Shadow Harvest: Phantom Ops, jogo desenvolvido pela alemã Black Lion Studios e distribuído pela Viva Media (e que utiliza Steamworks), é um jogo difícil. Em diversos aspectos. A princípio, fiquei assustado com o mesmo. Seus gráficos não são o que poderíamos chamar de “um primor”. A modelagem dos personagens também não é muito bem feita, e sincronismo labial é quase que inexistente. Os gráficos, também, possuem (ou sofrem com) um efeito um tanto quanto interessante e ao mesmo tempo estranho, o qual provoca sombras e um certo “efeito fuligem” durante o gameplay inteiro. Além disso, o jogador sentirá, pelo menos no início, uma certa dificuldade quando atirar com sua arma ou utilizar alguma metralhadora de algum blindado. Em Shadow Harvest: Phantom Ops o brilho é muito intenso, e chega a ofuscar nossa vista. Os gráficos do jogo pendem para um tom meio bege, e em alguns momentos você pode até mesmo enxergar um efeito ao redor de alguns elementos que passam uma impressão de escuridão.

No entanto, segundo a desenvolvedora, tudo isto tem um motivo. Eles tentaram capturar as características dos locais ensolarados, quentes e empoeirados pelos quais o jogo levará o jogador. Aquele sol bem brilhante, e a consequente visão escurecida quando se entra em locais fechados, por exemplo. Locais à sombra também são muito escuros, vale ressaltar. Tal efeito, creio eu, deveria, no game, se comportar como o olho humano, o qual se acostuma gradualmente quando sai do sol ofuscante, digamos, e entra em um ambiente fechado/escuro. Mas tal não ocorre no game, pelo menos, não por enquanto. Tudo isto pode causar um enorme estranhamento ao jogador, principalmente por quem não possui a paciência necessária para jogar até o game “engrenar”. Pois Shadow Harvest: Phantom Ops é um ótimo jogo. Tem falhas, é claro, mas é um ótimo jogo.

Trata-se de um título difícil. Muito difícil. Daqueles que em muitos momentos você chega a querer desistir. Mas as recompensas são enormes, a cada novo desafio ultrapassado. Vale ressaltar que o “esquema”, neste jogo, é ser o mais silencioso possível, mesmo enquanto jogando com o “explosivo” Capitão Aron. Existem dois personagens jogáveis em Shadow Harvest: Phantom Ops: a Capitã Myra Lee, pertencente a um grupo chamado “Intelligence Support Activity” (ou ISA) e o capitão Aron Alvarez. Cada um deles possui habilidades distintas e extremamente úteis durante o gameplay. Eu diria que um completa o outro, e seria impossível finalizar Shadow Harvest: Phantom Ops apenas com um deles. Aliás, o próprio jogo é quem sugere, ou melhor, exige, a utilização de determinado personagem em determinados momentos, conforme a situação.

A história ocorre em 2025 e começa na Somália, em Mogadíscio, mais precisamente em um setor da cidade chamado Mesaali. Aron possui a missão de matar o ditador Karim Kimosein, o qual oprime a população e ainda está envolvido com pirataria e negociações e intrigas que envolvem membros de outros governos que vendem e compram tecnologia militar dos Estados Unidos em uma espécie de mercado negro. Kimosein é apenas parte, ou melhor, o ínicio de um jogo (nos dois sentidos) que levara Myra e Aron para Dubai e também para Havana, em Cuba. O jogo também se passa em um mundo repleto de conflitos, e onde os recursos naturais estão à beira do esgotamento.

A princípio, o título demora um pouco para engrenar. Trata-se, como disse o próprio CEO da Black Lion Studios, Martin Schwiezer, de um jogo que tenta “reviver as melhores funcionalidades e elementos de gameplay de uma era onde os shooters eram muito mais desafiadores“. E posso dizer com segurança que Shadow Harvest consegue esta façanha. Com alguns problemas, mas consegue. Estes tais problemas podem fazer com que determinados gamers abandonem o jogo. Mas isto não é uma regra, e prova viva sou eu mesmo, que finalizei este jogo desafiador ao extremo após muitas horas de gameplay. Quase desisti, em alguns momentos, mas fui em frente.

