Enola: uma experiência de horror e amor de El Salvador

Vamos falar um pouco a respeito de jogos de terror, gênero este que anda meio em baixa, ultimamente. Ou, quem sabe, gênero este que anda recebendo lançamentos que com ele não condizem. Foi-se o tempo em que nos assustávamos bastante com um game de horror. Em que éramos obrigados a jogar de dia, com pessoas em casa, justamente para nos “sentirmos mais seguros”. Foi-se o tempo em que um jogo de terror continha doses suficientes de elementos que nos faziam ter sonhos ruins à noite.

Foi-se o tempo em que um jogo de terror era realmente um jogo de terror, e não um jogo de tiro com um ou outro fantasminha ou zumbi. No caso destas últimas criaturas, aliás, a situação tende a ser um pouco pior, se estivermos em busca de um jogo assustador, pois elas acabam se transformando em alvos muitas vezes fáceis para descarregarmos nossas pistolas. Pura e simplesmente. Grande parte dos jogos de horror, hoje em dia, é composta por shooters revestidos com uma leve capa sobrenatural, cheios de pretextos para utilizarmos rifles de precisão, granadas, shotguns ou até mesmo armas futuristas.

Enola - Game

Bem, mas estes tais “tempos dourados do horror nos games” não foram de todo esquecidos. Ainda existem bons estúdios trabalhando na área, criando jogos realmente interessantes e aterrorizantes, que levam os sustos muito a sério. Escrevi um pouco a respeito do jogo de horror Enola, há algum tempo atrás, e de lá para cá venho acompanhando o desenvolvimento do título com grande interesse. Ainda em fase alfa, Enola é um projeto bastante interessante, obra do estúdio The Domaginarium, de El Salvador.

Enola. Um anagrama para Alone (sozinho, em inglês)? Talvez, ou muito provavelmente. E é justamente o fato de, no jogo, nos encontrarmos sozinhos em uma ilha muito misteriosa na qual uma presença escura está sempre à espreita que torna a experiência mais envolvente. Mais estranha. Mais assustadora.

Em Enola também não contamos com armas, da mesma forma que no ótimo Amnesia: The Dark Descent. Pelo menos, não da maneira que todos esperam, ou melhor, esperariam, quando ouvem falar em títulos de horror “modernos”. Esqueça tiroteios, escopetas, cabeças explodindo, zumbis e coisas do tipo. Temos aqui um jogo de horror onde tudo é mais sutil. Mas nem por isso menos assustador.

Ao invés de tentar desarmar as defesas do jogador através da visão de corpos podres ambulantes, violência e outros elementos tão comuns hoje em dia, o jogo da The Domaginarium “planta” em sua mente a ideia de que algo inesperado sempre pode surgir de trás “daquela árvore”, de que local algum é seguro. O medo, aqui, é sugerido, e não empurrado goela abaixo. E, claro, de maneira bastante similar ao que ocorre com a criação da Frictional Games, o resultado é muito mais convincente.

O jogo faz uso da Unreal Engine 3. Temos ambientes opressores e escuros, além de momentos em que estes se transformam, algumas vezes gradativamente (seria apenas nossa imaginação?), deixando que o jogador se dê conta através de uma estratégia que não escancara as portas, da força negra que se esconde e geme raivosa, faminta por nossos gritos e gemidos. Em Enola também temos uma história de amor, e sua ligação com os acontecimentos do game vai bem além do que aquilo que pensamos a princípio.

Explorar, em Enola, é necessário. É imprescindível, eu diria. Através de nossas andanças na ilha temos contato com aparições e também com puzzles que devem ser resolvidos. O isolamento pesa bastante, e muitas vezes a sensação de solidão se torna maior ainda devido aos efeitos sonoros e à trilha sonora. O conjunto áudio-visual em criação pelo estúdio de El Salvador consegue nos fazer imergir em um mundo onde o amor e até mesmo a vingança brincam de mãos dadas com o terror, de uma maneira tal que muitas vezes nos assustamos com elementos que não estão ali, no jogo, naquele momento, para nos causar medo.

