Bem, o que eu temia vai acontecer. Não da maneira que eu imaginei, mas nem por isso o acontecimento deixa de ser triste. A BioWare anunciou o DLC “Mass Effect 3: Extended Cut“, o qual nada mais é que um “pacote de expansão” que irá, quem sabe, resolver o problema dos “fãs” que desejavam um novo final para Mass Effect 3. O DLC adicionará novas cinemáticas ao final do jogo, bem como mais cenas para o epílogo, de forma tal a fornecer maior “clareza ao final de Mass Effect 3”. Lamentável.

A única quase-boa notícia aqui é o fato de que “Mass Effect 3: Extended Cut” será disponibilizado gratuitamente, durante o verão (no hemisfério norte), no Origin, na Playstation Network e na Xbox Live. A Electronic Arts informa que a “oferta” expirará no dia 12 de Abril de 2014.

Estamos todos muito orgulhosos de Mass Effect 3 e do trabalho realizado por Casey Hudson e sua equipe. Desde o lançamento, tivemos tempo para ouvir o feedback de nossos fãs mais apaixonados, e estamos respondendo. Com ‘Mass Effect 3: Extended Cut’, acreditamos ter atingido um bom equilíbrio na entrega das respostas que os jogadores estão buscando, enquanto mantemos a visão artística da equipe para o final deste arco de história no universo Mass Effect“, disse o Dr. Ray Muzyka, co-fundador da BioWare.

Casey Hudson, produtor executivo da série, também se manifestou: “Nós demos novas prioridades a nossos esforços de desenvolvimento pós -lançamento, para oferecer aos fãs que querem mais proximidade com ainda mais contexto e clareza para o final do game, de uma maneira que a experiência parecerá mais personalizada para cada jogador“.

Uma empresa ouvir o feedback dos jogadores e responder aprimorando o game, sua jogabilidade, etc, é uma coisa. Agora, ouvir este feedback e alterar sua obra, é algo bem diferente. Mesmo quando se trata de uma alteração cosmética, como parece ser o caso de “Mass Effect 3: Extended Cut”.

Bem, só o que posso fazer é lamentar. A BioWare (e a EA, é claro – seus objetivos todos podemos meio que adivinhar) cedeu às pressões dos “fãs”. Um precedente extremamente perigoso foi agora aberto, para que finais de jogos sejam alterados mediante solicitações dos jogadores. Isto era realmente necessário? Não creio que caiba aqui qualquer justificativa considerando o enorme lado ganancioso da EA, nem tampouco em relação ao final de Mass Effect 3 não fazer jus ao espetáculo que esta ópera espacial nos proporciona.

Vou tentar evitar spoilers. Ainda não finalizei Mass Effect 3, e até estava conversando sobre isso com algumas pessoas. A experiência que o título nos proporciona é tão intensa, tão marcante, tão profunda, que temos aqui um caso onde o final não se torna muito importante, ou, no mínimo, onde ele se torna diminuto quando se observa o jogo como um todo. Não me importarei com o que acontecer no final de ME3, independentemente de qualquer coisa, pois pude apreciar uma jornada lindíssima antes disso.

Raças dizimadas, perdas terríveis (personagens morreram, em meu jogo – personagens que eu jamais imaginei que fossem partir), grupos humanos lutando em prol de interesses próprios e contra sua própria raça, escolhas que afetam o desenrolar da história (desconsiderando-se aqui o final, ok), como já é de praxe na franquia, momentos extremamente emocionantes, arrepiantes mesmo, união de raças antes inimigas, Shepard com “sangue nos olhos” em relação à Cerberus, Shepard desesperado em algumas situações, um jogo no qual somos expostos a momentos delicados, perigosos e cuja repercussão pode ser grande quase que constantemente: isto temos durante o gameplay de ME3.

Nesta obra prima quiseram mexer. Terceiros, aliás, pressionaram os criadores. Terceiros fizeram pressão para que uma mudança ocorresse. E será que a mudança do final é mesmo necessária? Ou, não uma mudança, mas sim uma maior “clareza”? Mais detalhes, mais explicações? O tal DLC pode até não modificar o final de Mass Effect 3. Ele pode somente “deixar tudo mais claro”. Ele pode explicar, talvez, detalhes que tenham passado despercebidos por grande parte dos jogadores. Mas para que? Isto muda algo no jogo como um todo? E o perigoso precedente que esta decisão da BioWare abriu?

Pode não ser agora, talvez. Mas daqui em diante teremos de conviver com o fato de que o “mimimi” dos “fãs” poderá fazer com que uma empresa repense o destino que resolveu dar à sua obra, ao final da mesma, ao destino de seus personagens? Onde vai parar a indústria de jogos eletrônicos, deste jeito?

Para mim não importam algumas cutscenes a mais no final de um jogo, mesmo se seu final for ruim ou se ele não estiver de acordo com aquilo que eu imaginava. Se um jogo é ruim ou se apenas seu final é infeliz, que direito têm terceiros de se meterem no trabalho da desenvolvedora, em sua visão criativa, e exigirem que elementos sejam alterados?

Temos o direito, sim, de reclamar. Claro. Mas não temos o direito de exigir mudanças. E desenvolvedora alguma com um mínimo de respeito por si própria deveria ceder a tais pressões. Se adquirimos um game, temos de conviver com o risco de que talvez ele nos decepcione, em algum momento. Se isto ocorrer, azar o nosso, infelizmente. Adquirimos um produto acabado, não um serviço. Não vemos coisas semelhantes no cinema. Não se vê finais de filmes sendo alterados e novas versões sendo lançadas somente para satisfazer ao desejo de uns e outros. Por que com os games isto tem de ser diferente?

“Mass Effect 3: Extended Cut” vai “explicar o final” do jogo, trocando em miúdos. O que impede que, a partir daí, novos DLCs sejam lançados pela Electronic Arts, com finais alternativos? O “caminho” foi aberto e, infelizmente, foram os próprios jogadores que tanto reclamam de algumas gananciosas publishers, incluindo a própria EA, escolhida como a “pior empresa nos EUA”, quem deram o aval.

Como podemos exigir que diversos setores da sociedade tratem os jogos eletrônicos com mais seriedade se a própria comunidade de jogadores ainda não se respeita? Se esta mesma comunidade acaba indiretamente, também, fomentando a indústria milionária dos DLCs inúteis? Se muitos jogadores promovem verdadeiras guerras em prol de “sua plataforma”, de “seu ponto de vista”, de “sua empresa preferida”, de “como deve ser o final de um game”? Isto tudo é um tanto quanto infantil, não?

Se jogos eletrônicos são arte, como muitos dizem (e eu mesmo acredito nisto), como pode o artista voltar atrás e refazer ou alterar trechos de sua obra? Fazendo uma analogia básica: seria bacana um pintor incluir elementos adicionais em um quadro finalizado, após sua venda, somente porque o comprador assim deseja? Em se tratando de pintores famosos, fazendo agora uma correlação com o caso de Mass Effect 3 e da BioWare, isto não seria pior ainda?

Além de ser uma enorme demonstração de fraqueza por parte da BioWare (não esquecendo também da ganância da EA que certamente pode utilizar este pretexto para lançar DLCs insossos), esta abertura infeliz também deixa claro que o cliente pode se imiscuir na criação de outros e dar pitacos após o lançamento de um título (em alguns casos, por enquanto). Não gostou do final? DLCs estão aí para isto mesmo, não?

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