(Review) The Wolf Among Us – Ep. 1: Faith

Confesso que quando ouvi falar a respeito de The Wolf Among Us pela primeira vez fiquei com bastante medo. Me parecia que após o fantástico The Walking Dead seria muito difícil me surpreender com algo vindo da Telltale.

Em minha cabeça, era como se aquele espetacular adventure representasse o ápice criativo da empresa, e de maneira um tanto quanto estranha, passei a acreditar que nenhum outro jogo lançado por ela fosse capaz de me surpreender, emocionar e cativar com tanta força. Ledo engano, felizmente.

Não estou dizendo que o mais novo jogo da criadora de Monkey Island seja tão espetacular quanto o GOTY de 2012. Mas, convenhamos: entre o péssimo e o espetacular podemos enumerar várias classificações, e também existe muita relatividade. E se The Wolf Among Us não é algo tão fenomenal quanto The Walking Dead, ele ainda assim consegue ser muito, muito bom (e note que por enquanto temos só o primeiro capítulo em mãos, Faith).

The Wolf Among Us

Tudo é bastante promissor. Mais uma vez temos um adventure vendido em capítulos. Serão 5, no total, e o jogo é baseado na HQ Fables (ou Fábulas), do selo Vertigo. Se você não conhece nada da série, como eu, pode ficar tranquilo, pois o jogo exibe acontecimentos anteriores aos dos quadrinhos (e eu posso também antecipar que após jogar você sentirá uma vontade enorme de conhecer aquele universo).

Ficha técnica

Título: The Wolf Among Us – Episódio 1 – Faith

Gênero: adventure

Desenvolvedora: Telltale Games

Publisher: Telltale Games

Data de lançamento: 11 de Outubro de 2013

Plataformas: PC / Xbox 360 / Playstation 3

Versão analisada: PC

A história parte de uma premissa que pode até parecer boba. Como personagens temos criaturas de fábulas. Espere por seres como Os Três Porquinhos, o Sapo, de O Vento nos Salgueiros, A Bela e a Fera, Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve (e, sim, há também a presença do espelho mágico) e o Lobo Mau.

The Wolf Among Us

Na verdade, o Lobo Mau é protagonista e xerife da comunidade de Fabletown, a qual serve como refúgio para todas as criaturas acima citadas. Esta tal Fabletown fica na América do Norte, aliás, e os seres que aí vivem permanecem escondidos, ou melhor, camuflados.

The Wolf Among Us

Isto pode ser dito daqueles que não possuem uma forma humana nas histórias infantis, claro. Nestes casos, o personagem deve utilizar um encantamento chamado glamour para assumir forma humana. O problema é que este tal glamour deve ser comprado, e é algo bastante caro. Os que não o utilizam e, consequentemente, continuam em suas formas originais, não podem transitar livremente, é claro. É bem fácil imaginarmos os problemas que este sistema pode trazer aos personagens, criando uma grande distinção entre os que podem por ele pagar e aqueles que não podem.

Justamente esta necessidade de adequação aos padrões humanos é o que ajuda a tornar a história de The Wolf Among Us tão interessante e rica, repleta de momentos que podem ser comparados com muito daquilo que vemos no mundo real e até mesmo com situações que funcionam como críticas àquilo que temos em nosso dia a dia.

The Wolf Among Us

O Lobo Mau, ou melhor, o xerife Bigby Wolf, é um grande exemplo disto. Temos aqui um representante da lei, alguém que tem como missão proteger as criaturas de fábulas. Obviamente, todos os personagens lembram de seu passado nada elogiável, e isto deve ser levado em consideração porque ali, em Fabletown, ele tenta ser alguém bom.

Bigby não é, de forma alguma, o “cara mau”, mas seu passado continua assombrando as mentes dos moradores de Fabletown, velhos conhecidos seus, claro. O jogador também pode escolher entre abordar várias situações de forma delicada ou liberar a verdadeira natureza de Bigby.

E note que esta verdadeira natureza também pode ser enxergada, vista, de forma literal: por baixo da aparência normal e pacata (ok, nem tanto), existe o Lobo Mau, um monstro, até. Não sei ainda como a Telltale irá lidar com isso daqui em diante, mas em uma determinada situação no primeiro episódio é possível optarmos por uma abordagem mais direta, e por abordagem direta, aqui, entenda-se violência, sangue e um Bigby assumindo sua verdadeira forma.

