Sou um astronauta deixado para trás em um planeta desconhecido, belo e perigoso. As criaturas que me rodeiam podem me matar ou me embevecer. Minha jornada começa e logo sou assaltado por pensamentos confusos. Minha mente é um turbilhão de dúvidas, minhas mãos nuas de nada servem frente aos obstáculos que aparecem, frente às máquinas violentas com as quais me deparo. O que me resta é fugir, fugir, fugir. Correr sem parar.

As palavras acima talvez descrevam um pouco daquilo que encontramos, pelo menos a princípio, em Planet Alpha, jogo que representa também uma marca muito importante para a publisher britânica Team17: trata-se do centésimo título por ela publicado, desde sua fundação, em 1990.

Planet Alpha

Planet Alpha é um jogo no qual o protagonista acorda, ferido e aturdido, em um planeta aparentemente por ele desconhecido. Tal planeta é belíssimo, vale ressaltar logo de início. Nele, atravessamos diversos cenários diferentes, cada um deles com fauna e flora distintos, além de vestígios de uma civilização que ali marcou presença, talvez, há muito tempo atrás.

Existem também máquinas, em tal planeta, robôs de diversos tipos e tamanhos, e não sabemos ao certo se tais máquinas pertencem ao local, tendo ali permanecido como guardiões, ou se são também extraterrestres.

Planet Alpha

Observe que digo tais palavras a respeito dos robôs e da própria origem do protagonista com base em minhas próprias suposições, levando em consideração tudo aquilo que pude observar do início ao fim do jogo, pois Planet Alpha é um jogo sem um enredo propriamente dito. Trata-se de um jogo sem palavras, como FAR: Lone Sails. A história é contada de forma incidental, digamos.

A trama, se é que podemos assim dizer, é fornecida ao jogador através das mecânicas, da ação, da interação do personagem principal com o ambiente ao seu redor, dos elementos presentes nos cenários (e com os quais tomamos contato), etc.

Não existe em Planet Alpha, além disso, nenhum tipo de tutorial (e este nem seria necessário, pois os controles são bastante básicos), e cada jogador poderá levantar suas próprias hipóteses ao jogar o título do estúdio dinamarquês Planet Alpha ApS, cuja equipe principal é formada por 3 pessoas, apenas: Adrian Lazar, Tim Loye Skafte e Tim Börrefors.

Planet Alpha

O jogo também não conta com nenhum tipo de HUD ou outro tipo de elemento em tela: temos apenas os lindos gráficos capazes de fazer com que pressionemos F12 (joguei no PC) sem parar ao longo do gameplay, para capturar toneladas de screenshots.

Não existe, em tela, nenhum elemento que atrapalhe a imersão, e o protagonista, além disso, não empunha nenhuma arma. Ele não carrega nada consigo além de uma lanterna. Ah, sim, ele também veste um capacete, algo que talvez prove que ele não pertence àquele planeta e não consegue se adaptar àquela atmosfera.

O título é repleto de mistério. Algo de muito errado aconteceu a uma suposta civilização que habitou aquelas paragens há muito tempo. Isto podemos perceber através de grandes construções que se assemelham a templos e nas quais adentramos.

Planet Alpha

Temos velhas estátuas, velhos mecanismos que ainda funcionam (e com os quais chegamos a interagir), tecnologias estranhas, máquinas diversas e até mesmo gigantescas instalações industriais com uma espécie de linha de produção ainda em funcionamento, ainda que errático. Podemos levantar a hipótese de que problemas aconteceram há muito tempo atrás, pois tudo encontra-se meio que em ruínas, tomado pela vegetação, a qual briga por espaço de forma bastante acirrada.

O protagonista sem nome e sem rosto caminha por paisagens deslumbrantes. São vários os ambientes do jogo, o qual possui dez capítulos e pode ser finalizado, digamos, em cerca de 5-8 horas. Temos florestas luxuriantes, árvores gigantescas em cujas folhas enormes caminhamos e saltamos, planícies repletas de flores e folhagem exuberantes, desertos áridos, lindos e dotados de uma melancolia enorme, cavernas lindíssimas, subterrâneos repletos de criaturas estranhas porém belíssimas, montanhas altíssimas e até mesmo espécies de ilhas flutuantes, em alturas vertiginosas.

Planet Alpha

A fauna do jogo também é interessantíssima, e temos tanto criaturas hostis quanto pacíficas. Podemos observar até mesmo enormes criaturas, ao longe, bastante semelhantes a dinossauros. Temos também uma enorme variedade de criaturas voadoras, além de monstros aracnídeos gigantescos e outros colossos orgânicos.

