Sobre esta inconstante indústria para a qual também somos um jogo

Conquista Desbloqueada

Ultimamente tenho pensado bastante a respeito da indústria de jogos eletrônicos e em tudo o que ela representa, principalmente para nós, jogadores. Inúmeras grandes empresas da área brincam conosco, como se fôssemos apenas um mero jogo. Um jogo efêmero, aliás, que serve aos propósitos destas tais gigantes durante um curto período, visando encher seus cofres, e depois é descartado provisoriamente até que seja novamente útil.

Gostaria de dizer, logo de início, que muitos dos títulos que mencionarei neste artigo são por mim aguardados com grande ansiedade. O mesmo se aplica às empresas mencionadas: jogo seus títulos, gosto de muitos, acompanho notícias relacionadas e também não deixo de escrever a respeito. É, também faço parte das linhas de código que ajudam a compor este grande game que muitas desenvolvedoras e publishers jogam sem parar, tendo em vista apenas desbloquear a conquista “Cofres cheios com quase nenhuma criatividade”.

Falando nisso, a Ubisoft já anunciou o Season Pass de Assassin’s Creed III (que eu me lembre, em tantos anos nessa indústria vital, esta é a primeira vez que tal coisa ocorre nesta franquia). Claro, AC3 será certamente um petardo, mas também já podemos perceber que a ânsia pela captura do interesse dos jogadores através da parcela multiplayer de uma franquia outrora única e exclusivamente singleplayer é enorme.

A história é o nosso playground – e as equipes de AC sempre adoraram brincar com fatos históricos e suas consequências, como uma maneira de melhor entender um período de tempo. Enquanto Assassin’s Creed III se concentra na história, queríamos tomar algumas liberdades com este DLC e contar a você como as coisas ‘poderiam ter acontecido‘”, disse Sebastien Puel, produtor executivo na Ubisoft.

Complementando as palavras de Puel, digamos que nós, fãs e jogadores de videogame, somos as gangorras deste tal playground. Ok, bacana. Legal. Essa hipótese de brincar com “o que poderia ter acontecido” é algo ótimo. Mas temos aí mais uma demonstração de algo que se tornou comum no mundo dos games, nos últimos tempos.

Conteúdo adicional anunciado antes mesmo do lançamento de um jogo. DLCs, quem sabe, que poderiam fazer parte do jogo ou até mesmo serem oferecidos gratuitamente a quem, por exemplo, adquirisse o título durante sua pré-venda. Não nego que alguns destes “passes” me interessam. Mas também não nego que eles muitas vezes são verdadeiras pragas.

A Ubisoft menciona um George Washington sendo tentado pelo desejo de poder infinito. 5 novos “pacotes de expansão” já se encontram no forno (ou na linha de produção ou, quem sabe até, já embalados). “The Tyranny of King Washington” contará com uma nova campanha e permitirá que tenhamos uma espécie de outra visão da Revolução Americana.

Claro, novos mapas e personagens para o multiplayer também estão nos planos, e o Season Pass de Assassin’s Creed 3 custará US$ 29,99. Ao mesmo tempo, a Electronic Arts, aquela mesma empresa que adquiriu a PopCap (em minha opinião, este estúdio não dura muito tempo, infelizmente) e que é, talvez, uma das mais odiadas e/ou criticadas neste nada homogêneo universo, comemora o sucesso de FIFA 13 (claro, o jogo é fantástico, e até mesmo sua versão iOS é surpreendente – como eu disse, também faço parte do jogo). A EA fala inclusive que FIFA 13 já atingiu (ou melhor, os jogadores atingiram) 600 milhões de minutos de jogo online!

FIFA 13 vendeu mais de 4,5 milhões de cópias em cinco dias (1,23 milhões de unidades foram vendidas nas primeiras 48 horas pós-lançamento no Reino Unido), e já é o maior lançamento de 2012 quando se trata de jogos eletrônicos. O jogo é muito bom, verdade seja dita, e foi muito, muito bem recebido pela crítica. Entretanto, a EA sofre com SWTOR e Ray Muzyka e Greg Zeschuk deixaram a BioWare. Isto sem falar em Rich Vogel, produtor executivo de Star Wars: The Old Republic, que também deixou a empresa e se juntou à Bethesda.

