Por que as versões de PC demoram mais para sair?

PC

Há alguns anos atrás, acreditou-se que o PC estava morrendo. O ritmo de jogos lançados para a plataforma estava caindo assustadoramente. Não por acaso, na mesma época os consoles estavam atingindo seu auge, graças a uma longa série de lançamentos exclusivos. A falta de títulos de peso lançados aos computadores estava causando preocupação e motivou, entre outras iniciativas desesperadas, a fundação da fracassada PC Gaming Alliance em 2008. Foi um momento sombrio, mas que felizmente foi superado.

A plataforma imortal aos poucos se recuperou e voltou a receber títulos de grande nome, mas com uma notável mudança: eles passaram a levar mais tempo para chegar. Não por coincidência, foi nessa mesma época que se cunhou o termo port como designação pejorativa para edições de PCs que apareciam no mercado, já com grande atraso, permeado por problemas de performance, péssima adaptação para a interface teclado-mouse e bugs para todos os gostos. Grand Theft Auto IV, Dark Souls e Batman: Arkham City que o diga.

Apenas recentemente que vimos uma melhora nessa situação, com um número pequeno — porém crescente — de desenvolvedoras que se esforçam para entregar ao PC uma versão capaz de fazer valer o tempo e o (enorme) investimento que um gamer de PC precisa despender para manter sua plataforma preferida funcionando.

O PC é, de muito longe, a plataforma mais poderosa e de maior prevalência no mercado. Ainda assim, as máquinas de sala de estar ganham quase toda a atenção das desenvolvedoras, e se/quando estas anunciam uma edição para PC, o fazem mais com um senso de caridade do que qualquer outra coisa. Agora, você parou para pensar por que isso acontece? Um excelente texto publicado essa semana pela PCGamesN ajuda a jogar um pouco de luz sobre essa polêmica e delicada questão.

PC

Tim Edwards, o redator do artigo, relata uma entrevista realizada com um produtor de jogos. Nem o nome e nem a empresa para o qual esse produtor trabalha é revelado, por motivos óbvios. Tim pergunta ao produtor “você pode me dizer por que seu jogo não será lançado para o PC no mesmo dia que os consoles?”. A princípio, o funcionário anônimo se recusa a dar uma resposta para uma pergunta tão cabeluda. Depois, fica óbvio que, diante dos gravadores, ele será obrigado a soltar alguma uma resposta genérica ou simplesmente não falar nada.

O produtor parece um cara bacana, ele realmente quer falar sobre isso, dizer a verdade, mas com apenas uma condição: seu nome e sua companhia não podem ser revelados sob hipótese alguma. Tudo bem, “é uma resposta que merece ver a luz do dia”, diz Edwards.

“O problema é simples. As produtoras e seus diretores estão apavorados com a pirataria. Eles atrasam a versão de PC de seus jogos porque há um fatia de consumidores que prefere baixar o jogo do que comprá-lo. Se há uma versão de PC, ela será pirateada e compartilhada. Se não há uma versão de PC, ainda haverá alguma pirataria, mas ela não será nem perto do que normalmente ocorre no PC”.

Edwards pergunta qual o problema de dizer isso abertamente. “Se nós falarmos isso publicamente, a internet vai nos odiar”, responde nosso amigo anônimo. Teorias já sugerem há um longo tempo que o problema dos atrasos, na visão dos produtores, seja realmente a pirataria, mas nunca alguém da indústria falou, mesmo que anonimamente, sobre o assunto diretamente para um jornalista. Edwards ainda ressalta que a visão das desenvolvedoras pode estar correta: nós não temos acesso aos números de mercado exatos, mas sabemos que a pirataria é um problema grave.

Pessoalmente, acredito que a pirataria é sim uma das causas dos atrasos, mas está longe de ser a única. Consoles possuem uma pirataria tão massiva quanto o PC e quem é dono de um Xbox 360 desbloqueado, por exemplo, sabe muito bem do que eu estou falando. Porém, é uma pirataria controlada e que traz grandes prejuízos ao jogador ilegal, que acaba sendo banido das redes onlines, perdendo acesso aos modos multiplayer, atualizações e à compra de conteúdo extra, por exemplo.

