Antes de qualquer coisa, é importante dizer que a Bethesda é realmente capaz de criar mundos abertos fascinantes. A empresa é responsável por alguns dos maiores e melhores RPGs já lançados, por franquias renomadas e de enorme sucesso, como por exemplo The Elder Scrolls e Fallout.

Oblivion, Skyrim, Fallout 3, Fallout 4: são todos ótimos representantes de um gênero que angaria fãs no mundo todo. Jogos que já garantiram horas e horas de diversão a jogadores das mais diversas idades. Títulos consagrados, repletos de conteúdo de altíssima qualidade.

Mundos enormes, abertos, repletos de missões interessantes, de cidades e vilarejos cheios de vida, de NPCs com histórias e backgrounds interessantíssimos, com enredos espetaculares e capazes de manterem jogadores presos com enorme interesse do início ao fim da jornada.

Quando Fallout 76 foi anunciado, em Maio passado, e também quando da conferência da Bethesda na E3 2018, muita gente estranhou. Um mundo aberto e online. Foco no multiplayer. Um RPG onde jogadores deveriam cooperar entre si para uma melhor experiência.

Fallout 76

Sim, Fallout 76 é tudo isso, e muito mais. É uma pena, entretanto, que grande parte deste “muito mais” sejam coisas negativas. A Bethesda falhou miseravelmente em entregar um jogo completo, coeso, funcionando direitinho. Ela falhou, na verdade, em entregar um bom jogo, verdade seja dita.

Não me entenda mal. A Bethesda conseguiu, certamente, criar mais uma vez um mundo fantástico. O mapa, 4 vezes maior que o de Fallout 4 (2015), é repleto de elementos interessantes. De avenidas e ruas repletas de casas e outros tipos de construções que convidam à exploração e ao looting. De fábricas, minas abandonadas e prédios enormes nos quais podemos entrar e combater diversos tipos de inimigos, tudo isto enquanto estamos em busca de algum objetivo, de algum ponto de interesse, de algum item para reforçar nossas defesas.

Fallout 76

Aliás, conforme disse em minhas primeiras impressões a respeito do título, “Fallout 76 é uma prequel, o que significa que sua história acontece antes da história de todos os títulos da famosa franquia. Tudo acontece em 2102, e os habitantes do Vault 76 (o primeiro de todos a ser aberto) estiveram se preparando para sua abertura durante 25 anos“.

Mas a West Virginia de Fallout 76 é cheia de pontos altos. Ela representa, sim, um mundo repleto de belezas, de encanto, de detalhes que fazem com que percamos minutos (ou horas) vasculhando armários, gavetas, cadáveres e mais uma série de outros elementos em busca de itens valiosos, de munição, de poções de cura ou para curar os efeitos nefastos da radiação.

Entretanto, estamos falando a respeito de um mundo vazio. A Bethesda resolveu remover todo e qualquer NPC do jogo, e como resultado, não temos mais diálogos, não podemos mais optar entre esta ou aquela resposta, e temos a impressão de estarmos vagando em um mundo que sequer possui uma identidade própria. Um mundo sem alma, oco, repleto de monstros ensandecidos, bestas raivosas, robôs sem carisma e jogadores que, infelizmente, não desejam qualquer tipo de interação (sem falar na pouca quantidade destes por servidor). Tudo isto, obviamente, não contribui em nada para fazer com que o jogador se sinta motivado.

Fallout 76

Missões principais e secundárias são obtidas, em Fallout 76, através de cadáveres, dos já velhos conhecidos terminais, e também através de robôs que não possuem qualquer carisma (sem contar com o fato de que eles não dialogam: eles apenas nos dizem o que fazer, e nada mais).

Vamos e voltamos constantemente, atravessando regiões enormes, muitas vezes, apenas em busca de algum item, apenas para ligar determinado dispositivo, apenas para chegar ao local onde deveríamos, supostamente, falar com o personagem “X”, e descobrir que na verdade iremos apenas ler um mero bilhete encontrado no cadáver do tal personagem (ou então ouvir a alguma gravação). Aliás, vale destacar a falta de cuidado no desenvolvimento até mesmo das missões primárias: grande parte delas é insossa, e se resume a ligar equipamentos, buscar itens, entregar alguma coisa, ir até algum local, e por aí vai.