The Wolf Among Us

Tudo bem que ainda não sei o efeito que as outras opções neste diálogo  provocariam; não sei se é possível evitar a transformação do xerife, nem tampouco agir com pouca ou nenhuma violência, ali. Naquela situação, porém, o nível de pressão foi tão grande (incluindo as provocações por parte de certos personagens e as que podem ser devolvidas), que confesso que senti um enorme prazer em assim agir. Algo um tanto quanto errado, se pensarmos bem, pois é como se todo o trabalho anterior para criar um “Lobo Mau bonzinho” fosse por água abaixo.

Digna de nota é também a repulsa no rosto de todos os presentes, além dos lamentos do alvo de nosso rompante, logo após. Fiquei durante alguns minutos sentindo uma sensação estranha, quase que um arrependimento, e confesso que quase carreguei o último checkpoint, tanto para testar as outras opções de diálogo quanto para tentar agir de forma mais branda.

Assim como The Walking Dead, The Wolf Among Us faz com que o jogador se lembre com bastante frequência do quão importantes são suas escolhas (também aqui nossas escolhas determinam o rumo que a história tomará). Além de lembrados, somos também brindados com lembretes e frases carinhosas, vez ou outra, ou com olhares atravessados e palavras ríspidas: tudo depende das respostas que escolhemos e, consequentemente, de nossas ações.

Frequentemente podemos observar avisos na tela mencionando o fato de que determinado personagem irá se lembrar de como agimos. Isto, é claro, também provoca reações diferentes como resposta à nossa presença ou àquilo que fazemos, e a história, assim, pode tomar rumos distintos.

The Wolf Among Us

No que diz respeito a esta luta (sim, é uma luta) que citei acima, aliás, as escolhas e suas consequências entram em cena de forma poderosíssima. Nós, no controle do Lobo Mau, percebemos os olhares de desaprovação, o horror que nosso ato provocou refletido nos olhos de quem está ao redor, e tudo isto chega com uma força enorme. Neste momento, no meu caso, em resposta à minha atitude, o resultado foi como um tapa que doeu bastante. Isto fica ainda pior (ou melhor) se pararmos para pensar no quanto estávamos nos esforçando (ou não) para melhorar a imagem do Lobo Mau.

É interessante tentar imaginar como a Telltale irá trabalhar com o resultado de nossas ações daqui em diante. Tudo bem que muita coisa pode não ser novidade e/ou segredo para quem conhece a HQ, mas ainda assim creio que o jogo deve surpreender e empolgar muita gente.

The Wolf Among Us

Vez ou outra somos obrigados, no jogo, a escolher dentre duas opções, apenas. Isto é bem interessante e torna a aventura ainda mais instigante, pois o que parece é que estamos jogando algum outro gênero, e não um “mero point-and-click”.

Mais de uma possibilidade. Escolher qual suspeito perseguir, para qual local se dirigir ou qual direção deve ser tomada dentro de um prédio, por exemplo, adiciona uma camada extra de complexidade ao jogo. Tudo fica ainda mais instigante a partir do momento em que percebemos que podíamos ter ganho algo bem diferente, como por exemplo um personagem continuar com vida ou não (acredite, isto é realmente sensacional, e no meu caso este personagem morreu).

Além de um enorme fator motivador para jogarmos novamente (ficamos sem saber se nossas ações poderiam ter realmente evitado tal morte), ainda acabamos percebendo que o jogo é bastante rico em possibilidades. Possibilidades que podem até mesmo serem exploradas pelo jogador de maneira bem direta: mais de uma vez neste primeiro episódio eu tive a liberdade, por exemplo, para indicar algum suspeito. Em alguns momentos pude escolher meu “suspeito preferido” em uma lista com 2 ou 3 nomes, e para isto tive de levar em consideração “apenas” tudo o que já havia visto no game.

The Wolf Among Us

Ainda não sabemos como isto será tratado daqui em diante, nem tampouco se nossas suspeitas farão algum sentido e/ou influenciarão em algo, mas os suspeitos sugeridos não foram escolhidos por acaso, e eu ainda aposto que estes detalhes farão bastante diferença ao longo do tempo.

