Devemos temer a distribuição digital? Até alguns anos atrás eu responderia rapidamente e sem medo a esta pergunta. Eu responderia com um sonoro “Não”, e tudo estaria bem. No entanto, algumas coisas mudaram.

A recente notícia de que a versão para PC de Fallout 76 não estará disponível no Steam, mas tão somente no Bethesda.net (serviço no qual podemos também encontrar The Elder Scrolls Online e Quake Championship, dentre outros), fez, no entanto, com que um alarme mental soasse por aqui.

Sabemos que não somos verdadeiramente donos dos games que adquirimos. O que temos é, no máximo, uma licença de uso, algo que também pode-se observar em outras áreas, serviços e softwares, sejam eles SaaS ou não. Muitos programas de computador (grande parte deles, eu diria), são comercializados desta forma: o usuário possui apenas uma licença de uso.

Muitas vezes, tal licença restringe o uso até determinadas versões. Muitas vezes, tal licença limita o número de máquinas em que o aplicativo pode ser instalado. Muitas vezes, tal licença exige o pagamento de uma assinatura mensal (veja o caso do Office 365). Algumas vezes, também, e isto não pode deixar de ser dito, existem empresas que oferecem versões vitalícias de seus aplicativos mediante o pagamento de uma única taxa, uma única vez.

É o caso, por exemplo, do DAW (software musical) FL Studio, da Image-Line, software com o qual o usuário tem acesso a todas as versões futuras, mediante o pagamento de uma única taxa, uma única vez. De uma taxa que funcionaria, aqui, como uma espécie de taxa de aquisição (porém, não, o usuário não é dono do software, nem tampouco tem acesso ao seu código fonte).

Distribuição digital

O fato é que a distribuição digital é um assunto bastante complicado, principalmente no mundo dos jogos eletrônicos. Quantos jogos você possui em sua biblioteca no Steam, por exemplo? Já jogou todos eles? Seu backlog é grande? Tem em mente realmente tê-los sempre à disposição, para baixá-los quando necessário, e então jogá-los? Saiba que você também não é dono deles, mas tão somente possui uma licença de uso, licença esta que pode ser até mesmo um tanto quanto mais restritiva dependendo do(s) DRM(s) utilizado(s), como o Denuvo, por exemplo.

Muitas vezes, existem limites. Existem, por exemplo, limites no tocante à quantidade de vezes que o jogo pode ser instalado e ativado, o que nos leva a um outro problema: que tipos de restrições teremos caso precisemos instalar pela sexta vez um jogo cujo limite de ativações é 5?

Irão desenvolvedores e/ou publishers liberarem nosso acesso a tais títulos, pelos quais pagamos? Sim, pagamos por eles, pelo direito de jogá-los, mas temos de conviver com diversas restrições. Perceba como tudo acaba ficando meio que nebuloso. Trata-se de uma situação bem diferente de quando chegamos em uma loja de departamentos e adquirimos um aspirador de pó, por exemplo.

No Steam muitas coisas não são diferentes. A loja, que é também plataforma, serviço, DRM e comunidade, é a queridinha de quem joga no PC. Muitos jogadores preferem centralizar todos os seus jogos na loja, o que é bastante cômodo, obviamente.

No entanto, e se algo ocorrer? Já tivemos boatos por aí a respeito de uma hipotética aquisição do Steam pela Microsoft (o que acabou não se confirmando – incluindo uma declaração de Gabe Newell, negando). Muita gente também se pergunta a respeito do futuro da loja e de um possível porém ainda hipotético enfraquecimento. A Electronic Arts já debandou há tempos e hoje possui sua própria loja/plataforma, sem dar sinal algum de desejar voltar ao Steam.

A Ubisoft possui também o uPlay, e apesar de até hoje não ter dado sinais de que deseja abandonar o Steam, sabemos que sua plataforma está pronta para isto, caso ela assim deseje. Destiny 2 foi lançado, no PC, exclusivamente através do Battle.net, da Blizzard. E o mesmo acontecerá com Call of Duty: Black Ops 4, vale lembrar.

Tudo bem que, por exemplo, no caso de Fallout Shelter, este deu as caras no Steam alguns meses após seu lançamento no Bethesda.net. Mas a situação como um todo pode gerar preocupação naqueles jogadores mais preocupados e/ou neuróticos, como eu.

