The Walking Dead Game - Ep. 3 - Long Road AheadO episódio 3 de The Walking Dead, da Telltale, consegue ser ainda mais chocante (e imperdível) que “Starved for help“. “Long Road Ahead” é um verdadeiro petardo. Um verdadeiro tapa na cara de quem ainda acredita que um point-and-click não pode oferecer grandes doses de emoção e ser tão imersivo e provocante quanto alguns FPSs e RPGs que vemos por aí (por falar nisso, “Long Road Ahead” não deixa de ter seu “momento FPS”).

Telltale Games conseguiu me surpreender mais uma vez, e é bem estranho o fato de que comecei a jogar este terceiro episódio esperando bem menos. No início não imaginava que poderia ver, ouvir, sentir e fazer tantas coisas estranhas, deploráveis e terríveis, dentro do jogo. Não esperava por um terceiro episódio de The Walking Dead, o jogo, ainda melhor que o segundo. Mas ele é.

Se em “Starved for help” fomos mergulhados no horror até a cabeça e tivemos a chance de realizar escolhas difíceis, escolhas que resultaram, talvez, na morte de outros seres humanos, em seres “não walkers”, em “Long Road Ahead” o “buraco é bem mais embaixo”. Aqui temos não só conflitos entre o grupo de Lee Everett. Temos não somente decisões que nos deixarão “pra baixo” devido a termos escolhido um personagem em detrimento de outro.

The Walking Dead Game - Ep. 3 - Long Road Ahead

Não temos somente fome, refeições que não caem bem no estômago e zumbis podres correndo atrás de nós. Neste terceiro e fantástico episódio começamos a descobrir que quase ninguém, no jogo, é confiável. Quase todos os personagens com os quais o protagonista se relaciona têm algo a esconder. Muitos tem segredos.

Neste terceiro episódio temos até mesmo uma morte estúpida (bem, pelo menos estupidamente agiu a pessoa responsável pela tal morte). Muitas vezes a resolução de um mistério ou algumas escolhas nos chocam bastante, também. E não por termos descoberto uma traição, nem tampouco devido aos efeitos de tal traição, muito menos por termos de decidir “quem vai conosco ou não”.

O choque é grande, somos a ele expostos sem proteção alguma e o horror é enorme justamente porque percebemos que o lado humano de alguns personagens está cada vez mais escondido (ou perdido). É como se alguns do grupo estivessem se tornando “pseudo-walkers”. Nem só os zumbis representam um perigo, agora. Lee Everett, Carley, Lilly, Duck, Clementine, Kenny e Ben agora estão imersos em uma realidade muito mais triste.

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A já frágil união do grupo está, agora, mais perto de se quebrar. A fome continua representando um motivo enorme para que atitudes impensáveis em uma sociedade normal sejam tomadas, e a desconfiança de que alguém no grupo trabalha “por baixo dos panos” e com interesses escusos ajuda a transformar o grupo de sobreviventes em algo bem diferente daquele que vimos em “A New Day” e até mesmo em “Starved for help”.

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“Long Road Ahead” é um rolo compressor. Ele nos deixa com a sensação de estarmos no meio de uma multidão presa em uma arena e em desespero devido a um rolo compressor gigante e desgovernado. Somos ao mesmo tempo o motorista ao volante, lutando para controlar a máquina, e possíveis vítimas alucinadas correndo de um lado para outro.

O fato de nossas escolhas serem transferidas de um capítulo a outro, e as alterações que tais escolhas provocam no desenrolar da história, pode nos deixar muitas vezes com um gosto amargo na boca. Podemos também, é claro, sentir grande alívio e felicidade, em alguns momentos, pois o kit de primeiros socorros também está em nossas mãos, além da espada afiada e impiedosa.

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O terceiro capítulo de The Walking Dead também nos surpreende por mostrar o quão cruel pode ser um ser humano quando, por exemplo, ele é afastado de sua zona de conforto pela mão alheia, à força. Quando alguém dele discorda ou vai de encontro a seus interesses. Quando a raiva, o egoísmo e a falta de perdão são utilizados como combustíveis para personalidades instáveis. E nós gostamos de tudo isto, afinal.

Uma das coisas mais bacanas em “Long Road Ahead” é justamente a lição que o jogo nos dá, deixando claro que nem sempre os finais são felizes, que nem sempre a morte pode ser evitada, que nem sempre uma segunda chance evita um final desastroso, que nem sempre as aparentes melhores ou piores escolhas fazem alguma diferença, no final.

