Uma promoção recente da GamersGate me fez levar pra casa RAGE, um híbrido de shooter e corrida da lendária id Software, lançado em outubro de 2011. Anunciado há quase quatro anos, esse jogo gerou uma expectativa gigantesca: era o primeiro título totalmente desenvolvido pela id Software desde 2004, ano em que Doom 3 saiu e ajudou a fundar uma nova geração de videogames. Será que RAGE conseguiria repetir o feito do seu primo mais velho?

Ao contrário de Doom, e das franquias Quake e Wolfenstein — a tríade que forma os pilares dos FPS modernos, precursores em seus respectivos gêneros — RAGE preferiu seguir uma ideia já bastante explorada: monstros infernais, nazistas e aliens dariam lugar a um mundo pós-apocalíptico, dessa vez povoado por bandidos, mutantes e facções paramilitares. Com Fallout e Borderlands na concorrência, ficou difícil RAGE repetir o pioneirismo típico dos demais títulos de uma das mais antigas desenvolvedoras de jogos.

Para complicar, o lançamento de RAGE no PC foi caótico. Centenas de jogadores furiosos (trocadilho inevitável) lotaram os fóruns de suporte para reclamar de problemas absurdos, que não condiziam nem um pouco com a experiência de décadas da id Software. Crashes, bugs, taxas de frames por segundo baixíssimas, texturas borradas e pipocando na tela, incompatibilidades, e dezenas de outras dificuldades que imediatamente fizeram muita gente (eu, inclusive) virar as costas para o jogo, antes cercado de grande potencial. Levou alguns meses até que patches e drivers conseguissem arrumar as falhas — ou, ao menos, amenizá-las.

Um ano depois, aqui estou, com o título finalizado. O Marcos já escreveu uma excelente review sobre o jogo, mas para compensar o (meu) atraso (risos), resolvi elencar rapidamente cinco motivos pelos quais RAGE ainda vale o seu tempo, mesmo depois de tanta turbulência. E, como nem tudo é perfeito, vai aí também um grande motivo pelo qual você ainda deve pensar duas vezes. A lista completa segue abaixo. Boa leitura!

1. Pague um, leve dois: FPS e Corrida em um mesmo game!

Quem diria, dois gêneros relativamente distantes reunidos em um único só jogo. Essa reunião até pode não ser tão inédita assim, mas RAGE consegue reproduzir ambas as perspectivas muito bem, mesmo a jogabilidade dos veículos sendo simples e restrita. Veículos desempenham um papel interessante e indispensável no universo do game, o que pode agradar bastante o pessoal que curte corrida. A “Wasteland”, a área entre as cidades (ou o que sobrou delas), contém trechos que, além de extensos demais para ser percorridos a pé, são habitados por bandidos que atacam veículos para saquear mercadorias e cortar rotas de tráfego. Esses mesmos bandidos também possuem veículos, armados com metralhadoras e foguetes.

O jogador não apenas utiliza quadriciclos, buggys e blindados para viajar rapidamente por essas áreas violentas, como também equipa sua caranga com armas devastadoras, de modo a se proteger desses ataques. Esse arsenal montado na carcaça do seu veículo vem bem a calhar durante sidequests que exigem que um número específico de veículos inimigos sejam “caçados” e eliminados. Isso cria divertidos combates motorizados em alta velocidade, com milhares de projéteis e mísseis riscando a pista, exigindo manobras insanas para escapar dos disparos. Ainda bem que danos colaterais não são um problema por aqui.

Saindo da “Wasteland” e adentrando as cidades presentes em RAGE, alguns NPCs organizam campeonatos de corrida em pistas isoladas. Algumas dessas corridas seguem o modo convencional — quem chegar primeiro, ganha — enquanto outras importam um pouco da selvageria da “Wasteland”, envolvendo os mesmos combates motorizados, mas dessa vez concentrados em uma arena. Vencendo os desafios, você destrava veículos e ganha pontos que podem ser trocados por equipamentos customizados e armas “veiculares”, úteis para se manter vivo durante as viagens pela Wasteland.

2. O Exército de Um Homem Só: arsenal variado e inimigos desafiadores

A id manteve a tradição de transformar o jogador em um “exército de um homem só” e, assim como em seus clássicos Doom e Quake, continua disponibilizando um enorme arsenal. Nada mais, nada menos do que nove armas diferentes podem ser carregadas ao mesmo tempo, incluindo pistolas, rifles de assalto, rifles de precisão, submetralhadoras, bestas, lança-foguetes, etc. Isso sem contar o equipamento de apoio extra, como as granadas (de estilhaços e de pulso eletromagnético), os Wingsticks (uma espécie de bumerangue com três lâminas afiadas), carrinhos de controle remoto armados com explosivos, metralhadoras sentinelas automáticas, aranhas-robôs, e por aí vai.

