(Review) BioShock Infinite: Burial at Sea – Episode One

Burial at Sea

Depois de fritar neurônios com sua sequência final diferente de tudo o que você já viu ou era capaz de imaginar, BioShock Infinite está de volta para encerrar o ano com chave de ouro — e debaixo do oceano. Burial at Sea é o segundo pacote de expansão prometido para a obra de arte da Irrational Games e, ao contrário de Clash in the Clouds que resolveu jogar a história para escanteio, expande ainda mais o leque de teorias quânticas do complexo universo da franquia.

Descrito pelo criador Ken Levine como uma “carta de amor aos fãs”, o primeiro episódio da narrativa Burial at Sea abandona os edifícios flutuantes de Columbia e mergulha fundo até as profundezas geladas de Rapture, a utopia submarina que serve de cenário para os dois primeiros jogos da série. Seria esta viagem nostálgica ao glorioso passado da franquia capaz de trazer algo realmente novo? Bom, é melhor preparar seu escafandro, would you kindly?

Ficha técnica

Título: BioShock Infinite: Burial at Sea – Episode One

Gênero: Ação em primeira pessoa

Desenvolvedora: Irrational Games

Publisher: 2K Games

Data de lançamento: 12 de novembro de 2013

Plataformas: PC, Mac OS X, Xbox 360, Playstation 3

Versão analisada: PC

Preço: R$ 24,99 (Steam)

Booker e Elizabeth estão de volta, mas não da maneira como você viu em Infinite. Assumimos novamente o papel do ex-detetive que aparece atuando em sua antiga profissão num escritório de investigação particular em Rapture, a cidade submarina fundada pelo libertário purista Andrew Ryan. Como em um bom filme noir, Booker recebe a visita de uma moça que pede ajuda para encontrar uma garota recentemente desaparecida. A tal moça é Elizabeth, numa versão bem mais madura do que aquela vista em Infinite.

Na primeira metade da aventura, praticamente não existe combates armados. Nada de tiroteios, correria ou plasmids (sim, eles voltaram) voando pra todos os lados. Temos aqui a incrível oportunidade de admirar Rapture em seu período pré-apocalíptico. Estamos a apenas algumas horas antes do fatídico momento que iniciou a derrocada da cidade, transformando-a nas ruínas submarinas que vimos em BioShock 1 e 2.

Burial at Sea

Durante a primeira hora de jogo, tudo o que fazemos é atravessar enormes complexos de lojas, bares, salões dourados e corredores pressurizados em busca de um objeto que dá seguimento à narrativa. Entre uma área e outra, somos forçados a parar por alguns instantes para admirar os belos cenários de uma cidade que nega reis e divindades, colocando o homem como o único e o maior responsável pelas suas conquistas. A ideologia que rege Rapture está evidente por toda a parte: desde estátuas e monumentos até conversas paralelas que já indicam a iminência de um colapso social.

Nada foi reaproveitado aqui. A Rapture que vemos foi magnificamente construída do zero e mantém as mesmas características que vimos nos antecessores, tal como o inconfundível design Art decó. A diferença entre a versão pré e pós-apocalíptica é tanta que por alguns instantes a cidade nos parece irreconhecível. É a utopia funcionando com toda a sua glória, exatamente como foi planejada por Andrew Ryan. Para os novatos, os microfilmes e os registros de áudio retornam e ajudam a explicar o contexto, além de revelar algumas relações interessantes entre Rapture e Columbia.

Entre conversas inflamadas da cidadãos ao nosso redor, realizando suas funções diárias normalmente, e os visuais deslumbrantes da utopia submarina, temos a missão de juntar pistas sobre o paradeiro da garota desaparecida. Por motivos não bem compreendidos, Elizabeth sabe exatamente com quem falar. E esse “quem” é um velho conhecido dos veteranos da franquia. Sua aparição aqui apenas reforça seu título como um dos personagens mais marcantes e misteriosos da série.

Burial at Sea

Dentro de não mais do que uma hora desde o início de Burial at Sea, a visão quase paradisíaca dessa utopia cede bruscamente lugar ao que todos nós já estamos acostumados: o caos. Se tem algo que BioShock sabe fazer bem é mostrar que sociedades perfeitas não conseguem coexistir por muito tempo. E lá estamos nós caminhando por corredores alagados, tubulações estouradas e salões arruinados habitados pelos infames splicers: cidadãos de Rapture cujas mentes e corpos foram dilacerados pelo abuso de Plasmids (chamados de “Vigors” em Infinite).

Mesmo com a violenta mudança de universos, a jogabilidade mantém sua semelhança com o que você viu em Infinite (e no primeiro BioShock). De um lado, armas. Do outro, Plasmids (habilidade especiais que permitem que você, por exemplo, transforme um inimigo em uma massa incandescente ou num bloco de gelo) alimentados por Eve, o cobiçado fluído azulado. Tudo isso versus Splicers armados, metralhadoras estacionárias e um velho conhecido oponente.

Além dos elementos clássicos, as aventuras em Rapture passam a contar também com alguns elementos introduzidos em Infinite como os Sky Hooks (aqui chamados de Air Grabbers) que se conectam a trilhos de metal suspensos e permitem com que Booker surpreenda inimigos com ataques “aéreos”, e as fendas temporais abertas por Elizabeth que importam objetos úteis ao campo de batalha: de munição a aliados bizarros como Samurais e até um Patriot motorizado visto em Columbia.

