O triste e radical mundo dos estúdios não independentes

O título deste artigo foi encurtado. Digamos que ele deveria ser “O muitas vezes triste e radical mundo dos estúdios não independentes“. O fato de um estúdio de desenvolvimento de jogos eletrônicos ser adquirido por alguma grande publisher nem sempre representa algo ruim. Neste aspecto, não existe nenhuma regra, nenhuma rota pronta, nenhuma certeza, é claro. Mas o mais recente caso, do fechamento da Radical Entertainment pela Activision, chama bastante a atenção.

A desenvolvedora canadense, fundada em 1991, deixou a independência de lado em 2005. A empresa, que possui mais de 20 anos de existência, e é responsável por Scarface e Prototype (1 e 2), agora se transformou em uma “sombra”. É, ela não foi fechada. Ao contrário do que foi dito por Rob Bridgett, diretor de áudio sênior, em seu Twitter, o estúdio permanece vivo. Respirando com o auxílio de aparelhos, é claro, mas ainda assim vivo.

A Radical Entertainment continuará existindo, pelo que tudo indica apenas como uma mera sombra: “Apesar de termos feito um grande investimento na IP Prototype, ela não encontrou uma grande audiência comercial. A Radical é uma equipe de desenvolvedores muito talentosa, entretanto, e nós exploramos várias opções para o estúdio, incluindo uma venda potencial do negócio, e chegamos à difícil conclusão, durante o processo de consulta, que a única opção restante seria uma redução significativa de pessoal“, declarou a Activision.

Bem, grande parte da Activision pertence ao enorme grupo Vivendi, o qual atua em diversos setores além dos jogos eletrônicos (música, internet, telecomunicações, etc). Esta mesma Vivendi discutiu, nos últimos tempos, a respeito da venda de parte ou de todas suas ações da  Activision Blizzard, empresa que é a quarta maior sob suas asas. Obviamente estamos aqui falando de leões decidindo qual estratégia utilizarão para comer pequenas presas. Mas e no caso Activision - Radical Entertainment? Quais seriam os reais motivos?

Prototype 2 recebeu boas notas, está prestes a ser lançado para PC, na semana encerrada em 09 de Junho esteve na 15ª posição no ranking de vendas no Reino Unido, e nas semanas anteriores esteve nas seguintes posições:

  • Semana encerrada em 26 de Maio: 8ª posição – na frente de Diablo III, FIFA Street, Mass Effect 3 e Battlefield 3, dentre outros;
  • Semana encerrada em 19 de Maio: 6ª posição – na frente de Modern Warfare 3, Battlefield 3 e Assassin’s Creed: Revelations, dentre outros;
  • Semana encerrada em 12 de Maio: 4ª posição – na frente de Mass Effect 3, Kinect Star Wars, Modern Warfare 3 e Skyrim, dentre outros;
  • Semana encerrada em 05 de Maio: 2ª posição – na frente de FIFA 12, Modern Warfare 3 e Mass Effect 3, dentre outros;
  • Semana encerrada em 28 de abril (semana em que o jogo foi lançado): 1ª posição – na frente de FIFA 12, Mass Effect 3 e The Witcher 2: Enhanced Edition, dentre outros;

Prototype 2 permaneceu por 3 semanas consecutivas dentro dos “top 5″. Pode ser que ele não tenha atingido as expectativas da Activision, é claro, mas isto justifica esta mutilação? Teria realmente a franquia “não encontrado uma grande audiência comercial“, segundo a Activision, ou temos aqui mais um daqueles (infelizmente cada vez mais comuns) casos onde um estúdio é adquirido, sugado e chutado?

Diversos estúdios já foram adquiridos e fechados pela Activision: Gray Matter (fundida à Treyarch), RedOctane, Sierra, Underground Development, Bizarre Creations, Shaba Games, Budcat Creations, Luxoflux, etc. Será que um estúdio com tantos anos de estrada como a Radical Entertainment não teve visão suficiente para perceber, quando de sua aquisição, já com 14 anos de existência, os possíveis riscos de tal transação? Ou será que o “dinheiro imediato” falou mais alto?

Em que momento ocorre “o problema”? Em que momento um estúdio independente bem sucedido, digamos, que conta com o apoio de uma grande publisher, se deixa levar, decide se transformar em um estúdio não independente? Existem estúdios independentes que vivem bem, que não se entregam, como sabemos. Diversos, aliás.

Um dos problemas é que cada vez mais percebemos que os grandes estão engolindo os pequenos. É triste, mas temos aqui um panorama não muito agradável. É difícil chegar a esta conclusão, e torço para que isto não aconteça, mas um mundo onde grandes empresas dominarão o mercado de games e agirão de forma extremamente predatória e terão apenas cifrões e mais cifrões em suas mentes não é algo improvável

Uma das recentes aquisições que me deixou extremamente triste, aliás, foi a da PopCap, pela EA. Não duvido nada de um possível fechamento, aqui também, uma vez que, pelo que percebemos, o talento e o portfolio das empresas compradas não significa muita coisa quando se trata de “realinhamentos”, redução de custos, etc.

Como disse Rob Bridgett, descanse em paz, Radical Entertainment. Muito em breve sua sombra se desvanecerá. Tenho certeza, infelizmente.

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2 Comments

  1. Triste, mas o lado comercial pesa muito nessa hora, já não basta a satisfação de ter criado um jogo do qual as pessoas gostaram com seus amigos, o “dinheiro imediato” como você citou fala mais alto e fica se insinuando na sua frente.

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    • @Hideki T,

      Realmente, Hideki. Também achei muito triste. Tão triste quanto foi o fechamento da Bizarre, falando em acontecimentos recentes. Mas é isso, acho que esse imediatismo pode acabar fazendo com que os donos das empresas nem pensem. Sei lá, posso estar errado, mas pode ser isso. Dinheiro é um negócio complicado mesmo.

      Reply

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