Recentemente tenho jogado vários títulos de horror, alguns deles simultaneamente (algo não lá muito recomendável). SOMA foi uma bela surpresa, e em Kholat ainda estou no início da jornada. The Evil Within, entretanto, foi um belo de um soco no estômago.

O jogo, criação de Shinji Mikami (criador da franquia Resident Evil), é horror puro. Grotesco, sangrento, horripilante, visceral. Lançado em 2014, o título ainda hoje é capaz de arrepiar, de causar náuseas, de deixar o jogador com um gosto amargo na boca quando não consegue derrotar algum chefe, mesmo após ter passado por belos sustos e achar que merecia uma trégua devido aos maus bocados pelos quais passou.

Desenvolvido pela Tango Gameworks (tem como publisher a Bethesda Softworks), estúdio cujo fundador é o próprio Mikami, TEW esbanja terror e motivos para pulos da cadeira. Não espere por sutilezas aqui, entretanto: The Evil Within não te poupa de sangue, de vísceras, de monstros horripilantes envoltos em arame farpado, de armadilhas cruéis, de morte (incluindo a sua). E, sim, você morrerá muitas vezes. Prepare-se.

The Evil Within

O protagonista se chama Sebastian Castellanos. Trata-se de um policial que é chamado para investigar alguns assassinatos em um manicômio. No Beacon Mental Hospital, Castellanos se depara com muitos corpos. Muitos corpos mutilados. Com muito sangue, também. Ele se depara, na verdade, com uma verdadeira carnificina, e o saguão do manicômio funciona como uma espécie de porta de entrada, apresentando ao jogador algo como 1% de todo o horror que está por vir.

Ao acessar o sistema de monitoramento do prédio, Sebastian e Joseph Oda, outro policial, se deparam com um homem misterioso e encapuzado. Este homem, aliás, aparece bem rapidamente atrás de Sebastian, atacando o policial, o qual então apaga e acorda mais tarde em outro local. E que local!

The Evil Within

Castellanos acorda na verdade em um pesadelo. Pendurado em uma corda, em uma espécie de matadouro repleto de sangue e de corpos, com um monstro enorme (uma espécie de açougueiro) esquartejando e matando, bem ao seu lado. E tudo isto, veja bem, ao som de Bach (Ária na 4ª Corda) através de um gramofone.

É uma experiência surreal, veja bem. A morte grassa ao seu lado. O sangue escorre pela tela. O gigante sangrento arrasta corpos. Outros corpos, talvez ainda com um resquício de vida, se remexem pelos cantos. O ambiente é sujo, escuro, pesado. A atmosfera é assustadora. E a calma música de Johann Sebastian Bach representa um estranho contraponto à tudo aquilo, deixando a situação ainda mais perturbadora.

The Evil Within

Aqui nos deparamos com a primeira grande certeza em The Evil Within: nada no jogo da Tango Gameworks é sutil. Tudo é escancarado ao jogador desde o início. As mortes são sempre cruéis. Os horrores saltam em nossa direção, sem medo algum. Os inimigos são sempre horríveis e difíceis de serem mortos. O jogo não poupa o jogador, de nada, em nenhum momento. De sangue, de horror, de escuridão, de morte. Espere por um jogo bastante pesado.

The Evil Within

Aliás, parte de um problema no jogo pode ser experimentado aqui, logo no início: este primeiro inimigo não pode ser morto. Tente e você morrerá de maneiras horripilantes. A ação furtiva, aqui, não é a melhor opção: ela é a única alternativa. Alguns inimigos em The Evil Within contam com esta mesma característica: são “imortais”. É uma pena que o jogo não deixe isto claro, em nenhum momento, de nenhuma forma, nos fazendo gastar tempo, vidas e munição à toa.

Explicando um pouco melhor: agir furtivamente é a melhor opção em The Evil Within. Em diversas situações, esta é a única saída. O jogo é difícil. Todos os inimigos são bem difíceis de serem mortos. Muitos dos chefes são insanamente duros de matar. Temos sempre pouca munição. Não conseguimos armazenar muitos medkits. E temos a opção de agir furtivamente.

The Evil Within

No entanto, não temos um sistema de cobertura: no máximo conseguimos andar agachados, fazendo assim menos barulho (ouvi falar que muitas coisas foram melhoradas em The Evil Within 2 – devo conferir em breve). Temos uma faca e podemos matar muitos inimigos furtivamente, mas, sempre há um porém: é preciso fazer com que eles não nos detectem (e isto é difícil, principalmente quando existirem dois ou mais), pois se assim for, eles virão com tudo para cima de nós, e descarregarão toda a sua fúria de forma horrenda. Até existe um detector que nos avisa se estamos indetectáveis ou se já fomos vistos, mas é sempre muito difícil permanecer incólume, principalmente em fases cheias de zumbis e outros monstros horrendos e sedentos pelo nosso sangue.

