(Review) The Vanishing of Ethan Carter

O primeiro jogo do estúdio polonês The Astronauts foi lançado há poucos dias atrás. O estúdio, aliás, foi fundado por Adrian Chmielarz, Andrzej Poznanski e Michal Kosieradzki, os fundadores da People Can Fly. Para quem não se lembra, trata-se da empresa que criou o ótimo Bulletstorm, dentre outros.

É interessante destacar logo no início deste review de The Vanishing of Ethan Carter quem são os responsáveis pelo jogo, talvez até mesmo para deixar claro e enfatizar que ele não é nem um pouco parecido com Bulletstorm ou com outros títulos nos quais a antiga empresa de Adrian Chmielar trabalhou, como Painkiller, por exemplo.

The Vanishing of Ethan Carter

Muito pelo contrário. The Vanishing of Ethan Carter é um jogo “calmo”, no sentido de que nele não nos envolvemos em tiroteios, em pancadaria, em nenhum tipo de ação frenética. Aliás, é até mesmo difícil falarmos em “ação” quando falamos sobre este trabalho.

Trata-se de uma aventura sobrenatural, acima de tudo, e poderíamos até mesmo descrevê-lo como uma espécie de Dear Esther “mais focado” ou, quem sabe, como um “Dear Esther com objetivos”. Tais comparações talvez sejam inevitáveis, mas as semelhanças são esquecidas bem rapidamente, após poucos minutos de gameplay. The Vanishing of Ethan Carter dá grande ênfase à história, aos objetivos propostos ao jogador, aos personagens. Ele nos conta algo e nos deixa fazer parte deste algo, investigando, explorando, apreciando.

A exploração é elemento chave, aqui. Algo extremamente necessário. Mas ela é apenas uma ferramenta, até mesmo porque devemos realizar uma série de investigações cujos elementos surgem com a exploração. Paisagens fantásticas e cenários deslumbrantes, nos quais uma vegetação luxuriante nos convida a ficar mais um pouco, são constantes neste jogo, jogo este que tem como protagonista um investigador com poderes sobrenaturais chamado Paul Prospero.

Ficha técnica

Título: The Vanishing of Ethan Carter

Gênero: Aventura / Investigação / Suspense

Desenvolvedora: The Astronauts

Publisher: The Astronauts

Data de lançamento: 25 de Setembro de 2014

Plataformas: PC

Versão analisada: PC

Prospero recebeu cartas misteriosas de um garoto. Do menino que ajuda a dar nome ao jogo, Ethan Carter. Ethan desapareceu, como o próprio título do jogo deixa claro, e o investigador paranormal começa então uma verdadeira caça em busca de pistas e vestígios do que aconteceu.

The Vanishing of Ethan Carter

O começo do jogo é um pouco lento. As coisas demoram um pouco a “engrenar”, digamos, até mesmo porque existem várias novidades, ali, cuja utilização, cuja compreensão, até, não estão bem claras. Algumas mecânicas são realmente diferentes, porém muito bem criadas e implementadas, e nem estou aqui dizendo que um tutorial seja necessário (esqueça tutoriais, falando nisso).

The Vanishing of Ethan Carter

Tudo vai se encaixando, aos poucos, e esta lentidão, que pode parecer maior ou menor dependendo do jogador, pode até mesmo ajudar na imersão, conforme vamos nos embrenhando na floresta, na misteriosa Red Creek Valley, nas profundezas de minas cheias de mistérios.

A imersão que o jogo é capaz de proporcionar é bem grande, e fones de ouvido são muitíssimo bem vindos. Também não temos um HUD que possa atrapalhar, por exemplo. Na verdade, o jogo não possui HUD (e não há necessidade de um): não existe nenhum tipo de “medidor”, “de mostrador”, etc. Nenhuma informação fica saltando e nos atrapalhando.

Não vemos nem mesmo as mãos do protagonista, e até mesmo o cursor, o crosshair, ou seja lá como se chame o pequeno ponto que indica a direção para qual Prospero está olhando nos momentos em que ele deve interagir com alguma coisa, é mínimo, diáfano, quase imperceptível.

