e jogador nas inexistentes horas vagas. Ocasionalmente, escreve artigos e coloca em dia a pilha interminável de jogos comprados em promoção no Steam. Já passou pelo Campo Minado, Continue, Guia do PC, Gemind e Oxygen e-Sports.

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