É preciso entender o que a Black Lion Studios desejava, com este título, primeiramente. Em primeiro lugar, muitos jogadores acostumados com o esquema atual da maioria dos FPS’s, onde basta sair da linha de tiro por alguns minutos para que sua energia vital se regenere, estranharão o game. Aqui, isto não existe. A energia vital do jogador pode ser totalmente eliminada (o que significa a morte) com um único tiro, dependendo do calibre da arma, da distância, do local onde o mesmo recebeu o tiro, etc. A energia vital do jogador também não se regenera.

Ou melhor, ela se regenera, mas através de med-packs. É preciso buscar por med-packs durante o jogo inteiro. E eles são escassos, o que torna tudo pior ainda. Ou melhor, você pode explorar um pouco a fim de encontrá-los. É preciso muitas vezes entrar em diversas salas e locais em busca de med-packs, pois andar sem pelo menos um no inventário é perigosíssimo. Já em relação à munição, não há problemas: inimigos mortos podem “fornecê-la” a você, através de suas armas jogadas no chão. O jogo também não possui suporte a joystiq, portanto, é “teclado + mouse”, o que, neste game em especial, é a escolha certa, pois movimentos e tiros extremamente precisos serão requeridos, muitas vezes.

Algo muito engraçado, aliás, é o fato de que, apesar de estarem em missão no mesmo país, os dois protagonistas não se conhecem a princípio. Aron chega a visualizar Myra por algumas vezes, de relance, enquanto ela age furtivamente, e fica meio que estupefato. O título da Black Lion Studios também não possui saves manuais, e cada checkpoint é bem distante um do outro. Ou seja: mais desafios. Mais dificuldade. Mais necessidade de cautela.

O encontro do Aron com a surpreendente (e você vai se surpreendendo com ela até o final do game) Myra se dá em uma situação um tanto quanto inesperada. No setor Kalaah, Myra consegue desligar toda a energia do palácio de Kimosein, e Aron é “pego” nesta queda de energia. É a partir daí que os dois se conhecem e passam a agir em conjunto. Na cela onde o Aron estava sendo mantido preso.

Controlar a Myra e o Aron fornece experiências bem diferentes. Aron é meio que o “Rambo” da história. Ele pode utilizar armas de qualquer calibre, e inclusive chega a utilizar um rifle de precisão em uma ocasião bem especial. Aron é mais resistente do que Myra, também, e pode lançar granadas e plantar cargas explosivas. Já Myra é o personagem que fornece a maior parte da ação stealth de Shadow Harvest: Phantom Ops. Ela enverga um traje que utiliza uma tecnologia muito interessante: ela pode ficar invisível. Algo muito parecido com o “cloak mode” de Crysis. Entretanto, isto demanda energia, e o jogador deve procurar pelas células de energia (azuis) durante o gameplay, para poder utilizar esta funcionalidade. Ser descoberto bem no meio dos inimigos não é nada legal.

Myra não utiliza arma de fogo alguma. Ela utiliza apenas uma besta. Entretanto, ela conta com 3 tipos de munição para sua besta: a munição normal, ou seja, flechas normais que, entretanto, são mais eficazes se disparadas contra a cabeça do inimigo, o “atractor bolt”, tipo de munição que permite que você atraia a atenção dos inimigos para o ponto que desejar e então os mate, se desejar, de maneira mais fácil, e o “Nanobolt”. Cada flecha Nanobolt contém uma substância chamada Nanite, a qual, além de ser letal independentemente do local onde você acerta o inimigo, torna seu corpo invisível.

Isto é extremamente útil, pois os guardas entram em polvorosa quando enxergam o corpo de outro soldado, e aí, você tem poucas chances de sobrevivência se estiver por perto. A Myra também possui, em seu punho direito, um mecanismo dotado de garras que injetam Nanite nos inimigos. Você pode chegar sorrateiramente, por trás, agarrar o inimigo e injetar a substância em seu pescoço. Ele morrerá e seu corpo permanecerá invisível por algumas horas.

