Alice: Madness Returns é o sucessor de um jogo lançado em 2000, chamado American McGee’s Alice, obra do game designer American James McGee. Desenvolvido pelo estúdio Spicy Horse, de propriedade do próprio American McGee, o título, distribuído pela EA, nos apresenta uma visão distorcida do universo criado por Lewis Carroll para sua obra Alice no País das Maravilhas. Trata-se de um jogo onde temos como protagonista a pequena Alice e onde somos apresentados grande parte do tempo a belezas e aberrações as mais diversas.

Todo o horror em Alice: Madness Returns começa a partir da visão de um simples e aparentemente inocente gatinho branco. Alice, já uma adolescente, e livre do asilo Rutledge, ainda continua perturbada pela morte trágica de sua família em um incêndio cujas causas não foram muito bem explicadas. Trata-se de um game que, basicamente, mistura ação, aventura, puzzles e horror. O horror começa, aliás, antes de Alice ser literalmente lançada em Wonderland, pouco depois de uma sessão psiquiátrica.

Chegando no País das Maravilhas, tudo aparentemente está bem. Um cenário verdadeiramente deslumbrante nos é apresentado, e eu mesmo passei bons minutos olhando para todos os lados, e prestando atenção em cada um dos detalhes que ajudavam a compor aquele espetáculo, naquele momento. Um dos principais objetivos de Alice em Wonderland é buscar suas memórias perdidas e, quem sabe, tentar entender o que ocorreu naquela noite fatídica.

Alice: Madness Returns é um título repleto de puzzles, switches que devem ser ativados para a abertura de portas ou para que determinados mecanismos sejam ativados, etc. O Gato de Cheshire é talvez um dos poucos indivíduos amigáveis que a pobre menina encontrará durante suas aventuras pela terra corrompida, e sua filosofia e conselhos muitas vezes são interessantíssimos. Suas aparições, aliás, são sempre incomuns e em locais nos quais menos esperamos.

É impossível não se surpreender com o País das Maravilhas, mesmo com o mal que grassa por ali. Castelos de cartas, verdadeiros escorregadores gigantescos repletos de brasas pelo caminho, cogumelos gigantescos, inimigos estranhos ao extremo, como por exemplo os diversos monstros pertencentes à classe “Ruin” (Slithering Ruin, Menacing Ruin, Colossal Ruin), os “Ice Snark”, o Samurai Wasp, etc. Barcos aprisionados em garrafas gigantescas também podem ajudar a compor belíssimos e surreais cenários, em Alice: Madness Returns.

Existe uma locomotiva infernal, aliás, que também é um dos objetivos de Alice, e este elemento é causador de grande desgraça em uma terra que outrora foi bela. Muitas vezes o game retira o jogador de Wonderland e o leva às sombrias ruas de Londres, onde eventos muito estranhos também ocorrerão. Tais momentos, entretanto, são breves, e Alice sempre acaba voltando a Wonderland.

A direção de arte do jogo é sensacional, e mesmo elementos bizarros que, talvez, em outro jogo e em outras mãos poderiam chegar a assustar, em Madness Returns são belíssimos e diferentes. São também muito interessantes as “variações”, digamos, que a jogabilidade sofre. Em determinados momentos o jogo se transforma em um side-scroller. Alice pode chegar a pilotar um navio nas profundezas do oceano e também pode entrar em quadros, em certas ocasiões. Nos quadros, a visão também muda para uma perspectiva lateral, e a impressão que temos é a de que estamos jogando um divertido e louco jogo em 2D.

Dentro desses quadros, aliás, existem muitos dos elementos presentes no “mundo real-imaginário” de Wonderland, como os jatos de gás, as molas para saltos, etc. Vale lembrar que quando dentro de um quadro, o estilo gráfico muda totalmente e assume o da tela em questão. É muito bacana, quando isto acontece, pois além de representar uma mudança bem radical no jogo, oferece ao gamer um outro tipo de visão e de jogabilidade.

A movimentação da protagonista é muito bem feita, diga-se de passagem. Quando caminhando lentamente, Alice é extremamente elegante, e o movimento de seus quadris é impressionante. Aliás, a elegância de Alice não está somente em seu modo de andar. Ela está também em seu modo de falar. Sua entonação chega, em alguns momentos, a sugerir um pouco de arrogância.

E você já imaginou jogar um mini-game que é uma espécie de “guitar hero miniatura”, dentro de Alice: Madness Returns? Em determinada fase, um peixe que é proprietário de uma espécie de orquestra pede sua ajuda para ajudar a consertar as coisas em seu grupo musical. Você, então, no final, tem de ajudá-lo a encontrar o tempo certo para a música, e isto é feito em um mini-game muito parecido com guitar hero, onde você utiliza, por exemplo, os botões “X”, “Y”, “A” e “B” conforme necessário, e de acordo com a direção da seta. Existem também puzzles nos quais você tem de buscar por diversas peças de um quebra cabeças e, então, montá-lo, dentro de um número limitado de movimentos.

