Deliver Us The Moon: Fortuna me levou do mais puro deleite à mais forte decepção em questão de 6 a 7 horas. O título, desenvolvido pelo estúdio holandês KeokeN Interactive, está sendo lançado hoje, 28 de Setembro de 2018, no Steam, após ter sido financiado através do Kickstarter e ter passado também pelo Steam Greenlight. Tomei conhecimento do indie game alguns dias atrás, vale ressaltar, e até cheguei a publicar uma notícia sobre ele, bastante empolgado. Mas é bom começarmos pelo princípio, como dizem.

Um enredo e tanto

Em Deliver Us The Moon: Fortuna, a humanidade chega a uma crise energética no ano de 2030. A terra inclusive passa por momentos bastante complicados, devido a mudanças climáticas, temperaturas altíssimas em determinadas regiões, inundações, tempestades de areia, etc. Foi aí que foi descoberta uma nova fonte de energia na lua. Chamado de Helium-3, tratava-se de um novo e promissor isótopo, e devido a ele, em 2032 foi iniciada a colonização da lua.

Deliver Us The Moon: Fortuna

Postos avançados e instalações diversas foram construídos, além de uma estação espacial, que funcionaria como “ponte”. Também foi construído um elevador orbital, ligando a lua a tal estação, e um sistema de transmissão poderosíssimo e inovador, chamado MPT, ou “Microwave Power Transmission”, transferia toda a energia obtida na lua para a terra. Tudo parecia ir muito bem, até que um dia, em 2054, 22 anos após o início da colonização, algo ruim aconteceu.

Um blecaute. Tudo ficou offline, o MPT parou de funcionar, as comunicações com a lua cessaram, e um grande silêncio, além de um enorme temor, se estabeleceu entre a humanidade e a Worldwide Space Agency (WSA), ou Agência Espacial Mundial, a organização responsável por todo o processo, criada por grandes potências terrestres.

Deliver Us The Moon: Fortuna

É aí que entra em cena o protagonista sem nome e sem voz, a última esperança da humanidade, o qual é enviado ao nosso satélite natural com a missão de descobrir o que aconteceu e também para ajeitar as coisas, incluindo o restabelecimento do MPT (o que implicaria, obviamente, no restabelecimento do envio de energia).

Com tal premissa, o jogador é conduzido através de sequências verdadeiramente emocionantes, ainda no Fesenkov Cosmodrome, na terra, onde se encontra o foguete que utilizaremos, o Taurus V. Colocamos nosso traje espacial, e com a ajuda via rádio de Clair Johanson, filha de Isaac Johanson, o criador do MPT, somos obrigados (e que maravilha é isto tudo) a ativar diversos sistemas e a lançar o foguete.

Puzzles envolventes

Dignos de nota são os puzzles presentes do jogo, os quais começam a ser introduzidos já neste início, antes do lançamento do foguete. Devemos realizar diversos preparativos antes da decolagem, tanto na central de comando quanto no próprio foguete em si, incluindo aberturas e fechamentos de válvulas de hidrogênio ainda em terra.

No foguete, temos de pressionar vários botões e alavancas, sempre nas ordens corretas, conforme diagramas exibidos, a fim de colocar os diversos sistemas do mesmo em funcionamento. É tudo bastante emocionante, e o jogador tem a plena noção de estar sozinho com uma grande tarefa em mãos, valendo também a pena lembrar que tudo está um verdadeiro caos, devido a uma grande tempestade de areia que se aproxima, a qual poderá até mesmo inviabilizar o lançamento caso demoremos demais.

Deliver Us The Moon: Fortuna

Voltando aos puzzles, todos eles estão relacionados ao contexto do jogo em si. Não se preocupe: não existem puzzles intrincados demais, complicadíssimos, quase impossíveis. Tudo está perfeitamente de acordo com a narrativa, tudo flui naturalmente, e nada é fora do normal. O que quero dizer com isto é que os puzzles em Deliver Us The Moon: Fortuna são perfeitamente adequados a uma missão cujo objetivo é descobrir o que aconteceu em instalações abandonadas e restabelecer o contato das mesmas com a Terra (sem falar com no MPT). Eles não atrapalham a imersão, eles não estragam a brincadeira de forma alguma, muito pelo contrário.

