(Review) Daylight – esforce-se para se assustar

Ah, essa indústria de games marota que vez ou outra consegue nos fazer acreditar que um futuro lançamento será realmente imperdível, seja através de trailers criados sob medida e sempre mostrando apenas os melhores momentos, seja através de screenshots capturadas com estremo cuidado, seja através de uma ampla gama de informações divulgadas com cuidado e extremamente filtradas, deixando passar somente o pouco que realmente interessa e/ou vale a pena.

Essa mesma indústria também é capaz de nos entregar títulos que não condizem com os trailers (assustadores?) que assistimos, com as excelentes screenshots que admiramos antes e com todas as informações prévias que devoramos, quem sabe, com grande ansiedade.

Daylight chegou a ser adiado, falando nisso, e tudo levava a crer que teríamos em mãos outro bom jogo de horror. Tal adiamento, aliás, ocorreu para “torná-lo mais assustador“. Quem sabe, até, um título de terror de verdade, como Amnesia: A Machine for Pigs, por exemplo. Infelizmente, isto não aconteceu, e tudo o que temos não passa de uma coleção de eventos, personagens e ambientações genéricos.

Não chego a dizer que o jogo não possui bons momentos. Ele os possui, sim, mas tudo acaba ficando bastante enjoativo dentro de pouco tempo, e se levarmos em consideração o fato de que sua campanha é bastante curta, tudo fica ainda pior.

Daylight

Ficha técnica

Título: Daylight

Gênero: Terror

Desenvolvedora: Zombie Studios

Publisher: Zombie Studios

Data de lançamento: 29 de Abril de 2014

Plataformas: PC / Playstation 4

Versão analisada: PC

Ok, temos a geração procedural, capaz de alterar o layout dos ambientes a cada gameplay. Mas, e daí, se a execução foi falha? Se tudo o que temos é mais do mesmo? Se em Daylight o jogador tem que se esforçar para se assustar, após uma hora (ou menos) de jogo?

Parece que a Zombie Studios teve uma certa preguiça durante o desenvolvimento do jogo, e percebemos claramente que ele faz um uso extremamente excessivo de jump scares. Você está lá, com seu “celular”/mapa/lanterna nas mãos, caminhando por um corredor escuro, e de repente um velho móvel à sua frente tomba, do nada. Ou então uma gaveta salta de uma escrivaninha, também do nada. Objetos que caem. Portas que se fecham conforme você por elas passa. E isto se repete. Muitas e muitas vezes.

No princípio é até legal, mas cansa. Tudo poderia ter sido diferente, quem sabe, se houvesse um “algo a mais” se unindo aos jump scares: boa história, sustos introduzidos de outras maneiras, bons personagens, boas mecânicas, bons puzzles, etc. Mas não. Infelizmente, não temos nada disso.

A protagonista do jogo, Sarah, acorda sozinha em um velho hospital abandonado, o Mid Island Hospital. Um local terrível, sim, no qual diversas mortes ocorreram durante os séculos 18 e 19. Mulheres foram mortas ali perto, aparentemente acusadas de bruxaria, e não se preocupe: seus fantasmas estão ainda por ali.

Pelo que me consta, este é o primeiro jogo desenvolvido com a Unreal Engine 4 e, não. Não espere por gráficos sensacionais. Se a culpa disto está na falta de experiência do estúdio com a engine, não posso dizer, mas nada existe aqui, em relação aos gráficos, que seja memorável e/ou admirável.

Obviamente, estamos falando de um jogo escuro. Um jogo cuja maior parte dos eventos ocorrem em meio à escuridão e/ou sob a fraca luz de uma mera lanterna. Mas percebemos nitidamente quando texturas ruins aparecem em cena, quando aquela mesma cama aparece diversas e diversas vezes, em vários outros quartos, na mesma posição e com o mesmo nível de ferrugem, quando as “bruxas fantasma” nos assustam mais por serem feias de doer (não no “bom” sentido) do que por serem, bem, fantasmas, quando a água em algum porão se parece com tudo, menos com água.

Daylight

Tenho de dizer, entretanto, que a Zombie Studios realizou um belo trabalho no que diz respeito ao áudio. Temos gemidos e choro em boas doses, tudo muito bem feito e “disparado” nos momentos certos. Os efeitos sonoros representam um dos pontos altos do game, e é bacana perceber que os ruídos, os gritos, os gemidos e as batidas se alternam e têm sua intensidade reduzida ou elevada conforme andamos e/ou movimentamos a câmera (o que, é claro, representa a movimentação da cabeça de Sarah). Bem, mas isto é algo que deve ser comum a qualquer jogo de horror, não é?

Mas Sarah, a protagonista, infelizmente chega a irritar, com suas exclamações de medo. Também, sempre mais do mesmo. ” – Oh, meu Deus, tem alguém aqui”, diz a protagonista, com a voz trêmula. Diversas e diversas vezes. As pequenas frases mudam, vez ou outra, mas são sempre desprovidas de sentido, de necessidade. De emoção, até.

Há um personagem oculto que conversa com Sarah. Um homem, que fala com ela diversas vezes, pelo celular, pelo que parece. Nada muito interessante, entretanto, apesar de Sarah vez ou outra sentir mais medo de acordo com o que o misterioso personagem diz.

Fantasmas aparecem, também, e eles podem ser facilmente “eliminados” com o acendimento de flares (bom, também podemos simplesmente correr). Tais flares podem ser coletados conforme jogamos, assim como os bastões fluorescentes. Estes são úteis para iluminar o caminho e também para encontrar itens marcados de uma forma estranha, com desenhos que lembram labirintos.

