Poucos jogos eletrônicos conseguiram me fazer sentir medo do frio como Frostpunk conseguiu. Em poucos títulos, senão nenhum, consegui sentir medo extremo das baixíssimas temperaturas e de suas consequências. Lançado em 24 de Abril de 2018, exclusivamente para PC, Frostpunk é o mais recente trabalho da 11 bit studios, desenvolvedora polonesa responsável por Anomaly: Warzone Earth (sem falar em outros pertencentes à mesma série) e também pelo aclamado This War of Mine.

Frostpunk coloca o jogador no papel de gerenciador/”prefeito” da última cidade do mundo, após uma era glacial ter se abatido sobre o planeta, sem que ninguém saiba bem ao certo porque. Fugindo de Londres, um grupo com algumas centenas de pessoas busca sobreviver, e é seu papel mantê-los vivos. O jogo mistura elementos steampunk com estratégia, sobrevivência e construção e gerenciamento de cidades, e fica aqui um aviso de antemão: ele é cruel.

A cidade que iremos construir e gerenciar localiza-se em uma gigantesca cratera, e lidaremos com temperaturas de no mínimo -20º (nos melhores dias – não demora muito para que as temperaturas caiam mais ainda). O jogo é cruel, como disse acima. Você precisa não apenas lidar com aspectos de gerenciamento e construção, mas também com decisões morais que deixarão profundas marcas no gameplay e, muito provavelmente, na sua cabeça. Isto sem falar no fator humano: revoltas, descontentamento, crimes, reclamações as mais diversas, e por aí vai.

Frostpunk

Você também se perguntará o tempo todo se está tomando a decisão correta. E mesmo após tomada a decisão, continuará com dúvidas, tentando imaginar se agiu corretamente, se o outro caminho apresentado não teria sido melhor, se as consequências de sua decisão não se tornaram pesadas demais. Acontece que em Frostpunk lidamos com dois indicadores importantíssimos: “esperança” e “descontentamento”. Zerada a esperança o jogo acaba, e caso o descontentamento chegue em seu nível máximo, o mesmo acontece.

Ora, em uma cidade repleta de problemas, com a fome e o frio sempre rondando, não demora muito para que problemas gravíssimos surjam, e dependendo das suas ações enquanto no comando, a esperança e o descontentamento podem oscilar terrivelmente. No jogo, temos um grande gerador localizado no centro da cidade. É ele que deve fornecer calor e energia a todas as instalações. Ele é movido a carvão, carvão este que deve ser coletado, obviamente.

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Sua primeira tarefa enquanto governante da cidade é enviar grupos de trabalho para a coleta de carvão, a fim de que o gerador possa ser colocado em funcionamento. Madeira e aço também são recursos essenciais para a manutenção da cidade e para a construção das diversas instalações necessárias para seu funcionamento (cabanas de caçadores, abrigos, cozinhas, postos médicos, instalações de extração de madeira, aço e carvão, etc).

Existem alguns depósitos básicos com recursos prontos para serem coletados, mas em breve tais reservas se esgotarão, e você deverá então buscar por alternativas. Algo que descobri ser de suma importância é a construção o quanto antes do Workshop: é através dele que você pesquisará novas tecnologias e instalações, como por exemplo o Beacon, que funciona como uma espécie de ponte com o mundo exterior, e o Coal Thumper, instalação que injeta água pressurizada em depósitos de carvão localizados no subsolo e assim faz com que o preciosíssimo recurso suba até a superfície e possa ser coletado. Isto sem falar nos aquecedores, nos Steam Hubs, e em várias outras instalações, tecnologias e upgrades.

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Existe um ciclo de dia e noite em Frostpunk, sendo que os turnos normais de trabalho para a maioria das instalações e trabalhadores vai das 8 da manhã às 6 da tarde. Existem habitantes que só trabalham no turno da noite, como os caçadores, por exemplo, e também é possível criar turnos extras e turnos de emergência (os quais aumentarão o descontentamento da população, vale ressaltar). Sim, e não se engane: ainda à beira da extinção, à beira da morte, com a fome rondando, pessoas reclamarão de um turno extra, de uma quantidade menor de comida em prol da alimentação de um número maior de habitantes. Sim, o mundo de Frostpunk é cruel.