Deliver Us The Moon: Fortuna

Temos que reativar instalações que pararam de funcionar devido ao abandono, temos que redirecionar fluxos de energia para a ativação de determinados equipamentos necessários ao progresso do personagem principal, temos que energizar outros tipos de equipamentos, temos que realinhar torres para a transmissão de sinais de rádio de maneira correta, e precisamos também descobrir códigos que abrem portas com base na investigação de pistas que nos levem a terminais ou anotações contendo os mesmos. Tudo isto acaba funcionando de maneira bastante natural, através da manipulação de switches, botões, células energéticas, etc.

Emoções e momentos em que perdemos o fôlego

Com a decolagem do Taurus V (o momento é verdadeiramente emocionante, principalmente porque fomos nós os responsáveis por tal feito), podemos observar inclusive a separação dos estágios do foguete. Nosso destino, obviamente, é a Estação Espacial Pearson, local onde temos que acoplar nosso módulo, momento em que entra em cena mais um puzzle, para que possamos posicionar corretamente o mesmo no local certo da estação, conforme vamos nos aproximando (veja, tanto aqui quanto na decolagem do foguete, existe a possibilidade de falha).

Deliver Us The Moon: Fortuna

Na estação (a qual está deserta), entramos em um ambiente sem gravidade, portanto, a movimentação do personagem muda. Temos também a mudança da perspectiva, para primeira pessoa (em condições normais de gravidade, e na superfície da lua com sua gravidade reduzida, a câmera permanece em terceira pessoa).

Na estação Pearson, temos de realinhar algumas antenas e também colocar em funcionamento o sistema de suporte a vida, pois dependemos, até então, de um suprimento escasso de oxigênio (cilindros podem ser encontrados pelos quatro cantos da estação: e caso nosso oxigênio se esgote, morremos – simples assim).

Restabelecidos os sistemas necessários na estação espacial, descemos então até a superfície lunar através do elevador orbital acima mencionado. Ao chegarmos lá, no Copernicus Moonhub, temos mais puzzles à nossa espera, mais portas para desbloquear, mais antenas para realinhar, mais códigos para descobrir, mais momentos para exploração. E, detalhe: tudo está deserto. Ao longo do gameplay, não iremos nos deparar com uma vivalma sequer.

Deliver Us The Moon: Fortuna

É aí também que ganhamos um companheiro para nossa solitária jornada, isto após lidarmos com sua manutenção através de mais puzzles, incluindo um que requer a inserção de peças com formatos diversos de maneira tal que elas vão se encaixando em suas devidas e corretas posições. Tal companheiro é na verdade um robô, chamado ASE, uma unidade que pode inclusive ser controlada remotamente pelo protagonista, indo aonde ele não pode ir, penetrando em tubos de ventilação, ativando botões distantes, e também resolvendo quebra-cabeças, sempre à distância. O ASE foi uma bela sacada da KeokeN Interactive, e também uma forma de tornar a jornada menos solitária.

Deliver Us The Moon: Fortuna

Aí no Copernicus Moonhub começamos a tomar conhecimento de alguns fatos um tanto quanto misteriosos, através de hologramas que exibem momentos ocorridos anteriormente, pouco tempo após o blackout do MPT. Temos também registros em áudio, incluindo diversos da engenheira Sarah Baker, da Estação Espacial Pearson, bilhetes, anotações, etc. Tudo isto forma um conjunto um tanto quanto estranho, e a trama toda acaba ficando mais interessante ainda.

Ao longo do gameplay, iremos explorar alguns postos avançados na lua. Iremos também viajar pela superfície da mesma utilizando veículos especialmente preparados para isto, e estes momentos são verdadeiramente incríveis, com visuais de cair o queixo.

