Mass Effect

Quem precisa de um Mass Effect 4? No entanto, quer queiramos ou não, ele já se encontra em desenvolvimento, pela BioWare Montreal. A única dúvida existente por enquanto (infelizmente) é se teremos um “capítulo anterior” ou uma “sequência”. Claro, temos também a infeliz pergunta de Casey Hudson, na qual o produtor tenta jogar a bola para os “fãs”: queremos um novo Mass Effect cuja história aconteça antes dos eventos da trilogia, ou queremos uma sequência? Ou será tudo jogada de marketing?

Só o que sei é que tudo isto me desgosta profundamente. Mass Effect 3, apesar de ter sido um ótimo jogo, já me causou muitas tristezas, e parece que daqui em diante terei muitos problemas com a franquia. Bem que eu disse que aquele precedente aberto devido à pressão dos “fãs” era perigoso.

Temos de separar as coisas, claro. A existência de petições online por parte de “fãs” choramingando devido ao final daquele título que aguardavam com enorme ansiedade não ter sido como eles desejavam é uma coisa. Já um desenvolvedor ceder aos caprichos dos jogadores desta forma é algo que fornece as coordenadas para uma estrada perigosa que pode levar a um futuro bem nebuloso em relação aos jogos eletrônicos. Uma estrada que leva a um futuro onde estes se transformarão, quem sabe, em uma mera prestação de serviços. Iremos de agora em diante pagar por experiências sob medida? Ditaremos as regras do jogo? Até que ponto?

Existirão jogos, no futuro, para os quais DLCs com finais diferentes serão lançados? Diversos finais, para que “jogadores exigentes” tenham suas vontades saciadas? Não estou aqui dizendo que o final de Mass Effect 3 foi ótimo. Não estou aqui dizendo, também, que ele encerrou a trilogia com chave de ouro. Muito pelo contrário: não gostei do final, e sempre deixei isto bem claro.

Mas creio que os criadores devem ter total liberdade para errar, para acertar, para ousar e até mesmo para ter medo. Indo mais além e já sabendo dos riscos envolvidos, creio que eles também “podem”, por livre e espontânea pressão, sofrer influência das publishers com as quais trabalham e, assim, terem de ajustar o processo criativo ao ritmo da dança milionária que motiva grande parte destas grandes empresas.

Mas para tudo existem limites, e Casey Hudson foi infeliz ao perguntar se desejamos um Mass Effect 4 ambientado antes da trilogia ou uma sequência de Mass Effect 3. Ele não só foi infeliz, ele mostrou o quão fracas podem se tornar algumas empresas (mesmo as grandes) nesta nada homogênea (felizmente e por enquanto) indústria de jogos eletrônicos.

Ora, se um artista (afinal, não se discute tanto hoje em dia a respeito de games serem arte?) decide por deixar nas mãos dos futuros e hipotéticos apreciadores de sua obra decisões a respeito de detalhes importantes que envolvem a criação da mesma, ele se transforma em um simples prestador de serviço. Por que não, então, oferecer seus serviços sob demanda?

Você quer um Mass Effect 4 diferente? Uma sequência na qual descobriremos que, mais uma vez, Shepard foi reconstruído (creio que desta vez isto será bem mais difícil, mas tudo bem)? Ok: assine uma petição ou vote. Em seguida pague e o produto será entregue em sua casa.

Quer um ME4 ambientado antes de ME1 e com um Shepard indoctrinated, desde o início? Quer um “Mass Effect 4 prequel” com um Shepard bandido promovendo arruaça e destruição pela galáxia na companhia de alguns Krogans? Ok: assine o cheque. Ou melhor: vote e saque seu cartão de crédito. Na pior das hipóteses, pode até mesmo chegar o dia em que nem seja preciso votar ou assinar petições.