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Um dos personagens do jogo (e não estou falando de um walker) é simplesmente condenado à morte. Acidentalmente. Pelo “destino” (?) digamos. A partir do evento que nos dá esta certeza, o terror aumenta ainda mais, e as mazelas que presenciamos não deixam de ser extremamente chocantes. E mais um acontecimento terrível acontece depois disso. Um acontecimento que coloca Lee Everett frente a frente com uma duríssima e terrível escolha.

Ali vemos o protagonista tendo de lutar contra o desejo de vingança e contra o desejo de fazer aquilo que é certo, sendo que nem uma nem outra opção, no final de tudo, vai trazer alívio. Mortes de “humanos de verdade” fazem parte e podem resultar deste doloroso processo, e o número de baixas pode aumentar, dependendo da opção que escolhemos.

Vale ressaltar que o personagem “condenado à morte acidentalmente pelo destino” foi motivo de grande discórdia no primeiro episódio, e a terrível escolha que mencionei acima tem a ver com um “parente muito próximo” de um certo personagem que, creio eu, todos os jogadores de “The Walking Dead” adoraram odiar. De qualquer forma, independentemente de qualquer coisa, podemos até mesmo “dar o troco indiretamente”, aqui. Mas nenhuma satisfação surge após a ação.

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A morte de um personagem no episódio 3 de The Walking Dead também traz consigo a morte de outro, e este outro não morre por mãos humanas ou “quase humanas”. Bem, deixando de rodeios: a morte vem por mãos humanas, sim. Tal personagem resolve dar cabo de sua própria vida. O passado do protagonista o assombra, e em “Long Road Ahead” tal passado começa a ser revelado a outros personagens. Notável também é o momento em que Lee percebe que sua vida não vale lá muita coisa nem mesmo para amigos bem próximos.

Os puzzles do jogo não são difíceis, e tenho certeza de que isto não está nos planos da Telltale. De qualquer forma, colocar um trem em movimento tendo de seguir uma espécie de manual de instruções enquanto viramos chaves, puxamos alavancas e utilizamos ferramentas é uma experiência muito bacana: a satisfação de ouvir a máquina começar a funcionar é enorme, mesmo que saibamos que apenas seguimos uma “receita de bolo”.

E Clementine, aquela garotinha fantástica que o protagonista praticamente adotou? Digamos que ela seja muito mais do que aquilo que imaginamos. Ou melhor, que ela também faça parte do grupo daqueles que guardam segredos. As sequências de ação neste terceiro episódio também estão muito bacanas: a maneira como temos de matar um walker para obter acesso a um item importante, o modo como defendemos o acampamento contra bandidos (este é o tal “momento FPS” ao qual me referi acima) e, bem, a dolorosa oportunidade que nos é oferecida para evitar que outra pessoa sofra ainda mais. Tudo isto faz parte de um jogo que é muito mais que um mero point-and-click.

The Walking Dead Game - Ep. 3 - Long Road Ahead

A tristeza, o medo, a raiva e o susto são facilmente perceptíveis nas faces de cada um dos “amigos” de Lee, conforme a situação, e isto torna a experiência ainda mais imersiva e cativante. Outros membros do grupo se lembram de suas palavras e de suas ações, e muitos jogadores já devem ter sido pegos em uma ou outra contradição.

The Walking Dead é um trabalho espetacular, e pelo que parece, os mortos em “Starved for help” poderão ser substituídos, pelo menos em partes, em “Around Every Corner”, o próximo episódio. Há tempos não jogava algo com tamanha carga emocional. Que me provocasse tantos sentimentos conflitantes. Que me fizesse pensar bem em cada escolha, em possíveis variantes, nos possíveis resultados de cada uma delas.

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O final do terceiro episódio, por falar nisso, nos faz lembrar de algo que aconteceu logo no início do primeiro. É. Relembrando: quase todos no jogo têm algo a esconder. E os sustos que o título nos dá, então? Somos expostos a tantas coisas terríveis que muitas vezes enxergamos sombras e maldade em tudo. Lee, por exemplo, chega a ter um sonho. Um pesadelo, na verdade. Me assustei bastante neste momento, principalmente porque a narrativa do jogo foi construída de tal maneira a fazer com que sejamos pegos de surpresa por mais preparados que estejamos.

Ficha Técnica

Título: The Walking Dead – Episódio 3
Gênero: adventure
Desenvolvedora: Telltale Games
Publisher: Telltale Games
Plataformas: PC / Xbox 360 / Playstation 3
Versão analisada: PC

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