Sobre riscos e sequências condicionais

Dark Matter Interwave Studios

Ando me sentindo um tanto quanto incomodado com a maneria como alguns setores da indústria de jogos eletrônicos estão funcionando. Parece que temos que aceitar alguns ditames, atualmente, para sermos considerados jogadores bacanas. E se até há algum tempo atrás era cool falarmos bem e sermos fãs de carteirinha de gigantes como Activision, EA, etc, agora existem situações em que tudo nos diz que o ideal é ser fã de estúdios de garagem (sem preconceitos, explico mais abaixo).

Atualmente, muitos acreditam que “tudo o que está no Kickstarter” é bom. É legal. Que indie games são a salvação. Que tudo o que é indie é ótimo. Que desenvolvedores independentes repetirão em pouco tempo aquilo que em muito tempo veio sendo realizado e concretizado pela grande indústria, pelos títulos e estúdios AAA. Obviamente, existem sempre as exceções, e é claro que existem fantásticos estúdios e jogos indie.

Bem, ao mesmo tempo em que “indie game” virou gênero, somos agraciados com campanhas de crowdfunding para… livros. Sim, ao invés de termos de comprar ou pedir um livro emprestado para então lê-lo e sabermos se ele é bom, existem alguns “autores” que pensam que temos de pagar para crer, para conferir.  Tudo bem que livros no Brasil ainda são caros, mas isto já foi pior, e este nem é o caso, aqui.

Adiantamos o pagamento. Fornecemos o vale (antecipado) para que tais “funcionários” então trabalharem para criar o produto ou serviço que anunciaram, muitas vezes expondo nada mais que meras e poucas artes conceituais, vídeos curtos e algumas linhas de texto.

Acontece, entretanto, que alguns acontecimentos são capazes de fazer com que um alerta mental soe de forma bastante irritante, felizmente, e um destes envolve um jogo a respeito do qual já escrevi aqui no XboxPlus. Dark Matter, da Interwave Studios (Nuclear Dawn) é o mais recente “protagonista” de um destes casos.

Publiquei um preview do Metroid-like da desenvolvedora holandesa em Junho passado, e confesso que gostei bastante do que vi. Foi me fornecido um build com alguns problemas e, claro, na época não estranhei, até mesmo porque isto me foi explicado de antemão.

O grande problema é que o recente lançamento do título no Steam trouxe consigo um grande problema: o jogo foi lançado sem ter sido finalizado, e qualquer uma das hipóteses a respeito das quais comentarei neste texto soam no mínimo como uma grande falta de respeito por parte da desenvolvedora.

Jogo que será vendido em episódios ou um produto acabado (ou as duas coisas?): ambas as hipóteses meio que deixam claro que alguém tentou passar a perna em alguém, e a maneira como tudo isto foi feito é… bem, leia e tire suas próprias conclusões. 😉

A desenvolvedora já havia tentado financiar Dark Matter através do Kickstarter, e falhou, como sabemos. A publisher (também holandesa) Iceberg Interactive entrou na jogada, então, e o jogo foi lançado no Steam. Porém, como logo se soube, tratava-se de algo inacabado. Um jogo que não tinha fim ou que, no mínimo, foi lançado como algo que não era.

Erik Schreuder, CEO da Iceberg Interactive, logo disse no Steam que o plano original era realmente que o jogo fosse financiado através do Kickstarter (o que, portanto, pelo que sabemos, eliminaria a própria Iceberg Interactive do processo).

Erik Schreuder também diz que a falha em atingir a meta no site de financiamento coletivo fez com que o outrora jogo completo fosse transformado em uma série, com o devido lançamento (posterior, claro) de vários episódios.

O problema é que a página do jogo, pelo menos no GOG (que começou a aceitar pedidos de reembolso) e no Steam (que não mais vende o jogo), não diz nada a este respeito. Nada semelhante foi dito pelo estúdio e pela editora antes do lançamento, aliás.

Nada em tais páginas diz que estamos adquirindo um capítulo, apenas (e nem a tal menção a 14 fases significa muita coisa). A falta de respeito, porém, salta aos olhos. A impressão de que tentaram vender algo omitindo informações também não consegue deixar minha cabeça.

O CEO da Iceberg Interactive ainda diz, na página de discussões no Steam:

Quaisquer sequências dependerão do sucesso deste jogo“.

Ora, foi estabelecida uma condição, portanto. Novos Dark Matter somente serão lançados se este “primeiro da franquia” for um sucesso. Ok. Mas… não estávamos falando de um jogo distribuído em episódios? Ele era ou não um produto acabado, afinal de contas?

