(Review) Company of Heroes 2 — Nenhum passo para trás!

COH2

Quando as primeiras tropas americanas e britânicas desembarcaram na Europa em junho de 1944, durante a famosa Operação Overlord (você provavelmente a conhece como Dia D), a Segunda Guerra Mundial já estava caminhando para o seu fim. Isso porque desde o verão de 1941, os soviéticos já estavam em uma sangrenta guerra contra os alemães no front oriental.

Quase metade das baixas registradas no conflito mais brutal da história da humanidade aconteceram no front europeu oriental: dois terços da máquina de guerra nazista foi derrotada por lá, às custas da vida de quase 9 milhões de soldados soviéticos e 18 milhões de civis. Boa parte dessas mortes foram causadas, direta ou indiretamente, pelo impiedoso “General Inverno” e suas temperaturas de -40º C.

Hitler, quando lançou a Operação Barbarossa, estava tão confiante que suas forças alcançariam Moscou antes do inverno chegar que nem considerou essa possibilidade. Grande erro. Um erro, aliás, que muitos conquistadores (como Napoleão) cometeram na tentativa de invadir os vastos territórios da Rússia. O que se viu não poderia ser diferente: sangue e muita, muita neve.

COH2

Sim, eu sou fascinado pela Segunda Guerra Mundial. E sim, esse é o cenário de Company of Heroes 2. A continuação para o jogo de estratégia em tempo real que colocou a Relic Entertainment entre as mais famosas desenvolvedoras do gênero finalmente chegou, após sete anos de espera. Nem mesmo a falência de sua antiga publisher (THQ), impediu o lançamento do título. Mas será que todo esse tempo valeu a pena?

Ficha técnica

Título: Company of Heroes 2

Gênero: Estratégia em Tempo Real (RTS)

Desenvolvedora: Relic Entertainment

Publisher: SEGA

Data de lançamento: 25 de Junho de 2013

Plataformas: PC

Versão analisada: PC

Preço: R$ 99,95 (Steam, versão básica)

Enquanto o primeiro Company of Heroes e suas expansões Opposing Fronts e Tales of Valor se focavam nas batalhas ocorridas à oeste de Berlim, Company of Heroes 2 foca todas as suas atenções para o leste da capital alemã. A campanha singleplayer é narrada em forma de flashback a partir das memórias do tenente Lev Abramovich Isakovich, que conta suas experiências de guerra durante um interrogatório na prisão em que foi encarcerado por motivos ainda desconhecidos no início da narrativa.

As 14 missões da campanha, que totalizam quase 20 horas de jogatina (dependendo do seu modo de jogo), levam o jogador ao longo de quase todos os grandes eventos do front oriental. Da invasão da Rússia durante a Operação Barbarossa (em 1941), passando pelo sangrento cerco de Stalingrado (1942-1943), até a contraofensiva soviética e a tomada de Berlim (em 1945).

COH2

A narrativa começa promissora e ajuda a fortalecer o contexto do jogo, que é de suma importância para que o jogador compreenda a lógica das missões, bem como seus objetivos. Digo isso porque durante o primeiro terço da campanha, tudo o que você faz é destruir o que quer que seja útil ao inimigo e recuar. Um “Missão Concluída” na tela não parece tão gratificante quando tudo o que você fez foi sacrificar montanhas de soldados numa desesperada tentativa de retardar o avanço do invencível exército alemão.

No meio da campanha, quando os rumos da guerra mudam e a invasão alemã é finalmente interrompida, quase um novo jogo se inicia ali. De um “tower defense” que quase sempre termina em milhares de inimigos esmagando suas tropas, passamos a jogar um jogo de contra-ataque. Há uma base de operações num canto do mapa ou um grupo de unidades, e um objetivo no lado oposto que precisa ser cumprido.