Enola - Game

Diversas informações a respeito da ilha misteriosa vão sendo fornecidas ao jogador conforme seu progresso, e o grande quebra-cabeças também vai sendo resolvido, aos poucos, com a ajuda de puzzles espalhados pelo cenário. Estes estúdios independentes que desenvolvem jogos de horror puro, como Enola e Amnesia, estão mesmo de parabéns. Eu, que sempre adorei o gênero, fico bastante feliz quando me deparo com este tipo de trabalho.

Com jogos eletrônicos sutis, elegantes e nos quais percebe-se que os desenvolvedores deram grande atenção a detalhes que foram esquecidos por muitos títulos “AAA” por aí. Títulos “AAA” que, apesar de rotulados como “jogos de horror”, muitas vezes nos fazem rir e/ou acabam nos oferecendo mais pancadaria e tiroteios do que qualquer outra coisa. Pseudo games de horror. Jogos muitas vezes pertencentes a franquias que contam com capítulos que um dia já foram capazes de causar medo.

E é também devido a isto que vejo enorme valor no trabalho de estúdios como a The Domaginarium e a Frictional. Estes profissionais se prendem a um nicho extremamente específico e que, talvez, não conte com muitos fãs. Também podemos enxergar grande amor aqui, não? Eles desenvolvem excelentes trabalhos criando jogos que acabam sendo muito diferentes de seus “irmãos mais famosos”. Totalmente diferentes, uma vez que estes tais jogos de horror que vendem muito e custam caro geralmente não são nada aterrorizantes, não entregam a experiência assustadora que gostaríamos.

Enola é um jogo que pode até não agradar a muita gente, que pode ser visto por muitos jogadores como algo “lento”. Obviamente, também, temos aqui um título que não pode competir de igual para igual no quesito “gráficos” com as tais grandes produções. Mas aí eu pergunto: são necessários gráficos super realistas para causar medo no jogador? Creio que não, e quem jogou Amnesia sabe muito bem do que estou falando. Além disso, a fragilidade dos protagonistas destes jogos de horror puro criados por pequenos estúdios é algo muitas vezes avassalador.

A certeza de que algo poderoso e maligno nos observa constantemente e de que não temos arma alguma (até mesmo porque elas seriam inúteis, dentro deste escopo) pode já ser assustadora, de forma isolada. Se nos lembrarmos também de que tal escuridão está próxima e de que tudo o que temos em volta são quebra-cabeças misteriosos, árvores que projetam sombras horríveis no chão, ruídos esquisitos, o barulho das ondas quebrando e nossos próprios passos ecoando assustadoramente, fica fácil entender o que é um jogo de terror verdadeiro e o porquê de muitos fãs deste tipo de trabalho se sentirem arrebatados quando colocam as mãos em algo assim. Bem, e não nos esqueçamos também das aparições, das sombras, dos gritos, das vozes, etc.

Talvez seja bem interessante falar um pouco a respeito da The Domaginarium, responsável pelo jogo. Venho mantendo contato com Roberto Quiñonez, um dos membros do estúdio, e fiz a ele algumas perguntas. Foi muito legal saber, por exemplo, que o estúdio é composto por profissionais de diversos países. Isto é algo muito bacana quando se trata de uma pequena empresa, claro, pois sabemos que aqui o contato entre a equipe é muito mais frequente e próximo. Que ideias passam “de mão e mão” com mais rapidez e facilidade, e que a liberdade criativa é enorme.

Enola - Game

A presença de diferentes pessoas, de diferentes países, cada uma, quem sabe, com costumes diferentes, pode representar algo bastante saudável para o desenvolvimento de um jogo eletrônico, neste caso. Na The Domaginarium temos, claro, pessoas de El Salvador, como o próprio Roberto, e temos também um programador alemão (que vive, aliás, em El Salvador, e é casado com uma salvadorenha), além de gente dos Estados Unidos. Bem, fica aqui a dica para um ótimo jogo, se você aprecia experiências assustadoras na frente de seu computador.

