John Riccitiello deixa a EA – Gosto amargo dos dois lados

John Riccitiello - EA

Muita gente já esperava por isso. A própria imprensa, inclusive, principalmente aquela ligada ao mundo dos jogos eletrônicos. John Riccitiello deixou o posto de CEO da gigante EA. O anúncio da saída do executivo aconteceu poucos dias após o lançamento do simulador SimCity, da Maxis, lançamento este que se mostrou um verdadeiro desastre (isto sem falar nos problemas no próprio jogo em si).

Talvez os investidores tenham visto o desastre acima mencionado e a onda de ódio que foi levantada contra a EA como os motivos que faltavam para que a cabeça do chefão da EA lhes fosse finalmente entregue em uma bandeja. De qualquer maneira, as coisas para Riccitiello, que assumiu o cargo em 2007, não andavam nada bem já há algum tempo.

A empresa vem sofrendo uma grande queda em suas ações, e no desenvolvimento do MMORPG SWTOR foram gastos 200 milhões de dólares, uma quantia extremamente alta e motivo de mais problemas e irritações para os investidores, uma vez que o título não se saiu nada bem e logo teve suas portas escancaradas para que qualquer pessoa fosse capaz de jogar sem pagar nada (é, o chefão não passou no teste – bem que eu disse que “uma falha aqui significaria, talvez, a cabeça de Riccitiello“).

Da mesma forma, tenho certeza de que muita gente (não os jogadores/clientes, é claro) deve ter visto a operação “vamos tentar limpar nossa barra” pós-lançamento de SimCity com maus olhos, o que certamente piorou ainda mais as coisas para o lado de Riccitiello. Estou falando dos jogos grátis que a Electronic Arts prometeu a todos os compradores de SimCity (Battlefield 3, Bejeweled 3, Dead Space 3, Mass Effect 3, Medal of Honor Warfighter, NFS Most Wanted, Plants vs. Zombies e SimCity 4 Deluxe). Não podemos também nos esquecer dos mais de 600 milhões gastos com a compra da PopCap.

Afinal, sair por aí dando produtos de graça não é algo muito apropriado do ponto de vista comercial, pelo menos não quando as coisas não vão bem e quando elas não vão bem devido a erros de gestão, práticas abusivas e a uma enorme campanha em prol do “vamos todos odiar a EA”, promovida, claro, pela própria empresa da qual John Riccitiello era o CEO (ainda mais quando se trata de uma empresa que conseguiu a façanha de ser eleita a pior dos Estados Unidos). Dar jogos de graça também não é algo lá muito bacana para a empresa e seus investidores se o motivo do presente for uma “burrada” (ou várias).

É até mesmo impossível dissociar o desastre de John Riccitiello com o desastre de SimCity. O DRM always-on continua sendo massacrado por jogadores e imprensa, com razão, e já se teve notícias de que ele pode abrir as portas para que cidades sejam destruídas por pessoas nem um pouco bem intencionadas através de um hack bem “interessante”. Poderíamos até dizer que este feitiço estava sendo virado contra o feiticeiro e completarmos a frase com um sonoro “bem feito”, não fossemos nós, jogadores, os prejudicados.

Hackers também já demonstraram o quão vazias são as palavras de Lucy Bradshaw, da Maxis, principalmente quando ela defende a necessidade de um jogo totalmente online (e jamais toca no assunto “DRM”): além de terem demonstrado que é possível jogar SimCity offline, esse pessoal conseguiu, dentre outras coisas, abrir a possibilidade de criação de cidades maiores (as pequenas cidades no novo simulador estão também sendo bastante criticadas).

A Electronic Arts, que se gabou no último dia 18 de ter vendido mais de 1,1 milhão de cópias de SimCity nas duas primeiras semanas pós-lançamento, mencionando que este seria o “maior lançamento de um SimCity em todos os tempos“, agora é obrigada a assumir que as coisas não vão bem (a saída de John Riccitiello é uma das grandes provas disto). Digamos até que ela não está assumindo nada diretamente, mas podemos claramente depreender que goteiras e rachaduras começaram a aparecer pela casa. Ah, estamos também falando daquela mesma empresa que também tentou comprar a Take-Two.

Em sua carta de demissão, Riccitiello também fala a respeito de sua responsabilidade. Ok, metas não foram atingidas, planos não deram certo. Ele ainda se diz 100% responsável, algo de que duvido muito. Larry Probst é o novo CEO da EA; por enquanto, ele ocupa o cargo temporariamente, e se sua permanência será boa ou não para a empresa (o que nem sempre pode resultar em algo bom para os consumidores, é claro), ninguém sabe.

Probst foi CEO da companhia durante o período de 1991 a 2007, e ela não deixa de dar uma alfinetada no executivo que deixa o cargo, ao dizer que “como CEO, Probst fez com que as receitas anuais da empresa aumentassem de 175 milhões para aproximadamente 3 bilhões de dólares“.