E existe também o Livro das Leis, através do qual você pode inserir uma série de modificações no modo como determinados elementos funcionam. Aqui, você pode criar os tais turnos extras e os turnos emergenciais. Aqui, você pode criar uma lei para que somente sopas sejam servidas, para que mais pessoas possam ser alimentadas com a mesma quantidade de comida crua, ou então pode determinar a utilização de aditivos, como serragem.

Vale ressaltar que qualquer uma das opções acima traz consigo pontos positivos e pontos negativos: a instauração da alimentação através dos sopões aumentará o descontentamento e fará com que a esperança caia, mas poupará seus preciosos recursos. Em contrapartida, os aditivos, apesar de tornarem a comida menos saborosa, farão com que ela se torne mais eficaz, ao custo de prejudicar os indicadores de esperança e descontentamento, ao mesmo tempo em que podem resultar em doenças. É, a vida em Frostpunk não é fácil.

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O Livro das Leis, ou Book of Laws, é um tanto quanto complexo e duro. Aqui, você pode instituir o trabalho infantil, e fazer, inicialmente, com que as crianças trabalhem em locais mais seguros, como as cozinhas, por exemplo. Obviamente, você observará quedas nos níveis de esperança, sem falar no fato de que crianças são mais suscetíveis a acidentes e doenças. Posteriormente, é até sugerido que você ofereça mais comida às crianças para melhorar sua saúde, o que você pode negar, é claro, sempre com aquele amargor moral característico de Frostpunk. Ah, sim, e existem também os moradores que reclamarão caso você não institua o trabalho infantil, dizendo que em tempos de crise todos os sacrifícios são necessários. É bastante complicado.

Crianças podem também serem mantidas longe do trabalho, em locais especialmente desenvolvidos para que elas passem o tempo em segurança. O que fazer aqui? O que você faria? Sacrificaria braços e pernas úteis em tempos de crise extrema em prol de sabe-se lá que princípios, necessidades e/ou exigências? Que dizer, então, de uma lei que torna possível o trabalho de crianças em qualquer frente, seja ela extração de madeira, seja ela coleta de carvão, seja ela a caça? O Livro das Leis é duro, cruel, insensível, e não deixa dúvidas de que você pode começar a sonhar com a sobrevivência tão logo não mais consiga deitar a cabeça em seu travesseiro à noite.

Vale lembrar que em Frostpunk é possível microgerenciar a maioria das instalações, situações e frentes. Por exemplo: caçadores trabalham apenas à noite, portanto, é possível colocá-los para trabalhar em outras funções durante o dia. Mas não se esqueça: existem os fatores cansaço, doença, morte, etc. Nem sempre será possível contar com um mesmo trabalhador durante grande parte do tempo, e também é sempre possível conferir o status de determinada instalação e descobrir que trabalhadores estão no momento doentes (em casa ou nos postos médicos), ou então presentes em enterros no cemitério (sim, é possível construir um cemitério e dar um pouco de esperança às pessoas, que terão assim uma maneira digna para dispor de seus mortos).

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Cada instalação comporta um determinado número de trabalhadores, e quanto mais pessoas trabalhando, mais eficiência ela terá. Os fatores acima mencionados, entretanto (doença, descanso, morte, etc), podem afetar radicalmente os resultados, é sempre bom lembrar.

Turnos extras também podem, obviamente, serem iniciados a qualquer momento, desde que você esteja preparado para lidar com o descontentamento dos trabalhadores (e desde que tenha instituído a devida lei através do Book of Laws). Mas em determinados momentos isto será realmente necessário: caso grande parte de sua população caia doente, por exemplo, ou morra (mortes também afetam os indicadores “esperança” e “descontentamento”, vale lembrar).

É possível também direcionar parte dos trabalhadores que coletam, digamos, carvão, para outras funções, caso suas reservas do recurso estejam Ok, e em grande parte do jogo este microgerenciamento permite alterações sutis porém de grande importância. Determinadas instalações, além disso, como por exemplo as cozinhas, também podem ter seu horário de funcionamento alterado, e assim você pode criar linhas de produção com um tempo de funcionamento maior, visando aumentar sua produção. Mas não se esqueça: conte com as doenças, com a fadiga, com os períodos de descanso, etc.

