(Review) Life Is Strange – Episódio 1: Chrysalis – Escolhas, escolhas…

Life Is Strange é o segundo trabalho do estúdio francês Dontnod Entertainment. O primeiro, Remember Me, também conta com um texto aqui no XboxPlus (o jogo é ótimo, vale ressaltar). Assim como no título que tinha a caçadora de memórias Nilin como protagonista, Life Is Strange também permite que o jogador volte no tempo, mas desta vez não dentro das memórias de alguém. Desta vez, podemos retroceder o tempo.

O primeiro episódio de Life Is Strange, Chrysalis (a temporada terá 5), começa de uma forma um tanto quanto lenta. Na verdade, o episódio inteiro é um pouco lento, cuidadoso, calmo, dotado de uma serenidade enorme.

Life Is Strange

Parece que a desenvolvedora resolveu, neste primeiro capítulo, primar pela apresentação e impressão, na mente do jogador, das bases de toda uma grande trama e de um conjunto de mecânicas simples porém funcionais que serão essenciais ao longo do gameplay. Chrysalis soa como uma maneira de introduzir o jogador na trama e deixá-lo aí bastante confortável, como que o preparando para fortes emoções que virão.

Ficha técnica

Título: Life Is Strange – Episódio 1: Chrysalis

Desenvolvedora: Dontnod Entertainment

Publisher: Square Enix

Data de lançamento 1º episódio: 30 de Janeiro de 2015

Plataformas: PC / Playstation 3 / Xbox 360 / Playstation 4 / Xbox One

Versão utilizada: PC

Life Is Strange

Isto não é algo negativo, veja bem. Muito pelo contrário. Dentro do contexto da narrativa, digamos que é algo até mesmo necessário. A maneira como tudo começa (aliás, o jogo começa e termina no mesmo local, fisicamente falando), o modo como a protagonista, a jovem Maxine Caulfield, descobre ser capaz de manipular o tempo, o enredo que vai se tornando cada vez mais complexo e cheio de “pontas soltas” (muitas delas, como logo se percebe, ficando para os próximos episódios): tudo isto acaba representando uma enorme carga emocional para Max.

Os eventos de Life Is Strange ocorrem em uma cidade fictícia chamada Arcadia Bay, nos Estados Unidos. Max é uma garota introspectiva que adora fotografia. Retornando à sua cidade natal depois de cinco anos, ela passa a frequentar um curso de fotografia em uma instituição chamada Blackwell Academy, e tem como professor um de seus artistas preferidos.

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Max parece estar sempre com problemas para se integrar. Ela parece deslocada, outros alunos parecem estar sempre prontos para hostilizá-la, e ela geralmente não se sai lá muito bem quando tenta algum tipo de interação (apenas o professor Jefferson parece enxergar nela um grande talento escondido, ou adormecido).

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É bastante interessante o momento em que Max se dá conta de seus poderes. O momento em que ela realmente tem a confirmação de que pode voltar no tempo e alterar os acontecimentos. No banheiro feminino da escola, ela testemunha uma briga entre uma garota e um rapaz. Esta garota acaba sendo baleada, e Max consegue voltar no tempo, logo depois, e alterar os acontecimentos, evitando a morte da menina de cabelos azuis.

Em meio a isto, temos também acesso a outros exemplos do poder que a aspirante a fotógrafa possui. Na sala de aula ela tem a chance de retroceder um pouco no tempo e responder corretamente a uma pergunta de seu professor, uma pergunta que, na primeira tentativa, ela errou. Esta resposta correta acaba agradando tanto o professor quanto Max, claro, e como efeito colateral deixa irritada a aluna que na “versão anterior” havia respondido corretamente e também humilhado, de certa forma, a personagem principal.

Voltando à grande descoberta, ao momento em que Max percebe que pode alterar os acontecimentos, voltar no tempo e interagir com alguns elementos no meio disto tudo, vale destacar o aparecimento de uma linda borboleta azul. Max chega a sacar sua câmera, além de dizer que o belo lepidóptero “parece quase um espírito“.

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E aqui não podemos também deixar de pensar no Efeito Borboleta, da Teoria do Caos. O termo está relacionado à dependência sensível entre vários elementos do universo. E a tufões, também (até mesmo de acordo com acontecimentos vividos pela personagem principal no início e no fim deste primeiro episódio).

Esta famosa e já batida frase também pode ser aqui utilizada, nos dando uma “luz” em meio a todo o “caos”: “o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e, assim, talvez provocar um tufão do outro lado do mundo“.