The Evil Within

Esta é outra característica de The Evil Within: o jogo é implacável. Os inimigos são implacáveis. Você morrerá muitas e muitas vezes, afinal, também, estamos falando de um título de horror e sobrevivência. Mas a dificuldade algumas vezes é insana. Em determinados momentos, precisamos utilizar mecanismos que abrem uma porta através da qual precisamos passar. No entanto, tais mecanismos também abrem uma outra porta, e desta, saem horrores incontáveis que correm para nos atacar.

A escolha aqui é difícil: continue abrindo a porta e morra dolorosamente, pare todo o processo e enfrente os inimigos, sabendo que você está no inicio de um capítulo e toda aquela munição gasta irá fazer falta, ou então tente um meio termo entre estas duas opções. Independentemente daquilo que escolher, tenha certeza de uma coisa: você acabará com pouca vida e com pouca munição, muitas vezes.

The Evil Within

Um sistema de cobertura eficiente teria evitado muitos problemas. Isto sem falar em um melhor equilíbrio no que diz respeito à dificuldade oferecida por alguns inimigos e situações. Tudo bem que o jogo ficaria mais fácil, mas, afinal de contas, quem em sã consciência está em busca de um “Dark Souls da vida”?

Isto sem falar que a stamina de Sebastian pode acabar se esgotando bem rapidamente, e aí, ele ficará parado, ofegante, até se recuperar (com um zumbi no encalço pode ser morte na certa). Ah, e os ataques melee? Sebastian é fraco: matar alguma coisa, mesmo após algumas melhorias, é bem difícil no mano a mano. Entendeu porque é complicado ficar sem munição?

The Evil Within

É um fato também que toda esta dificuldade acaba por remover um pouco da “capa de terror” do jogo: após morrer pela quinta ou sexta vez consecutiva no mesmo lugar em The Evil Within, adeus imersão, não é mesmo? Adeus sustos, adeus terror. Pelo contrário: uma certa raiva, uma certa irritação, pode aparecer.

Este primeiro título da série conta com um enredo intrigante, entretanto. Sebastian nunca sabe bem ao certo o que está acontecendo, ele é muitas vezes lançado de um lugar a outro, sem qualquer explicação. Ele apaga em um porão e acorda em um hospital estranho onde uma enfermeira também bastante estranha parece ser o único habitante. Portas somem e são substituídas por escadas enquanto andamos, o protagonista sofre alucinações, e há menções a um certo lugar ou dispositivo chamado STEM.

Fique certo de uma coisa, entretanto: nada é o que parece. Nem tudo pode ser totalmente explicado, e o jogo está nos pregando peças a todo instante. O STEM e suas relações com algumas experiências com seres humanos está sempre presente em anotações e diários em áudio que encontramos. Aliás, não deixe de explorar bastante e ler e ouvir estes materiais: assim, você terá um melhor entendimento do jogo e de seus meandros.

The Evil Within

Ainda a respeito do STEM, você irá se deparar com menções a seres humanos que foram utilizados como cobaias do tal experimento, e em alguns momentos os diários também mencionam uma certa aparição. É impossível não relacionar tudo isto com o estranho homem encapuzado do início, no hospital. The Evil Within também permite uma espécie de “co-op” com a máquina: durante parte do gameplay, temos como companhia o policial Joseph Oda.

Temos apenas de curá-lo, quando necessário, mas ele irá nos ajudar abatendo monstros, indicando caminhos a seguir, e conversando, vez ou outra. Em mais de um momento, aliás, fiquei me escondendo e fugindo, deixando que Oda sozinho acabasse com todos os zumbis à solta (sim, é uma vergonha, mas eu tinha poucos medkits em meu inventário).

The Evil Within

Joseph também foi afetado pelos acontecimentos do jogo de uma maneira mais profunda. Digamos que ele não passou incólume como Sebastian por tudo aquilo, e sua sanidade não está lá essas coisas. Mais uma vez, fica aqui o aviso: nem tudo é o que parece. Leia e ouça tudo o que puder, a fim de montar o quebra-cabeças apresentado de maneira interessantíssima pela Tango Gameworks. Fique atento também a um detalhe: o STEM. Esta palavra tem bem mais a ver com todos os horrores apresentados pelo jogo do que parece a princípio.

