(Review) Sine Mora

Logo de início gostaria de dizer que Sine Mora é um jogo maravilhoso. Fiquei extremamente entusiasmado com o jogo. A Grasshopper Manufacture e a Digital Reality conseguiram criar um shmup realmente revolucionário. Um título que não é um mero “jogo de naves”; muito pelo contrário. Sine Mora conta inclusive com uma história profunda e interessantíssima.

Em um gênero de games onde estamos acostumados com enredos rasos e que quase sempre passam despercebidos pelo jogador, Sine Mora se destaca também por oferecer ao jogador não somente uma experiência de manobras e tiros à bordo de uma nave/avião. Sine Mora é um jogo criado com alma, no qual a narrativa é parte importantíssima da experiência.

O jogo já impressiona bastante devido ao fato de que todos os diálogos foram gravados no idioma húngaro (legendas em português de Portugal também estão disponíveis); a Digital Reality é húngara, vale lembrar. Belíssimos textos que aparecem durante o gameplay, narrados por vozes femininas ou masculinas, aumentam ainda mais o encanto proporcionado pelo jogo e deixam claro que o game não é um mero shoot ‘em up. Dê uma olhada em um deles:

Passado e futuro. Estes são conceitos com uma importância reduzida para quem consegue viajar facilmente entre ambos. Mesmo assim, pode-se viver uma vida inteira sem olhar para trás ou para a frente. No final das contas, o que interessa somos nós e o presente, a nossa felicidade e conforto; é isso que tomamos em consideração. Até onde este orgulho egoísta poderá chegar? E o que será de nós sem descendentes ou anciãos com experiências e crenças para respeitarmos? Podemos ser cidadãos do mundo e defender a paz e uma comunidade interplanetária, mas os nossos antepassados derramaram sangue por bandeiras e símbolos e as suas famílias constituíam uma tribo muito próxima. Uma nação. A língua e a terra mantinham-nos juntos. Mas também isto poderá desvanecer.

Todo o universo é composto por unidades e sub-unidades. O tecido é feito de células e as células são feitas de átomos. Esta é a essência da natureza… a mesma natureza que me desdenha. Estava destinada a não ter descendência. A chama mais brilhante é aquela que queima mais depressa. E sem futuro, foi assim que decidi viver minha vida.

Este texto está relacionado a um dos personagens do game. Uma mulher que simplesmente não pode ter filhos. Sine Mora nos apresenta logo no início um momento dramático e um pai que busca vingança contra um império que ordenou a morte de seu filho devido a este ter desobedecido uma ordem que resultaria na morte de mais pessoas. Isto aconteceu durante o bombardeio à Montanha da Miragem, e a sentença de morte foi executada pelo próprio co-piloto.

O jogo gratifica o jogador constantemente, com uma jogabilidade sólida, gráficos belíssimos, cenários detalhados e variados, e textos e conversas entre os personagens que fornecem provas mais do que suficientes da profundidade de sua história. Personagens no jogo possuem a fantástica habilidade de viajar no tempo e combater o império que os oprime, e isto também faz com que a luta nunca chegue a um fim. Este é o caso do pai do piloto que morreu por desobedecer as ordens imperiais.

Vale também mencionar os Enkies, povo que passou por um doloroso e terrível processo que destruiu todos os seus órgãos sensoriais. A história de Sine Mora não é um mero “coadjuvante”: ela é um dos elementos principais do shmup, um dos elementos que o tornam único, juntamente com o elemento “tempo”.

O título conta com visão com perspectiva lateral, e o tempo urge, digamos. Diferentemente de outros jogos do gênero, aqui temos o tempo como energia vital. Cada capítulo do game é dividido em períodos que terminam com a “estabilização da massa do tempo”. Existe um timer, e ele é o que informa ao jogador “como vai a saúde de sua nave”. Se este contador chegar a zero, o jogo acaba. É game over.

Entretanto, cada inimigo destruído fornece mais tempo ao jogador, e também é possível coletar bônus de tempo durante o gameplay. Esta abordagem é extremamente interessante e diferente de tudo o que já vi, principalmente em um “jogo de naves”. Além disso, é possível manipular o tempo durante o jogo, através das cápsulas de tempo que podem ser coletadas para recarregar o sistema. Por exemplo, existe um recurso que coloca inimigos, tiros e cenários em slow motion, enquanto a nave do jogador permanece incólume.

Isto é extremamente útil quando uma miríade de tiros toma conta da tela, pois permite que as manobras sejam realizadas com muito mais calma e precisão. Entretanto, tudo isto dura pouco, e caso acabe, você deverá coletar mais cápsulas. As naves, aliás, contam com modos de tiro primário e secundário. Enquanto o primário possui munição ilimitada e pode sofrer upgrades durante cada nível, através dos respectivos itens coletáveis, o secundário é limitado, porém, sempre é extremamente valioso, principalmente durante combates com os chefes fantásticos de Sine Mora.