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Mas não vamos entrar em detalhes a respeito desta questão, até mesmo porque isto sairia fora do assunto e de meus conhecimentos. Fica apenas a certeza de que aquela pequena borboleta foi algo intencional, algo até mesmo já previsto no título deste primeiro episódio (Chrysalis, ou crisálida, um dos estágios da vida das borboletas, antes de se transformarem em insetos alados).

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Life Is Strange deixa que o jogador brinque com eventos chave. Deixa que ele brinque com o tempo. O game chega a exibir um ícone específico na tela quando acabamos de passar por algum evento que terá consequências. A própria Max, nestes momentos, faz alguns comentários a respeito, e estes são feitos tanto se optarmos pelo “caminho A” quanto pelo “caminho B”.

Ela mesma não tem certeza a respeito de qual a alternativa correta, como podemos perceber (se é que existe uma – e a quantidade de desdobramentos pode ser bem vasta, dado o grande número de escolhas possíveis, de novas possibilidades, de variações).

A mecânica de retrocesso no tempo é bastante simples, até. A jogabilidade é extremamente intuitiva, e uma única tecla é capaz de provocar um rewind total, nos dando então a chance de alterar aquilo que acabou de ocorrer, para o bem ou para o mal, quantas vezes desejarmos.

Isto deve ser feito, porém, durante o evento em questão, enquanto estamos na mesma situação, enquanto estamos dentro de um determinado timeframe da ação. À partir daí, se não fizermos mais nada depois que a mensagem “This action will have consequences” (Esta ação terá consequências) aparecer em tela, dando continuidade ao jogo, então não haverá mais volta.

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Diferentemente do que acontece com The Walking Dead, da Telltale, por exemplo, onde nossas escolhas são definitivas (pelo menos dentro do mesmo savegame, do mesmo playthrough), o novo e espetacular jogo da Dontnod permite que o jogador retroceda quantas vezes desejar, conferindo quais serão os desdobramentos imediatos e decidindo então se deseja mudar alguma coisa, voltando no tempo novamente e “acertando as coisas”. Estes “acertos”, claro, referem-se mais às possibilidades e ao momento, pois não temos como prever o futuro e saber que tipo de resultado final determinada escolha trará.

Existem até mesmo maneiras de retroceder até um determinado “ponto chave” (nossa última ação, por exemplo), com indicações visuais e tudo, e também existe um comando para “retrocesso rápido” (durante estes retrocessos, os efeitos visuais são bem interessantes, diga-se de passagem).

Mas tudo isto não impede, veja bem, que o processo de desenvolvimento e entrega das devidas recompensas seja iniciado. As consequências estão lá, prontas para serem exibidas, lançadas, expostas, desencadeadas. E como no também excelente TWD, da Telltale, ao final de Life Is Strange somos brindados com um completo relatório que exibe nossas escolhas, em vários momentos do jogo, e as compara com o restante da comunidade de jogadores. Aqui, no entanto, as escolhas, os momentos chave, os pontos importantes do enredo, se fazem presentes em maior número.

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Existem aqueles eventos de maior importância, e existem também aqueles de menor importância, todos devidamente identificados. Grande parte de nossas escolhas, de nossos atos neste primeiro episódio, por falar nisso, acabam ficando sem sua devida recompensa. Ao final de Chrysalis percebemos que vários desfechos podem ser aguardados nos próximos capítulos, sem contar com a já antecipada possibilidade de vários finais diferentes.

Ocorre que nestes momentos em que pressionamos o botão direito do mouse para voltar no tempo, um grande poder é posto em nossas mãos. Max é capaz até mesmo de resolver alguns puzzles, usando sua capacidade de voltar no tempo. Puzzles, aliás, que também podem representar verdadeiras “armadilhas” para outros personagens (como no caso da lata de tinta e da esnobe Victoria Chase), sem contar com o fato de que é possível interagirmos com diversos elementos do cenário para provocarmos mudanças no curso dos acontecimentos.

Life Is Strange

Retroceder, dialogar, agir, observar. Retroceder novamente, optar por outro tipo de abordagem à mesma situação, observar a reação dos personagens envolvidos. Retroceder novamente, optar pela primeira abordagem. Ou não. Mentir ou dizer a verdade. Intervir em um acontecimento que aparentemente representa algum tipo de perigo para alguém ou apenas tirar uma foto, para algum possível uso no futuro? Deixar um pobre pássaro viver ou morrer, através da simples abertura de uma janela, sabendo que até mesmo esta pequena ação terá uma consequência, segundo o próprio jogo?