Tudo bem se o financiamento do jogo no Kickstarter tivesse sido obtido. Tudo bem se tivessem avisado que se tratava de algo incompleto ou, então, de algo que seria liberado em pedaços, e que teríamos que pagar valores adicionais por cada um dos pedaços. Mas, você consegue encontrar tal informação? Eu não, a não ser após o lançamento do jogo. Fica aqui uma enorme sensação de que pensaram: “- Vai que cola” (e olha que não estamos no Brasil – opa, estamos, mas ambas as empresas envolvidas não são daqui).

Erik Schreuder ainda diz o seguinte:

“Nós consideramos rotulá-lo ‘Episódio 1″, mas sentimos que isto poderia soar enganoso, uma vez que não é certo que haverá um ‘Episódio 2’. Então, tivemos que fazer uma escolha. Como em qualquer novo universo de jogo sempre existem mais histórias a serem contadas, mas as finanças irão ditar sua viabilidade“.

Quer dizer então que podemos aguardar por um Dark Matter Episódio 2 apenas se o Dark Matter Episódio 1 for um sucesso. Este mesmo Dark Matter Episode 1 que foi vendido como algo completo, a respeito do qual conhecemos a verdade porque jogadores descobriram seu final abrupto.

Ok, e mesmo se considerarmos como um jogo vendido em capítulos: o sucesso do primeiro capítulo ditará o futuro da série? E quem acreditou? E quem gostou e confiou? Tudo bem, não é? Afinal, não estamos aqui falando de uma Telltale Games e seu excelente portfolio, empresa com algo como um The Walking Dead em seu currículo.

Não sei o que é pior, aqui. Se a tentativa de explicar o que não pode ser explicado ou a descoberta da falcatrua (?). O fato é que sinto que cada vez mais podemos confiar menos em projetos lançados através do Kickstarter e afins, infelizmente. Não sei nem porque cheguei a confiar nisto algum dia.

Não estou aqui dizendo que não vou cometer o mesmo erro e/ou que nunca cometi. Já fui backer em alguns projetos, devo dizer, e de alguns deles nada sei há muito tempo. Aliás, o único a respeito do qual recebo constantes atualizações (bem como novos builds) é Galcon 2, de Phil Hassey (sobre este, também, posso dizer que não considero o investimento um erro de minha parte, muito pelo contrário). Mas conheço casos bem tristes, em contrapartida.

E, afinal de contas, a que ponto chegamos? Tudo bem que a tal poderosa e grande indústria de games (pelo menos uma parte dela) pede para que nela deixemos de acreditar. Mas também não creio que seja bacana ou justo termos de “comprar um jogo no código” (e, crowdfunding para livros???). Pelo menos não sempre, e não gostaria que isto se tornasse forte ao ponto de eclipsar outros modelos – uma utopia, obviamente (será mesmo? 😉 ).

Também não acho que indie games devem ser glorificados ou vistos como algo maravilhoso apenas por terem sido criados por estúdios pequenos e independentes e/ou por serem fruto de trabalho duro, noites e noites sem dormir e economias de anos investidas.

Existem grandes estúdios, grandes publishers e grandes empresas que fazem excelentes  trabalhos, assim como existem pequenos que deixam muito a desejar. A moda dos indie games (muitas vezes percebo isto, infelizmente) acaba afetando o julgamento de algumas pessoas, e muitos projetos lançados no Kickstarter acabam sendo beneficiados justamente devido a um efeito contrário provocado pela ausência de satisfação que muitos sentem em relação aos modelos tradicionais de financiamento, desenvolvimento e lançamento de jogos eletrônicos.

Financiamento coletivo e estúdios independentes podem e devem existir, claro. Mas cuidado nunca é demais. Nada justifica o que a Iceberg Interactive fez aqui (fico me perguntando qual seria o percentual de culpa da Interwave Studios). Nada justifica o marketing de um mero pedaço como se este fosse a peça inteira.

Tudo bem que o “final não final” de Dark Matter será consertado (e será que irá valer a pena?). Mas e daí? Pelo que tudo indica, nunca haverá um Dark Matter Episódio 2. Só a primeira parte deste “jogo vendido em capítulos” verá a luz do dia. E, para piorar ainda mais as coisas, a coisa anda preta para os lados da desenvolvedora responsável.