Quase tudo em Planet Alpha contribui para criar um enorme clima de imersão, salvo alguns momentos a respeito dos quais comentarei mais abaixo, e o jogador perceberá aos poucos que está imerso em um ecossistema vivo, vibrante, repleto de movimento e capaz de despertar enorme deleite.

Planet Alpha

Há também uma mecânica interessante no jogo, através da qual podemos manipular o tempo, avançando ou retrocedendo a hora do dia, com várias gradações. Tal recurso é disponibilizado a princípio apenas quando entramos em contato com determinados mecanismos no jogo, mas mais adiante podemos dele fazer uso quando bem desejarmos.

E é aí que percebemos que estamos em um mundo, em um planeta, realmente vivo. Diferentes estruturas no Planeta Alpha entram em ação, em funcionamento, dependendo do horário. Cogumelos podem surgir de dia, servindo como plataforma para que alcancemos pontos antes inatingíveis, e plantas diversas “acordam” durante a noite e nos auxiliam quando é necessário fazer uso de ação furtiva, servindo como cobertura.

Planet Alpha

Plataformas e portais também são postos em ação através do avanço ou do retrocesso entre o dia e a noite. Diferentes estruturas e mecanismos também funcionam através do uso de tal recurso, e o protagonista pode até mesmo utilizar o mesmo para dar cabo de seus inimigos, sejam eles orgânicos ou não.

Planet Alpha

Existem diversos robôs, no jogo, sendo que alguns deles são gigantescos. Mas o grande problema, mesmo, são os menores, que parecem patrulhar determinadas áreas (também existem violentos robôs caçadores voadores, vale lembrar). Tais robôs são sempre extremamente violentos, nos atacando tão logo somos vistos.

Eles são capazes de matar o personagem com um único tiro (e lembre-se, não existe nenhuma “barra de vida”), mas podemos deles nos esconder manipulando o tempo, avançando para períodos noturnos quando plantas acordam e funcionam como esconderijo, para que avancemos pouco a pouco.

Planet Alpha

O ecossistema em Planet Alpha é ao mesmo tempo refúgio e perigo. Ele pode ajudar ou atrapalhar, dependendo da situação e da fauna e da flora com as quais nos deparamos (sem falar nas máquinas e robôs). Ele é, também, motivo de grande deleite para o jogador, o qual pode permanecer parado por longos períodos de tempo apenas apreciando o belíssimo visual que rodeia o protagonista. As cores são vibrantes, os efeitos de partículas são fantásticos, os gráficos do jogo são primorosos, a ambientação é maravilhosa, e tudo contribui para a criação de um verdadeiro espetáculo audiovisual.

Existem puzzles, também, em Planet Alpha, mas estes, infelizmente, não são lá muito elaborados. Eles estão mais ligados à liberação de caminhos, à movimentação de blocos e rochas para locais específicos de maneira tal que possam ser utilizados como rampas ou plataformas para que sejamos capazes de alcançar lugares mais altos.

Eles podem também estar relacionados ao posicionamento correto de determinados elementos (sempre de forma intuitiva e simples), e muitos deles fazem uso da mecânica de avanço e retrocesso do tempo, com plataformas que se movimentam, se abaixam, se erguem e giram, com plantas e cogumelos que acordam e dormem (servindo como plataformas ou não), etc.

Planet Alpha

Existem também momentos em que podemos colocar os robôs e as criaturas orgânicas que habitam Planet Alpha para brigarem entre si, brigas estas que podem nos beneficiar e liberar o caminho (aliás, os robôs e a fauna no jogo parecem estar em briga constante). Você conseguirá passar pela maioria dos puzzles do jogo sem maiores problemas, salvo uma ou outra exceção.

Grande dificuldade, entretanto, existe em diversos momentos em que temos de calcular milimetricamente os saltos, de maneira tal a atingirmos a plataforma segura que está mais adiante. Planet Alpha é um jogo onde você morrerá muitas, muitas vezes, justamente e principalmente devido às dificuldades presentes em seu elemento “plataforma”, devido a quedas de grandes alturas, a saltos incorretos, a muros e paredes em movimento capazes de esmagar o protagonista, etc. Felizmente, porém, os checkpoints são bastante amigáveis, bastante próximos um do outro, e você poderá recomeçar sem ter de percorrer longas distâncias até chegar ao ponto em que falhou anteriormente.

Planet Alpha

O jogo é lindo, isto não podemos negar. A ideia, o conceito, a história sem palavras, deixando a interpretação por parte do jogador, os gráficos e a câmera extremamente dinâmica, se afastando, se aproximando, girando e atuando de maneira tal a dar maior enfoque àquilo que precisa ser observado com maior atenção no momento.