Ao mesmo tempo, não há meios rápidos para combater o problema. Pirataria é sim uma praga, que causa danos inestimáveis a qualquer indústria onde aparece. Soluções para frear o problema já apareceram e já fracassaram. Quem aí lembra do infame SecuROM ou do DRM always-on da Ubisoft? Foram medidas que causaram mais danos aos jogadores legítimos do que aos ilegais e ainda sujaram, quase de maneira irreparável, a imagem das empresas.

Pirataria

Lamento que as produtoras vejam a pirataria como motivo para se afastar do PC, mas também lamento que a percepção delas seja tão limitada a esse ponto. Pesquisas já comprovaram que não há uma relação de causa e consequência entre a pirataria e baixas vendas. Ao mesmo tempo, o PC como plataforma de jogos não rende tanto quanto se esperaria aos cofres de grandes produtoras. Talvez as consequências de adaptações preguiçosas estejam aí.

Na verdade, como já discuti em um artigo que eu escrevi para o Gemind, jogos ruins incitam a pirataria desenfreada. Vamos ser sinceros: você não vai pagar por jogos de má qualidade e, sem dúvida, vai guardar seu suado dinheirinho para investir em coisas que mereçam a sua atenção. Chega a ser insultante ver empresas saindo frequentemente na mídia para atacar PC gamers pela pirataria devido a baixas vendas de seus jogos — mal feitos e mal avaliados — que não venderam o tanto que esperavam.

É notável como grandes publishers tem um uma dificuldade incrível para admitir falhas e erros, mas uma rapidez igualmente impressionante para culpar a pirataria por isso.

A pirataria se tornou um ótimo bode expiatório.

Existe o estabelecimento de um círculo vicioso muito perigoso aqui: a pirataria, mesmo não causando impactos reais nas vendas, assusta as produtoras que passam a diminuir os investimentos na plataforma. Os baixos investimentos, por sua vez, ferem a produção e arriscam a qualidade dos títulos, desestimulando a compra e aumentando a pirataria, que reinicia e potencializa o círculo.

Nesse efeito dominó, o melhor que podemos fazer é usar a carteira para valorizar o número cada vez menor de jogos bem construídos que chegam ao PC e torcer pra isso funcionar. A plataforma vive uma realidade amarga que já esteve muito pior e que, graças a explosão dos títulos indies, dos sistemas de distribuição digital como o Steam e o GOG.com, e dos recentes anúncios do SteamOS, Steam Machine e Steam Controller, está melhorando rapidamente.

Mesmo assim, a situação ainda está muito longe do que seria o ideal para uma plataforma tão poderosa e popular como o PC.

PC

Artur Carsten

Catarinense, amante da música eletrônica, estudante de medicina e jogador nas inexistentes horas vagas. Ocasionalmente, escreve artigos e coloca em dia a pilha interminável de jogos comprados em promoção no Steam. Já passou pelo Campo Minado, Continue, Guia do PC, Gemind e Oxygen e-Sports.

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7 Comments

  1. “A pirataria se tornou um ótimo bode expiatório.”
    Era exatamente o que eu ia falar. Eu sempre me lembro do que o fundador da Valve disse numa entrevista sobre pirataria. Ele disse que o segredo pra parar a pirataria não é colocar travas contra ela e sim oferecer um serviço melhor do que elas teriam com pirata.

    E é exatamente isso. Se vc oferecer um serviço merda (ex DRM always-on), vc merece que pirateiem seu jogo.
    Eu já joguei muito jack sparrow. Principalmente antes de cair nas graças do steam. Hoje em dia eu até baixo um jogo ou outro pirata (pro PC, meu xbox não é desbloqueado) mas no final eu acabo usando isso como ‘Demo’. Se eu gosto do jogo, acabo comprando. Depois do steam com suas promoçoes, coisas como humble bundle, no final eu compro mais jogo do que consigo jogar.

