Dishonored - Review

Quando tive contato com as primeiras notícias e os primeiros materiais a respeito de Dishonored, imaginei que o título poderia ser muito bom. Mas não tinha ideia do quão bom ele seria. Dishonored, desenvolvido pela Arkane Studios, é um espetacular jogo de ação stealth em primeira pessoa que oferece uma experiência totalmente solitária ao jogador e, ainda assim, faz com que sintamos uma imensa vontade de jogar novamente tão logo os créditos comecem a subir.

Trata-se de um jogo única e exclusivamente singleplayer que, porém, possui um fator replay enorme. Sua durabilidade, digamos, é muito grande, muito maior do que a de inúmeros títulos com suporte a partidas multiplayer lançados atualmente. Isto porque ele deixa em nossas mãos a escolha dos caminhos a serem tomados e nos oferece oportunidades as mais diversas para exercitarmos nossas habilidades em ação furtiva. Somos capazes de determinar quem morre, como ocorrerá a morte e quando isto se dará, o tempo todo.

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Até mesmo ação não letal pode fazer parte de nossos planos, de nossa abordagem, e isto também influencia o gameplay e a maneira como os outros personagens responderão à nossa atuação. Até mesmo o final do jogo pode mudar, conforme nosso estilo. A história ocorre em uma espécie de realidade alternativa. Na cidade de Dunwall, Corvo Attano, o protagonista, é capaz de assustar até mesmo o mais corajoso Overseer ou o mais durão dos bandidos.

Corvo, outrora guarda-costas da imperatriz Jessamine Kaldwin e muito amado por sua filha, Emily, foi traído. Tentando defender a imperatriz de um ataque, ele falhou e acabou funcionando como um peão em um jogo intrincado. Corvo foi acusado injustamente. Sob ele pesou a acusação de ter assassinado justamente aquela a quem deveria proteger. Grandes figurões fazem parte da conspiração, e pouco a pouco Corvo vai descobrindo seus planos, suas motivações e, é claro, neles dando um jeito.

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Vale lembrar que “dar um jeito” em Dishonored nem sempre implica em mortes. Existe um determinado personagem, por exemplo, que pode ser tratado de duas maneiras diferentes. Podemos tirar-lhe a vida ou então expor sua traição fazendo com que um arquivo de áudio extremamente comprometedor seja executado em um sistema que conta com auto falantes espalhados pela cidade inteira, os quais também servem aos propósitos do regime e transmitem propaganda política, dentre outras coisas.

Letal ou não letal: o jogador decide como agir. Uma das belezas de Dishonored, e algo que o transforma em uma verdadeira lufada de ar extremamente fresco em meio a tantos lançamentos insossos, é justamente a liberdade que o game confere ao jogador. Não se trata de um jogo de mundo aberto, vale lembrar. Temos missões a cumprir (primárias e secundárias), temos NPCs que devem ser procurados, temos de conversar com personagens chaves e, de certa maneira, temos de “dançar conforme a música”.

Mas o estilo da “dança” é escolha nossa. Nós ditamos as regras enquanto caminhamos pela estrada de mão única. Telhados, subterrâneos, casas abandonadas, rios, esgotos e mais uma infinidade de elementos e ambientes podem ser utilizados enquanto trilhamos nosso caminho, e a vingança pode ser obtida de várias maneiras diferentes. Sim, pois Corvo passou 6 meses na prisão, além de tudo. 6 meses de sua vida foram perdidos, sendo que ele nada fez para merecer esta punição: muito pelo contrário.

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Dishonored também nos apresenta aos “Loyalists”, um grup0 de pessoas que, digamos, não está contente com o assassinato da imperatriz. Este grupo é quem ajuda Corvo a sair da prisão e fornece a ele uma série de equipamentos e informações valiosas que o ajudarão daí em diante.

Na verdade, os “Loyalists” funcionam como uma espécie de ponte entre o antigo e o próximo regime, o qual terá Emily como personagem central, é claro. Mas nem tudo é tão simples, e os corações de muitos homens sempre podem esconder desejos secretos e obscuros. Nosso assassino sobrenatural perceberá pouco a pouco que sorrisos e palavras amigáveis podem na verdade representar algo bem efêmero.