Os upgrades coletados durante cada nível para o armamento primário permanecem ativos até o momento em que o jogador é atingido. Neste caso, os itens são desligados da nave e começam a flutuar para longe. É possível coletá-los novamente, mas este procedimento deve ser realizado dentro de poucos segundos, pois eles irão desaparecer rapidamente. É possível realizar até 9 upgrades na arma primária.

Muita gente pode até não gostar deste tipo de coisa, e dizer que isto pode acabar com a imersão. Mas Sine Mora possui uma série de cutscenes fantásticas, as quais aparecem de tempos em tempos (um voo de reconhecimento sobre alguma torre de vigia, por exemplo) e exaltam ainda mais os belos cenários do game. Nestes momentos a nave pode até mesmo circundar o objetivo e ser visualizada em uma escala maior ainda.

As batalhas contra os chefes em  Sine Mora são fantásticas. Cada boss, no game, foi criado por Mahiro Maeda (Final Fantasy: Unlimited, etc), e é também um espetáculo à parte. Enormes, detalhadíssimos e belíssimos, representam, além de um desafio, um deleite para os olhos. Eles mudam o padrão dos ataques diversas vezes e também podem obrigar a nave do jogador a mudar de direção. Um deles, por exemplo, um fantástico trem chamado “Matouschka”, obriga a nave a inverter sua direção, passando a voar da direita para a esquerda.

Isto sem falar que os chefes devem ser destruídos aos poucos, e diversos de seus mecanismos de defesa vão se revelando aos poucos, conforme o piloto progride no combate. Não somente os chefes, mas cada inimigo possui seu próprio indicador de nível de energia, o que permite também que o jogador saiba quando ele está prestes a morrer. Além disso, de tempos em tempos também aparecem em tela itens coletáveis que multiplicam a pontuação do jogador.

Os gráficos de Sine Mora são fantásticos. Efeitos de explosão, partículas e iluminação nos deixam de queixo caído. A movimentação da câmera também contribui bastante para deixar em evidência elementos do cenário que ajudam bastante durante o espetáculo áudio-visual promovido pelo título. O primeiro chefe do jogo já deixa o jogador extremamente empolgado e abismado. Trata-se de uma espécie de polvo metálico gigantesco, chamado Kolobok.

Cada boss no jogo da Grasshopper Manufacture e da Digital Reality representa um espetáculo, além de fornecer desafios interessantíssimos devido a seu tamanho, poder de fogo e comportamento distinto. Missões durante as quais a nave deve entrar em locais apertados e, assim, a visão que o jogador tem da área de jogo muda bastante, incluindo momentos em que a nave desce e sobe por entre intrincados corredores, tornam a experiência mais rica e instigante ainda.

Este é um jogo realmente único. Ele representa uma nova abordagem a um gênero antigo e adorado por muita gente. Muito mais do que isso: Sine Mora vai além e consegue fazer com que a narrativa se torne importante em um shmup. Seu enredo deve ser apreciado com grande atenção, pois é profundo e repleto de surpresas.

Cada piloto/personagem também possui sua própria personalidade, e seus diálogos com outros personagens são sempre interessantes e revelam informações muito bacanas a respeito de suas motivações e do universo do jogo. A trilha sonora do game também é fantástica, e foi composta por Akira Yamaoka, muito conhecido devido a seu trabalho na série Silent Hill.

Fica até mesmo difícil dar uma nota a este jogo, pois ele me deixou perplexo, sinceramente. Eu não esperava por algo tão fantástico. Talvez seu único “problema” seja o fato de que muitas vezes o jogador tem de reiniciar um nível inteiro, após morrer, mesmo já tendo passado por algum checkpoint. Claro, isto é algo ínfimo quando se observa o jogo em toda a sua magnitude.

Outros modos de jogo

Conforme você vai jogando, aviões, chefes e pilotos vão sendo desbloqueados. Você pode então jogar o modo “Arcade” e escolher diversas combinações diferentes, incluindo powerups e nível de dificuldade. É possível também visualizar, antes da partida, uma espécie de mapa que exibe todas as combinações possíveis, sendo possível alterá-las à partir daí mesmo.

O modo “pontuação máxima” apresenta desafios realmente enlouquecedores, e finalmente temos um modo de jogo onde é possível enfrentar todos os chefes já desbloqueados. Aqui também é possível escolher o piloto, o avião e os powerups, e treinar então jogando contra aquele chefe, por exemplo, que te deu mais trabalho.