Algo realmente fenomenal e impactante é o modo Hysteria. Através deste recurso, Alice recebe um “novo gás” e todo os elementos vermelhos e negros em tela são extremamente enfatizados.  Além disso, é aplicado um filtro preto e branco que transforma estas situações e a própria protagonista em algo bem sombrio. Infelizmente, entretanto, o modo Hysteria só pode ser utilizado quando Alice está com sua energia vital baixa. É uma espécie de “último recurso”, digamos.

Uma das fases mais belas do jogo ocorre sob as águas, e a protagonista pode chegar a provocar os consequentes borbulhos e agitações no elemento, dependendo do movimento realizado. Muitas vezes a própria Alice chega a se confundir em seus pensamentos, e a realidade se mistura à sua imaginação, confundindo até mesmo o jogador. Isto fornece um elemento bem interessante ao gameplay. Vale lembrar que você também pode ativar um recurso que fará com que Alice tenha seu tamanho reduzido. Assim fazendo, você consegue observar plataformas invisíveis, fechaduras por onde poderá passar, etc.

As armas da protagonista podem sofrer upgrades, e vale lembrar que todas elas são valiosíssimas. A Vorpal Blade é uma poderosa lâmina para ataques rápidos e precisos. O Hobby Horse é um cavalo de brinquedo que, dependendo de seu nível, pode provocar um verdadeiro estrondo, seguido de enorme destruição. O Pepper Grinder e o Teapot Cannon representam, em Alice: Madness Returns, as armas de fogo que teríamos, talvez, em um FPS convencional. Desamparada a Alice não está, portanto.

Parece haver um sentimento inerente ao próprio game de que quem somente sabe o que ocorreu no incêndio foi a Alice. Isto é muito interessante, e, talvez, daí venha sua perda de memória.  Quem sabe? Isto é citado inclusive nas memórias perdidas que ela recupera durante o gameplay, de forma meio que estranha.

Infelizmente, nem tudo são flores. Alice: Madness Returns é um jogo repleto de bugs, e isto é algo que não consigo entender, principalmente levando-se em consideração o enorme hype sobre o jogo, e quem está por trás do mesmo. Topar com uma parede invisível é algo muito comum, por exemplo. Existem também outros bugs muito irritantes, que não deixam determinadas fases seguirem adiante, mesmo após você ter feito tudo, resolvido tudo, matado tudo. É preciso, literalmente, se suicidar, para que o objetivo, a porta, etc, seja então aberto quando de seu respawn.

Aliás, vale ressaltar que um destes bugs chega a provocar enorme vontade de desitir. Ele ocorre (claro que não para todos os jogadores) durante o capítulo 4, logo após o primeiro encontro da Alice com um personagem chamado “The Executioner”. Se você for “felizardo” o bastante como eu, irá se deparar com o mesmo. Simplesmente, neste “episódio”, a alavanca que deveria provocar a descidas de dois jatos de vapor que possibilitariam o pulo para uma plataforma mais alta, não tem efeito algum.

É preciso, então, realizar um verdadeiro malabarismo insano, literalmente pulando no vazio e, depois de inúmeras tentativas, ser também feliz o bastante para encontrar, às escuras, um ponto de apoio no abismo. Bem pequeno, por sinal, e você não o vê. Se você conseguir, Alice vai morrer, é claro, mas reaparecerá já no local onde deveria ter ido caso o bug não existisse. É chatíssimo. Além disso, não existe uma grande variedade no tocante aos puzzles, e o próprio gameplay acaba cansando um pouco.

Suas 15 – 20 horas de duração chegam a ser um pouco cansativas, pois pode ser um pouco irritante realizar sempre as mesmas coisas, mesmo que em lugares diferentes e, é claro, não posso negar, muito bonitos. Mas este é um ponto bem negativo, em minha opinião. Vale lembrar que a trilha sonora de Alice: Madness Returns conta com faixas composta por Chris Vrenna, ex-integrante do Nine Inch Nails. Recebi 9 delas quando realizei a compra da minha versão do jogo, para PC.

Conclusão

Alice: Madness Returns é um jogo sensacional. Infelizmente, entretanto, o que temos em mãos não justifica o hype. O jogo sofre com bugs realmente insanos, apesar de seus belos gráficos, de sua interessante história e de seu divertido gameplay. A repetitividade também acaba sendo um problema em Alice: Madness Returns, e acaba destruindo por completo o fator replay do jogo.

Nota

7.5/10

Ficha Técnica

Título: Alice: Madness Returns
Gênero: Aventura / Ação
Desenvolvedora: Spicy Horse
Distribuidora: Electronic Arts
Data de lançamento: 14 de Junho de 2011
Plataformas: PC / Xbox 360 / Playstation 3
Versão analisada: PC

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