Nós escolhemos, sem limitações durante cada evento, valendo também lembrar que a protagonista se lembra de tudo o que fez, de tudo o que disse, mantendo plena consciência de suas “idas e vindas”, sendo capaz, portanto, de literalmente brincar com o tempo, com os acontecimentos e até com as pessoas envolvidas.

Após voltar no tempo durante um diálogo percebemos que outras opções de diálogo são exibidas, e isto acaba contribuindo ainda mais para a riqueza de detalhes da trama, do próprio jogo em si. Percebemos que o enredo vai assumindo ares mais complexos, mais sérios, e mesmo a leveza inerente a alguns personagens, como a própria Max, por exemplo, além da ambientação, não é suficiente para nos livrar da impressão de que algo escuro ronda a cidade de Arcadia Bay e a Blackwell Academy.

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O jogo insistentemente faz com que o jogador se depare com pôsteres de Rachel Amber, uma garota de 19 anos que está desaparecida. Com isto em mente, vale também ressaltar um “problema” em Life Is Strange: a quantidade de informações desnecessárias que são descarregadas no jogador.

Pichações, textos escritos em muros ou em quadros, bilhetes, pôsteres e mais pôsteres, placas indicativas, páginas web em notebooks e tablets, utensílios e equipamentos diversos com suas respectivas descrições e comentários por parte de Max, além de uma série de outros itens: somos meio que “bombardeados” por tudo isto enquanto jogamos.

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Uma boa parte destes bilhetes, destes textos, destas informações, acaba sendo desnecessária, não acrescentando nada realmente importante à narrativa, e mesmo que muitas leituras acabem sendo divertidas, até interessantes, fica a impressão de que a desenvolvedora exagerou um pouco, aqui.

Temos acesso a tudo isto mediante indicações em tela. “Olhe”, “Leia”, “Pegue”, etc, e o grande problema é que não temos como distinguir o que é irrelevante do que é importante, portanto, a experiência pode acabar se alongando um pouco mais, e desnecessariamente, dado este “problema”. Um “problema”, vale ressaltar, que acaba ficando em segundo plano, pois Life Is Strange possui qualidades de sobra, qualidades que acabam realmente nos prendendo, nos deixando apreensivos, nos imergindo, nos surpreendendo.

Quando Chloe, uma velha amiga de Max, entra em contato com ela, as coisas ficam melhores ainda. A partir daí temos mais descobertas, mais eventos estranhos, e percebemos que alguns detalhes que antes pareciam isolados estão de alguma forma interligados, incluindo a garota desaparecida e o padrasto de Chloe, o paranoico David Madsen, que também é segurança da Blackwell Academy.

Trailer de lançamento:

Conclusão

Life Is Strange é um trabalho realmente sem igual, sensível e inteligente. Um jogo capaz de retratar com sutileza os problemas de adolescentes e jovens em seu dia a dia e ao mesmo tempo apresentar ao jogador uma trama rica e envolvente, com “tentáculos” escuros que vão saindo aos poucos das sombras.

Com seus belos gráficos e cenários, além de um cuidado bem grande no que diz respeito às expressões faciais, o novo trabalho da Dontnod é extremamente agradável, imersivo e instigante. Destaque também para a excelente trilha sonora e para os personagens muito bem construídos, capazes de nos tocar profundamente.

Vamos aguardar pelo próximo episódio, pois este primeiro deixou muitas perguntas sem respostas (que bom!). Ao final de Chrysalis, com inúmeras pontas soltas, o que mais desejamos é jogar logo o próximo capítulo.

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2 Comments

  1. Parabéns pelo review Marcos! Esse clima de serenidade que você descreveu que o jogo possui é algo que sinto falta hoje em dia, me remete a jogos como Shenmue, Beyond Good And Evil, só para citar os que vem à mente agora.

    Vendo o trailer (algo que não costumo fazer), senti um clima de mistério parecido com Alan Wake. Acho válidos esses jogos com propostas que fogem um pouco do habitual, espero que lancem todos episódios e, quem sabe, eu faça uma maratona no futuro? Falando nisso, adoro esta temática de viagem ou manipulação do tempo!

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    • Olá Diego! Obrigado. 🙂

      Então, o jogo é bem assim mesmo, pelo menos nesse primeiro episódio. Também gosto bastante dessa temática, quem dera mais jogos assim fossem lançados.

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