Obs: aliás, gostaria de dizer que os gráficos de Deliver Us The Moon: Fortuna, jogo desenvolvido com a Unreal Engine 4, são lindíssimos. Também linda e bastante apropriada é sua trilha sonora, sempre instrumental e com vários toques de órgão e piano, lembrando até, em alguns momentos, a trilha sonora do fabuloso Interstellar.

Deliver Us The Moon: Fortuna

Mas voltando à exploração da superfície, trata-se de momentos verdadeiramente épicos, os quais, infelizmente, são poucos. Também existem momentos em que saímos de instalações e postos avançados apenas com nosso traje espacial, e aí, com a câmera em terceira pessoa, podemos observar a movimentação diferenciada do protagonista e usufruir da gravidade lunar reduzida. Em tais momentos, vale também a pena ressaltar, somos obrigados novamente a conviver com os suprimentos limitados de oxigênio.

E existe também um monotrilho que interliga diversas instalações lunares, o qual também podemos utilizar em mais de um momento. Tudo isto acaba agregando bastante à narrativa, diversificando o gameplay e fazendo com que o jogador anseie com ardor por mais. Por mais momentos emocionantes, por mais quebra-cabeças interessantes, por mais oportunidades de controlar o ASE remotamente, por mais exploração utilizando um dos hovers, etc.

Deliver Us The Moon: Fortuna

Vale também a pena lembrar que através de terminais, bilhetes e hologramas, descobrimos que possivelmente há mais alguém vivo na superfície lunar. Alguém que descobriu, pelo que tudo indica, uma grande conspiração, e que com ela se revoltou. Tal conspiração, aliás, poderia até mesmo explicar o porquê de tudo ter ficado em silêncio. O porquê da parada do MPT, que enviava energia à terra. O porquê da desolação que encontramos ao chegar ao local. Temos aqui um enredo interessantíssimo, repleto de mistério e de motivos para explorarmos mais e mais.

Decepção e um final injustificável

Infelizmente, entretanto, Deliver Us The Moon: Fortuna acaba então nos levando à total decepção. Tínhamos como missão restabelecer a comunicação das instalações lunares com a terra. Tínhamos como objetivo religar o MPT e fazer com que a energia chegasse novamente à terra. Éramos a última esperança da humanidade, a qual sofria com catástrofes diversas. E somos parados. Somos “removidos do jogo”. Somos apresentados, então, a um final abrupto e até meio que sem sentido.

Deliver Us The Moon: Fortuna

Uma série de perguntas não são respondidas, e os créditos sobem, para nossa tristeza, para todos aqueles que, como eu, estavam adorando a experiência. Sinceramente, eu não acreditei quando cheguei ao “final” do jogo. Cheguei ao ponto de observar os créditos até o fim, para me certificar mesmo de que tudo havia acabado. Cheguei até mesmo a encerrar o jogo, abri-lo novamente e clicar em “Continue”: retornei então ao último checkpoint, o qual me levaria até o infeliz e abrupto final, obviamente. Triste.

Não sei ao certo o que aconteceu. Se acabou o dinheiro, se foi falta de respeito para com quem acreditou na ideia (lembre-se do Kickstarter e dos mais de 103 mil Euros arrecadados – o que dá algo em torno de 480 mil Reais). Não sei se foi desonestidade, não sei. Só o que sei é que temos em mãos, aqui, um jogo inacabado.

Nem mesmo o objetivo da missão, salvar a humanidade, o que incluiria, obviamente, a religação do MPT, pôde ser concluído. Tudo o que temos é uma cutscene que deixa mais perguntas do que respostas, e, por incrível que pareça, mais vontade ainda de continuar jogando.

Deliver Us The Moon: Fortuna

Eu até poderia pensar em uma sequência de Deliver Us The Moon: Fortuna, mas não creio que isto acontecerá, até mesmo porque nada a respeito foi mencionado pela KeokeN Interactive. Foi mencionado, isto sim, que o jogo contaria com 5 capítulos, e o que temos no produto final a nós entregue são apenas 4. Quatro!  Nada de mundo aberto (na lua) para exploração, também, conforme mencionado durante o Kickstarter (se bem que tudo isto não é mencionado na página do jogo no Steam).