Não sabemos se a partir de agora veremos efeitos mais fortes da tal síndrome de EA. Não sabemos se e como a empresa enfrentará este temporal, nem tampouco como dele sairá. Também não sabemos se muitas das franquias que amamos permanecerão no mercado ou não. Depois das microtransações em Dead Space 3 (citando o caso apenas como um mero exemplo, pois podemos encontrar diversos outros problemas), aliás, penso que podemos esperar por tudo, em se tratando da Electronic Arts.

Podemos sentir um gosto amargo na boca quando conversamos a respeito deste assunto, entretanto. Tal gosto amargo é algo que podemos perceber nos dois lados, aliás. No lado da publisher e no lado do consumidor, do jogador. Tudo isto é realmente lamentável, independentemente de qualquer coisa, se pensarmos nas franquias e nos estúdios que estão nas mãos da companhia.

Tudo isto fica bem triste, também (e pensando bem, será que deveríamos nos sentir assim?), quando nos damos conta de que, acima de qualquer coisa, desenvolvedoras e publishers são empresas quase iguais a quaisquer outras, e querem lucrar, acima de tudo. Obviamente existem “maneiras e maneiras” de se fazer as coisas, mas em muitos casos geralmente acredita-se que os fins justificam os meios, e aqui, infelizmente, não importa quem está no meio.

Não importa quando, como e onde o consumidor, o jogador, vai sofrer. Além disso, pode ser que Probst leve a EA a novos rumos, que ele faça com que seu valor aumente; enfim, estamos aqui lidando com hipóteses e nada ainda pode ser tomado com certo. Mas nada elimina um certo sentimento de que nenhum jogo ou franquia conta com vidas infinitas.

De qualquer forma, quando empresas estão interligadas desta forma é muito fácil observarmos um danoso efeito dominó, logo após problemas com o elo mais forte. Quantas vezes já não vimos grandes publishers fechando estúdios e acabando com a chance de bons jogos ganharem continuações? A Activision já foi responsável por algumas destas situações, além da própria EA (quem se lembra da Pandemic?).

A série Dead Space muito provavelmente está fadada ao engavetamento, e o fracasso de Medal of Honor: Warfighter torna a hipótese de vermos um novo MOH no mercado muito remota. Sempre critiquei a EA por aqui, no entanto, é interessante separarmos a empresa de suas propriedades intelectuais e estúdios (é o que faço com Mass Effect). O simples nome da Maxis, por falar nisso, deve evocar fantásticas lembranças em muita gente, e o mesmo ocorre com a BioWare e outros estúdios que agora fazem parte do “feliz grupo EA”.

Uma futura falência da gigante representará, quem sabe, a chegada de um caso semelhante ao da THQ aos holofotes da imprensa gamer, e aí, todos conhecemos muito bem as consequências. Leilões de franquias e estúdios, desemprego, séries de jogos sem dono e “perdidas por aí”, após a venda de seus estúdios, descontinuações, etc.

Até torcer pelo fechamento desta empresa eu já torci, e não posso negar que este pensamento ainda hoje me ronda a cabeça. Não posso negar que gostaria bastante de observar uma EA derrotada, de joelhos, pedindo desculpas de verdade aos seus clientes (uma utopia, obviamente). Se isto acontecer algum dia, porém, espero que algum milagre faça com que não vejamos uma nova “falência da THQ”, com todos os fechamentos, demissões e perdas resultantes.

Quero crer que, aconteça o que acontecer, pelo menos aquilo que realmente importa para nós enquanto jogadores estará à salvo, seja nas mãos de quem for: os jogos que adoramos e jogamos (afinal, ninguém pode negar, por exemplo, que, independentemente de qualquer coisa, o novo SimCity deixou os fãs extremamente tristes – tristeza que poderá ficar ainda maior conforme a poeira baixar, uma vez que todos consigam perceber que o jogo não é aquilo que esperavam).

Aliás, olha só que bacana: logo após o anúncio da demissão de John Riccitiello, o Origin está com uma promoção no ar, oferecendo descontos em diversos jogos, incluindo títulos recentes como Crysis 3 e Dead Space 3. Será que tentaram firmar parceria com o Humble Bundle, ou ainda não foi preciso?

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9 Comments

  1. Será que vai chacoalhar o suficiente pra reverem algumas estratégias? A EA caiu desastrosamente no meu gosto ultimamente.

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    • @Erick,

      Tomara, viu. Fizeram tanta burrada, estragaram tanta coisa, que haja trabalho nesse sentido, daqui pra frente.