Parece mesmo que as palavras abaixo, de Igor Raffaele, da Interwave, se perderam ao vento:

Com o apoio e o feedback de nossos patrocinadores, nosso objetivo é criar o tipo de game que nós queremos jogar, e não o tipo de game que grandes estúdios empurrariam aos jogadores. Grandes editoras normalmente iriam ignorar jogos menores com menores margens de lucro, como Dark Matter, mas nós somos um estúdio independente, então não temos que vender milhões para obtermos sucesso. Não temos que satisfazer acionistas. Nós só temos que fazer nossos fãs felizes. Esta é a filosofia que nos permite criar games como Dark Matter, e estamos ansiosos para compartilhá-lo com todo mundo“.

“Tipo de game que nós queremos jogar”? “Tipo de game que grandes estúdios empurrariam aos jogadores“? “Grandes editoras“? Será que algum fã ficou feliz com tudo isso? Tsc, tsc, tsc…

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8 Comments

  1. O grande erro de Dark Matter foi mesmo não ter colocado um Episode 1 ali no título ou um Early Access, com a promessa de ir colocando mais conteúdo depois. A falta de transparência matou o lançamento, infelizmente. Também apostava neste jogo.

    Esse caso me lembra do infame Sin Episodes. Só saiu o primeiro, um FPS com duas armas e três tipos de inimigos, se não me falha a memória. O resto viria nos episódios seguintes. A desenvolvedora fechou as portas e ficou por isso mesmo. E AINDA vende no Steam.

    Sabe qual outro jogo seria lançado em episódios, parou no segundo com um acontecimento bombástico e nunca mais continuou, passados vários anos? Dica: sua desenvolvedora é a DONA do Steam…

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    • É pessoal. Não é que eu tenha ódio de financiamento coletivo. Muito menos de indie games. Eu apenas citei como algumas situações me incomodam, incluindo no que diz respeito a indie games. Infelizmente, também, aqui os bons acabam sendo penalizados devido aos ruins.

      Eu gostei do que vi no Dark Matter, até quando escrevi o preview. Acreditava que o jogo seria bacana. E acho que seria. Se tivesse dado tudo certo no Kickstarter, ou se a publisher tivesse agido corretamente. O problema nem é o final, ou a falta dele (ou um final porco), creio eu (Mass Effect 3, BioWare e EA que o digam). Eu achei que faltou respeito por parte da Iceberg Interactive, e, também, que tentaram vender gato por lebre. Aliás, me incomoda bastante o fato de inúmeras empresas estarem ultimamente usando o Kickstarter como uma espécie de “muleta”, sei lá. Recebo muitos e-mails a respeito de campanhas iniciadas. E algumas coisas chegam a dar raiva.

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    • Pô, Aquino… esse me dá até tristeza de lembrar (Sin Episodes). O comprei em caixa, acho que foi o primeiro jogo com esse modelo de “episódios”, mas esse especificamente, não deu certo. A campanha eu achei até legalzinha, mas é BEM curta. O mais legal desse jogo é que, pelo menos na versão de caixa, vem também a cd key do primeiro Sin, esse sim é um jogo completo e excelente (mais um daqueles FPSs ofuscados pelo sucesso de Half-Life). Só não me senti lesado, por conta do jogo extra que veio, caso contrário, ficaria bem chateado.

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  2. Não deixo de pensar nos maiores nomes da indústria adorando ver campanhas de crowdfunding mais que fracassando, praticamente ludibriando seus financiadores.
    Nesse ritmo, logo chegará uma época em que nenhuma grande campanha conseguirá mais seus fundos, devido ao modelo desacreditado… e este ruirá, ao menos para projetos mais ousados (e mais caros).
    Finalmente, estes “grande nomes” sentir-se-ão mais confortáveis… sobretudo com alguns inevitáveis dólares a mais em suas contas.

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  3. Até a metade desse texto, a única coisa que vinha a minha mente era o WarZ (atual Infestation: Survival Stories) e sua sujeirada perpetrada pela Hammerpoint Studios.

    Ele também começou a ser vendido como se fosse um jogo completo, finalizado. E acontece que era uma alpha. Anunciaram funcionalidades na página dele no Steam que ele NUNCA possui e até hoje não possui. Isso foi apenas a gota d’água que consolidou a montanha de falcatruas que envolve o jogo, como relatos de bans aleatórios, negligência com cheaters, declarações arrogantes de desenvolvedores, plágio, etc.

