Afterfall: InSanity é um game desenvolvido com a Unreal Engine 3 que, a princípio, poderia passar despercebido por muita gente. Isto, entretanto, não remove as qualidades do título de forma alguma (nem seus defeitos, é claro). Trata-se de um survival horror que conta com diversos elementos que já vimos em diversos outros jogos do mesmo gênero. Pedaços de Dead Space e Silent Hill, por exemplo, podem ser encontrados aqui e ali, em Afterfall: InSanity. No entanto, a ambientação do jogo é fantástica. A sensação de perigo iminente, sempre fortalecida pela mais do que competente trilha sonora do título, é uma constante.

Ambientes claustrofóbicos nos quais grande parte das vezes é a ausência de luz que torna o desespero maior são “oferecidos” ao jogador de maneira tal que nem mesmo a lanterna do protagonista, o psiquiatra Albert Tokaj, consegue fornecer alívio. Muitas vezes a escuridão é tão grande e tão opressora que o halo de luz da fraca lanterna pode ser até mesmo prejudicial, justamente por permitir que o jogador observe coisas horripilantes que até então estavam dormentes. Coisas que não deveriam ser vistas em tais ambientes. Coisas que muitas vezes podem até mesmo não representar perigo algum, mas cuja simples visão causa perturbação.

Não temos em Afterfall: InSanity o mesmo nível de horror e tensão que temos em Amnesia: The Dark Descent. Aliás, são jogos totalmente diferentes. Mas temos aqui doses suficientes de tensão, escuridão e terror para grandes pulos da cadeira. A história acontece após a terceira guerra mundial. Trata-se de um título que insere o jogador em um futuro pós-apocalíptico repleto de incertezas e de personagens estranhos. O “Projeto Afterfall”, na Polônia, da qual faziam parte uma série de abrigos subterrâneos construídos justamente para o caso de uma catástrofe nuclear, acabou aprisionando, de certa forma, aqueles que conseguiram se abrigar e escapar da fúria das bombas atômicas.

A síndrome do confinamento, mal que começa a atacar a população que vive no abrigo Glory, onde tudo começa, é uma “doença” que tanto parece ser mental quanto física. A trama do jogo conta com diversas reviravoltas, e o próprio Tokaj muitas vezes é um mero peão de acontecimentos e interesses que estão acima de seus desejos. O médico também sofre do mesmo mal que ataca a população do abrigo onde vive, e o jogo inicia com ele dormindo durante uma sessão psiquiátrica.

Tokaj também tem sonhos bem perturbadores, e um destes sonhos acaba por revelar de forma indelével muita coisa que acontecerá em um futuro próximo. Como se já não bastassem todos os problemas pelos quais o pobre Albert Tokaj passa, algo estranho começa a ocorrer em um nível inferior do abrigo, e ele é enviado pelo Coronel, o cara que manda no lugar, juntamente com um grupo de militares, para investigar o que se passa.

Não demora muito tempo para que Afterfall: InSanity mostre seus pesadelos ao jogador. Aparentemente um vírus está se espalhando nas profundezas de Glory e transformando as pessoas em verdadeiros loucos. Tokaj menciona até mesmo que este pessoal, muitos deles cientistas que trabalhavam no lugar, perderam totalmente todo e qualquer instinto de autopreservação, e a hipótese do vírus se transforma até mesmo em algo um tanto quanto estranho quando não somente seres humanos deformados são observados.

Existem monstros, nas profundezas do abrigo subterrâneo, e aqui as semelhanças com Dead Space se tornam um pouco mais fortes. Estes monstros misteriosos dividem espaço com seres humanos que aparentemente sofreram algum tipo de mutação genética, e no meio disto tudo, Tokaj também sofre com alucinações extremamente perturbadoras. Mas será que são alucinações mesmo? As reviravoltas que acontecem em Afterfall: InSanity são muito interessantes e, em alguns momentos, desconcertantes.

Incertezas em relação à sanidade e à inocência de alguns outros personagens também surgem, e enquanto alguns habitantes do abrigo acreditam que a superfície está totalmente destruída e inadequada à vida, outros acreditam que ainda é possível viver-se fora do abrigo, e um outro abrigo, além de Glory, pode ser conhecido através de anotações feitas por diversos outros habitantes. O Coronel também conta com informações extremamente interessantes em mãos, informações que, é claro, ele não divulgou.

