(Review) Hitman: Absolution – A volta do assassino careca

Um dos meus contatos está sendo perseguido por três mercenários, que ameaçam invadir sua casa a qualquer momento. É preciso mantê-lo vivo, pois ele detém informações cruciais para encontrar Victoria, a garota que jurei proteger. Os três mercenários devem ser eliminados o quanto antes. A tarefa não vai ser nada fácil. Os três estão espalhados no meio de uma multidão comemorando o ano novo chinês em Chinatown, um dos distritos mais tradicionais de Chicago. O policiamento é reforçado, a cidade está em alerta e as chances de um inocente acabar ferido são astronômicas.

Eliminá-los está bem longe de ser a parte mais difícil. Fazer tudo parecer um mero acidente, deixando o mundo ao seu redor intocado, como se você jamais tivesse colocado os pés ali, é que é o grande problema. E pior ainda: desaparecer da área, sem levantar suspeitas, quando sua missão estiver concluída, para que ninguém tenha a menor ideia de que as três tragédias ocorridas naquela noite escondem uma nebulosa coincidência.

Esse relato faz parte de uma das vinte missões presentes em Hitman: Absolution, que marca o retorno, após seis anos (Hitman: Blood Money, de 2006) do assassino careca mais letal do mundo, conhecido apenas como “47” (os últimos dois dígitos do código de barras tatuado em sua nuca). Treinado desde o seu nascimento para ser “a mão esquerda de Deus”, ele serve à uma agência secreta de contratos que paga milhões para eliminar da face da Terra alguns dos figurões mais perigosos e sujos da sociedade.

Diana, sua antiga handler (uma espécie de secretária do assassino careca), traiu a agência de contratos, apagou todos os registros e cortou todas as comunicações. Aqueles que jogaram os demais jogos da franquia, devem se lembrar da relação estreita que 47 e Diana mantinham. Aos poucos, a agência se recompôs e passou a ser comandada por Benjamin Travis, que logo requisitou novamente os serviços do 47, exigindo que eliminasse Diana, pela traição, e resgatasse uma misteriosa garota, Victoria, fruto de experimentos medonhos realizados pelo mesmo laboratório que criou e treinou 47.

Hitman: Absolution inicia exatamente na missão derradeira: uma espécie de prólogo que não esconde o velho clichê do “aprendiz que destrói seu mestre”. Somos introduzidos a uma breve missão tutorial que nos familiariza com os comandos do jogo e suas novas mecânicas. Mecânicas essas que mudaram substancialmente desde o título antecessor e, até então, de maior sucesso de crítica. Seis anos depois, é fácil notar como a IO Interactive e a Square Enix se esforçaram para criar um título que agrade tanto aos novatos, que nunca tiveram contato com outros jogos da franquia ou até mesmo com jogos de ação furtiva em geral, quanto aos veteranos do estilo único do agente 47.

Sempre quando recomendo Hitman, deixo bem claro que a franquia segue uma fórmula bastante única e peculiar, ainda que bem colocada no gênero de stealth action. O risco do jogador mais desavisado não se adaptar à fórmula é bem grande, visto que estamos falando de um jogo com mecânicas complexas, que requer muito, muito mais do que apenas saber apontar e atirar. Nota-se que a acessibilidade nunca foi um ponto forte da franquia, até então. Jogar Hitman na base da tentativa e erro, com extensa experimentação e inúmeros resets porque a coisa não foi como você planejava, já é parte intrínseca do título. É exatamente aí que, em Hitman: Absolution, se percebe a primeira grande mudança de rumos: é, de longe, o jogo mais acessível da franquia até o momento.

A ideia ainda está lá. Aliás, para a felicidade dos veteranos, ela sempre esteve, desde o Hitman: Codename 47, de 2000. Simples e direta: explorar o cenário, encontrar seu alvo, eliminá-lo e fugir. Tudo vai depender de como você manipulará as dezenas de variáveis incrustadas nesses quatro princípios. Em cada missão, é preciso dedicar mais da metade do tempo de jogo a sentar e… aprender. Aprender como o ambiente se comporta e como usá-lo a seu favor.

Como cada pessoa reage ao mapa? Quais seus papéis? Quais as rotas de cada civil e, mais importante, de cada guarda? Onde estão seus alvos e o que estão fazendo? Eles estão em uma área isolada, onde só é possível entrar disfarçado? É possível transformar suas mortes em meros acidentes? Onde estão as saídas mais próximas? Quantos e quais NPCs tem chances de frustar seus planos? Uso alguém como refém? Quais armas utilizar? A mais silenciosa, pra não alertar ninguém, ou a mais barulhenta, para um assassinato e fuga cinematográficos? Muito antes de ser um assassino, 47 também é um excelente investigador.

Por motivos estabelecidos pela própria história do jogo, não é mais possível definir com quais armas iniciar cada missão. Logo, entra aí mais uma genial variável: a improvisação. É realmente impressionante o número de possíveis maneiras de eliminar seus alvos e a enorme variedade de circunstâncias em cada missão, incluindo fugas alucinantes da polícia e caçadas implacáveis em ambientes transbordando de gente.