Como se ainda não fosse o bastante, várias dessas armas possuem munições alternativas, que alteram o poder de fogo de cada uma delas. A versátil escopeta (shotgun), por exemplo, além de disparar normalmente sua munição de estilhaço calibre 12, também pode ser carregada com projéteis de plasma e com pequenos foguetes que detonam no impacto. É claro que tais munições alternativas, mais turbinadas, são raras e precisam ser reservadas apenas aos inimigos mais parrudos. Certos NPCs também vendem atualizações para as armas, tornando-as mais estáveis, poderosas e com carregamento mais rápido.

Todo esse leque de equipamentos letais é correspondido pela boa variedade de inimigos presente no jogo, incluindo mutantes (“convencionais” e chefões), bandidos, robôs e paramilitares — estes últimos são muito bem equipados e não caem facilmente. Cada embate é único e possui seu próprio “set” de armas, que melhor se adaptam às fraquezas do inimigo e às condições do ambiente. Certos oponentes apenas correm em direção ao jogador ou atiram a esmo, enquanto outros se organizam melhor, buscam abrigo e até avançam ou recuam taticamente — uma ótima demonstração da IA eficiente do jogo. Cabe ao jogador analisar a situação e definir qual arma faz melhor o seu trabalho.

3. É da id Software!

Esse talvez seja o principal motivo pelo qual o jogo criou uma enorme expectativa quando foi anunciado. O que mais se pode esperar da criadora do gênero de tiro em primeira pessoa, com anos de experiência desenvolvendo alguns dos maiores ícones da indústria, como Doom, Quake e Wolfenstein? RAGE pode não ter alcançado o mesmo patamar dos seus primos, como dissemos no início, mas é sem dúvida alguma um excelente shooter, com o “selo id Software” de qualidade.

Durante o jogo, é muito fácil perceber as inúmeras influências dos demais jogos da id Software. Os tiroteios frenéticos “em corredor”, obrigando o jogador a se movimentar em ambientes apertados para se esquivar das dezenas de inimigos, enquanto empunha uma variedade enorme de armas, tentando encontrar o ponto fraco dos oponentes, é um dos legados mais notáveis — é basicamente a identidade dos shooters da empresa. E por mais que anos tenham se passado desde então e a temática não seja mais a mesma, a essência ainda está lá, intacta.

4. Easter Eggs: referências e homenagens sensacionais às principais influências de RAGE

Além de carregar em seu sangue o legado dos clássicos jogos da id Software, RAGE também presta diversas homenagens às suas maiores influências, incluindo aí Fallout e Half-Life 2. Um dos easter eggs mais conhecidos do título é uma sala, que só fica acessível após pressionar uma sequência de botões, que contém um portal direto para a dimensão de Doom I, de 1993, com direito a gráficos pixelados da época e trilha sonora original! Outras duas salas secretas levam para as dimensões de Quake e Wolfenstein, respectivamente. Diversas outras referências à esses três jogos estão espalhadas pelos cenários do jogo.

Fallout, como um dos pioneiros da temática que RAGE pegou emprestado, é referenciado com um bobblehead do Vault Boy colocado na mesa de um dos personagens principais da trama do jogo. Já Half-Life 2 aparece quando um dos guardas da Authority, a principal facção inimiga, exige que o jogador recolha uma latinha do chão, uma óbvia referência a uma das cenas iniciais do icônico shooter da Valve. Até mesmo a premiada série de TV Breaking Bad — que praticamente não tem nada a ver com RAGE —, foi homenageada com um easter egg. Muito provavelmente, o designer dos mapas é um grande fã da série.

Para quem aprecia exploração de cenários, RAGE é um prato cheio, repleto de referências à cultura pop. A lista completa dos Easter Eggs e como encontrá-los você pode conferir aqui.

5. id Tech 5: um pós-apocalipse bonito de se ver

RAGE utiliza o motor gráfico mais recente da id Software, o id Tech 5. Esse mesmo engine também será usado em Doom 4, que deve sair em um futuro próximo. O visual impressionante do título é outra herança do pioneirismo da id Software em criar gráficos a frente de seu tempo. Atualmente, por mais que já existam outros jogos tecnicamente bem mais avançados (Crysis, oi?), RAGE consegue exibir cenários incríveis. Ainda mais quando consideramos a ambientação pós-apocalíptica do jogo, com cidades inteiras em ruínas, povoamentos construídos de forma totalmente improvisada, canyons imensos e abrigos “futuristas”, como as “Arks” e a cidade de Capital Prime — locais estes que desempenham um papel chave na história do jogo.

