Eu preciso de boas histórias. Nos games ou fora deles. Desde pequeno, fui incentivado a ler, hábito este que mantenho até hoje. E em minha vida de jogador (de jogos eletrônicos), não poderia ser diferente: preciso, realmente, de boas histórias.

Estou passando por um período de “renascimento”, digamos, em minha vida de jogador. Andei descobrindo ótimos títulos, joguei alguns outros fantásticos, escrevi a respeito de alguns deles, e, bem, o que posso realmente afirmar categoricamente é: preciso de histórias. De boas histórias. De histórias que me cativem, que me prendam, que me façam viajar, pensar, refletir, odiar, amar, chorar, quem sabe.

Pude refletir a respeito de tudo isto de forma bastante intensa recentemente, aliás, ao jogar o excelente Vampyr e o inesquecível e melancólico FAR: Lone Sails, com sua “história sem palavras”. Experiências semelhantes também não faltam, nesta minha vida de “gamer”: Mass Effect é uma franquia que adoro. Mass Effect 3, apesar de seus problemas (ou melhor, de um único problema), foi um ótimo game. Mass Effect 2 também, assim como o primeiro jogo da série.

livros

Imersão é algo que aprecio bastante nos jogos eletrônicos, e apesar de eu adorar um puzzle, um ou outro jogo de corrida, um bom platformer, um ou outro título mais descompromissado, ou até mesmo simuladores, como Euro Truck Simulator 2 e, mais recentemente, Bus Simulator 18 (até mesmo Stormworks: Build and Rescue pode entrar aqui), posso dizer que a imersão e um bom enredo são essenciais para os jogos eletrônicos.

Veja bem: não estou aqui desmerecendo títulos exclusivamente focados no multiplayer, os atualmente famosos Battle Royale, nem tampouco títulos desprovidos de boas histórias porém dotados de outras qualidades (como GTA V, por exemplo, o qual é excelente, em minha opinião, apesar de carecer de uma campanha imersiva, como é de praxe na franquia).

Não estou também dizendo que jogos como Overwatch, Killing Floor, Arma, Red Orchestra e tantos outros são desprovidos de valor: muito pelo contrário – eles possuem seus próprios méritos, podem divertir uma enorme gama de jogadores e são, sim, certamente, bons exemplos de jogos eletrônicos de qualidade (eu mesmo já me diverti bastante com diversos jogos e franquias semelhantes, como por exemplo Call of Duty, Battlefield, Killing Floor, Titantall, etc).

Não se trata de desmerecer nada nem ninguém: estou aqui apenas dizendo que uma boa história é essencial. Esta é a minha opinião, e você pode dela discordar, é claro. Também não estou dizendo que jamais jogarei novamente um título multiplayer, mas o fato é que, ultimamente, estou focado mais em experiências singleplayer.

Assassin's Creed Origins

Games são representantes de uma mídia diferente. Diferente do cinema, diferente da leitura, também. Nestas, somos espectadores passivos de uma história que alguém nos conta. Nada podemos fazer em relação ao desenrolar da história: o próprio diretor, escritor, roteirista, ou seja lá quem quer que seja o responsável, já cuidou disto. Nestas mídias, tudo o que podemos fazer é utilizar os nossos sentidos tendo em vista apreciar algo já pronto, já “empacotado”, já preparado para nos levar a um determinado lugar, seja este bom ou ruim, seja este agradável ou não, perturbador ou não.

Nos games, dependendo do estilo, do gênero e do título em questão, somos mais do que espectadores. Podemos controlar o destino de personagens e de nações. Somos responsáveis pela vida e pela morte de NPCs com os quais muitas vezes nos importamos. Dependendo do jogo e da situação, podemos perceber claramente a narrativa tomando rumos diferentes daqueles que esperávamos, e se você quer uma ideia rápida a respeito, dê uma olhada nos meus reviews dos episódios 1 e 2 de “The Council” (o terceiro já está chegando).

Como eu já perguntei por aqui, o que é preferível? A solidão do singleplayer ou a multidão do multiplayer? Eu fico com as experiências solo, respeitando, claro, as demais opiniões, até mesmo porque eu também me divirto com outros tipos de jogos (sem história, puzzles, corrida, etc).

Precisamos de boas histórias também para que a indústria de jogos se mantenha ativa e produzindo material de qualidade, e hoje mesmo fui alertado a respeito quando li um artigo da própria Electronic Arts a respeito da importância dos dramas, dos personagens e dos enredos em Battlefield V.