Afterfall: InSanity, aos poucos, começa a colocar inúmeras dúvidas na cabeça do jogador, e personagens estranhos não faltam. Em determinado momento do gameplay, até mesmo com canibais Tokaj irá “se relacionar”. Este relacionamento ocorre após um acontecimento importantíssimo no jogo, acontecimento este que derruba alguns mitos que ganhavam força entre grande parte da população do abrigo Glory.

O Coronel parece possuir grande antipatia por Tokaj, e a recíproca é verdadeira, também. Isto não impede, entretanto, que ambos troquem farpas e cheguem a discutir, em um determinado momento de grande tensão. Infelizmente, entretanto, Afterfall: InSanity conta com alguns problemas. O protagonista lida bem com armas de fogo, mas é lento ao extremo nos combates corpo a corpo.

Os controles não respondem rapidamente, e se o jogador estiver cercado por inimigos, o melhor a fazer é se afastar um pouco e sacar uma arma de fogo. Outro grande problema, o qual não seria tão grande não fosse a lentidão de Tokaj, é o fato de armas e munição serem algo um tanto quanto raro, no jogo. Os mais diversos itens podem ser utilizados como armas, desde martelos até pedaços de pau, passando por machados, lâminas, martelos, enormes ferramentas, pedaços de cano, etc. Tudo isto funcionaria muito bem, se os controles respondessem de forma perfeita, ou quase perfeita. Se a resposta fosse mais rápida, digamos.

Mas não é o que ocorre, e o manuseio das armas de fogo muitas vezes é limitado justamente pela dificuldade em se encontrar munição. Vale lembrar que mesmo sem munição você pode continuar utilizando qualquer arma de fogo em seu poder: ela funcionará da mesma maneira que os outros tipos de armas, portanto. Você baterá nos inimigos com ela. E se você pensa que os inimigos estão limitados a mutantes, monstros e soldados do Coronel, você terá algumas surpresas ao jogar Afterfall: InSanity.

Existe um sistema no jogo chamado Fearlock. Este sistema serve para aumentar as reações e habilidades do psiquiatra conforme este sente mais medo. Fearlock alto, ou seja, após a visão de coisas estranhas, presença de monstros, etc, reduzem o desempenho do protagonista em algumas áreas. É difícil disparar um simples tiro, por exemplo, pois as mãos do médico tremem bastante. Entretanto, suas habilidades em combate corpo a corpo, por exemplo, são melhoradas. Infelizmente, este sistema não foi bem implementado, e existem momentos em que seus efeitos sequer são notados.

Em contrapartida, o que Afterfall: InSanity perde em relação a este sistema que, caso funcionasse de acordo, seria fantástico, ele ganha em relação ao seu clima geral. Gritos e sussurros são uma constante, dependendo do local onde Albert esteja. Em alguns momentos, é possível ouvir-se algo que parece um grupo de pessoas conversando de forma extremamente baixa. Uma espécie de murmúrio. Este último som, entretanto, tem um tom extremamente maléfico e assustador, e parece vir de todos os lugares.

A trilha sonora ajuda bastante a conduzir o clima de horror durante o game, e mesmo durante o combate contra inimigos maiores ela não deixa o jogador na mão. Além disso, locais escuros, em Afterfall: InSanity, são realmente escuros, e chegam a fazer com que a movimentação seja difícil, mesmo com o uso da lanterna. Este fato, para determinadas pessoas, pode aumentar ainda mais a tensão psicológica.

Os gráficos de Afterfall: InSanity são competentes, apenas. Infelizmente, também, existem problemas em relação ao sincronismo labial, e a própria animação facial dos personagens é extremamente pobre. Existem alguns locais que contam com iluminação excessiva, aliás. Sim, a escuridão não está presente em todos os momentos do jogo. Nestes momentos, a luz chega a dificultar a visão e a lanterna deve ser desligada imediatamente, para que a situação melhore um pouco.