Aliás, enquanto jogando furtivamente com a Myra, “mate bem”. Matar um inimigo enquanto outro o está observando irá fazer com que um monte de guardas saia em sua busca. Muitas vezes, isto representa o fim da missão. Fazer barulho é proibido, também. Muitas vezes, é necessário possuir muita paciência e aguardar o momento certo, até que todos os guardas tenham se virado de costas, por exemplo, para que você possa então matar seu alvo sem que ninguém veja. Em determinados momentos você deve realizar um verdadeiro planejamento estratégico, definindo a ordem das mortes, tendo em vista a movimentação dos inimigos, sua velocidade, o caminho que eles percorrem, etc. Qualquer erro aqui pode ser fatal.

O sistema de cobertura, tanto para a Myra quanto para o Aron, é algo realmente intuitivo. Basta se aproximar frontalmente de algum muro, parede, caixa ou qualquer outro objeto que possa servir de cobertura, e o personagem automaticamente entra em posição de cobertura. Se você se aproximar lateralmente, nada acontecerá. É bem provável que isto cause uma certa confusão no início, mas a redução de comandos/botões que esta cobertura automática fornece é muito interessante e útil, principalmente em meio ao caos da batalha.

O modo de atirar enquanto coberto, também, varia conforme a posição em que você se encontra. Se você estiver agachado, de frente para o inimigo, o botão que faz com que você possa mirar é o W. Já se você estiver com o sistema de cobertura ativo em uma posição lateral, deverá utilizar o A, se a “saída” for para a esquerda. E assim por diante. Basta pensar nos botões que fariam com que você se movesse para esta ou aquela direção.

A inteligência artificial dos inimigos é fantástica. Tanto jogando com a Myra quanto com o Aron, você irá se surpreender. Demore muito tempo atrás de um inimigo, sem matá-lo, e ele se virará. Caminhe rapidamente, e os inimigos ouvirão seus passos.
Existe um indicador chamado “awareness”, o qual vai sendo preenchido ou “esvaziado” conforme os inimigos sentem ou não sua presença. Caso ele seja totalmente preenchido, o alarme é soado e todos os guardas saem em sua busca.

Os soldados inimigos não esperam. Eles correm atrás de você, e atiram sem dó alguma. Você deve ter muita atenção ao subir escadas, por exemplo, pois pode ocorrer de não existir possibilidade de cobertura e o topo da escada estar cheio de soldados. Existem missões que parecem verdadeiramente impossíveis, e onde você, talvez, morra uma dezena de vezes. Trata-se, é claro, de uma questão de “pegar o jeito”. Existe uma fase onde a Myra deve desativar alguns alarmes para que o Aron então entre em ação. (aliás, este constante trabalho em conjunto entre os dois é sempre interessante, e enriquece o gameplay de forma fantástica).

O terminal para a desativação, entretanto, se encontra em uma cabana rodeada de guardas. A estratégia é utilizar o cloak mode, matar guardas através da injeção de Nanite, ir se escondendo de um ponto a outro do cenário, e ir matando os soldados que guardam o terminal à distância, através do Nanobolt. Vale ressaltar que morri diversas vezes, nesta fase. Mas, é como dizem: vivendo (e morrendo) e aprendendo. 🙂

Existem alguns personagens que se comunicam com os dois protagonistas, além da comunicação constante entre os dois: Victor Spencer e Gabriel Lawson. Além disso, você também entrará em contato com alguns personagens pertencentes aos países que visitará. Chefes de milícias locais, por exemplo. A riqueza de detalhes de Shadow Harvest: Phantom Ops em relação ao enredo é bem grande, o que ajuda bastante na imersão.

Existem alguns problemas em relação à parte sonora do game, também. Não em relação à trilha sonora: esta é muito bonita e totalmente de acordo com o estilo do jogo. Mas durante alguns diálogos, as vozes dos personagens podem ser sobrepostas pelos tiros de forma tremendamente estranha, mesmo com os tiroteios acontecendo à distância. Algumas destas “sobreposições” também ocorrem durante alguns diálogos entre a Myra, o Aron e o Spencer, à bordo do navio USS Stormbringer, o qual está a 40 milhas da costa da Somália e serve como base para as operações.