    Então não acho que isso seja desculpa. Pode atrapalhar, mas não pode ser o principal culpado. As pessoas pagam sim pelas coisas. Pode ver a galera que joga WOW por exemplo. Além de comprar o jogo, ainda pagam mensalidade. E pagam felizes.

    PS: lembrei agora. Não teve um Batman (Asylum talvez) que se a pessoa tava jogando o jack sparrow, tinha algo bizarro que acontecia no jogo?
    Isso eu acho legal, Ao invés de colocar um DRM horrível, coloca um ‘easter egg do mal’ pra quem jogar pirata.

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  2. Eu concordo com o comentário acima do Fefa, e também acrescento que depois que conheci a steam e suas promoções, deixei de baixar jogos crackeados e agora espero sair na steam, com promoção ou não.

    Essa é mais uma desculpa para não lançarem ao mesmo tempo, pirataria sempre vai ter, já que ocorre pela mentalidade das pessoas.Por que preferem baixar um Resident Evil 5 crackeado e ficar fazendo gambiarra para jogar online do que pagar 9 REAIS EM UM ORIGINAL NA STEAM?

    Veja bem há uns anos eu não me via pagando 100 reais ou mais em um jogo, mas se tiver um PS3 e o jogo for bom eu pago, claro que não rasgo dinheiro e iria procurar promoções 🙂

    Isso é uma discussão infinita já que , convenhamos, com os consoles eles ganham mais dinheiro, então sempre arranjam umas desculpas para atrasarem.O mais chato é a falta de consideração! Lançam jogos extremamente bugados, e como você citou; acham que estão fazendo caridade rsrs

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  3. Excelente artigo, Artur. Olha, acho que não é segredo pra ninguém que o PC é minha plataforma preferida. Sim, apesar do nome do site, etc.

    Mas, também não chego ao ponto de banir outras plataformas da minha vida, como por exemplo tablets, smartphones, portáteis e consoles (tanto é que estou jogando GTA V no Xbox 360 – claro, se ele tivesse sido lançado pra PC a história seria outra).

    Um dos problemas em relação ao PC talvez seja justamente seu poder. Quem joga no PC fatalmente é mais exigente. Perdi as contas de quantas vezes joguei um título no PC e depois no Xbox, e fiquei extremamente decepcionado em relação a esta última plataforma.

    Daí, esse tipo de jogador acaba não gostando e metendo a boca, mesmo, quando ports mal feitos são lançados, quando versões para PC ruins chegam ao mercado. Eu gosto bastante do trabalho da Nixxes, aliás.

    Bom, ports mal feitos podem atrapalhar as vendas, também? Se GTA V tivesse sido lançado também para PC, simultaneamente, teria a Rockstar ganhado tanta grana? Quantos jogadores teriam optado pelas versões para PC (supostamente melhores e com certeza mais baratas)?

    E a pirataria? Também já perdi as contas de quantas pessoas conheci que simplesmente largaram ou começaram a largar, quanto conheceram a distribuição digital, principalmente o Steam. Conheço uma empresa de software que implementou algo bastante semelhante ao DRM alwayw-on, por falar nisso. Lembrando: software, não é jogo. O negócio só funciona se tudo estiver ok: os servidores da empresa pra autenticar e a conexão do cliente. Senão, o cliente, que paga mensalidade pra tal software, não usa, não trabalha.

    Bom, eles não tiveram e não estão tendo resultados bons em relação a isso, e tudo isso me lembrou dessa papagaiada toda com DRM, inclusive essa besteira que a EA fez com o SimCity (e que agora parece que vai mudar um pouco).

    Isso que a Fefa falou sobre o Gabe Newell é a mais pura verdade. Se um jogo tiver valor agregado, se mimarem o cliente (como a CD Projekt RED e o GOG fazem), etc, não existe muito espaço pra piratas. Ou melhor, esse espaço até existe, mas a pirataria aí vai ser um concorrente.

