Sabe aquele jogo que provoca enorme tristeza quando você percebe que está se aproximando da reta final? Tristeza não por algum motivo ruim, por algum problema, por alguma falha, mas justamente pelo contrário. Porque tudo está indo muito bem. Porque tudo está muito bacana, muito divertido, muito imersivo, e você, ao perceber que tudo isto vai acabar em breve, fica, então, triste. Aconteceu isso comigo em Shadow of the Tomb Raider, jogo que encerra a trilogia de reboots (os quais contam as origens da heroína Lara Croft) de maneira magistral.

O título, desenvolvido pela divisão canadense da Eidos em parceria com a Crystal Dynamics, nos entrega uma Lara Croft evoluída em diversos sentidos, além de contar com bastante drama e com um enredo extremamente coeso e envolvente.

Shadow of the Tomb Raider

O gameplay segue o mesmo padrão dos dois títulos anteriores (Tomb Raider, de 2013, e Rise of the Tomb Raider, de 2015). Salvo uma outra adição ou diferença, não há nada com que se preocupar neste quesito, principalmente se você jogou os dois anteriores: muito rapidamente você estará controlando a senhorita Croft totalmente acostumado com os controles.

Shadow of the Tomb Raider é outra carta de amor aos fãs de Lara Croft. É uma obra digna de figurar entre um dos melhores lançamentos de 2018, um dos melhores games que tive o prazer de jogar este ano. O jogo é um must have.

Shadow of the Tomb Raider

O jogo conta com tudo aquilo já conhecido em larga escala pelos fãs da franquia: cidades perdidas, ruínas antigas, restos de antigas civilizações, tumbas, puzzles, ação, aventura, templos descomunais, Lara se pendurando e subindo em construções localizadas a alturas descomunais, e por aí vai.

Na história, Lara está em busca de uma cidade oculta conhecida como Paititi. Após um início traumático no México, quando Lara, em sua ânsia por deter a Trindade (sim, eles estão por aí novamente), acaba por dar início a uma série de eventos cataclísmicos (um tsunami chega a devastar a ilha de Cozumel, no México), nossa heroína é até mesmo repreendida duramente por Jonah, seu melhor amigo e companheiro de grandes aventuras, o qual lhe diz que nem tudo gira em torno dela. Foi duro, mas foi também uma lição que Lara aprendeu a duras penas.

Tudo aconteceu porque Lara resolveu retirar de seu descanso quase eterno uma adaga sagrada conhecida como Chave de Chak Chel. É à partir daí que tudo começa a desmoronar, e Lara se torna também parte da avassaladora catástrofe que atinge a ilha mexicana. A tal chave está ligada a uma caixa prateada, conhecida como Caixa de Ix Chel, e ambas formam um conjunto capaz de recriar o mundo conforme a vontade de quem dominar seu poder. Não faltam também referências às culturas Maia e Inca, vale destacar.

Shadow of the Tomb Raider

Obviamente, a Trindade está em busca de tais artefatos, e sob as ordens de um arqueólogo conhecido como Dr. Dominguez, eles almejam justamente remodelar o mundo a seu bel prazer, o que destoa totalmente, obviamente, dos objetivos sempre nobres da protagonista. A Trindade, que já causou tanto mal a Lara e a sua família, é agora neste título combatida com enorme raiva, com grande agressividade, por parte da protagonista.

Shadow of the Tomb Raider

Lara então vai até a Amazônia peruana, e lá acaba por encontrar a lindíssima Cidade Oculta Inca de Paititi, local onde grande parte da aventura acontece. Isto dito, vale dizer que Paititi é extremamente viva e bela, repleta de nativos, e que possui dois grupos que brigam entre si, cada um deles com objetivos diametralmente opostos em relação à Caixa de Ix Chel e à Chave de Chak Chel.

Liderado por Unuratu, rainha cujo trono foi usurpado por alguém conhecido como Amaru (o qual é de suma importância na trama), existe um grupo de rebeldes que visa restabelecer a ordem na cidade e acabar com a opressão de Amaru e de seu Culto, os quais causam mal a grande parte da população e inspiram medo no coração dos inocentes.

