A EA não enxerga tensão alguma em sua relação com a Valve. Será que somente nós, jogadores, que compramos, jogamos títulos e utilizamos as plataformas de ambas as empresas, enxergamos os problemas? Aliás, será que existe algum problema, ou estamos todos fazendo uma enorme tempestade em um copo d’água? O fato é que esta balbúrdia toda entre EA e Valve “teve sua origem no Origin“, de certa forma, e as coisas ficaram mais estranhas quando John Riccitiello, CEO da EA, disse que o novo serviço não venderá somente games da Electronic Arts.

Jens Uwe Intat, da EA Europa, aliás, diz que o relacionamento entre as duas empresas continua indo bem, e que espera que as duas continuem trabalhando juntas. É claro que agora sabemos que muitos problemas (apesar de grande silêncio por parte da Valve), principalmente a  remoção de Crysis 2 do Steam, foram causados devido a conflitos entre algumas regras da Valve em relação à sua plataforma de distribuição e a liberdade que a Electronic Arts deseja manter em relação a seus títulos.

O fato da transformação da EA Store no Origin foi algo bem estranho, a princípio. Estranho até o momento em que não sabíamos que a empresa tinha a intenção de criar um concorrente ao Steam, vendendo não somente seus próprios games. Óbvio que ela tem todo o direito de fazer isto, mas se alguém neste pequeno planeta deseja competir com uma plataforma como o Steam, deve pelo menos tentar fazer as coisas direito.

E o que temos hoje no Origin é um arremedo de uma plataforma de distribuição digital de games. Nem se sabe se a função de atualização automática dos games funciona, e o cliente é pobre ao extremo. O próprio site, por enquanto, pelo menos, é também pobre, e não chega nem a fazer cócegas ao Steam (levando-se em consideração tanto seu catálogo quanto seu apelo visual e seus recursos). Isto pode mudar (e vai, pelo que estamos observando), mas creio que algo assim deveria ter sido lançado com pelo menos alguns recursos chamativos, algumas promoções bacanas, e com uma loja mais atrativa.

A Valve é operada por pessoas muito inteligentes, e eu diria que isto também é verdade em relação à Electronic Arts, somos todos bons homens de negócios“, disse Intat ao site Gamesindustry. O figurão da EA ainda continua: “Então, sobre a Valve, quando eles estão buscando por distribuidores para seus produtos, examinando qual publisher poderia efetivamente fazer isso, eu acho que nós somos a melhor publisher no planeta, tanto na Europa quanto na América do Norte“.

Uma grande dose de arrogância aqui, não? Mas, infelizmente, não deixa de ser uma grande verdade o fato de que a EA é uma das maiores, senão a maior e mais bem estruturada publicadora de jogos eletrônicos do mundo. Vejo nas palavras de Jens Uwe Intat uma certa dose de ameaça, também. Hoje em dia temos muitos grandes e pequenos estúdios de desenvolvimento de games que são de propriedade de diversas publishers.

Se levarmos em consideração, por exemplo, a Zenimax, temos sob suas asas a Bethesda, a id Software e inúmeras outras publishers e desenvolvedoras. No meio disto tudo, temos também a Take-Two e a 2K Games, Rockstar Games, etc. Ou seja, vejam só quantos jogos e franquias estão aqui “englobados”: Doom, RAGE, BioShock, Borderlands, GTA, L.A. Noire, Max Payne, Civilization, e diversos outros. Parece que cada vez mais caminhamos para um mundo de “mega corporações gamers” onde o dinheiro é tudo e o jogador não é nada além de um provedor. De dinheiro.

Isto pode ser observado até mesmo nas tais pré-vendas que oferecem apenas itens in-game como “prêmio”. RAGE mostra isto bem claro, e até mesmo para Deus Ex: Human Revolution foram recentemente lançados alguns DLC’s que nada mais são do que conteúdo já “entregue” a quem comprou o jogo em pré-venda, em determinados locais. Um dos tais DLC’s chega a contar com o absurdo de oferecer créditos in-game para quem o adquirir. Isto é um absurdo seja durante a pré-venda seja após a mesma, pois acredito que qualquer progresso dentro de um jogo eletrônico, seja ele relativo a habilidades ou financeiro (mesmo que virtual), deva ser obtido pelo esforço do próprio jogador.

