SUPERHOT – tempos de elegância vermelha e branca em um FPS

Alguns games chegam imbuídos de ideias, conceitos e realizações tão diferentes, e são executados de maneira tão única, que somos pegos realmente “de jeito”, chegando quase que ao ponto do vício.

É o que acontece com SUPERHOT, título independente criado por empresa homônima, que foi lançado no último dia 25 de Fevereiro. Já acumulo mais de uma dezena de horas de jogo, de acordo com o Steam, e parece que não enjoarei tão cedo. Até mesmo porque, existe bem pouca coisa para se enjoar, ali, apesar da campanha curta, tida por alguns como um “defeito”.

SUPERHOT

SUPERHOT começou como um produto da game jam 7DFPS 2013, um evento no qual o objetivo era o desenvolvimento de um FPS em 7 dias. Um protótipo foi então lançado na web, o qual foi bastante aclamado. E, é sério, mesmo aquele protótipo, com cerca de 5 ou 6 níveis, era algo espetacular. Tenho-o até hoje em um de meus HDs, e o guardo com enorme carinho.

A partir daí, a pequena equipe de desenvolvedores poloneses iniciou uma campanha no Kickstarter, a qual foi concluída com sucesso em 2014, com a arrecadação de cerca de US$ 250 mil. O jogo ficou, segundo seus desenvolvedores, 30 meses em desenvolvimento, e o que temos em mãos atualmente é algo extremamente inovador, diferente, único. Imperdível, realmente.

Obs: gravei o vídeo de gameplay abaixo, com a “jogabilidade normal”, diferente daquela exibida nos vídeos gerados pelo jogo, com o tempo acelerado. Abaixo você pode conferir um pouco de como é, realmente, jogar SUPERHOT:

Um daqueles jogos de tiro em primeira pessoa que você certamente precisa jogar, principalmente se está cansado da mesmice, do lugar comum, de tudo aquilo que vemos nos shooters da atualidade. Digo sem medo que SUPERHOT é um dos melhores FPSs que tive o prazer de jogar nos últimos anos e, não, ele não conta com nenhum componente multiplayer, antes que alguém pergunte.

SUPERHOT

Começando pelo conceito de que “o tempo se move apenas quando você se move”, SUPERHOT brilha. Imagine-se em arenas onde é possível se desviar de balas e ainda observar toda a trajetória destas, em algo que lembra muito Matrix (sim, a comparação é inevitável).

O jogo conta com uma campanha, a qual, segundo alguns, pode ser finalizada em cerca de duas horas. Alguns chegaram até a criticar (bastante) os desenvolvedores devido à duração desta, mas não é aqui que o jogo brilha, nem tampouco aqui que ele tem mais a oferecer.

SUPERHOT

Seu ponto fortíssimo está em outro front, no incrível e espetacular “endless mode”, onde a diversão nunca acaba, onde os inimigos sempre dão um jeito de matar você, onde os projéteis riscam o ar e a munição é finita.

Na campanha, temos uma espécie de “jogo dentro do jogo”, além da sugestão de que o protagonista, se é que podemos chamá-lo assim, não é lá muito diferente daqueles que combate, pelo menos na aparência.

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Temos também boas doses de humor, e a sugestão de que fazemos parte de algo que não entendemos. Existem também alguns estranhos diálogos com alguma outra pessoa, já quando começamos a perguntar sobre aquele “tal jogo que estamos jogando”. Existem diversos momentos bastante intrigantes na campanha de SUPERHOT, e vale a pena jogá-la, com certeza.

Mas a beleza do jogo, sua força, sua inovação, o conjunto de ideias poderosas executadas com maestria, tudo isto pode ser melhor apreciado, ou melhor, apreciado em sua plenitude, através do imperdível “endless mode”.

Tal modo de jogo, destravado tão logo a campanha é finalizada, é realmente a cereja do bolo. Arenas adicionais do “endless mode” vão sendo liberadas aos poucos, conforme jogamos, e cada uma delas é repleta de elementos interessantes, de espaços abertos e fechados, de diversas construções, de oportunidades para cobertura, para diversas táticas e também para mortes vergonhosas, terríveis, engraçadas.

SUPERHOT

No “endless mode” podemos jogar indefinidamente, até que uma bala inimiga nos acerte. E uma hora ou outra alguma irá te acertar, veja bem.

Ondas e mais ondas de inimigos são contra nós enviadas, e o que temos de fazer é o seguinte: matar. Ou sermos mortos. Simples assim. Ou não. E, acredite: é o “endless mode” que manterá você jogando, que te divertirá mais ainda, que fará com que você abra o jogo sempre que tiver algum tempo disponível, para atingir maiores pontuações, para compartilhar seus replays (existe uma função específica para isto).

Em SUPERHOT, o tempo realmente se move apenas quando nos movemos. Qualquer tipo de movimento, seja uma olhadinha para o lado, seja abaixar ou levantar a cabeça, faz com que o tempo “ande”. Esta mesma movimentação é necessária, além disso, para que as armas sejam recarregadas e para que as balas viagem (acelerando-as), chegando até seus alvos ou então se perdendo em paredes, móveis, veículos.

SUPERHOT

Imagine, portanto, a enorme quantidade de variações, de possibilidades, de estratégias possíveis, aqui. E pense no seguinte, também: assim que o gatilho é apertado, você não tem mais controle sobre o projétil. Ele vai viajar independentemente de sua vontade, e este intervalo de tempo também traz riscos e/ou oportunidades: você pode, por exemplo, ser acertado por uma bala inimiga neste meio tempo.