A indústria precisa pensar, criar e lançar jogos com histórias cativantes. Com personagens intensos, com ambientações incríveis. Jogos que nos façam refletir, muitas vezes, a respeito de nossas próprias vidas e experiências, afinal de contas, interatividade faz parte dos games, não é? E interagindo com personagens e dramas nos jogos podemos muitas vezes transpor de uma realidade para a outra diversas ideias, muito aprendizado, muita bagagem interessante.

Assassin's Creed Origins

Bons personagens também são importantíssimos, pois sem eles a experiência pode acabar ficando insossa. Você pode ter um game bacana, repleto de boas ideias, com um enredo legal, com ótimas mecânicas: mas se o protagonista, por exemplo, não te cativar, é bem provável que você abandone o título. Um bom personagem principal pode ser a liga necessária entre o jogador e o game.

Estou jogando (sim, ao mesmo tempo) Assassin’s Creed Syndicate e Assassin’s Creed Origins. Este último está me dando diversos socos no estômago. Seu protagonista, Bayek de Siuá, é espetacular. Posso sinceramente dizer que estamos falando a respeito do melhor protagonista em um Assassin’s Creed desde Ezio Auditore da Firenze.

Ele é forte, intenso, cheio de ódio. Sua sede de vingança pode ser sentida por diversas vezes, em seu modo de agir frente a seus inimigos, em cutscenes, em suas palavras, no modo como outros personagens reagem em relação a ele.

Assassin’s Creed Origins é um verdadeiro petardo, um dos melhores AC desde Assassin’s Creed II (senão o melhor até agora). E isto porque também gostei bastante de Assassin’s Creed Rogue, diga-se de passagem.

Assassin’s Creed Origins conta com um excelente enredo, com personagens extremamente bem desenvolvidos, e também com aquela já conhecidíssima mistura entre fatos históricos e reais e ficção (e, sim, sou grande fã da série).

Mas precisamos de boas histórias nos jogos. A indústria precisa, senão, ela estará fadada a criar jogos sem alma. A criar, quem sabe, meros caça-níqueis multiplayer, meros jogos focados na diversão descerebrada, muitas vezes. Jogos cuja vida útil dependerá, talvez, quem sabe, de servidores mantidos em atividade.

É muito mais simples, creio eu, muitas vezes, lançar um título exclusivamente multiplayer (salvo poucas exceções) do que um RPG com um enredo poderoso, do que um título contendo personagens bem desenvolvidos, com uma trama intrincada e envolvente, cheia de reviravoltas e situações angustiantes. É mais fácil lidar com a multidão no online do que com os poucos jogadores no modo solo. Talvez devido à maior rentabilidade, talvez devido ao sucesso rápido, talvez devido à fama, não sei, mas o fato é que as boas histórias, os bons jogos singleplayer, não podem morrer.

Como disse acima, estou em uma espécie de “renascimento” enquanto jogador de videogames. Estou curtindo bastante desfrutar de ótimos enredos. De lidar com protagonistas intensos e carismáticos, bem como com suas aventuras e desventuras. Precisamos de boas histórias para que o mundo dos videogames não se resuma ao rápido e frenético “mata-mata”. A simples partidas por melhores ranks. A curtos rounds visando a obtenção das melhores colocações.

Um bom enredo em um videogame é capaz de nos transportar para outros mundos. Diferentemente de um livro, até, a experiência pode ser um tanto quanto mais intensa, pois podemos agir, reagir, interagir, divergir – dependendo do caso. Diferentemente de um filme, nos games podemos tomar rumos diferentes, alterando, de certa forma, a própria mídia com a qual estamos lidando.

Precisamos de boas histórias nos games, e a indústria parece estar entendendo isto. Life is Strange 2 vem aí, por exemplo, e promete nos entregar um enredo tão bom ou melhor que seu antecessor. O próprio Battlefield V parece também prestes a fazer parte deste seleto rol (mesmo contendo lá sua parcela multiplayer). Assassin’s Creed Odyssey vem aí, e parece que a Ubisoft também vai nos entregar algo interessante. Isto sem falar nos promissores Cyberpunk 2077, Shadow of the Tomb Raider, Gears of War 5, e tantos outros.

Este artigo saiu (e é até estranho mencionar isso) em um jorro. Rápido. Frenético. As palavras brotaram bem rapidamente em minha mente, e o teclado foi furiosamente martelado enquanto isso. Estou adorando curtir boas tramas nos jogos eletrônicos. E você?

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