O episódio 4 do jogo The Walking Dead, da Telltale Games, é também espetacular. Entretanto, ao atingirmos seu final, ficamos com um gosto bem amargo na boca. Se em Starved for help fomos mergulhados com força no horror, em diversos sentidos, e tivemos a oportunidade de dividir a mesa com pessoas bem estranhas em um ambiente pra lá de esquisito, Long Road Ahead nos mostrou que Lee Everett e seu grupo não têm de se preocupar apenas com os walkers.

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Entretanto, o quarto episódio de The Walking DeadAround Every Corner, apresenta ao jogador uma mescla de emoções e situações verdadeiramente surpreendente. Seu final, falando nisso, é muito impactante. Around Every Corner não é uma “montanha russa”, pelo menos não se levarmos em consideração apenas as grandes doses de drama presentes em todos os episódios anteriores: ele vai liberando seu poder aos poucos, deixando o jogador cada vez mais curioso e imerso, ao mesmo tempo em que não o deixa se esquecer do mundo horripilante que o cerca.

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Não temos aqui a mesma quantidade de mortes do terceiro episódio da série. Mortes que em Long Road Ahead chegaram a nos provocar sentimentos conflitantes, aliás, principalmente devido ao fato de não estarmos lidando com um único inimigo em comum. Em Around Every Corner não sofremos, também, com a perda de personagens importantes. Mas a maneira como a Telltale nos apresenta um cenário extremamente desolador no quarto capítulo de The Walking Dead é simplesmente espetacular.

Ainda considero o terceiro episódio o melhor da série até agora. A forma como a fragilidade do grupo de sobreviventes foi ali exposta é maravilhosa. Porém, Around Every Corner é, também, triste. Dramático. Horripilante. Nele temos a percepção de que a viagem até Savannah pode não trazer todas as boas consequências que Kenny, Lee e os demais esperavam.

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Temos a confirmação de que The Walking Dead é um jogo cuja narrativa brinca com o jogador de diversas maneiras diferentes, lhe ofertando oportunidades cujo prazo de validade já se esgotaram e histórias secundárias que de uma hora para outra assumem o papel principal.

Os mortos vivem, ou os vivos se transformaram em mortos que andam. Independentemente do ponto de vista, aqui, a verdade é uma só: o único caminho para Lee e seu grupo não conta com canteiros floridos nem tampouco com iluminação, mesmo que pouca. Muito pelo contrário: ele está repleto de dor, perdas, incertezas, morte e, sim, amizades e fortes laços que podem deixar de fazer sentido tão logo vontades sejam contrariadas e/ou interesses entrem em conflito.

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O quarto episódio de The Walking Dead não conta com muita ação. Digamos que ele se foca mais na exploração da união (e também da falta dela) e do relacionamento do/entre o grupo de sobreviventes (internamente e com outros grupos), além de dar a forte impressão de ser uma espécie de transição entre a história forte e chocante do episódio anterior e, pelo que tudo indica, um desfecho que será no mínimo perturbador, em No Time Left.

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Um período de “descanso”, digamos? Um descanso perturbado constantemente por pesadelos angustiantes, é claro. A chegada de  Lee, Chuck, Kenny, Clementine, Ben, Christa e Omid a Savannah também conta com momentos em que fica clara a fragilidade do grupo, mesmo que até este momento esta fragilidade seja exibida ao jogador através do medo de determinados personagens, medo este que seria capaz de trazer consequências terríveis a todos.

A forma como tudo isto é resolvido, a maneira como a ajuda vem de onde menos se espera, aliás, faz com que sintamos uma incerteza ainda maior. Não existe uma “receita de bolo” em The Walking Dead: o jogo brinca com nossas emoções, com nossa indecisão, e inclusive nos pressiona. Diversas decisões importantíssimas têm de ser tomadas dentro de um tempo pré-determinado, o que pode resultar em acontecimentos inesperados que podem até mesmo resultar na morte de uns e na sobrevivência de outros.

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Lee tem mais uma vez a oportunidade de decidir entre a vida e a morte. Não a sua, mas a de outrem. Como sempre, suas decisões alteram o rumo do jogo, e é possível que o seu final de Around Every Corner seja solitário ao extremo. Uma das melhores sacadas da Telltale, por falar nisso, foi o “Who came with you“.

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Além daquele comparativo exibido ao final de cada episódio, o qual nos apresenta dados a respeito de nossa atuação nos momentos cruciais, agora temos o “Who came with you”, e podemos ter também uma ideia de nossa “popularidade”, digamos. Dependendo de nossas escolhas, de quem salvamos ou não, de nossas respostas, etc, chegamos ao final do quarto capítulo de The Walking Dead com bem poucas perspectivas de sucesso. Temos um encargo muito pesado, e o número de pessoas que nos acompanhará daí em diante pode variar bastante.