É, as coisas não estão mesmo boas para o lado da Electronic Arts, mas mesmo assim a empresa parece não aprender com seus próprios erros. Talvez a empresa criada por Trip Hawkins represente um daqueles casos onde a queda é algo necessário e benéfico, servindo como um aprendizado, não só para o mercado, mas para a própria empresa em si.

O pior de tudo é que, independentemente de qualquer coisa, a bomba sempre acaba estourando do lado mais fraco. Jogadores de videogame são obrigados a conviverem com ofertas de conteúdo pago que já se encontrava no disco, DLCs que nada acrescentam a um jogo, e assim por diante. Ainda mais triste é saber que, muitas vezes, nós mesmos somos os culpados, fomentando tal mercado e tais práticas.

Este é um assunto bem delicado, entretanto. Mesmo sabendo de tudo isto, acabamos sendo obrigados (dependendo do perfil de cada pessoa, é claro) a compactuar com tais práticas. Que fã de Mass Effect deixaria de comprar Mass Effect 3, por exemplo, mesmo após tomar conhecimento de seu final sofrível e/ou por não gostar da EA? Que fã de Mass Effect 3 não se sentirá tentado a adquirir novos DLCs para o jogo? Hoje vivemos em um mundo onde até mesmo empresas respeitadas por grande parcela dos jogadores falam na extinção dos jogos singleplayer.

Pirataria é um dos fatores mencionados, é claro, e Rob Pardo, da Blizzard, não esconde de ninguém o lado financeiro da questão. Ora, se o problema é a pirataria, por que, então, dificultar ainda mais a vida de quem paga pelos títulos que joga, exigindo conexão constante à internet e, pior ainda, deixando que as coisas “não funcionem do lado de lá” e, desta maneira, fazendo com que os jogadores levem um “erro inexplicável” na cara?

Este também é um dos motivos de eu adorar jogos de mundo aberto, que nos oferecem grandes possibilidades sem que sejamos obrigados a dividir o espaço com ninguém. Não estou aqui, aliás, massacrando o multiplayer. Jogar com outras pessoas tem seu (enorme) valor, é divertido, e é algo que ainda pode ser fantasticamente explorado e melhorado. Apenas acredito que a experiência solo jamais deve deixar de fazer parte do mundo dos jogos eletrônicos.

Como em tudo neste mundo a indústria de jogos eletrônicos não deixa de visar lucros.  Claro: ninguém monta, administra uma empresa e lança produtos sem esperar o devido retorno financeiro. Sem esperar que tais produtos vendam muito, etc. Seria muito ingênuo de nossa parte esperar o contrário. O problema é quando o foco é direcionado apenas à quantidade e à extorsão disfarçada, sem que nenhum benefício adicional seja oferecido ao cliente. Sem tentar, também, agradar ao cliente.

Bem, muitos clientes destas empresas também podem ficar bastante felizes com o pouco que lhes é oferecido “pelos olhos da cara”: também entram aqui em questão fatores tais como, por exemplo, comodismo e costume. Muitos jogadores já se acostumaram com a falta de criatividade e se encontram meio que anestesiados, aceitando tudo o que lhes é empurrado goela abaixo. E quem lança este tipo de coisa no mercado fica, é claro, muito feliz, e acaba “trabalhando” cada vez mais para agradar a estes “clientes satisfeitos”.

Muitas vezes, por falar nisso, nem o direito de usufruir do produto em sua plenitude o jogador/comprador tem. DRMs e recursos semelhantes são algo bem terrível, e é por essas e outras, aliás, que Torchlight II está aí, “bombando” (o pessoal da Runic não deixou de aplicar tudo aquilo que aprendeu de bom na Blizzard, não é?).