Fallout 76 é um jogo sem alma, e nem mesmo o tal suposto foco no multiplayer e na interação entre os jogadores é capaz de salvá-lo, pelo menos do jeito em que as coisas encontram-se agora. Cada servidor suporta um determinado número de jogadores, mas eu não fui capaz de encontrar mais do que 10 ou 15 deles em cada sessão, um número relativamente pequeno se levarmos em consideração o tamanho do mapa e do mundo ali reconstruído/representado.

Fallout 76

Existem determinados eventos que podem ser realizados em conjunto, também, mas eles resumem-se basicamente a eliminar hordas de Chamuscados, por exemplo, ou então a entregar determinadas quantidades de itens a determinado lugar ou proteger certas bases de hordas de inimigos. E mesmo aí percebemos o pouco interesse dos jogadores na interação, no trabalho em equipe, na cooperação. A culpa disto pode ser da própria Bethesda: Fallout 76 não exige, na verdade, trabalho em equipe. Você pode jogá-lo perfeitamente sozinho, e isto tanto pode ser um defeito quanto uma qualidade: depende do perfil do jogador e do que ele espera do jogo.

Tudo bem que muitas vezes pode até ser mais fácil participar de algum evento na companhia de outros jogadores, ou então pode ser possível que determinada quest seja mais facilmente concluída caso contemos com a companhia de alguém. Entretanto, o jogo não nos obriga a nada disto, e eu confesso que pouquíssimas vezes interagi com outras pessoas online. Pouquíssimas vezes participei dos tais eventos “comunitários”, e pouquíssimas vezes contei com a ajuda de algum outro jogador. Tudo, no mundo do jogo, é solitário, a começar pela já mencionada total ausência de NPCs.

Fallout 76

Ainda em relação aos tais eventos públicos, a falta de cuidado da desenvolvedora chega ao cúmulo de fazer com que recebamos todas as devidas recompensas mesmo que não tenhamos participado do evento em si: basta que passemos pelo local certo, no momento certo, e seremos “presenteados”.

Além disso, ao montarmos uma equipe com outros jogadores online, a lista de atividades a serem realizadas que é compartilhada é tão confusa, que nossa vida fica realmente difícil, e faz com que nos perguntemos mais uma vez o porquê de estarmos ali, ou no mínimo o porquê de termos resolvido compartilhar nossa experiência com mais alguém. Posso até dizer novamente que Fallout 76 funciona melhor no modo solo, o que é um contrassenso, até, se pensarmos que estamos dentro de um RPG online.

Existem também as tais bombas nucleares que podem ser lançadas e que então alteram drasticamente os locais onde caem, mudando radicalmente a paisagem, e também fazendo com que itens mais valiosos (além de criaturas mais poderosas) apareçam. No entanto, tais eventos e áreas estão reservados àqueles jogadores de nível bem alto e em posse de equipamentos de proteção apropriados. Ou seja, até mesmo tais eventos, que deveriam funcionar como chamarizes do jogo, são bastante restritos, e você pode passar um bom tempo em Fallout 76 sem nem ao menos se deparar com as áreas que os demarcam no mapa.

Fallout 76

De qualquer forma, o que fica claro é que a desenvolvedora abdicou de uma narrativa profunda, cativante, imersiva, como em vários de seus títulos anteriores, em prol de um mundo online (e de uma narrativa) e compartilhado que é, na verdade, bastante superficial, desprovido de motivos para continuarmos explorando, ausente de presença humana (além dos poucos jogadores que encontramos espalhados pelo enorme mapa).

Parece que estamos em um mundo que apenas nos oferece ecos de um passado distante, ecos estes que são até mesmo apresentados com diversas falhas, pois até mesmo legendas estão ausentes das diversas gravações que encontramos durante o gameplay (o que pode prejudicar bastante as coisas para muita gente). Gravações estas, vale ressaltar, que contam um pouco mais da história da West Virginia retratada no jogo, e que talvez fossem melhor aproveitadas caso fossem apresentadas através de personagens não jogáveis.

