Esta polêmica toda a respeito do final de Mass Effect 3 tem me feito pensar bastante. Aliás, perdi um pouco (sendo otimista) do grande respeito que possuía pela BioWare, depois que o Dr. Ray Muzyka disse que sua empresa está trabalhando em mudanças para, é claro, agradar aos fãs (estou deixando de incluir aqui quaisquer motivos escusos). A que ponto chegamos?

Um punhado de “fãs” insatisfeitos com o final de um jogo eletrônico se sente no direito de reclamar de tal final. Bom, até aí tudo bem. O problema é a desenvolvedora do título em questão ceder às pressões e, quem sabe, alterar o final do jogo. Não cheguei ainda ao final de Mass Effect 3. Tenho evitado qualquer tipo de material que possa conter spoilers, mas infelizmente já me deparei com diversas pistas a respeito.

Mas independentemente de qualquer coisa, não acredito em qualquer justificativa para que algo assim aconteça. Não são os games uma forma de arte? Neste caso, que direito têm os apreciadores de tal arte de se imiscuírem no processo criativo e tentarem ditar regras? Adoro a franquia Mass Effect e estou adorando Mass Effect 3. Nunca escondi de ninguém essa minha paixão pela série.

Entretanto, quero ver e jogar o final original do título, independentemente de qual seja ele e do que vai acontecer. Se ele for ruim, que seja. Se for bom, ótimo. Aliás, estamos também lidando com elementos relativos, aqui, pois o que é bom para mim pode não ser para você, e vice-versa. Se a BioWare fez besteira ou não, que convivamos com isso.

Se as escolhas realizadas pelo jogador durante o jogo (o supra-sumo da franquia) não influenciam em seu final ou o alteram de forma mínima, isto é algo que foi decidido pela desenvolvedora e, venhamos e convenhamos, talvez com o “grande e nefasto dedo da EA” sempre presente. Mas se isto ocorreu, quem somos nós, jogadores/apreciadores, para brigar contra tal coisa? Para exigir que a empresa altere o final do jogo?

Isto abre até mesmo um precedente perigoso. Futuros títulos e séries podem sofrer com esta mesma pressão e os fãs que não aprovarem/desejarem as possíveis mudanças terão de aguentar calados. Alguém já imaginou se Tolkien, por exemplo, estivesse vivo hoje em dia e cedesse a uma hipotética pressão de seus “fãs” para que Melkor e suas crias fossem extirpadas de Arda? Ou se ele, também cedendo a tal hipotética pressão, eliminasse de sua obra a “destruição das Duas Árvores de Valinor” por Ungoliant? Ou, por exemplo, se “cinéfilos” tivessem reclamado e exigido um novo final para o filme “Gladiador”, só porque Máximus morre no final?

Onde está a seriedade em relação aos jogos eletrônicos? Quer dizer: não gostei do fato de um personagem de um determinado game possuir cabelos castanhos e, só por isso, tenho o direito de reclamar com a produtora e exigir uma mudança? Isto é algo bem menos impactante do que o que está em pauta em relação a Mass Effect 3, é claro, mas se pararmos para pensar, trata-se de algo improvável, neste possível e triste futuro no qual, talvez, games tenham finais e narrativas alterados devido ao fato de uma parcela dos jogadores não terem deles gostado?

Um artista não é livre para criar o que desejar, da forma que bem entender? Se sua obra será apreciada, e por quem ela será apreciada, já é um outro assunto. Mas o processo criativo é único, e o artista não deve sofrer interferências que alterem a maneira como seu trabalho chegará ao mercado.

Mudar o final de um jogo eletrônico já lançado devido a solicitações de “fãs” não faz sentido. Muito pelo contrário. E, além disso, representa uma demonstração de fraqueza por parte da desenvolvedora e da publisher em questão. No caso da EA, é claro que sabemos que ela quer mais é lançar DLCs e mais DLCs. Quem sabe não tenhamos DLCs com finais diferentes? DLCs onde os Reapers vencem a guerra? DLC onde os Reapers são exterminados? DLCs onde, por exemplo, qualquer menção à criação da genophage pelos Salarian seja eliminada de ME3? Tudo é possível, agora.

Mas independentemente de tudo isto, mudar o final do jogo é um erro. É um retrocesso. É como se a desenvolvedora estivesse assinando um atestado de incompetência e jogando todo o seu trabalho no lixo. É como se ela dissesse ao mundo: “– Ok, não sei onde estávamos com a cabeça. Fizemos um mal trabalho e vamos corrigi-lo. Vocês estão certos. Nos desculpem. Mass Effect 3 é uma porcaria. E obrigado por nos avisarem de nossa falha“.

Mesmo com o “dedo maléfico” da Electronic Arts e o possível lançamento de DLCs caça-níqueis, o final de Mass Effect 3 jamais deveria ser alterado, seja ele qual for. Uma obra de arte é uma obra de arte. Depois de finalizada, ela deve/pode ser apreciada ou não. Todos temos livre arbítrio para escolher um jogo eletrônico e também para dizermos se dele gostamos ou não. Quem de tal obra não gostar, que engula seu desgosto e aceite a decisão do criador. Se o desenvolvedor supostamente errou e/ou se ele deu a seu game um rumo que os fãs não gostaram, que seja. A obra é dele (ou deles), e não cabe aos jogadores, que pagaram 50, 60 dólares por uma cópia do título, brigarem por uma mudança na narrativa.

A beleza de podermos escolher um jogo, um gênero, uma franquia, é enorme. Conhecemos e jogamos títulos que adoramos. Da mesma forma, conhecemos e jogamos títulos que detestamos. E isto tudo é relativo: jogadores diferentes possuem gostos e expectativas diferentes. A BioWare infelizmente deu mostras de que vai ceder às pressões, seja dos “fãs”, seja da EA. É muito provável que ela não seja mais a mesma.

Muita gente chegou a reclamar dos possíveis relacionamentos homossexuais em Mass Effect 3, o que é um total absurdo! Ora, será que vão desejar também DLCs para acabar com esta possibilidade? Estamos em pleno século 21 e muitos “gamers descolados” ainda se preocupam com este tipo de coisa? Será que tais “jogadores” deixarão de comprar um lançamento pertencente a uma franquia que adoram se descobrirem que existem profissionais com diferentes opções sexuais trabalhando no título? Ridículo, não?

É. E depois ainda querem mais seriedade em relação aos jogos eletrônicos e aos jogadores. Esta seriedade deve partir também de quem consome este tipo de produto. A BioWare e/ou a Electronic Arts (bem como os “fãs reclamões) parece que não entenderam isto. Daqui para a frente, então, “o fim não é o fim”? Um jogo poderá ter seu final modificado se “petições online” forem iniciadas? Triste.

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