Este relatório também exibe o percentual de jogadores que foi mais ou menos penalizado, e ao conversarmos com o grupo e percebermos que fulano virá conosco, que sicrano não virá, e assim por diante, temos mais uma mostra do quão frágeis são os laços que unem Lee a Kenny, a Christa, etc.

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De nada adianta termos salvo a vida, ajudado de alguma forma ou até mesmo termos oferecido apoio a determinados personagens nos episódios anteriores se em Around Every Corner fizemos algo que os magoou ou os contrariou profundamente. Como na vida real, tudo pode mudar muito rapidamente, nada é certo, nada é para sempre.

Resultados de alguma mentira que, de repente, nem lembrávamos mais, que foi por nós anteriormente vista como algo bobo, podem, nestes fatídicos últimos momentos, nos subjugarem firmemente e nos causarem um grande estrago. Não é à toa que o jogo sempre alerta que “tal personagem notou seu apoio”, que “você decidiu dizer a verdade a algum outro”, etc.

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Lee muitas vezes pode até mesmo tentar proteger membros do grupo que estão em débito em relação a outros, e dependendo das opções que escolhemos durante os diálogos, tal proteção pode representar um risco enorme à segurança do protagonista. Ou, no mínimo, pode prejudicar bastante a forma como ele será enxergado pelos outros membros do grupo, amanhã ou depois.

Mais uma vez, estamos falando de um jogo no qual, de certa maneira, não podemos confiar totalmente em ninguém. Que dizer, então, de Crawford e de suas duras regras? Regras que, apesar de visarem proteger o grupo, os transformou também em monstros? Seres que também eram capazes de atos cruéis contra sua própria espécie?

O momento em que Kenny se lembra do passado através de algo terrível mas ao mesmo tempo digno de pena que presencia  é um dos mais marcantes do jogo, principalmente porque, mais uma vez, a escolha entre “fazer o que é certo ou não” e de como fazer (ou relegar a outros) está nas mãos de seu amigo, Lee.

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Os walkers não poupam ninguém, assim como ninguém é poupado pela morte. Aí reside uma das grandes tragédias exibidas pelo título, e também um dos grandes medos de todos os personagens. Este também é um dos motivos que fizeram com que nem mesmo regras rígidas e homens severos conseguissem se manter à salvo daquilo que mais temiam.

A ação no quarto episódio de The Walking Dead também marca presença, é claro. Temos os tais “momentos FPS”, e desta vez somos capazes de empunhar até mesmo uma pistola, em primeira pessoa, mirar em diferentes alvos, à nossa escolha, e apertar o gatilho. Mas não é a ação e/ou os tiros que definem a grandiosidade deste capítulo. O que o torna sensacional é justamente a maneira como percebemos, de uma forma nítida e terrível, que somos frágeis, naquele universo.

Sim, tudo vai mal. As esperanças são poucas e Lee e seu grupo caminham à beira do abismo. Escolher entre mentir ou dizer a verdade faz parte até mesmo dos últimos minutos do jogo, e quem pode dizer o que é certo ou errado quando já está mais do que claro que tudo é frágil, que todos podem mudar e que a cola que uma vez uniu o grupo cada vez mais se enfraquece?

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Around Every Corner está repleto de momentos em que o protagonista fica pensativo. O momento em que ele enterra uma velha carcaça é extremamente simbólico, principalmente porque o comando do “enterro” está nas mãos do jogador. Nós temos de clicar para que a pá enferrujada despeje mais terra sobre o pedaço de carne apodrecida que jaz na cova recém aberta, e cada clique representa, de certa maneira, uma punhalada no coração de Lee, um flash relembrando-o de que em breve um buraco semelhante àquele poderá ser não somente o seu destino, mas também o destino de todos os outros.

É tragicômico, aliás, que um dos membros mais problemáticos do grupo seja capaz de realizar mais ações infelizes e, por outro lado, possa também ser encarado como uma última alternativa. Mas The Walking Dead, este “point-and-click turbinado” da Telltale, é um jogo maduro. Um petardo.

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Uma obra prima. Um título que não nos deixa na mão em momento algum, e que mantém nosso nível de tensão elevadíssimo, estejamos em meio aos walkers ou não.O destino de Lee e seu grupo ainda não está definido. Mas podemos acreditar, com as informações que temos até agora, que muitas dores, horrores e surpresas ainda estão por vir. Que No Time Left chegue logo, é o que eu espero.

Ficha Técnica

Título: The Walking Dead – Episódio 4
Gênero: adventure
Desenvolvedora: Telltale Games
Publisher: Telltale Games
Plataformas: PC / Xbox 360 / Playstation 3
Versão analisada: PC

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