The Vanishing of Ethan Carter

O jogo parece tentar deixar o jogador à vontade dentro de seu próprio mundo, eliminando quase que totalmente itens que possam acabar com a imersão, itens “estranhos” (e isto é conseguido com maestria). Em bem poucos momentos somos expostos a tais “elementos estranhos”, e isto acontece, por exemplo, durante os encontros com elementos interativos (mas mesmo assim, a grandiosidade do que está à nossa volta, o grande clima de suspense e a fantástica trilha sonora parecem suplantar a quebra no ritmo, se podemos dizer assim).

Falando a respeito dos tais elementos interativos, muitos deles contam com um recurso bem interessante. Ao apontarmos o pequeno cursor para eles uma série de palavras começa a aparecer na tela. São sugestões, questionamentos, indicações de possíveis direções a seguir ou de instrumentos que devem ser utilizados. Em várias situações isto acaba culminando na formação de uma única palavra, um objeto, por exemplo, que deve ser utilizado para colocar determinada máquina em operação.

The Vanishing of Ethan Carter

Voltando a falar do garoto, Ethan Carter, logo fica bem claro que algo muito estranho está acontecendo no lugar. Ethan não só desapareceu, mas vestígios são encontrados pelo protagonista de que ele também foi alvo de forças misteriosas que chegaram a obter influência sobre pessoas de sua própria família.

Algo muito bacana neste jogo tem a ver justamente com o que eu disse um pouco mais acima, a respeito das novidades. Prospero é capaz de investigar cenas de crime, por exemplo, através de “flashbacks interativos”.

The Vanishing of Ethan Carter

Devemos explorar os ambientes em busca de evidências relacionadas aos acontecimentos, e assim que todas elas forem encontradas e colocadas em seus devidos lugares, é como se fizéssemos uma pequena viagem no tempo.

Ou melhor, é como se tivéssemos à nossa frente um grande palco que nos mostra o passado, com seus devidos “atores”. O trabalho ainda continua, depois disso, e ainda temos de rearranjar, em tal palco, a ordem das cenas para que a história nos seja contada, em áudio e vídeo.

Personagens são exibidos, todos estáticos, em vários locais e posições. Precisamos observar tudo com bastante atenção e determinar a ordem, ou seja, em que posição a cena “X” (por exemplo, um corpo caído) deve ser colocada (1, 2, 3, e assim por diante), para que o “filme” então seja exibido, revelando mais detalhes do enredo. Assim que acertamos a cronologia, fatos relacionados àquele acontecimento se revelam diante de nossos olhos.

The Vanishing of Ethan Carter

É interessante ressaltar que The Vanishing of Ethan Carter é um jogo que requer bastante atenção. Atenção a detalhes, deduções, e também muita, muita exploração. Jogadores mais apressados ou em busca de experiências mais rápidas, com mais ação, talvez não se sintam muito à vontade, mas também é importantíssimo lembrar que os gráficos do jogo são lindíssimos, e isto certamente pode acabar fazendo com que muitos “percam” horas observando os belos visuais.

The Vanishing of Ethan Carter

A The Astronauts está de parabéns, pois aqui os gráficos espetaculares não são apenas uma festa para os olhos. Eles são parte importantíssima do processo de contar uma história triste e repleta de mistérios sobrenaturais, cheia de personagens estranhos e referências a criaturas mais estranhas ainda.

A fantástica trilha sonora também representa uma grande força no meio disto tudo. Tons mais contemplativos dão lugar a toques mais sombrios, aterradores, por vezes, e tudo acaba se encaixando perfeitamente. Música e vídeo acabam se fundindo, capturando totalmente a atenção do jogador, e no meio do espetáculo audiovisual a narrativa assume ares ainda mais sobrenaturais e surpreendentes.