Além das belas paisagens, os modelos dos personagens também são outro ponto forte do visual de RAGE. Cada um deles possui sua própria identidade, com roupas que refletem seus papéis e personalidades nos menores detalhes. O mesmo vale para os inimigos, especialmente os chefões, sejam eles enormes monstros mutantes ou soldados blindados portando metralhadoras giratórias e canhões devastadores. Se você ignorar algumas texturas de baixa qualidade aqui e acolá e, é claro, se seu hardware for poderoso o bastante, RAGE é sem dúvida um colírio para os olhos, estando entre os jogos mais bonitos já criados.

Pense duas vezes… 1 motivo pelo qual RAGE pode não merecer seu tempo

1. Enorme potencial desperdiçado: enredo fraquíssimo, final terrível e problemas técnicos no PC

Não dá pra negar: RAGE é um jogo de aparências. Seus gráficos são impressionantes, a proposta do jogo é sensacional, misturar shooter com corrida foi uma ótima ideia, mas parece que a id Software esqueceu de dar um sentido pra tudo isso — ou, no mínimo, fazer tudo funcionar como deveria.

O vídeo introdutório do jogo, feito totalmente por computação gráfica, é espetacular e emocionante. Vemos a chegada do gigantesco asteroide Apophis ao Sistema Solar e, enquanto ele tromba com os anéis de Saturno e arranca um pedaço da Lua, deslocando-se em direção ao planeta Terra, diversos preparativos são feitos nas “Arks” para deixar seus habitantes prontos para a hecatombe que está por vir. Infelizmente, a chance de envolver o jogador com a história acaba assim que o vídeo termina e o jogo de fato inicia.

Durante mais de 80% de toda a campanha de 15 horas do jogo, agimos como um simples capanga dos líderes dos povoados ao longo da Wasteland. “Vá até o acampamento dos bandidos, e destrua-os!”, “Preciso que você vá até a cidade morta e pegue um equipamento para mim!”, “Você precisa eliminar X mutantes para ganhar reputação por aqui e poder fazer o que quiser”, “Vença aquela corrida para me provar que você é fod* o suficiente”, bla bla bla.

Apenas uma mísera parte das missões do jogo realmente se relaciona com a trama principal: um sobrevivente das “Arks” (você) que se junta à Resistência para lutar contra o regime da Authority, uma organização militar que tenta estender suas influências por toda a Wasteland. Aliás, fiquei muito decepcionado com o fato de praticamente não existir nada que explique a criação das “Arks” ou o que realmente aconteceu antes do impacto do asteroide. É um enredo completamente fraco e que não se aprofunda em momento algum. Os personagens, apesar da ótima caracterização, são muito pouco marcantes e desempenham papéis genéricos antes de desaparecer de vez.

E o que falar do final do jogo? Bom, é simplesmente um dos finais mais anti-climáticos que eu já vi. Quando a trama finalmente entra em um ritmo interessante e paramos de agir feito um “motoboy”… puf! O jogo acabou.

Para encerrar o pacote de potencial jogado no lixo, o lançamento de RAGE no PC foi um dos mais tumultuados que se tem registro. Levou um longo tempo até que patches e drivers conseguissem amenizar os problemas — taxas de frames por segundo inconstantes, texturas pipocando na tela, crashes aleatórios e incompatibilidades em geral. Sem falar que o menu gráfico do jogo é bem restrito, mesmo após um patch de fevereiro desse ano ter adicionado novas opções. Na minha jogatina, feita mais de um ano depois do lançamento, eu ainda trombei com alguns problemas irritantes quanto à estabilidade do jogo —  inúmeras e inexplicáveis “engasgadas”, durando menos de um segundo, enquanto jogava. Nada comprometedor, mas serve apenas de alerta para quem tem um hardware mais modesto e deseja experimentar o jogo.

Artur Carsten

Catarinense, amante da música eletrônica, estudante de medicina e jogador nas inexistentes horas vagas. Ocasionalmente, escreve artigos e coloca em dia a pilha interminável de jogos comprados em promoção no Steam. Já passou pelo Campo Minado, Continue, Guia do PC, Gemind e Oxygen e-Sports.

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