A saga de Lara em busca de ambos os artefatos é cheia de reviravoltas, de drama, de ação e de momentos de reflexão, quando podemos observar também o belíssimo trabalho de animação facial realizado pelos desenvolvedores. Lara Croft parece um ser vivo, tão realísticas são suas expressões, tão fortemente ela consegue transmitir suas emoções mesmo sem dizer uma palavra sequer. Fica também o destaque para a atuação sensacional de Camilla Luddington na voz da personagem principal, nunca é demais dizer: seu sotaque britânico, sua bela voz, ah, nunca é demais ouvi-la.

Shadow of the Tomb Raider

Lara e Jonah caem, com seu avião, bem no meio da Amazônia peruana, e ali tem início uma das aventuras mais incríveis dos últimos tempos. A selva, aliás, foi recriada com altíssimo nível de detalhes: a vegetação é viva e verdejante, a lama, que também pode ser utilizada como camuflagem por Lara, possui um aspecto extremamente “gosmento” e sujo, quase sempre, e em alguns momentos Lara chega a caminhar com lama até os joelhos, momentos durante os quais é sensacional observar seus pés afundando no elemento e dificultando seu andar, enquanto observamos o rastro que vai ficando para trás.

A floresta Amazônica é realmente fantástica, neste jogo, e você poderá perder um bom tempo só observando os arredores, as árvores gigantescas, os cipós que podem ser utilizados para que a protagonista suba nas árvores, os bandos de pássaros inquietos com nossa passagem, o sol que quase nunca beija o chão, impedido pelas copas cerradas das árvores ancestrais.

A cacofonia da selva e seus inúmeros animais também é fantástica. Você se sente realmente imerso em um universo à parte, em uma floresta cheia de perigos e de morte, úmida, ancestral, lindíssima. O trabalho de som aqui foi realmente de primeiríssima qualidade, e se você jogar com fones de ouvidos será capaz de notar este detalhe com ainda mais força (recomendo fortemente).

Shadow of the Tomb Raider

Artefatos e velhos templos e construções também podem ser encontrados em meio à Amazônia, e é sempre muito bacana interagir com tudo isto. Shadow of the Tomb Raider também conta com muitas partes aquáticas, o que é algo muitíssimo bem vindo. Agora, Lara Croft tem de mergulhar e se movimentar em espaços submersos com muito mais frequência que em Rise of the Tomb Raider, e em muitos momentos, a situação pode causar até mesmo mal estar em quem sofre de claustrofobia.

Shadow of the Tomb Raider

São momentos submersos em espaços apertados, em meio a rochas que parecem querer nos esmagar, em corredores inundados repletos de relíquias e que parecem não ter fim. São momentos em que podemos também nos deparar com grandes perigos além da falta de oxigênio, tais como, por exemplo, piranhas e moreias. Grande adição, esta. Grande sacada dos desenvolvedores, valendo também a pena lembrar que a ação furtiva pode se fazer presente até mesmo embaixo d’água, enquanto nos escondemos das criaturas marinhas mortais em meio à vegetação.

Aliás, por falar em novidades, vale lembrar que agora existe muito mais espaço para ação furtiva. Lara pode se cobrir de lama e assim se manter invisível, durante a noite, dos inimigos que utilizam óculos de visão noturna. Ela também pode, agora, se esconder em vegetação grudada a muros, e à partir daí assassinar inimigos de formas realmente brutais.

Shadow of the Tomb Raider

Lara Croft em Shadow of the Tomb Raider, por falar nisso, está verdadeiramente brutal. Ela se transformou numa máquina assassina, que não demonstra remorso ao matar inimigos em nenhum momento, bem diferente daquela mulher amedrontada e cheia de dedos do reboot de 2013. Lara agora enfia facas em gargantas e pescoços, abate inimigos indefesos quando a sede de vingança cresce dentro dela, e não hesita em puxar o gatilho em nenhum momento.