A atenção dada ao binômio Booker e Elizabeth continua caprichada: a garota continua entre as companhias mais inteligentes já desenvolvidas para uma trama single player, mantendo-o abastecido durante o calor dos tiroteios e até indicando a aproximação de inimigos. Os diálogos entre os dois dirige a trama na segunda metade e leva-o diretamente à sequência final, quando o motivo da presença dos dois em Rapture é esclarecida.

Burial at Sea

Talvez a maior mudança vista em Burial at Sea seja uma atenção muito maior dada ao aspecto survival horror da franquia. BioShock carrega esse gênero em sua essência, mas raramente o coloca em primeiro plano. As ruínas que visitamos aqui são preenchidas com um jogo de áudio e luz que poderia facilmente definir o título como um jogo de terror. Corpos e sangue se combinam com corredores e salões iluminados apenas pelo brilho anêmico da água do oceano, gerando uma impressão de solidão capaz de gelar a espinha.

Não apenas o jogo está muito mais horror, mas como também survival. Mesmo nas dificuldades mais leves, você terá problemas para manter seu estoque de munição e Eve abastecido. Ainda que você consiga juntar dinheiro para usar as velhas conhecidas máquinas automáticas de Rapture (sim, elas voltaram!), o limite de munição transportável foi seriamente reduzido. Isso leva a duas mudanças positivas na mecânica: é necessário variar o arsenal constantemente e a ampla exploração de cenários se torna primordial.

Nos modos de dificuldade mais altos, não será raro ter que evitar inimigos ou neutralizá-los mano-a-mano sorrateiramente por não ter mais do que um punhado de balas em seu revólver. Mesmo em menor número, os inimigos aqui adquiriram uma impressionante letalidade que com certeza dará trabalho mesmo aos mais chegados. Ao menos, a “parte stealth“, mesmo não sendo nativa da série, ficou bem feita. Se as coisas derem errado, não se preocupe: o novo Radar Range é capaz de literalmente derreter as entranhas de seus oponentes!

Burial at Sea

Difícil falar de problemas em um DLC que não esconde sua missão de fan service, entregando tudo aquilo que fez da franquia uma das mais icônicas da indústria. Entretanto, eles estão lá. A duração de Burial at Sea talvez seja o maior vilão: mesmo revirando os cenários de cima a baixo, sua aventura não vai durar mais do que duas ou três horas. Mas veja bem: são duas ou três horas de extrema qualidade — um raro caso onde a opção por qualidade ao invés de quantidade é perfeitamente justificada.

Ainda assim, a pouca duração acaba deixando a impressão de que as duas metades desse primeiro episódio ficaram subdesenvolvidas. Isso fica bem exemplificado pela transição extremamente brusca entre essas duas partes: em questão de segundos, deixamos a Rapture civilizada e ordeira e caímos numa Rapture lotada de gente querendo um pedaço de você. Os motivos que levam a essa mudança brusca poderiam ter sido melhor trabalhados e tenho certeza que a Irrational possui talento criativo de sobra pra isso.

Burial at Sea

Burial at Sea também sofre do mesmo mal que permeia o jogo-base: a história passa 98% do tempo entupindo sua cabeça de dúvidas e, de uma hora pra outra, resolve respondê-las numa cacetada só. O balde de água fria que você toma nos últimos 30 segundos da narrativa provavelmente vai forçá-lo a jogar o DLC mais uma ou duas vezes para conseguir digerir tudo e ainda assim não evita o enorme cliffhanger que te deixará sedento pela segunda parte. Talvez com Episode Two tais problemas sejam prontamente justificados.

Eu joguei os BioShocks antecessores antes de jogar Burial at Sea. Entretanto, fico me perguntando se quem nunca jogou os primeiros jogos conseguirá absorver bem o ambiente de uma Rapture inédita. No primeiro BioShock, levamos horas para aprender a forte ideologia que rege a cidade e os motivos sombrios que culminaram na sua derrocada. Os microfilmes feitos para esclarecer o jogador, sozinhos, não parecem fazer muito sentido pra quem não teve a base dos primeiros jogos. E isso pode ser um problema grave pra quem chegou direto em BioShock Infinite.

Conclusão

Burial at Sea – Episode One é um presente perfeito para os fãs. O DLC desafia sua curta duração e consegue unir em pouco tempo praticamente todos os elementos que fizeram de BioShock uma das séries mais admiradas da indústria. A história complexa recebe teorias frescas que manterão seus neurônios fervendo por mais algum tempo. A jogabilidade combina o melhor das mecânicas vistas ao longo da franquia sem nunca deixar de surpreender. E os cenários fornecem conteúdo de sobra para um “turismo virtual” pela icônica Rapture.

Burial at Sea

A curta duração, porém, impede que o jogo consiga se sustentar com as próprias pernas. Por vezes, Burial at Sea parece subdesenvolvido e não reflete a profundidade e a complexidade vista no jogo-base, mesmo se propondo a fazer exatamente isso. É uma enorme coleção de elementos “BioShockianos” mas, uma vez colocados juntos em tão pouco tempo, não fazem muito sentido. Felizmente, teremos ainda uma segunda parte que tem tudo para reverter essa impressão.

Nota

7,5/10

Artur Carsten

Catarinense, amante da música eletrônica, estudante de medicina e jogador nas inexistentes horas vagas. Ocasionalmente, escreve artigos e coloca em dia a pilha interminável de jogos comprados em promoção no Steam. Já passou pelo Campo Minado, Continue, Guia do PC, Gemind e Oxygen e-Sports.

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