Conclusão

Sine Mora é um jogo revolucionário. Ele oferece ao jogador uma experiência intensa e viciante, ao mesmo tempo em que consegue tornar importantíssima a narrativa em um gênero de jogo eletrônico onde ela quase sempre é dispensável. Sine Mora é um jogo belíssimo, no qual o tempo é o elemento principal, e pode seguramente ser considerado um dos mais inovadores e interessantes shmups desta geração.

Nota

9.5

Ficha técnica

Título: Sine Mora
Gênero: shooter
Desenvolvedora: Grasshopper Manufacture / Digital Reality
Publisher: Microsoft Studios
MSRP: 1200 Microsoft Points
Data de lançamento: 21 de Março de 2012
Plataformas: Xbox 360 (XBLA)
Versão analisada: Xbox 360 (XBLA)

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8 Comments

  1. Uma pena ser só para Xbox360. :(

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    • @Rodolfo,

      Realmente, Rodolfo. Esse jogo merecia ser multiplataforma. Mas, do jeito que ele está sendo bem recebido, não duvido que daqui há um tempo ele não seja lançado para PC, PS3, etc. :)

      Reply
  2. Por tudo o que li a respeito dele aqui no site e, os vídeos que acompanhei na net, fica claro o excelente jogo que é! Me faz lembrar o saudoso enhander do PS1!

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    • @chemicalbitrate,

      Olha, é um jogo fantástico. Uma pena mesmo não ser multiplataforma. Dá gosto de jogar. Um shmup com um enredo que vale a pena ser acompanhado. Isso foi realmente “matador”. Os caras mandaram muito bem. E o jogo é bem difícil, aliás. :)

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  3. @Marcos Ótimo review! Finalmente peguei o jogo! Lembro que você me recomendou várias vezes, mas confesso que acabei não dando a devida importância ao jogo, baixei o demo na XBLA, mas ao ver que ao invés de uma nave era um design mais de avião antigo, fiquei com um certo preconceito e acabei não tendo muita paciência de jogar.

    Mas agora que o jogo foi lançado no Steam, acabei pegando numa promoção da Nuuvem, onde ele está saindo por R$ 19,99 num bundle com mais 3 jogos, incluindo Killing Flor, vale a pena (ainda dá tempo de pegar!):

    http://www.nuuvem.com.br/indie-master-pack-2

    @chemicalbitrate Realmente! Me lembrou muito o Einhander! E saber que neste jogo indie, temos colaboração de grandes nomes na trilha e design, impressiona ainda mais como um jogo indie pode ser extremamente bem feito, mesmo fora dos grandes estúdios!

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    • @FrankCastle,

      Eu te falei que o jogo era ótimo…rsrsrs :)

      E no PC, com certeza, deve estar melhor ainda, em relação aos gráficos. E aquele idioma lá, o húngaro, então? Não dá um charme a mais para o jogo?

      Cara, esse jogo é tão bacana que só jogando mesmo. Um shmup com história, e com uma ótima história! Quem diria, não?

      Esse bundle na Nuuvem está fora de série. Imperdível mesmo. Esse Einhander não é um que saiu para o primeiro Playstation? Um onde podíamos modificar as configurações da nave (existia até uma espécie de braço, se não me engano, além de podermos trocar o posicionamento do armamento)? Me lembro de um jogo assim, e acho que é o Einhander. Tipo, podíamos atirar em umas placas luminosas, de propaganda, etc. Se for esse mesmo, era um jogão. Um cenário meio futurista.

      Quanto ao Sine Mora, é muito bom. Bom saber que a Kalypso “comprou a ideia”, aliás, e ajudou a lançar para PC. Por falar nisso, a Digital Reality tem uns títulos bem bacanas. Claro, pelo menos dos recentes, o Sine Mora é o melhor. Disparado. Mas já chegou a ver, também deles, o SkyDrift e o Bang Bang Racing?

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  4. Einhander é esse aí mesmo! Aliás, o jogo é feito pela Square, curioso, não?
    Que legal, dei uma olhada nesses outros 2 que você comentou e adicionei eles aqui na wishlist do Steam :-)

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    • @FrankCastle,

      Nossa, Diego, que jogão. Me lembro até da trilha sonora. Em alguns momentos até um coro aparecia. Não me lembrava que era da Square! Caramba! Ah, pelo menos o SkyDrift, vale a pena. Bom, o outro também. Ah, os dois, vai. Gosto bastante do trabalho da Digital Reality. O SkyDrift, então, se você gosta de jogos de voo pra se divertir, mesmo, sem simulação, é o que há. :)

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