Fallout 76

Tudo isto fica ainda pior quando tomamos conhecimento, através de terminais, diários, bilhetes ou gravações, de histórias interessantes. De histórias de superação, de perdas, de lutas incontáveis. Digo que fica pior porque tudo isto seria muito mais valioso caso apresentado através de algum NPC. Caso pudéssemos realmente interagir com aqueles personagens todos. Caso pudéssemos, de alguma forma, ter um contato mais próximo com aquilo tudo. Mas não: a narrativa não é o forte de Fallout 76.

Com tudo isto em mente, entretanto, nunca é demais mencionar pontos positivos do jogo, que saltam aos olhos. Apesar de parecer estranho a princípio, o novo sistema de evolução é até que bastante maleável e interessante. No SPECIAL, agora, lidamos com perk cards. Isto mesmo, com cartas que aprimoram nosso personagem dentro de um dos 07 atributos disponíveis: Strength, Perception, Endurance, Charisma, Intelligence, Agility e Luck.

A cada ponto de habilidade ganho, podemos escolher uma categoria e então todas as cartas disponíveis para a mesma no momento são exibidas (também ganhamos pacotes de cartas, de vez em quando): podemos equipar e “desequipar” cartas à qualquer instante, o que significa que podemos ir moldando nosso personagem conforme as necessidades em cada momento. Cartas também possuem seus respectivos níveis, os quais devem sempre ser respeitados (de acordo com o nível em que se encontra o nosso personagem).

Fallout 76

Mas, ainda assim, Fallout 76 é tão cheio de bugs e problemas que algumas sessões de gameplay podem se transformar em verdadeiras sessões de tortura. Quedas bruscas, inesperadas, na taxa de quadros por segundo, podem irritar bastante, por exemplo, principalmente quando não existem motivos plausíveis para tanto.

Texturas que não carregam a tempo ou corretamente (o famoso texture pop-in) são também uma constante no jogo todo, isto sem falar em texturas em baixíssima resolução quando nos aproximamos de diversos objetos, como por exemplo veículos, utensílios domésticos diversos, como fogões e mesas, por exemplo, além de paredes, muros, etc.

Há também um problema muito chato no jogo, o qual diz respeito a ataques de inimigos. Muitas vezes, os inimigos conseguem causar danos ao nosso personagem antes que cheguem ao nosso alcance (por exemplo, os ratos-toupeira). Antes de sequer nos tocarem, percebemos que sofremos danos relativos a um ataque que ainda iria ser concretizado (antes do salto fatídico, por exemplo). É como se eles tivessem “braços invisíveis”, se é que você me entende.

A interface do jogo como um todo, também, é extremamente confusa. Entendo a necessidade (e até mesmo sua presença) do icônico Pip Boy: mas todos os menus ali dentro são extremamente confusos. Muitas vezes, somos obrigados a navegar através de abas e mais abas em busca de determinado item só porque faltou esmero por parte da desenvolvedora. Ora, estamos em 2018, e é inegável que melhorias neste sentido deveriam ter sido feitas.

Principalmente porque estamos falando a respeito de um jogo online, também, sem pausas, onde muitas vezes temos pouco tempo para decidir, para agir antes de tomar algum dano ou receber algum ataque.

E existem bem poucas opções no que diz respeito a um mínimo de mapeamento de teclas no sentido a facilitar nossa vida quando é necessário utilizar rapidamente, por exemplo, um RadAway, um Stimpak, um pouco de água ou comida, etc (lembre-se: existe também um lado survival em Fallout 76 – é necessário comer e beber água sob pena de malefícios os mais diversos acontecerem, como por exemplo redução nos pontos de ação).

Até existe um menu radial, mas ele é ínfimo se considerarmos a enorme quantidade de itens com os quais temos de lidar. A Bethesda deveria ter tido um maior cuidado com estes detalhes, principalmente se tinha em mente criar, realmente, um RPG focado no online, no multiplayer, na cooperação entre pessoas reais do mundo todo.