Tristes tempos, estes, em que alguns estúdios e alguns jogos podem ser estragados com a ajuda justamente daqueles que deveriam apenas experimentá-los. Se eu não gostei de um jogo, tudo bem. Se gostei, tudo bem também. Se gostei de tudo, menos do final, tudo bem. É um jogo, algo criado por uma equipe que possui profissionais os mais variados, artistas com diferentes inspirações e dos mais diferentes calibres.

Como já disse por aqui, “não acredito em qualquer justificativa para que algo assim aconteça“. Temos o direito de amar, de odiar, de gostar de apenas algumas coisas, de criticar algumas outras, etc. Afinal, antes da distribuição digital, éramos obrigados a comprar um DVD (ainda sou da época dos discos de vinil e das fitas cassete) inteiro (salvo naqueles casos pertencentes ao lado negro da força), muitas vezes apenas por causa de uma ou duas faixas.

Reclamávamos com as gravadoras? Claro que não (obviamente a prática de pegar o disco do amigo emprestado e gravar em uma fita cassete apenas as faixas desejadas reduzia bastante este problema)! Mas você percebeu onde quero chegar? Que direito possuem os jogadores de opinarem no processo criativo de um jogo eletrônico?

E por que cargas d’água um cara como Casey Hudson (e a própria BioWare, é claro, além da EA) sentem esta necessidade toda de agradar? Deixando de lado as óbvias questões financeiras também envolvidas, tudo isto, ainda assim, é realmente lamentável, porque pode nos levar a um cenário totalmente insosso e triste, no qual os games nos fornecerão experiências previsíveis demais.

Conhecer o final de um jogo apenas lendo a descrição do DLC relacionado? Me desculpe, mas não é isto o que eu desejo. Aliás, repito a pergunta: quem precisa de um Mass Effect 4? Tenho a impressão de que já basta. Mas veja bem, eu disse “tenho a impressão”: nada me impede de gostar deste hipotético (prefiro tratar desta forma) novo capítulo desta maravilhosa (até agora) ópera espacial que tanto adoro.

Só não gostaria de ver o comprador decidindo como o bolo é feito, escolhendo quanto tempo ele deve permanecer no forno, em qual cozinha ele deve ser preparado, etc. O Mass Effect 3: Extended Cut foi uma das piores coisas que a indústria de games lançou até hoje. Desconsiderando aqui suas possíveis, previsíveis e prováveis qualidades e falhas técnicas (e também o quanto ele pode ter melhorado ou piorado a “experiência Mass Effect 3” para os jogadores), ele foi algo péssimo simplesmente por abrir um precedente perigoso. Por introduzir em um meio gente que dele não deveria fazer parte.

Por mostrar que os jogos eletrônicos, pelo menos no tocante aos títulos AAA, à grande indústria, se transformaram em cargas, digamos, instáveis. Neste caso em especial, em um serviço exposto em catálogos (muitos deles virtuais). Um serviço cujos parâmetros podem ser definidos pelo cliente. Escolha a cor da tinta. Escolha a duração do jogo. Escolha se o protagonista chega ou não vivo ao final do jogo (isto me lembra daquelas lojas virtuais nas quais montamos e compramos computadores escolhendo cada um de seus componentes).

Não, não quero algo assim. Nem sabendo que este tal Mass Effect 4 será “powered by EA’s Frostbite engine“. Quero iniciar um jogo com a mente aberta e sabendo que poderei apreciar a experiência ou não. Que poderei odiá-lo e jamais instalá-lo novamente. Ou que poderei dele gostar imensamente. Mas não quero “tailored development“. Não quero jogar algo cujos detalhes importantes, quem sabe, me serão revelados de antemão, em uma loja onde terei à minha disposição pacotes de expansão criados para adaptar diversos elementos do gameplay às minhas “necessidades”.

Como fã da franquia, como alguém que já se divertiu e se emocionou com Mass Effect, não pude deixar de escrever este desabafo. Não, pelo menos por enquanto, e desta forma, não quero um Mass Effect 4.

Poderá gostar também

Pin It on Pinterest