Shadow of the Tomb Raider

Neste novo jogo da franquia, temos também a introdução de novidades muito bacanas no que diz respeito ao gameplay. Lara agora pode criar e utilizar flechas que deixam os inimigos malucos e fazem com que eles se ataquem, uns aos outros.

Ela também pode disparar flechas com cordas para matar e pendurar um inimigo (similar ao que o Batman faz – sem matar – na série Arkham), ela pode criar e também utilizar uma série de misturas herbáceas que fornecem diversos tipos de vantagens, como por exemplo uma que destaca inimigos, plantas utilizáveis/coletáveis e animais, e misturas que exibem a localização exata dos corações de animais grandes, para que a heroína tenha menos trabalho na hora de matá-los (visão de Illipa).

Há também muito espaço para exploração, e o jogo em si parece dar mais ênfase a esta parte, ao invés do foco em matanças. Lara pode matar, é claro, mas enfrentar inimigos em campo aberto se tornou bem mais difícil, sem mencionar o fato de que a ação furtiva é sempre o modo mais divertido de abordar um grande número de oponentes.

Paititi, por sua vez, é repleta de segredos e de coisas para fazermos. É possível correr em busca de segredos e também conversar com diversos habitantes a fim de obter missões secundárias, as quais são também divertidíssimas e agregam bastante à história como um todo.

Shadow of the Tomb Raider

Shadow of the Tomb Raider é um daqueles games que vai ganhando força conforme avançamos. A cada minuto jogado, você se identifica mais e mais com a protagonista e com Jonah, o qual agora marca presença de maneira mais forte e está sempre pronto a ajudar Lara, seja com conselhos ou de forma mais direta.

SOTTR é um daqueles jogos que você começa a jogar já bastante empolgado, pois a ação, o mistério e a imersão começam a atuar logo no início, e vai percebendo todos estes elementos aumentando conforme joga, até chegar ao clímax com um final que, sinceramente, é magnífico, com a atuação inclusive de antigas e ancestrais forças de um passado distante, forças estas, aliás, que mudam de lado, passando a atuar do lado da personagem principal tão logo algumas explicações são dadas.

Shadow of the Tomb Raider

O jogo não tem medo de brincar com o sobrenatural. Ele não deixa o jogador na mão, também: sempre sabemos o que temos de fazer, por mais difícil que pareça a situação à nossa frente (a dificuldade, ah sim, esta pode ser uma pedra no sapato – mas é possível aumentar ou reduzir seu nível à qualquer momento, fique tranquilo).

Os puzzles também estão presentes. Temos mais puzzles que em Tomb Raider, porém menos que em Rise. Eles são também um tanto quanto menos complexos que no título anterior da trilogia, mas isto não tira o charme e a diversão da aventura, até mesmo porque todos eles estão inseridos em momentos e contextos específicos, tudo fazendo parte de uma linha narrativa que não decepciona em nenhum momento.

Shadow of the Tomb Raider

Os gráficos de Shadow of the Tomb Raider representam um dos pontos altos do game, vale ressaltar. Eles estão simplesmente lindíssimos, tirando algumas texturas de folhagens que poderiam ter recebido um maior cuidado. O mesmo posso dizer da lama: ela passa, algumas vezes, um aspecto meio “plástico” que é bastante estranho.

Além disso, a animação facial de Lara, algo que já elogiei diversas vezes, inclusive neste review mesmo, em alguns momentos possui algumas falhas, principalmente fora das cutscenes. Parece, nestes momentos, que estamos visualizando uma boneca de cera, inexpressiva, sem vida. Mas isto acontece em poucos momentos, pode ficar tranquilo.

Aliás, por falar em cutscenes, também temos aqui em SOTTR aquilo que chamei em minha análise de Rise of the Tomb Raider de “cutscenes jogáveis”. São momentos repletos de ação, durante os quais o jogador, seguindo uma espécie de script, deve controlar Lara através de espécies de corredores fixos enquanto ela pula, se agacha, desliza, se agarra a beiradas em pontos íngremes, corre, se desvia de tiros e flechas, cai, quase despenca de alturas inimagináveis, etc. São cenas, momentos, sessões de gameplay, verdadeiramente inesquecíveis, tudo embalado por uma trilha sonora também imperdível.