Fallout 76

O rastreamento de missões também costuma ser bastante confuso, e não são raras as vezes em que temos de abrir o mapa várias e várias vezes para conferir se estamos indo na direção correta, em direção ao ponto demarcado como início do evento ou do objetivo. Marcadores se misturam e se sobrepõem, na bússola, muitas vezes deixando o jogador completamente perdido caso a eles tente se ater.

Há também outro problema bastante chato relacionado a “inimigos invisíveis”: de vez em quando, você começa a levar tiros e percebe, estupefato, que nem consegue enxergar os tais inimigos nem tampouco consegue ver indicação alguma a respeito deles na bússola. Pouco tempo depois, após correr como um louco em busca de abrigo, tais inimigos se materializam como que por mágica em sua frente, causando grande susto (sem falar nos maiores riscos).

Isto sem falar na inteligência artificial problemática: inimigos armados parados em sacadas, olhando para você sem nada fazerem. Ou, de vez em quando, é fácil percebermos inimigos próximos correndo de um lado para o outro sem sequer se darem conta de nossa presença. Isto quando não topamos com Chamuscados, por exemplo, armados e presos em “muros invisíveis”. É realmente lamentável. Ah, sim: existem também os inimigos que deslizam pelo chão, ao invés de caminhar – se você já assistiu a algum daqueles filmes antigos de vampiros, é fácil entender o que eu estou dizendo.

O conhecido sistema VATS, aliás, introduzido à partir de Fallout 3, passou por algumas modificações. Acontece que como estamos em um jogo online, sem pausa, não existe mais aquela desaceleração do tempo enquanto miramos. Tudo acontece, é óbvio, em tempo real, o que acaba até mesmo tornando o sistema totalmente inútil.

Também é necessário falar a respeito dos gráficos do jogo. Existem bons momentos, obviamente. Temos mudanças climáticas interessantes, incluindo chuvas, e temos também um ciclo de dia e noite. Temos belos visuais, belas cidades, belas construções, efeitos de iluminação bacanas, de vez em quando, sem falar em nevoeiros sensacionais que vez ou outra tomam conta de determinadas áreas do mapa.

No entanto, e isto talvez seja culpa da engine utilizada, muitas vezes percebemos que estamos lidando com um jogo com gráficos meio datados. Talvez isto seja culpa da engine utilizada, a Creation Engine, a mesma utilizada em Skyrim, a qual já possui 7 anos de idade e que já dá sinais de cansaço.

Fallout 76

Quando comparamos os gráficos de Fallout 76 com outros jogos atuais, é fácil percebermos que estes estão bem aquém daquilo que seria esperado em um jogo lançado durante a atual geração. Em um jogo lançado em pleno ano de 2018, ano este repleto de lançamentos com gráficos muito melhores. Há também um alto nível de saturação nas cores do jogo como um todo, o que acaba causando grande estranhamento em diversos momentos, principalmente em locais muito bem iluminados.

Enfim, Fallout 76 passa uma sensação estranha. É como se estivéssemos olhando para algo que foi pensado como uma espécie de modo multiplayer de Fallout 4, quem sabe (e lançado agora como um produto standalone falho).

Por outro lado, mesmo assim, ainda permanecem os graves problemas acima mencionados, principalmente a ausência de uma narrativa mais tradicional, digamos, que funcionaria como uma liga entre todos os elementos que compõe o RPG. Aguarde por um futuro Fallout 5, caso goste da franquia, ou então permaneça com os ótimos Fallout 3 e 4, títulos mais recentes desta grandiosa série, que fazem jus verdadeiramente a ela.

Será bem difícil para a Bethesda sair do inverno nuclear no qual se meteu com Fallout 76.

Ficha técnica

Título: Fallout 76

Gênero: RPG, mundo aberto, multiplayer

Desenvolvedora: Bethesda Game Studios

Publisher: Bethesda Softworks

Data de lançamento: 14 de Novembro de 2018

Plataformas: PC, PlayStation 4, Xbox One

Versão analisada: PC

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