SUPERHOT

No jogo, todos os inimigos são iguais. Seres que parecem feitos de vidro vermelho e que explodem em milhares de pedaços quando atingidos, liberando uma espécie de energia amarela. Todas as armas, além disso, são também feitas de um material semelhante, apenas são diferentes na cor (as armas são escuras, negras).

Tais armas, além disso, estranhamente se quebram assim que atingem algo (incluindo inimigos) após serem arremessadas, explodindo também em milhares de pedaços, e elas podem inclusive ser lançadas contra os inimigos, funcionando como armamentos ou distrações.

Aliás, lançar armas e outros objetos (martelos, valises, caixas, etc) contra os inimigos é delicioso: o inimigo é meio que desequilibrado, neste momento, ele meio que “perde o foco”, e larga sua arma. Neste momento, você pode então se aproximar rapidamente e, num movimento cinematográfico (após a devida aceleração do tempo, obviamente), agarrar a arma no ar, empunhá-la e dispará-la, eliminando a ameaça. É delicioso, acredite.

SUPERHOT

Katanas também fazem parte do arsenal em SUPERHOT, e estão entre as armas mais divertidas de se manusear. Metralhadoras, pistolas e escopetas também podem ser usadas, cada uma delas com suas peculiaridades: a escopeta dispara uma série de projéteis ao mesmo tempo, e a metralhadora dispara automaticamente, em várias rajadas. Tudo isto pode ser usado pelo jogador ou, claro, pelos inimigos. Imagine as situações possíveis. Você está no meio de uma arena, rastros vermelhos riscam o ar à sua volta, e você acaba de disparar sua escopeta em direção a dois inimigos adiante. Você já se desviou de algumas balas, mas se esqueceu de um outro inimigo que estava mais atrás.

O tempo durante o qual sua carga viaja até os inimigos é também utilizado pelo jogo para fazer com que um único projétil deste inimigo esquecido te acerte em cheio, encerrando sua sequência de mortes. Ou então você pode ser pego por algum outro projétil disparado por outro inimigo vermelho, mais acima, em algum dos diversos cenários do “endless mode” que contam com cenários com vários níveis.

SUPERHOT

O jogo é brilhante, o controle que temos sobre o tempo faz com que sejamos ao mesmo tempo carrascos e condenados. E lá pelo final da campanha você acaba descobrindo uma outra mecânica. Um novo recurso lhe é apresentado: você é capaz de viajar para outros corpos, em mais uma prova de que você não é tão estranho assim àquele estranho universo.

A habilidade requer um certo tempo de recarga entre uma utilização e outra, mas pense, mais uma vez, nas possibilidades. É possível fazer com que inimigos morram através de suas próprias armas. Ou seja, aguarde eles dispararem e então se teletransporte para seus corpos, deixando o seu (que neste momento é visualizado – e é igual ao deles) bem no alvo, pronto a receber a carga mortal. A sensação é indescritível, e a diversão que este detalhe aparentemente tão simples adiciona ao jogo é enorme.

Algo me vem à cabeça, além disso, sempre que jogo SUPERHOT: tudo ali é extremamente elegante, clean. Os gráficos simples, aqueles mundos brancos, de um branco que chega a doer, povoados pelos seres vermelhos e sem rosto, é lindíssimo.

SUPERHOT

E além disso, o estilo gráfico do jogo faz com que a violência seja reduzida ou, pelo menos, faz com que esta não seja, digamos, explícita. Ora, caso aquela ação toda estivesse presente em um outro jogo, um outro jogo com texturas elaboradas, com realismo e personagens com rostos definidos, além de sangue, teríamos, certamente, muita violência. Mas em SUPERHOT isto não acontece, e toda aquela elegância vermelha e branca nos conta uma história de matança sem no entanto nos revelar seus detalhes “sujos”.

SUPERHOT

Em SUPERHOT, você muito provavelmente se verá jogando em uma mesma arena várias e várias vezes, tentando melhorar sua pontuação anterior (definida pelo número de mortes), salvando seus replays e compartilhando-os no site killstagram.com (meu perfil encontra-se aqui, com todos os replays que já salvei – é estranho, mas o site determina seu “nick” automaticamente).

Um dos maiores motivadores à superação no FPS é justamente o desejo de jogar e criar sequências memoráveis, cinematográficas. Mortes espetaculares, tiros certeiros, desvios assombrosos, sequências com 2, 3 ou mais mortes, envolvendo o descarte de diversas armas, o uso destas como distração (lançando-as contra os inimigos, por exemplo), assassinatos com a Katana e/ou com o taco de beisebol, finalizações perfeitas, etc.

SUPERHOT

SUPERHOT é também, se pensarmos bem, uma espécie de jogo de estratégia. Um “FPS em turnos”, digamos. Controle o tempo através de sua movimentação, utilize os movimentos para ajudar na distribuição da morte, movimente-se também para se desviar das balas, e não se esqueça: mate ou morra. O jogo é implacável, cruel, muitas vezes. Mas, digo novamente: delicioso.

Parabéns à equipe que desenvolveu um jogo tão diferente. Tão brilhante. Ao que parece, o mercado de shooters ainda pode nos revelar belíssimas surpresas.

SUPERHOT pode ser adquirido no Steam, por R$ 39,99 (com desconto atualmente, saindo por R$ 35,99). Acredite em mim: vale cada centavo.

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