Algo semelhante pode ser dito a respeito das situações em que temos de investigar alguma cena. Além de investigar, podemos acusar suspeitos que porventura estejam por perto, tudo com base naquilo que vamos observando. É muito bacana.

The Wolf Among Us

Existem também alguns elementos bem diferentes em The Wolf Among Us. Elementos que mostram que a desenvolvedora realmente sabe como revolucionar os adventures e transformá-los em algo mais. Em The Walking Dead já contávamos com algum grau de ação, e era possível até mesmo atirarmos contra zumbis durante a defesa de um acampamento.

Em The Wolf Among Us, porém, a ação está muito mais presente e forte, e ela tem tudo a ver também com o jogo, com sua temática, com os personagens e com a mistura de investigação e mistério que faz parte da trama. O jogo já começa nos dando uma grande mostra desta ação, por falar nisso, durante nosso encontro inicial com Mr. Toad, o Lenhador e Faith.

O que a princípio parece uma simples sequência de QTEs acaba também nos revelando pedaços importantíssimos da história e permitindo que optemos por manter ou não Bigby na linha. Uma série de alvos é exibida rapidamente, teclas devem ser pressionadas a fim de que o protagonista corra ou se desvie em várias direções, e até mesmo perseguições são iniciadas.

É interessante ressaltar que tais momentos de ações contam com vários estágios, sendo que diversos tipos de movimentos podem ser realizados. A duração da ação também pode depender de nosso sucesso no momento de apertar os botões, ou seja, erros podem resultar em danos recebidos, e assim o xerife pode ir ao chão, temporariamente (machucado, quem sabe), para logo em seguida se levantar e continuar lutando (ou morrer, caso sejamos muito ruins no teclado).

The Wolf Among Us

Bigby, apesar do que parece, não é o maioral, e sua chefe é ninguém mais ninguém menos do que Branca de Neve. Sua relação com a garota também é perturbada pelos fantasmas de seu passado, mas fica também óbvio que tanto ela quanto elem se esforçam para gostar um do outro, o que acaba não sendo difícil e é claramente percebido pelo jogador.

Talvez a relação do Lobo Mau com Branca de Neve seja um dos elementos que tornam este primeiro episódio de The Wolf Among Us tão instigante e cativante. O final do primeiro capítulo, aliás, é realmente impactante, e nos deixa com aquela vontade enorme de jogarmos logo sua sequência.

A história é madura, forte. Adulta, certamente. A pressão durante os diálogos parece ser ainda maior que a de The Walking Dead. O tempo para resposta parece ser menor, e muitas vezes temos 4 ou 5 itens que devem ser lidos e escolhidos. O título também é capaz de provocar sentimentos diferentes e, muitas vezes, conflitantes.

Por exemplo, enquanto no jogo que tinha Lee Everett como protagonista eu me esforçava sempre para agir da melhor maneira possível e, quem sabe, ficar sempre bem visto pelo resto do grupo, em The Wolf Among Us isto não acontece. Tudo bem que a a ideia de que a imagem do cara malvado deve ser transformada (e por malvado, aqui, consideremos apenas aquilo que entendemos que ele deve ter feito em seu passado) permanece, mas a liberdade que sentimos para tentar outras abordagens é enorme, talvez justamente por não termos nenhuma Clementine no grupo e nem tampouco um grupo sempre presente e importante, do qual dependemos diretamente.

Consegui dar vazão aos instintos mais primitivos de Bigby de forma muito fácil, apesar de tudo, e a narrativa claramente força o jogador nesta direção, com provocações e insultos chegando insistentemente nos momentos chave.

The Wolf Among Us

Fico tentando imaginar como será o próximo episódio, como minhas escolhas influenciarão a história e a vida dos personagens, e qual será a importância do final bombástico deste primeiro episódio, Faith. Digo isto porque estamos falando a respeito de criaturas de fábulas. Criaturas mágicas. Histórias infantis.

Se prestarmos atenção no que acontece entre o Lobo Mau e o lenhador no início do jogo, e em como a natureza sobrenatural deste último influenciou o resultado, conseguimos facilmente imaginar uma série de desdobramentos possíveis. Vários deles podem significar que aquele final talvez não seja final, que o tal acontecimento assustador não seja assim tão assustador, e por aí vai.

Quero me surpreender ainda mais.

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