O que fez de seus antecessores quase clássicos instantâneos foi sua mecânica de jogo pioneira. E fico feliz em confirmar que Company of Heroes 2 perpetua tal mecânica, apesar de que faltou um pouco mais de ousadia para inovar. Basicamente, você controla vários grupos de soldados (e não unidades individuais) que podem ser engenheiros, fuzileiros, atiradores de elite, especialistas anti-tanques, artilheiros de morteiro, entre outros; e veículos, como tanques e blindados (esses sim, individuais).

Raramente você terá mais do que 10 unidades em atividade durante uma missão, mesmo considerando que o limite de população foi levemente acrescido em Company of Heroes 2. Parece pouco e realmente é, e para vencer, vai depender de como você posicionará essas unidades para atacar o inimigo. Tudo é uma questão de posicionamento.

Os elementos do cenário tem um impacto gigantesco sobre a jogabilidade, pois vários deles fornecem cobertura às suas unidades. Ao ordenar o movimento de um grupo de soldados, pontos coloridos aparecerão ao redor do cursor indicando o nível de cobertura que aquela posição oferece. Um escudo verde indica que a posição oferece grande proteção, minimizando os danos, enquanto um escudo amarelo ou ausente indicam posições arriscadas. Muitas vezes, é possível bombardear uma área aberta, criando crateras que mais tarde podem ser usadas como proteção pelas suas unidades.

Armas estacionárias, como canhões, metralhadoras, morteiros e peças de artilharia, podem ser posicionadas de tal formam que cubram uma certa direção do mapa, atirando prontamente em qualquer inimigo que adentre seu raio de alcance. Entretanto, inimigos que apareçam fora dessa cobertura não enfrentarão resistência e podem destruir suas unidades facilmente. Isso torna a experiência de posicionar ou defender unidades em Company of Heroes 2 uma atividade extremamente gratificante e usada à exaustão nas primeiras missões do jogo.

COH2

É no meio dessa mecânica que aparece a primeira grande novidade de Company of Heroes 2: o inverno. Abandonar as estradas e mover suas unidades pelo campo pode até ser mais seguro, porém, muito mais lento. Acúmulos de neve atrasam de maneira comprometedora o movimento de suas tropas e veículos. Aliás, ficar por muito tempo longe de uma fonte de calor ou de cobertura pode levar seus soldados à morte por hipotermia! Atravessar rios congelados é uma atividade extremamente arriscada, pois o inimigo pode armar uma emboscada, rachar o gelo com uma explosão e afundar toda a sua força.

É uma pena que o “General Inverno” tenha sido explorado tão pouco. Entretanto, quando ele aparece, abre margem para estratégias sensacionais. Em uma das missões, por exemplo, você precisa utilizar um grupo de atiradores sibérios, imunes ao frio, para atacar acampamentos alemães e forçar os soldados a saírem correndo, assustados. Longe da fonte de calor, eles simplesmente padecem, economizando munição. Em outro momento, é possível acender fogueiras no mapa para atrair o inimigo à uma aconchegante fonte de calor e então emboscá-los.

A tradicional neblina de guerra (fog of war) foi quase completamente reconstruída em Company of Heroes 2, tornando-se mais “dinâmica”. Suas unidades só revelarão o mapa da região de onde elas possuem visão direta. Isso quer dizer que você não poderá ver o que está do outro lado de objetos sólidos, como um muro, por mais que suas unidades estejam colados a ele. Por causa disso, emboscadas se tornam muito mais letais, e só serão reveladas quando já for tarde, fazendo com que unidades especializadas em reconhecimento, como snipers e aviões batedores, ganhem especial importância.

COH2

Semelhante aos antecessores, todas as suas unidades possuem um sistema de evolução. Funciona assim: matar inimigos gera experiência que se acumula para fornecer um máximo de três bônus, que incluem maior resistência, maior precisão e maior velocidade de disparo. Quando todos os soldados de uma unidade são eliminados, a unidade deixa de existir e o nível de evolução, obviamente, reseta. Para evitar isso, é preciso reabastecer a unidade frequentemente com mais soldados.