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Corvo é um guerreiro extremamente astuto e experiente, e ele também recebe a visita de uma entidade conhecida como “Outsider”. O Outsider é quem lhe dá os poderes sobrenaturais, os quais podem receber diversos upgrades através de runas e “bone charms” feitas de ossos de baleia. Baleias, aliás, representam um papel muito importante em Dunwall e no universo do jogo.

A estranha tecnologia que faz parte de Dishonored e que representa um contraste fantástico com o mundo aparentemente antigo e medieval do jogo é movida a óleo de baleia. Óleo de baleia refinado, claro, o qual é, então, armazenado em baterias que se iluminam tão logo preenchidas e que podem inclusive ser utilizadas como armas, pelo protagonista: lance uma delas e ela explodirá (mais uma mostra de como podemos improvisar, no jogo).

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Durante suas andanças, Corvo encontra diversas notas e livros mencionando as baleias e todas as pesquisas envolvendo tais animais gigantes. Em relação a estas notas, vale ressaltar que, além de fornecerem um complemento fantástico à história do jogo, elas contam com informações muitas vezes cruciais. Dicas sobre localizações de alvos, combinações de cofres, etc. Os livros, apesar de também contarem com informações muito interessantes, contêm, em sua grande maioria, textos relativos às lendas que fazem parte do Império das Ilhas.

Corvo, como já dito acima, é um assassino sobrenatural. Ganhou seu primeiro poder do “Outsider”, e este talvez seja o poder mais importante no jogo. Trata-se do “Blink”, com o qual podemos nos mover de forma extremamente rápida, quase que instantânea. Podemos dizer até que o “Blink” funciona como uma espécie de teletransporte, tão rápido nos movemos e tão facilmente podemos ultrapassar obstáculos.

Fica muito fácil (e ele ainda pode receber um upgrade), assim, “aparecer” logo atrás de um inimigo, matá-lo ou colocá-lo para dormir e então voltar para um ponto seguro. É possível utilizar o “Blink” de diversas maneiras e combiná-lo com outros poderes e habilidades do protagonista para realizar verdadeiras manobras stealth que podem até mesmo fazer com que diversos cidadãos desavisados fiquem assustados. Outro poder extremamente necessário é a “Dark Vision”, que permite que Corvo enxergue através de paredes e diversos objetos presentes no cenário.

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A “Dark Vision” permite também que itens coletáveis, como os elixires do Sokolov e a poção do Piero – a qual restaura o mana, necessário para a utilização dos poderes –  (além de diversos outros itens, como dinheiro, por exemplo), sejam visualizados com maior facilidade. É possível também, assim que o poder é ativado, enxergar inimigos que se encontram em outros andares.

Lembre-se: estamos falando a respeito de um jogo no qual a ação furtiva deve ser levada muito a sério. Correr pode fazer com que os inimigos fiquem alertas, e se isto acontecer, eles podem começar a procurar pelo problema e, dependendo da situação, ativarem alarmes que provocarão a chegada de mais guardas.

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A “Dark Vision” também é extremamente valiosa por permitir que você visualize o campo de visão de cada inimigo, bem como representações visuais do nível de percepção que os guardas vão tendo conforme você faz mais ou menos barulho. Como acontece com todos os demais poderes em Dishonored, o jogador pode realizar um upgrade na “Dark Vision”, e após tal upgrade, sistemas de segurança e objetos passíveis de interação passam também a ser destacados. Para realizar upgrades, é necessário coletar runas. Elas funcionam como moedas, digamos, e para encontrá-las, um “acessório” muito especial é dado ao Corvo pelo “Outsider”.

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Trata-se de um coração que, quando em utilização, indica a direção e a distância relativas a runas e “bone charms”. Este coração, quando equipado na mão esquerda do protagonista, pulsa cada vez mais forte conforme vai se aproximando dos tais itens mágicos. Este coração é fantástico, pois além de servir como bússola mágica, também diz frases bem intrigantes a respeito do ambiente em que se encontra. É como se ele sentisse o bem ou o mal que ali se faz presente ou que por ali passou, e o traduzisse em palavras.