Planet Alpha também possui fantásticos efeitos sonoros, sem falar na trilha sonora sci-fi e extremamente imersiva, acompanhando de maneira soberba os diferentes momentos do gameplay, fornecendo mais tensão ou relaxamento conforme for necessário.

Existem problemas, entretanto. A própria introdução do controle pleno sobre o dia e a noite não é feita logo de início. O jogador assume o controle pleno de tal mecânica apenas após passado algum tempo de jogo, o que pode frustrar aqueles que compraram a ideia justamente devido a tal belo e interessante recurso.

Isto acaba por prejudicar bastante a experiência, uma vez que sabemos que estamos em um ecossistema que responde conforme o tempo passa (mais adiante, por exemplo, podemos avançar gradualmente e sem parar, observando toda a mudança que ocorre no ambiente ao nosso redor – e tudo isto pode ser capaz, dependendo do momento, de ajudar nos diversos puzzles apresentados).

Planet Alpha

Existem também alguns capítulos do jogo onde não podemos utilizar tal recurso. Isto acontece em cavernas ou dentro de instalações diversas, e também é algo bastante frustrante. Obviamente, somos obrigados a concordar com o fato de que em tais locais não somos capazes de observar o sol ou a lua do planeta (em alguns deles, estamos sob escuridão quase que total), mas acredito que a desenvolvedora deveria, então, ter optado por outros mecanismos, pela manutenção da funcionalidade – até mesmo porque continuamos no mesmo planeta – ou até mesmo por um redesign em tais fases, uma vez que uma das principais (senão a principal) “ideia vendedora” do jogo é o tal controle sobre o dia e a noite.

Planet Alpha

Existem momentos, também, em que por mais que pressionemos RT ou LT (joguei no PC utilizando um controle de Xbox 360), o tempo não avança nem retrocede. Estes são poucos, mas pode ser que tenhamos um bug bem chato aqui. Existem também capítulos ambientados em cavernas escuras ao extremo, e por mais que tenhamos cristais e criaturas luminosos de grande valia, tais níveis acabam sendo um tanto quanto chatos, fazendo com que o jogador anseie firmemente pelo retorno à exuberante superfície (afinal, o jogo é vendido com grande exaltação de ambientes claros, luminosos, vibrantes, cheios de vida, de cor e de alegria). Tais momentos escuros removem muito do charme do jogo, creio eu.

Há também um uso excessivo de cenas que meio que seguem um script, onde temos de atravessar longos trechos do cenário saltando, correndo e deslizando sem parar, “carregados pelo jogo”, enquanto tudo atrás de nós desmorona ou então enquanto somos perseguidos pelos raios mortais de algum robô gigantesco. Tais scripts estão presentes até mesmo nos momentos finais do game, vale ressaltar. Tudo isto acaba ficando meio cansativo, pois além de quebrar a imersão, deixa a impressão de que os desenvolvedores tentaram introduzir uma maneira de avançarmos mais rapidamente.

Planet Alpha

Os momentos de ação furtiva também não são lá muito atraentes. Basicamente, eles se resumem a passarmos despercebidos por robôs e criaturas orgânicas hostis através do controle do dia e da noite, fazendo com que vegetação alta surja para que possamos andar agachados nos escondendo. Ou então, podemos utilizar partes superiores em algumas áreas de maneira tal a passarmos despercebidos pelos inimigos. E só. Isto sem falar nos puzzles, os quais não são muito criativos e/ou complicados.

Os controles do jogo também não são muito precisos, e você morrerá algumas vezes justamente devido a falhas a eles relacionadas. Você errará muitos pulos, por exemplo, devido a tal fato.

Planet Alpha

De qualquer forma, Planet Alpha é um jogo lindíssimo e divertido, salvo momentos em que aquilo que o distingue é retirado à força do jogador, como os capítulos em ambientes escuros e/ou que retiram de nós o controle sobre o dia e a noite.

Além disso, sua trama “contada” paulatinamente e sem palavras conforme exploramos é interessantíssima e nos faz imaginar o que houve com aquele local tão bonito e colossal. Não apenas isso, pensamos sempre em quem é o protagonista. Por que ele está ali? Por que ele decidiu avançar e explorar o mundo à sua frente? Para onde ele irá, no final de tudo? Bem, uma cena em especial, nos momentos finais, talvez explique um pouco a respeito.

Ficha técnica

Título: Planet Alpha

Gênero: aventura, plataforma, indie

Desenvolvedora: Planet Alpha ApS

Publisher: Team17

Data de lançamento: 04 de Setembro de 2018

Plataformas: PC, PlayStation 4, Xbox One e Nintendo Switch

Versão analisada: PC

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