Levando os parágrafos acima em consideração, não posso deixar de pensar em empresas como a Tripwire Interactive, por exemplo. Empresas que sabem como ganhar dinheiro sem afrontar seus fãs. Empresas que não visam somente o lucro. Empresas cujos gestores talvez (ou com certeza, sabe-se lá) pensem nos lucros como uma consequência (ou será que estou sonhando, aqui?). E quantos outros exemplos podemos citar aqui? Frozenbyte, Valve, Arcen Games.

De qualquer forma, não vemos a Tripwire, por exemplo, sendo malhada por aí, nem tampouco a CD Projekt RED (outra que sempre pensa com carinho em seus fãs e não deixa de mimá-los – se mais dinheiro vai para seus cofres devido a este modo de trabalho, bom para ambas as partes). E quantas outras desenvolvedoras e publishers não são extremamente simpáticas, amigáveis, generosas, etc? A Bohemia Interactive, da República Checa, é outra empresa digna de elogios, neste aspecto. Que dizer então de pequenos estúdios e desenvolvedores que cada vez mais mostram que ainda existe luz no fim do túnel?

Dinheiro é bom e todos gostam, isto é óbvio. O problema é quando ele se transforma em um alvo que executivos perseguem à exaustão, passando por cima de valores que em outros tempos eram para eles importantes, e não se preocupando em quem fica para trás, em quem foi atropelado pelo rolo compressor da ganância.

Grande parte desta indústria não se preocupa com algo que deveria estar em primeiro lugar em seu pensamento: o jogador. O jogador, que para ela se transformou em um jogo. Um título jogado no “easy”, que pode ser facilmente vencido e que ainda conta com um modo sandbox extremamente bem vindo, o qual ela não se cansa de jogar.

Será que tudo está perdido, e teremos de voltar aos jogos de tabuleiro? Não chego a ser tão pessimista. Felizmente ainda existem empresas que pensam no jogador. Ou melhor, que “jogam o jogo direito”, ou pelo menos “acertam algumas bolas”. A Ubisoft abriu mão de seu DRM draconiano. A Valve felizmente não foi vendida para a Nexon. A comunidade de modders consegue manter vivos jogos que, talvez, já estivessem mortos não fosse o seu trabalho.

O PC cada vez mais se firma como uma plataforma forte, aberta e acessível (sai pra lá Windows 8). Tablets e smartphones continuam nos fornecendo surpresas extremamente agradáveis, com games belíssimos e interessantíssimos sendo lançados com grande frequência.

Os indie games continuam, também, nos surpreendendo. Tudo isto não deixa de formar um panorama muito promissor, também, principalmente devido ao fato de sermos capazes de perceber que futuramente teremos mais possibilidades, mais acessibilidade, etc. Jogadores poderão, quem sabe, escolher a plataforma de sua preferência e terem a mesma experiência que teriam em outra. Jogadores poderão fazer parte do “mundo dos videogames” com aquilo que possuem, com aquilo que seus bolsos lhes permitirem.

Este artigo foi também uma espécie de desabafo. E, claro, possuo e ainda irei adquirir jogos das empresas que citei. Também faço parte do jogo, feliz ou infelizmente, não sei bem ao certo. Mas uma coisa é certa: este jogo cansa, muitas vezes. Esta nossa “vida de sprite” ultimamente tem sido bem ingrata. Porém, como dizem por aí: “a esperança é a última que morre”.

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8 Comments

  1. Falou tudo Marcos. E é bem aquilo que agente conversou ontem, ”mesmos jogos” com nomes diferentes.

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    • @Gustavo Késsimos,

      Justamente, Gustavo. Dá tristeza, muitas vezes.

      @Igor Queiroz,

      Olha, Igor, por um lado, gosto dos F2P. Mas, por outro, eles também ajudam a meio que disseminar essa ideia de “fim do singleplayer”, infelizmente. Quanto a DLCs, gosto quanto eles possuem “conteúdo de verdade”. Novas missões, e coisas do tipo. Um jogo como Sleeping Dogs, por exemplo, pode ser muito bem expandido, com qualidade. Agora, pacotinhos de armas, roupas, etc: o que isso nos acrescenta?