No caso de outros personagens, segredos sobre eles também podem ser revelados pelo artefato místico. Durante o gameplay, podemos ouvir várias frases proferidas pelo coração, e estas sempre soam de forma misteriosa e até mesmo poética. Ótima sacada da Arkane Studios: um “acessório” que além de ser extremamente útil (lembre-se, sem runas você não adquire novos poderes nem realiza upgrades nos que já tem) também fornece dicas e diz coisas muito interessantes.

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A maneira como o jogo nos deixa livres para abordar cada uma de suas missões é fantástica. Não existe uma “receita de bolo”, mas preste bastante atenção ao que vai fazer. Tudo o que você faz afeta a cidade, de uma maneira ou outra. O jogo exibe um relatório, ao final de cada missão, e neste você pode conferir o “nível de caos”.

Quanto mais você matar, mais ratos aparecerão e mais atentos ficarão os inimigos. O final do jogo também mudará, conforme o seu nível de caos. A violência também pode alertar os figurões da cidade e fazer com que eles aumentem o número de guardas, e cartazes estampando a máscara do assassino mascarado podem inclusive serem vistos em diversos locais. A própria população pode entrar em pânico, aliás.

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Além disso, a existência de uma população grande de ratos implica em uma atuação mais forte da praga. Consequentemente, mais “Weepers” (seres humanos que se encontram em estado avançado da doença) aparecerão, e eles agem de forma violenta e se parecem com zumbis. Atacam tudo o que encontram pela frente, inclusive você. Portanto, é sempre interessante analisar a situação como um todo e pesar bem as possíveis consequências de suas futuras ações.

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A praga, aliás, é algo que atormenta a cidade de Dunwall, e você se surpreenderá com as descobertas que fará. Digamos que a praga é muito mais do que aquilo que aparenta ser, e o jogador descobrirá, durante sua jornada, que a podridão não está somente nos ratos, nos infectados e nos corpos empilhados pelas ruas. É possível até mesmo correlacionarmos a existência da praga com diversos acontecimentos de nosso mundo real.

Mas caminhar silenciosamente por uma área repleta de Overseers, observando cautelosamente e planejando o próximo passo é sempre uma experiência fantástica. Não existe um único caminho. Não existe uma única forma de agir. Não existe certo ou errado no que diz respeito a quando e como (e se) você sacará sua espada. O jogador decide se deseja matar ou passar incólume. Claro: agir de maneira não letal sempre implica em maiores desafios, não se esqueça.

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A praga e os ratos também podem ser aliados de Corvo, muitas vezes. Não é difícil nos depararmos com guardas sendo atacados por hordas enormes de roedores. Do nada. Ou seja, os ratos estão fazendo o trabalho sujo para Corvo sem que ele tenha pedido. Podemos também atrair os inimigos para locais onde grandes concentrações de ratos se encontram, e uma situação muito bacana aconteceu comigo, durante uma das missões. Matei alguns guardas em uma casa e deixei uma porta aberta.

Formei uma espécie de “caminho tentador” utilizando dois corpos, distantes poucos metros um do outro e posicionados de forma estratégica. Mais adiante existia uma sala repleta de ratos, e esta mesma sala continha itens que eu precisava coletar. Pois bem, abri a porta da sala, utilizei o “Blink” para me mover para um ponto seguro (sobre uma mesa) e os ratos, então, correram em direção ao primeiro corpo e se distraíram com o banquete.

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Com a sala vazia, coletei os tais itens e os ratos voltaram sua atenção novamente para mim. No entanto, o outro corpo que deixei mais à frente era a minha salvação: me teletransportei para um ponto além dele e os ratos, me seguindo, pararam aí para um novo banquete, esquecendo de mim. Assim pude fugir sem problemas.

Isto sem falar em outro poder especial muito bacana, que permite que Corvo possua, no primeiro estágio, corpos de animais, como ratos e peixes. Com o segundo upgrade, é possível possuir o corpo de outros seres humanos. No meio de um combate, por exemplo, podemos estar prestes a morrer, e este poder permite que nos escondamos no corpo de um inimigo.