The Vanishing of Ethan Carter

A certeza de que Ethan Carter se encontra em perigo vai ficando mais forte a cada minuto, e apesar de diversas referências a magia, a uma criatura estranha e a outras coisas tão ou mais estranhas, The Vanishing of Ethan Carter acaba não sendo um jogo de terror.

The Vanishing of Ethan Carter

O suspense acompanha o jogador a cada passo, a cada nova porta aberta, praticamente em todos os momentos, inclusive enquanto estamos fora de construções e passeando calmamente entre as árvores, ouvindo o canto dos pássaros. Mas não se trata de algo que nos faça dar saltos enormes da cadeira. É suspense, apenas. Mas quem dera todos os jogos assim catalogados possuíssem tamanha qualidade e atenção aos detalhes que fazem parte do gênero.

É difícil entender como os criadores de Bulletstorm deram uma guinada tão grande, apresentando um primeiro título tão diferente, tão único, tão especial. The Vanishing of Ethan Carter é, também, um jogo que não conduz o jogador pela mão.

Somos “soltos” naquele belo e afastado local sem um guia, com pouquíssimas informações, e nós somos os responsáveis por popular nosso journal totalmente, um journal, aliás, que tem de ficar em nossas mentes e não é acessível de maneira alguma no jogo, através de teclas de atalho ou menus.

The Vanishing of Ethan Carter

Talvez por isso a aventura tenha de ser encarada com calma, em doses homeopáticas. Talvez o problema do jogo seja o fato de que o espaço entre um checkpoint e outro é longo, o que acaba complicando um pouco as coisas quando desejamos encarar tudo realmente com calma.

O progresso só é salvo após as cenas que Prospero investiga e revive, acertada a cronologia. Se neste meio tempo, por qualquer razão, decidirmos parar de jogar, bem, você já sabe.

O jogo é cheio de notas escritas, notas que sempre acrescentam alguns detalhes a mais ao mistério que cerca Red Creek Valley. Detalhes que podem até mesmo passar despercebidos, se não tivermos cautela. Trata-se, realmente, de um jogo de exploração, de um grande jogo de suspense, com gráficos lindíssimos que, além de tudo, acabam funcionando como um enorme fator motivador. Sempre temos a impressão de que mais belezas imperdíveis aparecerão depois do próximo monte, após dobrarmos a próxima esquina.

The Vanishing of Ethan Carter

Conclusão

The Vanishing of Ethan Carter é um espetacular jogo de exploração e investigação. Em meio a vários acontecimentos sobrenaturais, a busca por um garoto desaparecido é iniciada por um detetive dotado de poderes paranormais.

Gráficos lindíssimos e paisagens de tirar o fôlego, além de música e efeitos sonoros de primeira, são ferramentas que ajudam bastante na imersão. O mistério pede para ser desvendado, e a desenvolvedora não segurou a mão, criando um dos títulos mais interessantes, únicos e caprichados dos últimos tempos. Curto, sim, mas intenso. Imperdível. Impecável.

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6 Comments

  1. Interessante: você meio que comparou ele com “Dear Esther”, jogo que contemplei (ou joguei, que seja) , mas pela descrição e pelas screens ele me parece mais com MYST e outros similares, que têm cenários belíssimos e resolução de puzzles.
    Quando você diz -” Aliás, o jogo carece de um HUD: não existe nenhum tipo de “medidor”, “de mostrador”, etc” – dá a entender pelo carece = precisa, necessita, que você sente falta do HUD , mas no final você diz – “Nenhuma informação fica saltando e nos atrapalhando.” Não entendi.

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    • Olá Marcos! 🙂

      Puxa, você me deixou com dúvida…rsrs Usei a palavra “carece” no sentido de “Não possuir, não ter” (até dei uma olhada no Michaelis)…rs Não no sentido de “sentir falta” (uma das utilizações possíveis, também). Mas, como o Português é uma lingua bem complicada, agora fiquei realmente na dúvida.