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  2. O Riccitiello foi demitido porque o DRM do emprego dele caiu hahahahaha (fiz esse comentário na PC Gamer e tomei 108 likes :P)

    http://www.pcgamer.com/2013/03/18/ea-ceo-john-riccitiello-steps-down/#comments

    Enfim, fico feliz que as consequências tenham (finalmente) batido à porta da EA, depois de ela ter passado os últimos cinco anos matando franquias e distorcendo o mercado de jogos. Por causa dela e da Activision, games quase deixaram de ser um produto artístico pra se tornar um meio fácil e rápido de cegar consumidores e obter dinheiro. A indústria de jogos se tornou uma simples máquina de fazer dinheiro, independente do que os consumidores pensem.

    Tenho saudades do tempo que você ligava um jogo e ouvia aquele cochicho “EA Games, challenging everything!”, e tinha certeza que você estava jogando um game de qualidade, de primeira linha. Os primeiros The Sims, SimCity, Need for Speed, FIFA, Battlefield… Agora, é chocante quando paramos pra ver o estado deplorável que essas franquias estão atualmente. Isso é muito triste.

    A EA mereceu 100x mais a falência do que a THQ. Uma eventual derrocada da EA pode até ser desastrosa pro mercado como um todo (já que eles detém franquias famosíssimas), mas eu não consigo olhar pra situação atual dos jogos dela e achar que eles ainda têm algum futuro.

    Conseguiram me fazer odiar praticamente todas as franquias clássicas que me marcaram quando eu era menor. The Sims, Need for Speed, FIFA, Medal of Honor, Battlefield. E até as mais atuais, como Mass Effect e Dead Space, mesmo sendo de boa qualidade, foram minadas por políticas comerciais podres.

    Ah, e também conseguiram fazer com que eu não tivesse mais remoroso em piratear um jogo. Depois de quase 3 anos sem baixar um jogo pirata, pela primeira vez eu baixei uma “cópia alternativa” de um título da EA sem sentir o menor peso na consciência. Não sei se foi porque eu fiz questão de contribuir para os números de cópias ilegais da empresa ou se porque a “cópia alternativa” era o único meio que eu conseguiria jogar sem ser limitadopor um sistema de microtransação estúpido ou bloqueado por DRM falho.

    Daqui pra frente, ou o novo CEO muda o foco da empresa, ousando mais e apostando em iniciativas inéditas (ao invés de ficar batendo na mesma tecla e estragando franquias clássicas), ou a EA vai continuar ladeira abaixo. Pode não falir, mas a base de consumidores deles tá bastante fragilizada, especialmente depois da fiasqueira com o SimCity.

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    • @Artur Carsten,

      Hahahahaha… gostei da tua frase do DRM…rsrs

      Então, eu fico feliz. Quem sabe, de agora em diante, a empresa não dê uma guinada. Não mude radicalmente (se bem que acho que, se algo assim acontecer, vai ser aos poucos). Mas, pelo menos, o aviso já foi dado, digamos. Poxa, a EA tem franquias espetaculares nas mãos. Eu ainda digo que gostaria da EA no lugar da THQ. Se bem que tanta coisa está mudando, alguns desenvolvedores e publishers independentes estão lidando de forma tão bacana com o público e entendendo o mercado atual de forma tão melhor, principalmente em relação à distribuição digital, que me pergunto se essas grandes publishers permanecerão no mercado por muito tempo.

      Sobre sua ausência de remorso, Artur, entendo perfeitamente. E é triste quando uma empresa consegue nos fazer sentir desse jeito, né? 🙁

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  3. E essa promoção no Origin logo depois da saída do CEO tem maior cara “PROMOÇÃO APROVEITA QUE O CHEFE VAZOU!” hahhahaha.

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  4. Finalmente o respaldo da soberba!
    Há tempos a EA vem primando os lucros em detrimento ao que importa: a diversão! Um gamer satisfeito certamente atrairá mais divisas pois repassará sua satisfação a outros.
    Difícil dizer que a culpa da política de lucros da EA sej do CEO deposto. Mas que é inevitável apontar para ele, afinal,projetos e decisões deve e vão passar por seu crivo. Considerando isso, espero que a EA veja nessa condição oportunidade de se reavaliar enquanto publisher. Estúdios pequenos com idéias simples e inovadoras tendem a conseguir notiriedade positiva com uma velocidade igual ao quanto a EA consegue angariar de ódio da comunidade gamer.
    Agora é esperar para ver como isso realmente afetará a empresa e se isso a tornará mais próxima dos jogadores.

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    • @1st pessoa,

      Realmente. Finalmente. Vamos torcer pra que tudo isso acabe bem. Ou, no mínimo, que franquias e títulos ótimos que tanta gente ama de paixão não sejam esquecidos, jogados no lixo, etc. Que a EA faça uma reavaliação, mesmo, como você disse, é o que eu espero. 🙂

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  5. ebaaaa tomara que as coisa melhorem

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