Aqui vai entrar outra novidade do jogo: ao invés de simplesmente recuar suas tropas para o quartel-general (muitas vezes distante), é possível completar o efetivo incorporando soldados de outra unidade. Isso é especialmente válido no caso dos soviéticos, pois esses dispunham de um enorme contingente durante a guerra. Fato este levando em conta aqui, onde o jogador pode convocar os inexperientes e baratos “conscritos” e então incorporá-los a unidades veteranas que sofreram baixas.

Isso tem um custo, porém. Toda vez que o jogador recrutar unidades de fora do mapa, a infame “Ordem 227” ficará ativa por um breve tempo. E o que diabos essa ordem significa? Em certo momento da guerra, Stalin (o governante russo) ordenou que todos os soldados que recuassem deveriam ser mortos por seus próprios camaradas (“Nenhum passo para trás!”). No jogo, mandar uma unidade recuar em direção ao quartel-general durante a Ordem significa a morte. Novamente, é outra funcionalidade pouco explorada, pois em nenhum momento precisei recuar ao QG durante minha campanha.

Mesmo que o “General Inverno” e a “Ordem 227” tenham sido pouco empregados, nota-se uma impressionante atenção dada aos eventos da II Guerra Mundial pela Relic Entertainment, que incorporou elementos historicamente importantes dentro da mecânica do jogo. Isso tudo ainda é reforçado pela narração da campanha através de vídeos em animação gráfica renderizada pela própria engine do jogo. O problema é que tais animações, além de contarem com diálogos um pouco canastrões, têm visuais bem precários que por pouco não comprometem a trama.

COH2

Aos fãs mais hardcore, vale notar que várias unidades sofreram considerável rebalanceamento. Os snipers, antes máquinas de matar solitárias, de disparos perfeitos e capaz de ficarem invisíveis, não são mais tão mortais assim. Agora, eles se apresentam em duplas, erram tiros e só podem ficar invisíveis quando estão sob cobertura. Os temíveis blindados alemães estão mais temíveis ainda. Os morteiros tiveram seu alcance e sua frequência de tiro revisados. E os artilheiros dos canhões anti-tanques terão que suar mais para penetrar a blindagem de seus alvos.

No final, percebe-se que a campanha singleplayer continua como ponto mais forte do jogo, apesar do mau uso das novidades. A primeira metade se resume a missões essencialmente defensivas, enquanto a segunda metade, contém a reação ofensiva. Entretanto, é notável como várias delas foram construídas de tal forma a aproveitar as características de um certo grupo de unidades. Em uma das fases mais sensacionais e desafiadoras do jogo, você é ordenado a caçar e roubar (sim, roubar) um Tiger Tank alemão virtualmente indestrutível utilizando só a infantaria!

Terminando a campanha, Company of Heroes 2 traz mais dois modos de jogo: o multiplayer, grande responsável pela longa vitalidade de seus antecessores, e o Theatre of War. O primeiro modo utiliza um sistema de matchmaking para encontrar um oponente à sua altura numa disputa que dá a vitória a quem dominar os pontos do mapa, ou quem for mais rápido e destroçar o oponente primeiro. Jogar contra humanos é, claro, mais desafiador e uma forma de experimentar novas táticas além do estúpido costume que a inteligência artificial do jogo tem de fazer os inimigos simplesmente avançarem na sua direção.

A Relic foi um pouco mais longe por aqui e acabou pegando emprestado um polêmico sistema de evolução, semelhante ao que vários shooters atuais usam. Vencer partidas rende pontos de experiência que liberam pequenas melhorias que afetam todas as suas unidades. São modificações quase imperceptíveis (aumentar 2% o dano de veículos, por exemplo), mas ainda assim capazes de quebrar a isonomia de algumas partidas. A possibilidade de comprar essas habilidades (chamadas de Commanders) também cria um desagradável cenário de “pay 2 win”.