Sebastian pode realizar diversos tipos de upgrades, também. Tudo naquele estranho e soturno hospital para o qual somos transportados de vez em quando, através dos espelhos (quando ouvimos a belíssima Clair de Lune, de Debussy). Ali, existe uma espécie de cadeira de tortura onde nos sentamos e damos início ao procedimento.

Obs: neste estranho hospital também é possível salvar o game.

The Evil Within

É possível melhorar vários atributos do personagem: como saúde, força para correr, maior eficiência por injeção (medkits), etc. Também é possível melhorar armamento, incluindo o Agony Crossbow, uma besta que pode ser equipada com vários tipos de flechas. Podemos aprimorar a quantidade de cartuchos das diversas armas (revólver, shotgun, etc), sua letalidade, a velocidade de recarregamento, etc. A “moeda” utilizada nas melhorias é o green gel, uma gosma verde que você pode (e deve) coletar em vidros espalhados pelos cenários e também em cadáveres (tétrico, não?).

Em relação ao armamento, é interessante destacar que o Agony Crossbow representa um dos pontos mais interessantes na jogabilidade. Com ele, é possível utilizar táticas diferentes para abordar situações e monstros diferentes. Existem flechas explosivas, flechas que empalam os inimigos, flechas elétricas, flechas congelantes, flechas luminosas (que cegam os inimigos temporariamente), etc. Por exemplo: dispare uma flecha congelante e aquele chefe complicado ficará estático por alguns segundos, segundos durante os quais você poderá descarregar sua shotgun nele.

Também existe em The Evil Within um rifle de precisão, veja só. E há uso para ele: há um determinado nível onde somos apresentados a inimigos que lançam flechas de um grande edifício, à distância. Aqui, é só mirar e comemorar – mas não use o controle do Xbox aqui, pois precisão é tudo nestes momentos.

The Evil Within

Há algo que não bate em The Evil Within desde o início, devo dizer. Quer dizer, é como eu disse logo mais acima: nem tudo é o que parece. Mas vamos lá: você irá se perguntar como podem existir armadilhas no jogo, por exemplo. Armadilhas explosivas com sensores de presença. Você pode desarmá-las, obviamente (e as peças recolhidas servem para a criação de flechas para a “Besta da Agonia”), mas este não é o problema.

O problema é: o universo do jogo é habitado única e exclusivamente pelo protagonista, por seus amigos e pelos monstros horrendos com os quais nos deparamos à todo instante. Então, quem criou tais armadilhas sofisticadas? Aqueles seres bestificados, aparentemente irracionais? E que dizer dos zumbis abestalhados que manejam armas, incluindo rifles de precisão? Percebeu como algumas coisas “não batem”?

Mas não é bem assim. É preciso jogar, ler, ouvir e se aprofundar no universo de The Evil Within para entender tudo isso. Existe um porquê, existem explicações, e pode ser que algumas delas te surpreendam bastante (achou que iria ler algum spoiler, não é?).

Os gráficos de The Evil Within são bem competentes. Apesar de lançado há 3 anos atrás, eles continuam bonitos, e sem os problemas, no PC, relacionados a trava de framerate e ao aspect ratio estranho. Tudo isso já foi corrigido pela desenvolvedora.

The Evil Within

O jogo é, em grande parte, escuro, salvo um ou outro momento em que vemos a luz do dia (e que alívio, nestes momentos!). Para ajudar, Sebastian Castellanos também conta com uma utilíssima lanterna. Os gráficos são bonitos, e os efeitos de iluminação e sombras são fora de série. Todas as texturas também são muito bonitas, tudo é muito bem feito, inclusive a modelagem dos chefes.

A quantidade de inimigos em The Evil Within também é bem variada, desde simples zumbis, até monstros enormes com uma espécie de cofre na cabeça, passando também por um chatíssimo e difícil de matar inimigo que fica invisível enquanto não está sendo alvejado (sem falar em gigantes com motosserras).

Existem também estranhas mutações de seres humanos, monstros com duas cabeças, e a assustadora Laura, uma espécie de “mulher aranha fantasmagórica” que me lembrou bastante do filme “O Grito” (ela é horripilante).

The Evil Within é uma experiência e tanto que, apesar de seus problema, é capaz de entreter, divertir e, principalmente, assustar. O jogo é um banho de sangue. Uma experiência sangrenta e perturbadora, que não poupa o jogador da visão de corpos destroçados. A história também é interessantíssima: fique atento a cada detalhe. Jogue no escuro, com as luzes apagadas e, de preferência, utilizando um bom fone de ouvido.

E que venha The Evil Within 2!

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