      Sobre o jogo, a primeira impressão que me veio logo de cara, aliás, assim que iniciei, foi Dear Esther. Mas você logo percebe que é algo bem diferente. E, bem pensado, dá pra lembrar de MYST também (puxa, ainda me lembro de “cair” naquela ilha pela primeira vez, daquele observatório logo à direita, daquela música sensacional, naquele momento). O Ethan Carter tem puzzles, também, e esse esquema de “ajeitar a cronologia” é um negócio bem bolado, viu.

      Agora, voltando ao “carecer” (ainda estou encafifado com isso…rs), e o HUD: então, eu achei que isso ficou perfeito. Pra você ter uma ideia, o jogo não tem nem conquistas, e eu li que isso foi proposital, pra não ter “coisas pulando” a toda hora e atrapalhando a imersão.

      Você pretende comprá-lo?

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      • Não Marcos, apesar de parecer MUITO interessante , sei que irei deixá-lo de lado assim que a exploração começar a ficar chata, pois este tipo de jogo já não me agrada como antes. Em Dear Esther só fui até o final por saber que era curto – não o considero um jogo mas podemos encará-lo como uma “poesia interativa”.Com o tempo definitivamente o meu gosto mudou no que diz respeito á jogos e um dos gêneros que deixei de lado foram os adventures.
        Quanto ao “carece” , sabendo agora que sua intenção era destacar que o HUD não faz falta , tenho certeza que a palavra está empregada da forma errada. ” O Brasil carece de um bom presidente” = ” O Brasil precisa de um bom presidente” . “O Brasil não carece da ajuda de Cuba” = ” O Brasil não precisa da ajuda de Cuba” . Se alguém “carece” de algo realmente “não possui” algo , mas a palavra não pode ser imediatamente trocada pela “não possui” , principalmente nessa frase que você criou.A concordância certa ficaria assim: ” Joaquim carece de roupas novas” ; ” Joaquim não possui roupas novas” . Essa seria a frase em que o significado que você sugeriu encaixaria.Enfim, não sou professor de português e não sou bom nessa matéria , o conhecimento que tenho vem dos vários anos de leitura , portanto recomendo uma terceira opinião , de preferência de um especialista. Espero ter ajudado.

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        • Olá Marcos,

          Valeu pelas dicas e pela atenção ao texto. Obrigado pela leitura. Dei uma acertada, pois acabei também achando que não ficou bom e que poderia levar o pessoal a fazer confusão. Com certeza ajudou. 🙂

          Então, eu te entendo. Deixei muito disso de lado, também. Aliás, ultimamente, fora alguns títulos, estou dando preferência a jogos mais descompromissados. Talvez um reflexo do stress do dia a dia, vai saber.

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          • Obrigado pelo crédito, Marcos.Ficou bem melhor o texto. Quanto aos jogos infelizmente meu gosto mudou.Alguns mudam por conta da correria do dia-a-dia e consequente falta de tempo, mas eu felizmente consigo separar diariamente algumas horas para a jogatina , nem que seja no início da madrugada.Não consigo uma explicação razoável para a mudança de gosto.Mas uma coisa é certa: a interação dos multiplayer on line é o que me fascina atualmente. E por conta disso minha biblioteca do Steam está estagnada.Estou literalmente comprando ou ganhando jogos apenas para colecioná-los.

          • Eu quem agradeço, Marcos. Obrigado pela atenção ao texto, por ler, e pela gentileza.

            Então, eu também passei por isso que você mencionou. Aliás, passei e vivo passando…hehehe É estranho, não sei dizer, agora pensando bem, se é algo relacionado só ao stress, à falta de tempo. Em determinadas épocas, só consigo jogar simuladores, com ênfase no Euro Truck Simulator 2. Costumo dizer que aquele jogo é meu “coringa” no mundo dos jogos…rs

            A última empogação com multiplayer que tive foi com o Titanfall. Parei de jogar por uns tempos, mas pretendo voltar, vamos ver. Bem, a respeito de biblioteca do Steam, acho melhor nem falar nada, porque minha fila dá vergonha…rs 🙂

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