Acredite: o uso de armas de fogo e do inseparável Fiber Wire é apenas uma pequena fatia do universo de aparatos letais (alguns nada convencionais) disponibilizados. Certos alvos ao longo do jogo, por mais bem protegidos e isolados que estejam, possuem cerca de 15 maneiras diferentes de eliminá-los. Esse número praticamente duplica em alvos a pleno céu aberto. Cabe a você, caro leitor e jogador, explorar e descobrir.

Paciência é uma virtude que precisa fazer parte de sua personalidade, caso você aspire a algumas horas de jogatina em Hitman. Felizmente, ela é muito bem recompensada. O jogo trabalha com um sistema de ranks, como “Silent Assassin”, “Hitman”, “Professional”, “Shadow”, e por aí vai. Para alcançar a pontuação equivalente ao rank mais alto de todos, o tal “Silent Assassin”, é simples: seja perfeito. Ok, não tão simples assim. Mas lembre-se de que “o verdadeiro assassino é aquele que deixa o mundo ao seu redor intocado” (um dos mais valiosos conselhos presentes no tutorial do jogo), e muitas vezes, ser o assassino perfeito requer paciência, esperar o momento certo para botar em prática seus planos minuciosos. Desde que eles evitem a morte ou ferimento de inocentes e não levantem suspeitas, há grandes chances de você se dar bem.

Exceto pelo “Purista” (uma espécie de ultra-hard, feito para agradar aos veteranos mais hardcores), os demais modos de dificuldade contam com uma ajudinha, ao melhor estilo do Detective Mode, de Batman: Arkham Asylum/City, e da Dark Vision, de Dishonored. Trata-se de uma “visão de raio-x”, batizada de Instinct, que explicita a localização de seus alvos, além dos guardas e de pontos de interesse (lembra do que falamos sobre usar o ambiente a seu favor?). Mais útil ainda é que o Instinct exibe a rota dos principais NPCs do mapa, com um rastro de fogo (!) no chão.

A funcionalidade é bem interessante, mas está um pouquinho fora de contexto em um jogo que tem, entre suas marcas, a experimentação (como dissemos no início). Ganhar tudo de “mão beijada” com o tal Instinct é um dos pontos mais polêmicos do novo Hitman e está sendo alvo de imensas críticas nos fóruns da Square Enix. Felizmente, o Instinct pode ser ligado e desligado, além de ter seu tempo de uso limitado nos níveis de dificuldade mais altos (sendo totalmente abolido no modo “Purista”).

Outros dois pontos polêmicos da mecânica, que deveriam ter sido um pouco mais bem pensados pela IO Interactive, são o sistema de saves e os disfarces. Hitman: Absolution abandonou o sistema de “salvar no momento que você quiser” e implantou os tais checkpoints, que vários jogos atuais (shooters, em sua maioria) já utilizam. Eles estão dispostos em certos locais do mapa e é preciso caminhar até eles e “ativá-los” para salvar o progresso. O problema é que isso dá a impressão de que o jogo quer que o jogador percorra uma rota pré-estabelecida. A aparente linearidade é ainda mais evidenciada pela segmentação das missões (divididas em vários pequenos “setores” por vez). Tais conceitos vão totalmente contra a promessa da franquia, tomando um pouco de liberdade das mãos do jogador.

Já os disfarces, parte essencial da mecânica, pois eles possibilitam o livre trânsito em áreas antes isoladas e permite alcançar alvos que porventura estejam ali, sofreram modificações consideráveis. Agora, NPCs usando a mesma roupa característica que o agente 47 podem identificá-lo e denunciar a fraude, caso você se aproxime demais. Por exemplo: usar o disfarce de um zelador o tornará irreconhecível para outros NPCs (guardas), exceto outros zeladores, que podem identificar a súbita mudança no visual do seu colega de profissão (rs!). Mais uma vez, o modo Instinct pode ajudar nessa hora, já que o uso dele em certos momentos faz com que o 47 oculte o rosto, dando uma “disfarçada” para despistar os olhares mais atentos. Mesmo assim, ainda tenho minhas dúvidas se essa mudança não acaba tornando inútil todo o sistema de disfarce.

Pela primeira vez, a história desempenha um papel ativo e crucial num jogo da franquia. Todas as missões estão orientadas pela narrativa, ao contrário dos outros Hitman, onde ela simplesmente corria paralela à ação. Infelizmente, a superficialidade, os buracos no enredo e os clichês envenenam qualquer chance da história envolver o jogador. Mesmo com um final terrível, certos personagens merecem destaque, como o vilão Blake Dexter e seus diálogos muito bem dublados por Keith Carradine (o agente Frank Lundy, da série “Dexter”). Aliás, as várias coincidências de Hitman: Absolution com a série de TV do serial killer “Dexter” são, no mínimo, curiosas.