O restante do grupo não perceberá nada e podemos, então, conduzir o “veículo” para algum local escondido e ali dele sair. Matá-lo ou apenas colocá-lo para dormir, então, será outra escolha que teremos de fazer. Usar corpos possuídos para entrar na frente de projéteis recém disparados (fogo amigo) também é outra possibilidade fantástica, aqui.

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Possuir o corpo de um inimigo que caminha juntamente com outro, caminhar um pouco, sair de seu corpo rapidamente enquanto o outro se encontra um pouco mais adiante e assassiná-lo para logo em seguida utilizar o “Blink” para chegar perto do segundo e também matá-lo também é possível.

Este poder especial também pode ser utilizado com ratos, por exemplo, tanto para chegarmos perto de um inimigo cujo campo de visão não nos favorece quanto para encontrarmos rotas alternativas, através de buracos. No calor da batalha também podemos fazer com que o tempo seja retardado. Claro, Corvo não sentirá os efeitos de tal poder, e poderá, assim, dar cabo de diversos inimigos bem rapidamente, e até mesmo se desviar de balas.

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Dishonored nos permite até mesmo brincar em uma festa à fantasia na qual Corvo nada mais tem de fazer do que usar sua máscara para se manter incógnito. Ou seja, aí nos escondemos sem usar disfarce algum. Existe também um grupo de assassinos que fazem uso de poderes místicos, como o protagonista. Eles representam uma ameaça bem maior, principalmente porque podem desaparecer em um local e reaparecerem em outro muito rapidamente, obrigando o jogador a se movimentar muito rapidamente.

A traição, entretanto, está enraizada na narrativa de forma muito mais profunda do que pensamos a princípio. Corvo foi traído e em meio a sua busca por vingança ele também precisa salvar a filha da imperatriz. Porém, o que ele não sabe é que a traição o segue desde sua saída da prisão. Ele não se dá conta disso a princípio. Interesses obscuros que também podem contar com uma certa dose de medo e uma suposta ilusão de trazer a ordem a qualquer custo também fazem parte da trama do jogo.

Dishonored é um jogo encantador. Sua direção de arte é primorosa, e seus gráficos são também um convite irrecusável para permanecermos em telhados observando tudo aquilo que nos cerca. É até mesmo possível comparar Dishonored com Deus Ex: Human Revolution e BioShock se levarmos em consideração a arte e a ação stealth. Porém, a Arkane Studios conseguiu criar um título único. Um jogo que pode muito bem ser considerado quando começarem a falar a respeito do jogo do ano.

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Talvez uma ênfase maior pudesse ter sido dada à entidade conhecida como “Outsider”, uma vez que ela representa, de certa forma, o início e o fim de Corvo como assassino mascarado. Em um jogo com um enredo tão rico, no qual informações valiosas e coisas interessantes podem ser capturadas através de conversas que escutamos nas ruas (sem falar nas notas e nos livros), esta é uma falha que pode deixar alguns jogadores decepcionados, assim como eu.

Mas esta falha não tira o enorme brilho do jogo. Vale também ressaltar o trabalho fantástico de Susan Sarandon, que deu voz à sinistra Granny Rags (uma velhinha que faz com que nosso sexto sentido “apite” desde o início).

Conclusão

Dishonored é a prova de que experiências solo podem fazer muito sucesso e oferecerem ao jogador horas e horas de diversão de altíssima qualidade, incluindo a vontade jogar tudo novamente, abordando as missões de maneiras diferentes. O misticismo e a tecnologia se confundem, no jogo, oferecendo ao jogador ferramentas e desafios surpreendentes. Dishonored é um jogo que deve ser experimentado com calma. Leia todas as notas e livros. Explore tudo o que pode ser explorado. Ouse. Você não se arrependerá.

Nota

9,5/10

Título: Dishonored
Gênero: ação / aventura
Desenvolvedora: Arkane Studios
Publisher: Bethesda
Data de lançamento: 09 de Outubro de 2012
Plataformas: PC / Xbox 360 / Playstation 3
Versão analisada: PC

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