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  4. A indústria de jogos deve primeiro trabalhar pra traçar o perfil de quem pirateia.É preciso entender o porque e quem faz isso , dividindo por classes , nível cultural e idade, por exemplo.Muitas pessoas pirateiam , mas é preciso entender o porque cada uma faz isso.Com esses dados em mãos , trabalhar em cima deles. Zero pirataria é uma utopia tão grande quanto o zero de produtoras gananciosas, mas se houver um real interesse em conquistar o jogador e não apenas o seu dinheiro , acho que vai diminuir muito a pirataria.Enfim, é preciso responder muitas questões e á partir delas trabalhar.É muito cômodo para a indústria privar – ou punir – jogadores de uma plataforma.

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    • Realmente, Marcos. É até interessante pensarmos nisso. Não só na questão de porque jogos são pirateados, mas também no lance de conquistar o jogador. Quantas empresas fazem isso? Bem poucas, pelo menos se considerarmos as “top”, as grandes. Se o jogador for mimado, se lhe forem oferecidas vantagens no produto legalizado, mais vantagens do que o pirata, com certeza muita coisa muda. Também concordo que 0 pirataria é impossível. Mas dá pra reduzir muito. E mesmo o pessoal falando (alguns tentando justificar) que a Rockstar não lançou GTA V simultaneamente pra PC com medo da pirataria (é, já ouvi isso), ainda não explica nem justifica. Principalmente devido aos lucros que eles tiveram nos consoles. Punir não adianta, mesmo. Principalmente porque quem acaba sendo punido é justamente quem não deveria. Eu acho muito engraçado alguns DRMs que contam com “brincadeiras”. Por exemplo, a versão pirata do Take on Helicopters (pelo menos até onde eu acompanhava) provocava problemas nos gráficos, imagens borradas, etc.

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      • Se não me engano teve também a do Serious Sam e o escorpião impossível de matar.
        Em minha modesta opinião existe mais de uma motivo pra se piratear um produto; uns pirateiam porque é fácil,outros porque realmente não têm dinheiro, outros por compulsão , enfim , diversos motivos.De posse desses dados a indústria poderia , por exemplo , identificar quem realmente têm dinheiro e interesse , mas não vê vantagens em comprar um original e lhe oferecer essas vantagens de forma massiva.Uma vantagem interessante seria por exemplo , o sujeito ter o Mass Effect 1 e 2 registrados e no lançamento do terceiro ele ter uma redução de 50% e futuros DLC gratuitos.Enfim, é preciso ter a sensação (real) de vantagem e não a sensação de ser extorquido.Alguns dirão que não pode ser assim, que a diversão em si seria motivo suficiente pra justificar a compra, mas é preciso enxergar a realidade , e hoje ela mostra que a pirataria é grande.Só um adendo esquecido ao meu comentário anterior: discordo completamente quando o Artur diz que “A plataforma vive uma realidade amarga”. Muito exagerada essa afirmação.E obrigado pela resposta , Marcos.

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        • @Marcos A. S. Almeida,

          Essa do Serious Sam BFE foi muito boa.

          Então, com certeza existe. Existem muitos motivos. E outra coisa, Marcos: quantos casos poderiam ser mencionados em que uns acabam pagando/compensando pelos/os outros? Digo, no sentido das tais “perdas” geradas pela pirataria (todos sabemos que não é bem assim, claro) serem compensadas pelas vendas, mesmo? Acho que devem ser muitos.

          Eu acho que falta um pouco de noção de valor, tanto do lado da indústria quanto do consumidor, também. Muita gente acha que não é justo, por exemplo, pagar US$ 60,00 em um “link para download” (na distribuição digital, trocando em miúdos), enquanto não pensa isso se for em caixa. Tudo bem que no digital poderia e pode sair mais em conta, mas vamos esquecer disso por enquanto. O cara esquece, nesse caso, que ele vai ter o mesmo produto (salvo algumas firulas físicas). Daí, também, ocorre de em alguns casos não adiantar desenvolvedoras e publishers, por exemplo, liberarem mimos digitais. E, claro, temos o caso de empresas como a Activision que acham bacana cobrar o absurdo que cobram pelos season passes do COD. É tanta coisa…

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