O game não deixa a peteca cair em nenhum momento. Somos sempre incentivados a ir adiante. A buscar o próximo segredo. A explorar o próximo templo. A vasculhar a próxima ruína. A narrativa é um ponto fortíssimo em Shadow of the Tomb Raider, e se juntarmos a isso uma protagonista forte e determinada, temos então a receita para um jogo que deixará saudades (sem falar nos belíssimos gráficos).

Você pode evoluir Lara Croft através de pontos de experiência ganhos durante o gameplay em uma árvore de habilidades dividida em 3 seções distintas: “buscadora”, “guerreira” e “coletora”. É possível, por exemplo, adquirir habilidades que aumentarão a experiência de Lara durante caçadas a animais selvagens, bem como é possível focar mais ou menos em cada uma das 3 seções. O jogador decide. Você decide, dependendo de seu estilo de jogo, de sua experiência, de seu gosto pessoal.

Vale também a pena destacar que existem algumas habilidades não adquiríveis: estas devem ser obtidas através de exploração, através de tumbas, de cavernas, através de diversas atividades especiais, as quais não são poucas.

Lara continua uma mulher extremamente humana. Ela sofre, chora, fica ressentida, sente medo (além de muita raiva, em vários momentos), e ainda pode morrer de maneiras verdadeiramente horríveis.  Esta nova Lara Croft da trilogia é um dos personagens mais profundos e bem construídos com os quais já tive o prazer de lidar.

É impossível permanecer incólume frente à sua força, à sua determinação, à sua abnegação, à sua fortíssima amizade por Jonah. É impossível não nos identificarmos com ela, não sofrermos com ela, não nos ressentirmos quando ela passa por algum momento difícil (e acredite, estes não são poucos).

Shadow of the Tomb Raider

Existem alguns probleminhas, como já era de se esperar. Um deles está ligado a um recurso introduzido para deixar a experiência mais imersiva, digamos. Um recurso, entretanto, que acabou não funcionando muito bem. Ativando o recurso “vozes imersivas”, teremos os nativos falando em seus idiomas originais. Mas Lara sempre responderá em inglês (ou em português), enquanto os nativos continuarão respondendo em seus idiomas de origem. Fica um tanto quanto estranha, esta experiência, tanto é que desativei o recurso tão logo me deparei com esta esquisita “tradução automática”. Poderiam muito bem ter feito Lara pelo menos arriscar um espanhol, por exemplo. Mas tudo bem.

A Eidos-Montréal e a Crystal Dynamics conseguiram entregar o melhor jogo desta série de reboots. Trata-se do melhor Tomb Raider dentre os 3, e digo isto sabendo de antemão que adorei o título de 2013 e também Rise of the Tomb Raider.

Shadow of the Tomb Raider

A busca de Lara Croft pelos artefatos sagrados que contêm o poder de remodelar o mundo é uma aventura e tanto. Uma daquelas que você demorará para esquecer. Sua busca pela adaga/chave e pela caixa sagrada também é algo digno de nota, uma vez que nos coloca em ambientes hostis ao extremo, repletos de armadilhas e de belezas prontas para serem descobertas e apreciadas.

Os visuais do jogo são belíssimos. A floresta Amazônica é retratada em todo o seu esplendor. Lara Croft está mais viva do que nunca, e o que eu mais quero neste momento é retornar ao jogo a fim de completar tarefas e tumbas que deixei para trás, intocadas.

Jogue, se ainda não jogou. O quanto antes. Mas jogue todos os três pertencentes à trilogia, na sequência.

Ficha técnica

Título: Shadow of the Tomb Raider

Gênero: aventura, ação

Desenvolvedora: Eidos-Montréal, Crystal Dynamics

Publisher: Square Enix

Data de lançamento: 14 de Setembro de 2018

Plataformas: PC, PlayStation 4, Xbox One

Versão analisada: PC

Poderá gostar também

Pin It on Pinterest