Aproveitando a ocasião, vale lembrar que Enola tenta um lugar no serviço de distribuição digital da Valve, através do Steam Greenlight, e durante esta semana está em promoção, no Desura, saindo por R$ 11,99 (ao invés de R$ 30,01 – um desconto de 60%). O jogo recebeu um update recentemente, e também ganhou um novo trailer, o qual segue abaixo, juntamente com mais algumas screenshots.

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9 Comments

  1. Que interessante!

    E um jogo feito por uma desenvolvedora de El Salvador! Quem diria hein? Enquanto isso, no Brasil, muito raramente (pra não dizer nunca) aparece algo bacana assim. Triste.

    Mas então, qual é a ideia do jogo? Quem é o protagonista e o que ele busca? Como ele foi parar nessa tal ilha? :P

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    • @Artur Carsten,

      Legal, né?

      Então, o protagonista na verdade é uma mulher. Pouco se sabe sobre ela, ainda. E, também, o jogo ainda não conta com um final. Você vai pegando dicas sobre a identidade da mulher, durante o jogo.

      Bem, e no link abaixo você encontra uma pequena imagem da personagem principal, ou seja, você. :D

      https://www.facebook.com/photo.php?fbid=510330635695593&set=a.327171287344863.75365.162944540434206&type=1

      @Marcos A.S. Almeida,

      Então, Marcos, acho esse tipo de coisa muito, muito legal. Não consigo imaginar algo assim saindo de uma produtora “mainstream”, por exemplo. Sobre as armas, acho que faz parte da ideia, do pensamento que esses caras tem pra esses jogos. No Amnesia, por exemplo, uma shotgun ali estragaria tudo. E, no Enola, estragaria tudo, também, e seria algo totalmente ineficaz. Acho que depende da situação, do enredo, da proposta do jogo. Nesse caso acho que se encaixa bem. :)

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  2. Tô falando que o futuro está nos indies…Desde que, óbvio, a mentalidade continue indie, mesmo após o crescimento.Só não concordo com esse negócio de não ter armas!Não gosto de ficar á mercê do jogo, gosto de dominar a situação, e sem armas como é possível?Não, definitivamente não dá!

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  3. Creepy.
    Gosto de terror, mas depois de ver as imagens desse jogo, decidi que NUNCA vou jogar.

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    • @Fefa,

      Sério? Faz como muita gente (saindo aqui pela tangente) quando joga o Amnesia: joga com luz acesa, gente em casa, etc…hehehehehe :)

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  4. Eu nem terminei Amnesia! Acho que nem terminei 1/4 dele. Jogo uns 10 minutos, começo ficar perturbada e vo jogar outra coisa haha

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    • @Fefa,

      Sério? Nossa, mas o jogo é bem perturbador mesmo…hehehe E o A Machine for Pigs vem aí. Se os caras “melhorarem” o horror, já viu…rs

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  5. “Sério? Faz como muita gente (saindo aqui pela tangente) quando joga o Amnesia: joga com luz acesa, gente em casa, etc…hehehehehe”

    Esta carapuça também serve em mim. :/

    O jogo parece ser muito bom pro gênero mesmo, mas concordo em partes com o Marcos A.S. Almeida.
    Não é que eu não concorde com o estilo de jogo, no qual realmente não cabem armas. É que o estilo não é pra mim. Ficar completamente indefeso em ambientes claustrofóbicos, mesmo que num jogo, é tão estressante e frustrante pra mim que não vale a pena. Para mim, foi muito frustrante não poder pegar nem um martelo qualquer no Amnesia. Aliás, chegou num ponto no Amnesia em que eu estava prestes a arrancar o pc da tomada, jogar o maldito num pátio de igreja e o padre que se virasse com o demônio.

    Então, parabéns para a empresa pelo jogo, espero que continuem criativos nos lançamentos e desejo todo o sucesso do mundo. Mas esse jogo eu só compro se perder alguma aposta.

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    • @Bruno Gurgel,

      É, isso pode ser bastante perturbador mesmo, Bruno. Você não chegou a finalizar, então, né?

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