Mas veja só, na página do título na loja da Valve é mencionado o seguinte:

Desbloqueie ferramentas para superar os obstáculos e perigos que bloqueiam o seu caminho“.

Quais ferramentas? Tudo o que temos é o nosso laser cutter e nosso robô ASE. Nada mais. Não há crafting, e além dos momentos em que estamos em situações com suprimento escasso de oxigênio, também não há nenhum elemento de “sobrevivência” (mas aqui divago – nada foi mencionado a respeito de “survival”). Se bem que, por outro lado, no Kickstarter foi mencionado que deveríamos lidar com riscos ambientais, gerenciando a nossa sobrevivência e lutando contra tais condições. Ora, além do oxigênio escasso em alguns momentos (e de quedas ou choques elétricos), nada mais nos representa risco.

Tudo isto é uma verdadeira pena. Muito triste, na verdade. O jogo tinha um enorme potencial. Ele é extremamente imersivo. Nada existe em tela que atrapalhe tal elemento, e os efeitos sonoros e a trilha sonora contribuem ainda mais para nos imergir naqueles ambientes misteriosos e bonitos.

No final do jogo, quando somos arrancados à força do mesmo, tudo o que sentimos é raiva. Conforme os créditos começaram a subir, eu me senti com enorme raiva. Com uma enorme vontade de que tudo aquilo fosse apenas uma brincadeira, e que logo depois eu pudesse retornar à aventura (apesar de que algo lógico em mim me dizia que não, que eu havia realmente chegado ao final).

Deliver Us The Moon: Fortuna

O final de Deliver Us The Moon: Fortuna tira do jogador a possibilidade de salvar a terra, de cumprir sua missão. Ele ainda “coloca mais lenha na fogueira”, devido a um áudio encontrado mencionando esperança no tocante à resolução dos problemas trazidos pela possível conspiração que na lua teve início e que teria culminado com o grande blecaute. Ele também fornece ao jogador mais pistas sobre um personagem possivelmente remanescente na lua, algo que, obviamente, tornaria o jogo ainda mais interessante, caso com ele encontrássemos.

Mas não. Tudo acaba aí, sem respostas, sem conclusão da missão, sem respeito, sem direito a um final pelo menos decente. É infelizmente bastante triste que algo assim seja lançado. Algo inacabado. Tudo isto, aliás, me lembrou do caso de Dark Matter, da Interwave Studios (escrevi a respeito neste artigo).

Tudo fica pior ainda quando pensamos na aventura maravilhosa que estávamos experimentando até o final abrupto. Quando pensamos nos gráficos e ambientes lindíssimos do jogo, principalmente na superfície da lua. Quando pensamos na trama intrigante e cheia de mistério. Quando pensamos que o jogo tem enorme potencial, e que ele poderia ser um grande título para quem, como eu, aprecia bastante jogos com temática espacial. Sinceramente, não esperava por algo assim, após algumas horas me deliciando com o jogo e sentindo que havia algo ali de muito bom.

Deliver Us The Moon: Fortuna

É triste que Deliver Us The Moon: Fortuna tenha sido entregue desta forma, sem permitir que o jogador sequer complete sua missão, arrancando-o com tudo de um ambiente imersivo e repleto de carisma. Quem sabe os desenvolvedores se manifestem a respeito, caso os jogadores reclamem, e façam algo a respeito, entregando mais capítulos.

Não sei. Sinceramente, espero que sim, mas não tenho esperanças. Triste. Ao final do jogo, tudo o que restou foi um gosto bem amargo na boca. E não: infelizmente não devolvemos a lua para a Terra. Assim quiseram os desenvolvedores.

Ficha técnica

Título: Deliver Us The Moon: Fortuna

Gênero: aventura, indie, ação, espacial

Desenvolvedora: KeokeN Interactive

Publisher: KeokeN Interactive

Data de lançamento: 28 de Setembro de 2018

Plataformas: PC

Versão analisada: PC

De qualquer forma, fique com um trailer do game que foi divulgado hoje:

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