Vale dizer que estes bastões são mais úteis para encontrar tais elementos que guardam itens úteis (escrivaninhas, armários, etc), pois já temos o celular como fonte de iluminação. Mas é impossível jogar Daylight por muito tempo sem que um grande cansaço sobre nós caia.

Daylight

Não, não. Essa é a “arma” errada. 😉

Tudo é mais do mesmo. Temos a impressão de já termos visto tudo aquilo em algum lugar. Ande do ponto A até o ponto B, colete X número de notas, ache a saída, volte para encontrar o item que a abre e comece novamente, em um novo lugar. Tudo isto, claro, com a devida companhia de aparições, gemidos e gritos.

As tais notas escritas também ajudam a fornecer uma ideia dos acontecimentos do passado, da loucura que tomou conta de alguns pacientes do hospital, do medo que fazia vítimas entre os próprios médicos e enfermeiros. E, basicamente, isto é tudo.

É possível sentirmos vontade de saber mais a respeito da protagonista, a respeito dos “horrores” que nos perseguem, etc. Mas falta algo que nos motive. Falta um sentido, talvez, naquilo tudo. Meros bilhetes e notas foram infelizmente transformados também em pré-requisitos para “passar de nível”, ao invés de funcionarem como simples fontes de informações.

Chega um ponto, durante a jogatina, que nem mesmo a súbita visão de uma aparição causa susto, até mesmo porque tais momentos são precedidos por uma espécie de interferência, ou falha, no celular. Ou seja, o jogo meio que nos avisa de que algo “terrível” está chegando. E aí, mais uma vez, foi-se embora a imersão (maldito celular).

A cada vez que você reinicia um nível em Daylight entra em cena também a geração procedural. Isto poderia ser algo bem bacana, ou melhor, é bacana. Mas de que adianta? Tudo continua tão aborrecedor quanto antes, mesmo com novos corredores, armários em lugares diferentes, fantasmas surgindo de outros lugares.

Uma vez que você tenha capturado a fórmula do jogo, basicamente fundamentada em jump scares, nada mais irá te assustar. É aquela coisa: Sarah caminha com medo, ofegante vez ou outra, e já adiantando: “Oh, my God, bla, bla, bla”. O tal evento do script entra em cena no momento certo, você já imaginava o que iria acontecer e pronto. Acabou.

Talvez a integração do jogo com o Twitch seja algo interessante, mas, sinceramente, não tive vontade de testar, ainda. Dizem que com tal integração, quem assiste ao streaming pode digitar certos comandos e, assim, assustar o jogador através de uma série de acontecimentos disparados por tais comandos. É, quem sabe isto torne o jogo mais interessante e menos enfadonho?

Daylight

Não consegui sentir muito interesse pela protagonista e nem pelo tal homem misterioso que fala sempre com ela. Este “jogo de terror” conta com uma trama tão batida e com personagens tão mal construídos que, na verdade, é fácil deles nos esquecermos enquanto jogamos. É fácil esquecer o porquê de estarmos ali, ou, melhor dizendo, é fácil sentir vontade de não tentar descobrir. É difícil um segundo playthrough. Um terceiro? Creio que só um herói conseguiria.

Daylight também requer uma placa de vídeo com suporte ao DirectX 11, caso você opte pela versão PC, e não posso deixar também de mencionar os problemas pelos quais passou o jogo. Ou passa, sabe-se lá. Travamentos inexplicados, escolha de outro idioma pelo próprio jogo (diversas vezes o meu foi iniciado em Italiano), telas escuras e sérios problemas com qualquer tipo de overlay, incluindo o do Steam.

Quero deixar claro, porém, que tais problemas podem ou não ter sido resolvidos. Tive bastante “sorte”, e passei por tudo isto devido a ter recebido uma versão do jogo com acesso antecipado, então, pelo menos aqui, não posso afirmar nada com certeza.

Conclusão

Infelizmente a Zombie Studios me decepcionou mais uma vez. Daylight é um jogo de horror no qual você tem de fazer esforço para se assustar. Aparentemente o primeiro jogo criado com a Unreal Engine 4, ele também não é nada atrativo no que diz respeito aos gráficos. Sua fórmula cansa o jogador, tão calcado em jump scares é o jogo. Se você, como eu, estava à espera de um ótimo título de horror, esqueça. Existem games deste gênero muito melhores no mercado.

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7 Comments

  1. Achei muito fraco, o ultimo jogo (para mim) que me assustou foi Dead Space. Isso sem citar o medo de morrer em Drk Souls.

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    • É, Márcio. Eu, aliás, foi com o Amnesia A Machine for Pigs. Chegou a jogar esse?

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  2. Putz, Marcos! Que pena o jogo ter te decepcionado tanto. Realmente, quando um jogo dessa temática começa a ficar previsível ou repetitivo, acaba com a graça, deixamos de ter medo.

    Também não sei se salva o jogo, mas é até interessante esse recurso do Twitch que você comentou.

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    • Uma pena mesmo. Mais uma decepção pra lista, viu. Fiquei até sem vontade de testar o esquema do Twitch, viu. 🙁

      Sei lá, Diego. Estava tão otimista em relação a esse jogo. É de doer, viu…rsrsrsrs

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  3. Não joguei, sempre me decepciono com esses jogos de terror. Estou acumulando coragem para jogar Outlast e Amnesia que foram sucessos de crítica!

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    • É. Mas joga logo os dois Amnesia. Garanto que não vai se decepcionar…hehehehe 😀

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Trackbacks/Pingbacks

  1. Doorways: The Underworld, um jogo de horror argentino - […] gênero de horror tem recebido alguns bons títulos, ultimamente, apesar de algumas decepções. Amnesia: A Machine for Pigs foi…

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