Existem também diversos puzzles no game. Alguns deles são simples demais, outros possuem dificuldade mediana mas, no geral, todos são tranquilos, o que pode representar um alívio ou alegria para o jogador, dependendo de seus gostos pessoais. Um puzzle em especial é muito interessante. Trata-se de um onde o jogador deve equilibrar a refrigeração de um reator prestes a explodir. Este puzzle conta com 9 terminais dispostos em uma enorme sala, e o jogador deverá utilizar todos eles para realizar as devidas transferências do líquido refrigerante.

Também existem Quick Time Events (QTEs), no jogo, e alguns deles são realmente chatos, pois as sequências onde foram inseridos poderiam perfeitamente contar com a interação do jogador. Não somente isto, estas sequências seriam muito mais divertidas caso o jogador tivesse poder de escolha, e não fosse apenas obrigado a apertar os botões certos nos momentos certos.

Também existem diversos outros puzzles através dos quais o jogador deve redirecionar fluxos de energia, realizar a ligação de alguns dispositivos e também desligar outros. Tokaj conta com um PDA, e este PDA também conta com um modo de funcionamento que serve como uma espécia de bússola, pois não existe nenhum tipo de indicação, em tela, da direção a ser seguida. Neste PDA, também, o psiquiatra faz diversas anotações, as quais podem ser consultadas pelo jogador. Muitas destas anotações apresentam também conclusões tomadas pelo protagonista, as quais podem ou não, é claro, representarem a verdade.

Existem diversos ambientes bonitos, em Afterfall: InSanity, mas também existem outros um tanto quanto insossos. Muitas vezes, principalmente em locais escuros, é fácil, mesmo com a utilização da lanterna, não se perceber o óbvio, e isto acaba tomando muito tempo. Vale lembrar também que o jogo não poupa o jogador da visão de sangue, muito pelo contrário.

É até mesmo muito estranho observar o protagonista, um médico, finalizando seus inimigos de forma extremamente violenta, com direito a machadadas na cabeça e sangue espirrando para todos os lados. Nestes momentos, onde o controle foge temporariamente das mãos do jogador, Tokaj se torna mais rápido e parece querer descontar todo o seu ódio no inimigo que tem sob si, mesmo após este claramente já estar morto.

Quarentenas e uma cena em necrotério também são alguns dos “percalços” que o jogador terá de enfrentar. Certezas podem se transformar em incertezas de forma bem rápida, neste título, e vale lembrar que também há alguém no jogo que precisa do médico: sua namorada, Karolina.

Um momento muito bacana no game é quando você pode controlar um pequeno robô de reparos remotamente. Bom, você precisa utilizar o robô, na verdade, para a resolução de um problema. Este robô caminhará por dutos de ventilação e terá de lidar com áreas eletrificadas, ventiladores gigantes que podem destruí-lo, etc. Tudo isto deve ser feito única e exclusivamente para que uma determinada porta receba energia, para que você possa abri-la. Estes momentos com o robozinho são muito bacanas, sem contar com o fato de que o equipamento é extremamente rápido e fornece a você uma visão bem diferente de todo o ambiente.

Para quem gosta de puzzles, aliás, existe um outro puzzle bem interessante em Afterfall: InSanity. A resolução deste puzzle em especial representará uma grande mudança no jogo, e nele, o Tokaj maneja carros em trilhos, à partir de um terminal onde são vistas linhas representando os trilhos. Linhas vermelha, inutilizáveis, e linhas verdes, utilizáveis. Um braço mecânico vai agarrando cada carro e o posicionando na posição que o jogador escolher, sendo que o caminho deve ser liberado para um único carro, o qual o jogador utilizará.

Conclusão

Afterfall: InSanity possui altos e baixos, mas é um bom jogo. Com um pouco mais de polimento ele poderia ter sido um ótimo survival horror. Repleto de boas idéias e com uma história muito interessante, é uma pena percebermos, entretanto, que nem todas as boas idéias foram bem utilizadas. Mas é um jogo que vale a pena ser jogado, principalmente por quem aprecia o gênero.

Nota

7.5/10

Ficha Técnica

Título: Afterfall: InSanity
Gênero: Survival horror / Ação
Desenvolvedora:  Intoxicate Studios
Publisher:  Nicolas Games
MSRP: US$ 34,90
Data de lançamento: 25 de Novembro de 2011
Plataformas: PC
Versão analisada: PC

Poderá gostar também

Pin It on Pinterest