COH2

Se você, assim como eu, não é muito chegado no combate contra outros jogadores, o modo Theatre of War pode ser um enorme atrativo. Trata-se de uma “campanha paralela”, que ocorre nos períodos iniciais da guerra, contendo missões tanto do lado russo quanto do lado alemão, que podem ser jogadas sozinho ou em cooperação com outro jogador. O detalhe aqui é que tais missões são bem mais desafiadoras do que aquelas da campanha, com objetivos ousados e um inimigo muito mais agressivo.

Em uma delas, por exemplo, você inicia com um pequeno grupo de conscritos que precisa recuperar várias Katyusha, artilharias soviéticas, espalhadas pelo mapa e então utilizá-las para bombardear prédios alemães. Tudo isso num tempo limitadíssimo, sem acesso a blindados ou tanques e com a possibilidade de derrubar prédios neutros para ganhar mais tempo.

Quanto aos aspectos técnicos, Company of Heroes 2 utiliza um novo motor gráfico que fornece visuais um pouco mais elaborados do que seu antecessor. Os cenários mais densos, o maior nível de detalhe e a presença da neve exigem um hardware considerável. Telas de loading e saves demorados, quedas abruptas de performance e crashes estão presentes e podem ser um pouco incômodos, mesmo com diversos ajustes no menu de opções gráficas. Vale notar o uso de memória absurdo: certa vez encontrei o processo do jogo consumindo mais de 2 GB de memória física!

Os novos efeitos de partículas ajudaram a criar explosões sensacionais, com destroços e faíscas voando para todos os lados. É um deleite assistir suas artilharias desempenhando uma barragem de disparos, abrindo crateras imensas, derrubando edifícios e riscando o cenário de fumaça e fogo. O áudio também não deixa por menos e ajuda a tornar uma feroz batalha de tanques ou os gritos de desespero dos soldados ainda mais aterradores.

COH2

Conclusão

É exatamente o fato de Company of Heroes 2 ser tão parecido com seus antecessores que faz dele um jogo tão bom. Enquanto muitos podem ver isso como algo negativo, é necessário ressaltar a difícil tarefa da Relic de produzir uma continuação que honrasse uma das franquias de estratégia mais famosa do mercado. A mecânica está intacta, as novidades foram bem-vindas e encorajaram os jogadores e readaptarem sua maneira de jogar, especialmente ao longo do incrível Theatre of War.

Entretanto, faltou um pouco mais de ousadia para criar algo que realmente destacasse o título das amarras do antecessor. É um grande expansão que mantém tudo aquilo responsável por ascender a franquia ao hall dos grandes jogos de estratégia. É uma compra quase obrigatória para os fãs e veteranos, mas uma compra difícil de se recomendar para quem busca algo diferente dos primeiros, tanto devido a falta de mudanças substanciais quanto devido ao sistema polêmico do modo multiplayer.

Company of Heroes 2, com certeza, não toma nenhum passo para trás, mas também não toma quase nenhum a frente.

Nota

8/10

Artur Carsten

Catarinense, amante da música eletrônica, estudante de medicina e jogador nas inexistentes horas vagas. Ocasionalmente, escreve artigos e coloca em dia a pilha interminável de jogos comprados em promoção no Steam. Já passou pelo Campo Minado, Continue, Guia do PC, Gemind e Oxygen e-Sports.

Twitter  

Poderá gostar também

4 Comments

  1. RTS é o que me faz querer montar outro pc. Joguei muito o primeiro CoH e pra mim foi o melhor jogo de estratégia que já joguei.

    Reply
    • Verdade. Jogos assim são fora de série. Outro ótimo e recente é o XCOM: Enemy Unknown, não sei se chegou a dar uma olhada nele.

      Reply
      • Joguei sim a demo, curti, mas não deu aquela chamada que o CoH causou.

        Reply
        • Entendi. Deve ser mais ou menos o que o Artur havia comentado.

          Reply

Submit a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Pin It on Pinterest