Confesso que a princípio o único game que me interessava no Summer of Arcade deste ano era Lara Croft and the Guardian of Light. Entretanto, depois que comprei o Tomb Raider Anniversary durante uma promoção no GamersGate, essa ansiedade diminuiu um pouco. É fantástico ver a “Lara redondinha”, como bem disse o nosso leitor Henrique. 🙂

Bom, após assistir ao trailer, ler algumas matérias e conhecer a opinião de alguns leitores a respeito de Limbo, o primeiro XBLA lançado no Summer of Arcade 2010, baixei a demo do game, assim que disponível na Xbox Live. Após alguns minutos de jogo, foi impossível não comprar o título da Playdead, principalmente com Microsoft Points na conta. Neste exato momento, estou aqui com a nítida impressão de que Limbo será o melhor título lançado durante o Summer of Arcade 2010. O game é algo totalmente diferente de tudo aquilo com o qual estamos acostumados em se tratando de games, e é bem possível que ele provoque o mesmo tipo de “barulho”, digamos, que Shadow Complex e Trials HD provocaram no ano passado.

É claro que será um barulho sem fogos de artifício, e não digo isto depreciando o game, muito pelo contrário. O título deste artigo tem tudo a ver com o que eu sinto ao jogar Limbo. O pequeno (e sinistro, também) garoto que perambula pela floresta mais sinistra ainda é o protagonista de eventos que, à primeira vista, seriam totalmente corriqueiros. Entretanto, sob tudo isto está uma escuridão opressora que faz com que tudo assuma um ar meio que dantesco. O próprio início do game, onde tudo o que se enxerga é a floresta repleta de escuridão, é ele próprio escuro. Não apenas no sentido literal da palavra “escuro”, mas também no sentido figurado.

A escuridão, neste momento, está presente no fato de que o garoto está ali, deitado, dormindo, e você mal o nota. Você deve então, neste momento, pressionar os botões “A” ou “B” para que ele abra os olhos, lentamente, e se levante, também lentamente. Aliás, a jogabilidade de Limbo é extremamente simples: utilize o botão “A” para pular e o “B” para interagir com elementos in-game.

Quando o garoto se levanta, de olhos abertos, percebe-se que seus olhos são como duas lanternas que parecem dizer ao jogador: “– Cuidado!“. Não que o pequeno garoto perdido seja um perigo, mas é como se ele conseguisse transmitir todo o medo e o perigo que sente ao gamer. Seu próprio corpo é uma sombra escura, no jogo, e a pouca claridade que se presencia em Limbo é ela também sinistra. Tudo parece meio que desfocado, obscurecido, como se uma força poderosa, maléfica e desprovida de luz estivesse observando e controlando tudo. A impressão que se tem é a de que algo “suga a luz”.

A câmera acompanha toda a movimentação do garoto de forma dinâmica, se aproximando ou se afastando do mesmo conforme a necessidade de destacar ou não determinados momentos da ação. Os movimentos do menininho são muito realistas. Fluídos ao extremo, sofrem a influência da mesma física apurada que faz com que um barco, por exemplo, balance perigosamente quando você (o garoto), sobre o mesmo, começa a pular.

Pedras rolando em saliências de penhascos, sons de grilos ao fundo, quebrados muitas vezes por um silêncio sepulcral que faz com que o menino na escuridão se torne assustador sem no entanto representar perigo algum, moscas sobrevoando carcaças mortas que irão ajudar na resolução de puzzles estranhos e perturbadores e a ausência total de trilha sonora, fazem de Limbo um dos games mais bonitos, intrigantes e inovadores que tive o prazer de jogar nos últimos tempos.

Não pense você que os gráficos totalmente em preto e branco são um fator negativo. Muito pelo contrário: eles são belíssimos e elegantes, e ajudam a aumentar a sensação de medo e perturbação que sentimos ao jogar este fantástico trabalho da Playdead (nome muito sugestivo, aliás).

Você já imaginou um game onde um garotinho pode ser morto por uma armadilha para pegar lobos ou ursos? Ou onde este mesmo garotinho pode morrer afogado, sendo possível observarmos seu sofrimento enquanto isto? Isto tudo pode ser presenciado em Limbo, título que, sem sombra de dúvidas, ainda provocará muito “barulho”, pois é, além de belíssimo, estranho, pois consegue fazer com que a experiência de um garoto perdido em uma floresta escura e enorme se transforme em algo realmente assustador.

A própria desproporção entre o garoto e a floresta ajuda a nos passar a sensação de que algo enorme e maléfico está sempre à espreita, e de que o menino vai morrer de forma terrível nos próximos 2 ou 3 minutos de gameplay. Já de antemão você percebe o quão perturbador o XBLA é, ao navegar pelos menus do game e se deparar com uma opção para ligar ou desligar um “filtro contra imagens chocantes”.

O brinde por caminhar na direção errada, assim que o game começa, é o desbloqueio de uma conquista chamada “Direção errada”, valendo 5G. Vegetação se movendo ao sabor do vento, árvores enormes e com certeza centenárias e uma certa tristeza intrínseca ajudam a compor o fantástico cenário no qual se desenrola o gameplay de Limbo.

Com certeza, este é um título que passará (aliás, já está passando) na frente de outros games que tenho para jogar. Maravilhoso primeiro trabalho de uma empresa independente sediada na Dinamarca. Uma verdadeira obra de arte, e chego a pensar em Braid ao observar e jogar Limbo. Em um mundo onde cada vez mais caminha-se na direção de super produções, games AAA, títulos repletos de complexidade e horas intermináveis de gameplay, Limbo consegue nos cativar fantasticamente com sua aparente simplicidade e sua roupagem inocente que esconde uma escuridão muito perigosa e sedenta por sangue. O seu sangue.

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