Se o modo single player ainda não lhe agradou, ainda temos o inédito Contracts Mode, inaugurando um modo multiplayer na franquia – ainda que “dessincronizado”. Nele, é possível criar contratos e enviar para seus amigos. Você navega por qualquer um dos vários cenários presentes na campanha single player e marca um NPC do mapa (qualquer um, num máximo de três) como alvo. A partir daí, é preciso matar esses alvos, que você mesmo atribuiu. O jogo registrará tudo o que você fez para realizar os objetivos e, quanto mais difícil e elaborado for o assassinato, mais condições terão que ser obedecidas pelo jogador que aceitar o seu contrato para alcançar maiores pontuações.

É um modo muito legal que acaba criando dois níveis de competitividade num jogo até então só single player: criar a missão mais complicada possível e desafiar outros jogadores a repetirem suas proezas. Se tem uma novidade que chegou em boa hora na franquia, sem dúvida, foi o Contracts Mode.

Quanto aos aspectos técnicos, o novo motor gráfico empregado em Hitman: Absolution criou visuais absolutamente fantásticos, colocando-o entre os jogos mais bonitos que eu já tive a oportunidade de jogar. Alguns cenários, como o do relato inicial dessa review, contêm facilmente mais de 200 NPCs na tela, cada um deles independente em suas atitudes, movimentação e visual. E o impacto na performance? Na versão analisada (PC), utilizando uma configuração de 3 anos de idade (Core 2 Duo E7300 @ 3.3GHz, 4 GB RAM, Radeon HD 5770), o jogo rodou satisfatoriamente em 95% do tempo, porém, apresentando sérias quedas de framerate em alguns lugares mais densos (e por incrível que pareça, não foi nos lugares onde há multidões!). Tais problemas devem ser solucionados em breve, com novos drivers e patches (e um hardware novo).

Vale lembrar que a versão de PC não é um port! Foi desenvolvida em paralelo pela Nixxes, a mesma responsável pelas versões de PC de Deus Ex: Human Revolution e outros títulos recentes da Square Enix. Os controles para teclado e mouse estão muito bons, mas nada supera o bom e velho gamepad em jogos em terceira pessoa. O menu de opções gráficas é extremamente rico, envolvendo desde as opções mais básicas até recursos complexos como Global Illumination, Tesselation, Ambient Occlusion e duas opções de filtros anti-aliasing: FXAA e MSAA. Se comparado às versões de console, a edição para PC leva imensa vantagem na resolução superior das texturas, no suporte ao DirectX 11 e (snif!) no espaço utilizado em disco (quase 23 GB!).

Conclusão

Hitman: Absolution marca o retorno merecido do careca que reinventou os jogos de ação furtiva. O novo público e as novas tecnologias, seis anos depois do último título, obrigaram a implementação de mudanças substanciais na mecânica do jogo, em nome de uma maior acessibilidade. Melhor para quem está chegando agora, mas um pouco decepcionante para os mais antigos. Alguns conceitos precisam ser repensados, mas no geral, eles ajudaram a dar novos ares à fórmula. Enquanto o jogo impressiona tecnicamente, a história ainda, infelizmente, continua como um simples tapa-buraco. O Modo Contracts é imperdível e, sem dúvidas, vai mantê-lo grudado no jogo por um longo tempo.

Nota

8,5/10

Título: Hitman: Absolution
Gênero: ação furtiva em terceira pessoa
Desenvolvedora: IO Interactive / Nixxes Software
Publisher: Square Enix
Data de lançamento: 20 de novembro de 2012
Plataformas: PC / Xbox 360 / Playstation 3
Versão analisada: PC

Artur Carsten

Catarinense, amante da música eletrônica, estudante de medicina e jogador nas inexistentes horas vagas. Ocasionalmente, escreve artigos e coloca em dia a pilha interminável de jogos comprados em promoção no Steam. Já passou pelo Campo Minado, Continue, Guia do PC, Gemind e Oxygen e-Sports.

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6 Comments

  1. Excelente review Artur. Bem vindo ao blog!
    Puxa, estou maluco pra jogar o Absolution, pena que o enredo não evolui muita coisa em relação ao do Blody Money.47 merece uma história melhor!hehe

    Não tinha lido ainda sobre esse modo contracts, parece muito interessante.

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  2. Bem vindo e parabéns pelo review, gostei muito do seu estilo.

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  3. Muito bom, vai acrescentar muito ao blog e desejo mais sucesso ao blog xboxplus =D

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  4. adorei o review, extremamente detalhado, diferente dos que a maioria só pega o trailer e monta toda a reportagem em cima. @marcos o site está melhorando extremamente rápido desde que conheci, lembra o que aconteceu com o garotas geeks quando conheci elas, as matérias escrita por você e o Artur são de alto nível.

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    • @matheus,

      Realmente, Matheus. Ótimo review. Eu também adorei. O Artur escreve muito bem. 🙂

      E muito obrigado, meu caro. Fico muito feliz em saber que você gosta. E é como sempre digo: a casa também é sua. 😉 Dúvidas, sugestões, etc, são sempre muito bem vindas. Falando no Garotas Geek, foi bom você ter lembrado. Já vou deixar uma aba aberta no site aqui.

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