Frostpunk

Frostpunk é apaixonante. O jogo coloca a sobrevivência em primeiro plano, e tanto faz se você sacrificar a infância de suas crianças em prol de um bem maior: ele não te julgará, ele apenas te dará a recompensa devida, no momento devido. Cada cidadão também é importantíssimo para a cidade como um todo, vale ressaltar.

Mortes representam perdas inestimáveis, afinal de contas, você perdeu um par de braços. Mas é apenas isso: o jogo não glamoriza nem tampouco insere valores sentimentais nos habitantes. Eles apenas estão lá, com seus nomes, esposas, maridos, filhos, ocupações, reivindicações e reclamações, mas você não sente nada por eles. O jogo insere habitantes desprovidos de alma na cidade. Eles são apenas problemas ou braços fortes. Doentes ou não. Aptos a trabalhar ou não. Reclamando ou não.

Ainda em relação a este ponto, vale lembrar uma das leis do Book of Laws. Existem duas escolhas, em determinado momento do gameplay: “tratamento radical”, através do qual os médicos farão de tudo para salvar os doentes, incluindo cirurgias invasivas e amputações, ou então “sustentar a vida”, onde nada muito drástico será feito, e amputações não serão sequer tentadas. Com esta última opção, “sustain life”, doentes graves serão mantidos indefinidamente nos postos médicos, ocupando leitos, recebendo comida (comida esta que poderia ser ofertada a trabalhadores aptos), e se transformando em fardos. A decisão é sua. O peso está nas suas costas. A dor também.

O peso é tanto que em determinado momento você deve decidir se a perna gangrenada de um doente deve ou não ser amputada. Há um pequeno detalhe, entretanto: o doente se recusa a ter a perna amputada, mesmo com o risco de morte, mas a decisão final está em suas mãos. Cruel, não? E a coisa chega a tal ponto que em determinado momento, caso a fome atinja níveis alarmantes, você deve decidir como lidar com um caso de possível canibalismo.

Frostpunk

É um fato que a população vive fazendo exigências. Mais abrigos, mais comida, mais leitos nos hospitais, etc. Você pode até se recusar a atender tais exigências, mas além dos problemas relacionados à esperança e ao descontentamento, tais demandas voltarão, cedo ou tarde, maiores, mais problemáticas. Em momentos em que, talvez, você esteja com menos recursos e condições. Ou seja, não é uma boa ideia, aqui, varrer o problema para baixo do tapete.

Frostpunk nunca te deixa seguro. Você pode ter lá suas reservas de carvão, de aço, de madeira. Pode ter seus postos médicos trabalhando a pleno vapor, mas cedo ou tarde algo de ruim acontece. Uma revolta, demandas por mais abrigos, a chegada de notícias desesperadoras do mundo exterior: há sempre uma variável que pode te atrapalhar e te obrigar a pensar rápido, a pensar em caminhos alternativos para a sobrevivência. A pensar em coisas ainda não pensadas.

E por falar em sobrevivência, com o Beacon construído, você pode enviar exploradores que poderão até mesmo encontrar sobreviventes no mundo exterior. Tais sobreviventes, além de representarem mais braços para trabalhar, também podem trazer consigo recursos valiosos, recursos estes que você certamente não desejará desperdiçar. Posteriormente, também, e também através do Livro das Leis, você deverá dar um direcionamento à sua população, optando por “Ordem e Disciplina” ou “Fé e Força Espiritual”, opções que abrirão novos leques de opções no tocante a leis e a direcionamento.

Frostpunk

Diferentemente de outros games do gênero, entretanto, este conta com uma campanha delimitada (são 45 dias). Além disso, existem mais dois cenários extras, e a desenvolvedora mencionou inclusive que um modo sandbox (infinito) será lançado.

Frostpunk eleva a sobrevivência a outro nível, fazendo com que o jogador tenha de tomar decisões morais que além de afetarem o desenrolar da história, também trazem consigo boas e más consequências, sem falar, é claro, no gosto amargo que pode ficar em nossa boca. O título custa R$ 57,99 no Steam, na Nuuvem e no GOG.

Fique com o trailer de lançamento:

 

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