Já foi dito, ou isto é o que reza a lenda (não estou bem certo), que o Steam disponibilizaria todos os jogos adquiridos a seus clientes, sem DRM algum, em caso de falência. Mas alguém já parou para pensar no trabalho que seria, por exemplo, baixar inteiramente uma biblioteca contendo 500, 1000, 2000 jogos? E que garantia temos nós de que tal fato realmente se concretizaria?

A logística em um caso assim seria bastante complicada. Quanto tempo teríamos para baixar nossa coleção? Como a armazenaríamos, dependendo de seu tamanho? Onde a armazenaríamos? Como lidaríamos com a necessidade de futuras e hipotéticas atualizações nos diversos títulos adquiridos e baixados?

Além disso, que eu saiba, não existem termos de serviço corroborando tais fatos. Nada existe que confirme tal modo de agir por parte das empresas, e o mesmo pode ser aplicado às redes online dos consoles, à PSN, à Xbox Live, etc. Somos mesmo verdadeiramente donos daquilo que compramos, ou melhor, temos mesmo direitos plenos de uso dos games que adquirimos através de distribuição digital?

Agora, uma pequena digressão: já ouvi até mesmo falarem em “revogação de Steam keys”, veja só, apenas devido a algum desenvolvedor não ter gostado de determinado review (informação via cortesia do @desgastada).

Retornando ao assunto, obviamente trata-se de algo difícil de acontecer, mas e se a PSN ou a Xbox Live, por qualquer motivo que seja, algum dia saírem do ar? E se a Microsoft ou a Sony (algo ainda mais difícil de acontecer, mas jamais impossível) vierem a quebrar? O que aconteceria com nossas dezenas, centenas, milhares de jogos adquiridos, ou licenciados para uso?

Me lembro muito bem, ainda, da época dos disquetes. Da época em que instalava games em meu computador através de CDs. Da época em que adquiria revistas em bancas de jornais contendo CDs com dezenas, centenas de jogos, todos em versão demo e/ou shareware. Época em que não existiam DRMs intrusivos e “perigosos” como aqueles que temos hoje.

Era tudo bastante simples, e nós nem nos preocupávamos com DRMs e coisas do tipo. Nos preocupávamos, isto sim, com velocidades dos drives de CD, com mídias problemáticas, sujas, riscadas, com disquetes que não eram lidos, e por aí vai (quem aí já chamou Doom pelo prompt do MS DOS?).

Hoje tudo é bem diferente. Tudo bem que temos também, atualmente, games vendidos em caixa e mídias físicas, para todas as plataformas, mas cada vez mais a distribuição digital avança e toma espaço. Além disso, mesmo no caso dos jogos vendidos em mídias físicas, muitas vezes temos atualizações gigantescas que são simplesmente capazes de impedir a jogatina até que sejam completadas – olha a dependência da distribuição digital outra vez entrando em cena.

O que estou querendo dizer com tudo isto é: será que a distribuição digital poderá, em algum momento, nos causar problemas? Não estou aqui dizendo que não gosto dela. Muito pelo contrário, eu adoro. É fantástico adquirir um game e poder jogá-lo rapidamente, sem aguardar pela entrega via Correios ou então transportadoras (dependendo, também, da velocidade da sua conexão com a internet).

É também simplesmente fantástico contar com toda a sua biblioteca armazenada na nuvem, e poder baixar games quando bem entender. É ótimo contar com recursos como saves na nuvem, atualizações automáticas, conquistas, etc. É muito bom, também, economizar espaço: afinal, já imaginou, por exemplo, dependendo do tamanho de sua coleção, o quanto de espaço físico seria necessário para armazená-la?

Tudo isto pode trazer à tona também um fator interessantíssimo no que diz respeito aos games e aos softwares: a intangibilidade daquilo com o que estamos lidando. Muito já foi dito a respeito da pirataria em si, e do fato de que muita gente não enxerga valor em jogos e/ou programas de computador justamente por se tratar de algo não mensurável fisicamente, de algo intangível, um tanto quanto “misterioso”, difícil de ser quantificado, quem sabe.