Estamos chegando a um ponto onde, sinceramente, muitas empresas nos causam medo. Eu, pelo menos, me sinto assim. Voltando à Electronic Arts, Jens Uwe Intat fala também em concorrência. Mas a concorrência pode ser ameaçada a partir do momento em que a possibilidade de escolha é removida. À partir do momento em que a EA, por exemplo, removeu Crysis 2 do Steam, enquanto o mantém no Origin e em diversos outros sites de distribuição digital, ela eliminou a gigante Valve e seu Steam como concorrentes em relação àquele produto.

Independentemente de quais sejam as regras da Valve, acredito que uma solução menos drástica teria sido possível. As relações entre a EA e a Valve/Steam, daqui em diante, podem não ser tão “bonitinhas” quanto a criadora da série FIFA quer fazer parecer. Talvez esta última esteja tentando criar um serviço concorrente pegando carona no passado, e a remoção de Crysis 2 pode ter sido apenas o início. O que impede a EA de remover seus games de qualquer outro site de venda de jogos via download?

É claro que ela pode até não desejar considerar os riscos inerentes a uma ação tão drástica quanto esta, e estou aqui supondo algo que talvez não chegue a acontecer ou não aconteça desta forma ou com tamanha “força”. Mas ninguém pode dizer com certeza absoluta que isto é impossível, e é aí, nesta incerteza, que moram o perigo e o medo.

Peter Moore, outro executivo da EA, também disse ao Gamesindustry que o Origin vai se tornar uma rede social. Não sei como ele consegue utilizar o serviço todos os dias, como diz, para “ver o que seus amigos estão fazendo”, pois os recursos sociais do cliente Origin são bem fracos, principalmente em comparação com o Steam. Bom, os amigos aos quais ele se refere devem estar no mesmo prédio onde ele trabalha, é claro. Há uma grande dose de falácia aqui, também, pois quem joga no PC e possui conta junto ao Origin sabe bem do que o serviço é ou não capaz.

O fato é que a indústria de jogos eletrônicos passa por um momento em que muitos de nós sentimos medo. Muito na mão de poucos é sempre perigoso, e um dos primeiros problemas que percebi em relação a este fato e a EA foi o recente caso da PopCap lançando conteúdo pago para Plants vs. Zombies no iPhone, PopCap esta que foi adquirida, infelizmente, pela EA.

Muitos falam na “Síndrome de EA“, e isto não é brincadeira não. Trata-se, resumidamente, de uma “doença” através da qual uma publisher, por exemplo, tenta de todas as formas extrair o máximo que puder de suas IP’s, sem se preocupar com qualidade, mas sim com quantidade. A Activision também é expert neste assunto, e pode ser que tenhamos também circulando por aí uma nova “doença”, a “Síndrome de Activision”. Aliás, teríamos também, quem sabe, a “Síndrome de Capcom”. Todas variantes de uma triste motivação: lançamento de títulos, franquias, DLC’s, badulaques e similares que possuem como único objetivo esgotar, isto sim, o bolso dos jogadores, muitas vezes sem que grande parte deles percebam.

Há tempos que gamers são apenas números em bases de dados. Será que acordaremos a tempo? Achei muito interessante, aliás, o que Gabe Newell disse ao Destructoid, há alguns dias atrás, a respeito do Origin: “Fui finalmente forçado a realizar o download do Origin em meu computador, e senti como se tivesse dado as chaves de minha casa a um assaltante. Dito isto, ele é projetado de maneira limpa e funciona, o que é tudo que você pode pedir. Ele só parece tão completamente, completamente sem sentido. Ter um serviço apenas para uma publisher de games não me parece tão mais competitivo quanto parece inútil“.

É, ele tem razão. Até o momento em que o Origin incrementar o seu catálogo. Mas a briga com o Steam vai ser dura, e duvido que, pelo menos a curto-médio prazo a EA consiga abalar a empresa de distribuição digital de Gabe Newell.

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