      Nos mobile, tem muita coisa boa. Olha, o jogo do Batman, da Gameloft: ok, tem lá a loja pra comprar itens com dinheiro de verdade e progredir mais rápido. Mas, isso é pra quem tem preguiça…rsrsrs Dá pra jogar na boa sem isso. Eu não comprei nada com dinheiro real, nele, e joguei (e estou jogando), numa boa, com esforço. Assim é que deveria ser, sempre, independentemente da plataforma. Quanto à música, bela lembrança! :)

      @Hideki T,

      Acho que a única mobilização que iria funcionar, Hideki, seria um boicote enorme. Mas aí, além de ser algo difícil, muita gente acaba sendo fisgada. É como no caso do Mass Effect que eu mencionei, infelizmente. Foi dose esse protesto no Facebook que você citou, hein? rsrs

      Poxa, achei que você tivesse criado conta na Live USA. É muito melhor. Não migrei até hoje (e nem vou) por isso. Mas, tem umas coisas que mudaram. Se me lembro bem (posso estar enganado), antes não podíamos adicionar, conversar e jogar com amigos de outras Lives. Hoje já podemos. Nossa, nem o Pinball FX2 está disponível na BR? Um jogão desses? :(

      A bur(r)ocracia no Brasil também atrapalha muito. Mas também, acho que esses problemas todos abrangem muitas situações e “áreas”: governo, empresas, jogadores, etc.

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  2. É isso mesmo, Marcão. Duas coisas que estão acabando com a magia dos jogos chama-se DLCs e modalidade Free-to-Play. E no ramo de jogos para mobile é pior ainda, que acabamos por ser inundados de advertisement. O que me faz lembrar na hora de uma música do System of a Down, Chic ‘N’ Stu.

    “Need therapy, therapy,Advertising causes need, Therapy, therapy, Advertising causes need…”

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  3. Enquanto as pessoas não se mobilizarem vai permanecer assim, mesma coisa na política.

    Só para citar um exemplo; no fórum da Xbox Live Brasil tinha um usuário reclamando da falta de conteúdo e convocando as pessoas a assinar um protesto no Facebook, acessei todo animado, esperando encontrar umas 10 mil assinaturas, e encontrei 10 curtidas…

    Citei o exemplo da Live BR pois existe um abismo entre a norte-americana e a nossa, o Pinball FX e Dogfight 1942 não estão disponíveis além de milhares de indies e até grandes produções!

    Entendo que boa parte dos problemas esteja relacionado ao licenciamento e burocracia, em especial no Brasil, mas chega a ser revoltante saber que existe tanta coisa boa e gratuita na Live da qual eu não posso desfrutar por politicagem ou falta de ação.

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  4. @Marcos A.T.Silva, as pessoas ficam de braços cruzados reclamando, esperando que a solução caia dos céus.

    Quando criei a conta, foi por exigência do Batman: Arkham City e, na época, eu não fazia idéia de que compraria um Xbox 360 um dia, muito menos que existia essa diferença tão grande entre o conteúdo de um país e outro.

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    • @Hideki T,

      Com certeza, e infelizmente. Mas, Hideki, você sabe que pode criar uma conta na Live USA também, e usar sem problemas, né? :)

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  5. Eu já estou no modo boicote: o último jogo que comprei com ressalvas foi Mass Effect 3, não podia deixar a franquia sem um final na minha cabeça. Agora eu analiso cada compra, cada anúncio e o comportamento das empresas antes de gastar dinheiro.
    A Capcom, Blizzard e Activision já não levam o meu dinheiro. hehe Tem outras na mira, também.

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    • @Erick Mendonça,

      Poxa, já? Ah, Mass Effect 3 não tinha como, cara. A Blizzard ainda não entrou…rsrs Mas Capcom, só em promoção a preço de banana, mesmo (bem, sempre posso queimar a lingua, né), e a Activision até que não, também…rs

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