Isto não retira, obviamente, o valor de obra alguma, seja ela distribuída única e exclusivamente de forma digital ou não. Valor, aliás, é um conceito um tanto quanto complexo, pois enquanto para uns algo pode ser totalmente inócuo e desprovido de valor, para outros pode se tratar de uma verdadeira obra prima, de algo realmente digno daquele suado dinheiro ganho ao final de cada mês.

Mas a intangibilidade talvez explique, em partes, as dificuldades que desenvolvedores e publishers enfrentam no tocante à pirataria: muita gente não vê valor em um “simples CDzinho”, ou em um mero “arquivinho baixado via torrent”. Simplificando, de certa forma: muita gente não vê valor em linhas e linhas de código.

Para tais pessoas, trata-se de coisas desprovidas de valor intrínseco, de elementos para os quais não é devido nenhum tipo de respeito, simplesmente pelo fato de não poderem ser tocados, visualizados em 3 dimensões (fora dos consoles e computadores). Muita gente gosta de jogar, mas não acredita que valha a pena pagar por seus queridos jogos. Para muitas pessoas, trata-se de uma espécie de serviço que deve ser sempre prestado de forma gratuita, o que é bastante problemático, obviamente.

Fallout 76 pode um dia chegar ao Steam, bem como Call of Duty: Black Ops 4? Pode. Temos também outros serviços de distribuição digital que funcionam como plataformas (desconsiderando aqui Nuuvem e similares, obviamente), como o GOG.com, por exemplo. Neste último, entretanto, não vemos lançamentos de peso, os tais AAA tão falados e discutidos. Por esta e outras razões é que muitos jogadores preferem centralizar tudo na loja da Valve, muitas vezes até pagando mais caro por determinados títulos (acredite, já vi casos assim).

O fato é que a distribuição digital chegou para ficar, mas acredito que deveriam ser criados mecanismos para garantir que ninguém fique sem seus games em caso de falência das empresas responsáveis pelos serviços, por exemplo. Em caso de qualquer problema.

Em casos de mudanças em termos de serviço, naquelas “letrinhas miúdas” que ninguém lê. Tudo bem que no Steam podemos fazer backup de nossos jogos em disco: mas você teria coragem de fazer backup, por exemplo, de 1000 títulos? Coragem, ou até mesmo espaço em disco disponível?

Este artigo talvez funcione mais como um desabafo do que qualquer outra coisa, até mesmo porque eu mesmo não sei dizer o que todas as empresas que trabalham com distribuição digital de jogos eletrônicos poderiam fazer para garantir a disponibilidade dos jogos pelos quais pagamos mesmo após encerrados seus serviços (supostamente). E também nem irei aqui entrar no mérito das vantagens da distribuição digital do lado das empresas.

Talvez o crescimento de serviços como o GOG, distribuindo mais títulos (incluindo AAAs), disponibilizando jogos livres de qualquer DRM, seja uma solução, não sei. Isto se as empresas pararem de se preocupar tanto com a pirataria e investirem em melhores jogos, em melhores experiências, em mais atenção para com o consumidor, obviamente (a CD PROJEKT RED pode muito bem servir como exemplo, aqui).

Na hipótese de algum tipo de sinistro, a liberação dos downloads, pura e simplesmente, livre de qualquer DRM, não me parece uma solução viável, pelo menos no caso de grandes bibliotecas. Muitos de nós (eu incluso), não contamos com os meios necessários para tal operação (espaço em disco suficiente, internet com altíssima velocidade de download, etc).

E aí, o que nos restaria? Simplesmente sentar e chorar pelo dinheiro gasto e os jogos perdidos? Seriam as atuais ações de empresas como a Bethesda sinais de que o fim do monopólio do Steam se aproxima? Ou divago, aqui?

É muito cômodo ter um game adquirido sempre à disposição para ser baixado, independentemente de fatores geográficos, independentemente da máquina na qual estamos jogando, etc. Mas e além disso? Devemos temer a distribuição digital, levando em consideração tudo o que foi dito acima? Ou todos os pontos levantados neste artigo são fruto da imaginação de alguém realmente paranoico e preocupado em demasia com coisas um tanto quanto intangíveis?

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