    Eu cobri isso numa matéria, inclusive.
    http://www.xboxplus.net/as-polemicas-de-the-war-z/

    Na segunda parte do texto, foi a vez da tentativa fracassada de crowdfunding pra um remake/continuação da franquia Homeworld me vir à cabeça.
    http://www.xboxplus.net/crowfunding-homeworld-farsa/

    Uma empresa sem experiência alguma tentou angariar fundos pra tentar reviver essa franquia famosa, que acabou perdida no inferno burocrático da falência da THQ. Só que a campanha, feita também no Kickstarter, tinha um cheiro de scam muito forte, especialmente considerando que a quantia-objetivo poderia ser flexibilizada (ou seja, os criadores da campanha tinham a opção de embolsar qualquer quantidade doada, independentemente se a campanha alcançasse o objetivo ou não). Scam.

    Felizmente, a tentativa fracassou.

    Agora temos outra história pra essa lista envolvendo jogos indies, de boas propostas mas de muita baixa entrega. Julgando por todo esse retrospecto eu fiz questão de descrever, é algo que está realmente começando a preocupar.

    Como o Joyslan falou, se não formos mais cautelosos, essas falcatruas vão começar a manchar a imagem de outros projetos indies legítimos e o que veremos é simplesmente o sistema de crowdfunding – pelo menos para jogos indie – ruindo.

    Triste.

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  4. Casos como esse , por enquanto, são exemplos isolados.E acho que infelizmente sempre existirão , de forma pontual,até porque não existe nenhum mecanismo que nos proteja disto a não ser nós mesmos, e porque sempre existirão pessoas de má fé, em qualquer meio.Eu particularmente e porque faz parte de minha natureza, não confio em crowndfunding.É um terreno arenoso e gosto de pisar em solo firme.Ou se o solo for arenoso que eu saiba de antemão e assuma o risco.No crowndfunding não sabemos nem se haverá um solo pra pisar.Eu não acho que a reputação dos “indies” esteja em jogo , acho que o sistema de financiamento é que está.

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  5. Fala pessoal! Bem complicada mesmo essa questão. Lembro que no iOS, comprei por US$ 0.99 um joguinho bem legal estilo Mega Man / Metroid chamado Grokion. Ele até que me deu boas horas de diversão, mas se trata de um jogo incompleto. Quando comprei, isso não estava explícito, só depois fui entender que se tratava de um jogo desenvolvido por 2 pessoas e que ainda estavam desenvolvendo. Mas prometiam liberar novas fases, sem custo adicional, para quem já tivesse comprado. Também liberaram gratuitamente a trilha sonora.

    Como me diverti bastante e foi um baixo valor, não fiquei chateado, mas isso é complicado. Já numa empresa bem maior, a Gameloft, peguei um clone de Uncharted chamado Shadow Guardian (ou algo assim), o jogo é muito bom (guardadas as devidas proporções). Porém, o final é mais do que abrupto… a mim, parece um exemplo claro de jogo não concluído, pois na transição de fases temos até cutscenes bem detalhadas e tudo mais. Foi um jogo que peguei em promoção, se não fosse, com certeza iria querer meu dinheiro de volta, apesar das boas horas de diversão.

    Quanto ao crowdfunding, deve-se tomar muito cuidado, mas acho interessante o mesmo existir. Para mim, a maior vantagem desse modelo, é poder ver lançados jogos que nunca veriam a luz do dia (ou demorariam demais para ser lançados, em forma de hobby, sem fins lucrativos). Um exemplo, talvez, foi Shadowrun Returns. Sou suspeito, pois adoro temática cyberpunk e o universo do jogo em si, mas foi um trabalho feito com muito respeito aos fãs.

    Outro jogo que o “mercado” não lança, mas que tem alguns fãs fervorosos, eu incluso, é Rock And Roll Racing. O que mais me deixa puto, é que a Blizzard (ao meu ver), teria condições de lançar, pois deve ter muita grana em caixa. Mas não grande entendedor de finanças em games e claro: poderia não trazer um lucro massivo, como outras franquias deles trazem. Com isso, nos resta esperar os russos lançarem o seu remake sob o risco de serem vetados pela Blizzard.

    Desculpem o texto grande!

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    • É Diego. Eu me lembro desse Shadow Guardian, aliás.

      Sobre o crowdfunding, acho que temos que ficar espertos. De certa forma, muitas vezes é meio que um tiro no escuro. Eu mesmo já fui backer de alguns projetos cujos jogos não foram lançados depois de muito tempo de finalizada a campanha. Pior ainda: não ouço nada deles, nem tampouco os desenvolvedores enviam e-mails, ao contrário daquele que citei, sobre o qual recebo constantes notícias (além de novos builds).

      Você já chegou a ajudar a financiar algum com sucesso?

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  1. FORCED: aja com cuidado neste RPG com elementos táticos - […] surpreendido positivamente por um jogo que viu a luz do dia com ajuda do Kickstarter, ao contrário do que…

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