Aliás, é justamente à bordo do USS Stormbringer que você descobre que os dois personagens trabalharão juntos em uma operação chamada Shadow Harvest, do grupo Phantom Ops (daí o nome do jogo). Se você acha que estou brincando quando falo a respeito da dificuldade do game, vale ressaltar uma das missões (que contém cenas bem “bacanas”, aliás 🙂 ), onde a Myra deve “plantar” um transmissor GPS no corpo do ditador Kimosein.

Personagens misteriosos que utilizam nomes em código, como por exemplo Excalibur e Cerberus, também fazem parte da trama deste game que, em minha opinião, deve ser jogado por todos os gamers que apreciam um bom FPS com jogabilidade quase que totalmente stealth. Claro, o Aron pode sair arrebentando com tudo, mas é sempre melhor ir com cautela, mesmo jogando com ele, e ir “comendo pelas beiradas”.

Um game como este, ambientado em locais como a Somália, por exemplo, não poderia deixar de contar com bons efeitos em relação à fumaça. E a fumaça é bem convincente, em Shadow Harvest. Em determinados momentos, ela chega a ofuscar sua visão, o que pode ser um tanto quanto perigoso, dependendo de “onde” e com “quem” você está. Espero, entretanto, que a Black Lion reveja algumas questões em relação aos gráficos do game, conforme mencionei no primeiro parágrafo deste review. Acredito, também, que os personagens poderiam ser mais detalhados, principalmente no tocante aos seus rostos. Suas faces não demonstram expressão alguma, por exemplo.

Isto, entretanto, não retira a experiência fantástica de se jogar um game onde qualquer movimento em falso pode pôr tudo a perder. Em determinadas missões, você não pode sequer ser visto. Deixe-se ser visualizado por um inimigo e é fim de jogo na hora. Você deve, então, reiniciar a missão. Cada missão possui um objetivo específico, e vale lembrar também que a Myra, personagem que, em minha opinião, é a mais interessante do game, também possui “habilidades hackers”.

Em determinado momento do gameplay, você se deparará com robôs gigantes, similares a mechs, chamados ATBW’s.  Você controlará os mesmos em dois momentos distintos durante o jogo. A animação dos mesmos não é lá aquelas coisas, mas é possível se divertir bastante com a destruição provocada.

Vale lembrar que você somente pode matar os chefões com a aprovação do “pessoal lá de cima”. Obtida esta aprovação, é dedo no gatilho e rapidez nos reflexos, pois os inimigos percebem quando algo de errado está acontecendo. Um dos tais inimigos, aliás, um russo chamado Vlatkonov, é quem acaba fornecendo os meios para a grande surpresa final de Shadow Harvest: Phantom Ops.

O lado stealth deste game é fantástico. Digamos que 70% da ação deve ocorrer na surdina, sem que os inimigos saibam que você está ali.  Você deve ser uma sombra. Você deve andar com cautela. Você deve mensurar meticulosamente todas as possíveis consequências de qualquer ação que porventura vier a tomar. Mesmo a Myra, com o seu “cloak mode” ativo, pode ser detectada: basta esbarrar em algum soldado, em algum móvel, ou fazer barulho ao andar.

O final de Shadow Harvest: Phantom Ops é extremamente impactante. Confesso que me surpreendi. Não esperava “aquele acontecimento”. Jamais! E tal acontecimento talvez signifique que haverá uma sequência para o jogo, algo que eu gostaria muito de ver. Muito mesmo.

Conclusão

Se você aprecia muita ação stealth e um FPS verdadeiramente desafiador, Shadow Harvest: Phantom Ops pode ser o game que falta em sua coleção. Suas falhas gráficas não conseguem sobrepujar seu enredo cativante, a imersão que ele provoca e o desejo de superar cada nível mesmo que, para isto, você tenha de morrer inúmeras vezes. Trata-se de um título que representa um sopro de ar fresco no gênero FPS.

Ficha técnica

Título: Shadow Harvest: Phantom Ops
Gênero: Ação / FPS
Desenvolvedora: Black Lion Studios
Distribuidora: Viva Media
Data de lançamento: 15 de Abril de 2011
Plataformas: PC
Versão analisada: PC

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