Há alguns dias atrás, escrevi um artigo a respeito do impressionante game Interstellar Marines, em desenvolvimento pela dinamarquesa Zero Point Software. A experiência entregue através do browser via site da desenvolvedora, as imagens, as informações que obtive, o trailer e uma série de outros fatores, me fizeram ir além. Entrei em contato com a desenvolvedora e fui muito gentilmente atendido pelos Srs. Kim Haar Jørgensen (co-fundador) e Kenneth Ellegaard Andersen (relações públicas/produtor/design sonoro).

Trocamos diversos e-mails, através dos quais pude esclarecer diversas dúvidas sobre o jogo Interstellar Marines, fantástico trabalho ainda em desenvolvimento mas que porém já dá mostras de que será um futuro grande título, que terá tudo para concorrer com os grandes títulos AAA de igual para igual. Nem é preciso dizer que Kim e Kenneth possuem muito amor por aquilo que fazem, sentimento, aliás, sempre presente nos corações e mentes dos desenvolvedores independentes.

Quando perguntei se Interstellar Marines se encontrava atualmente em algum tipo de período beta, Kim me respondeu que “sim e não”, ao mesmo tempo. Segundo ele, a Zero Point Software procura sempre fazer as coisas de maneiras bem diferentes do normal. A empresa é, sim, independente, e não possui nenhuma garantia de nenhuma grande publisher ou de nenhum grande investidor. O dinheiro para a manutenção do desenvolvimento, da comunidade e de todo o universo que já está em construção, em cima de Interstellar Marines, vem de alguns pequenos investidores e da comunidade de fãs que compram o game em pré-venda.

É claro que, como bem lembrado por Kim, trabalhar deste modo não permitirá, por exemplo, que a trilogia (sim, é uma trilogia) seja desenvolvida em um curto prazo. Ao invés disso, a desenvolvedora optou por trabalhar de uma maneira bem interessante e nada comum: criar o game pouco a pouco e liberar pequenos mini-games jogáveis que demonstram toda a mecânica do jogo. Segundo Kim, eles chamam este modo de trabalho de “desenvolvimento de porta aberta”. Muito apropriado, levando-se em consideração tudo o que escrevi até agora a respeito do jogo. 🙂

Não sei se vocês já perceberem, mas já existem três estágios jogáveis de Interstellar Marines, os quais são jogáveis através de qualquer navegador web, através do plugin Unity: “The Vault“, “Bullseye” e “Running Man“. Vai lá. Clique e jogue agora mesmo. É grátis. 🙂

Perguntei a Kenneth o porquê desta escolha, ou seja, porque a empresa decidiu lançar os primeiros capítulos desta maneira, jogáveis via browser, ao invés de um formato, digamos, mais comum e “distribuível”. Segundo o próprio Kenneth, a razão disto é a comunidade em torno do game. Eles querem que os primeiros capítulos sejam lançados e jogados onde a comunidade está, ou seja, na própria web, no website da Zero Point Software. Se pensarmos bem, trata-se de uma excelente maneira de atrair tráfego para o website, é claro, e atraindo este tráfego, a empresa pode expor o próprio game e outros ítens do site e da empresa a possíveis novos jogadores/compradores, e este é um ciclo que pode ser muito vantajoso à ela.

Eles também pensaram, é claro, na facilidade: você acessa e joga. Se estiver acessando pela primeira vez, instala o Unity Plugin e pronto. Mas, ainda segundo o Kenneth, uma das principais razões para tal é o fato de demonstrar e permitir que as pessoas joguem um título AAA em um navegador web. A Zero Point Software teve uma idéia genial, ao iniciar o desenvolvimento de um game com o padrão de qualidade que Interstellar Marines já possui e disponibilizar capítulos jogáveis através de qualquer browser.

O fato da Unity suportar quase todas as plataformas, ou seja, PC, Mac, Browser, PS3, Xbox 360, Wii, iOS e Android não deixou de ser observado pela empresa, e a mesma tem em mente lançar seu jogo na Xbox Live Arcade e na PSN, por exemplo. Aliás, é digno de nota o fato de que a desenvolvedora foi recentemente aprovada pela Sony como uma “PS3 developer”. É, eu acho que o Playstation 3 verá Interstellar Marines antes do Xbox 360.

Interstellar Marines possui atualmente dois tipos de pré-venda: Spearhead, que custa US$ 39,00 e dá direito a toda a trilogia, e Frontliners, que custa US$ 25,00 e oferece ao gamer apenas o primeiro capítulo da trilogia. É óbvio que a Spearhead é mais vantajosa, mas vale ressaltar que a quantidade de cópias da mesma é limitada. Um número máximo de 75.000 usuários poderá comprar através da Spearhead, e até o momento mais de 2000 vendas já foram feitas. Segundo a Zero Point, esta é uma maneira de agradecer aos fãs que acreditaram no projeto desde o início, por exemplo, e ajudaram a financiá-lo.

Perguntei também a respeito dos belos gráficos do game, os quais pode-se conferir  tanto através dos níveis já disponibilizados quanto através do trailer. Kim me informou que eles utilizaram os recursos mais comuns da Unity 2.6, como por exemplo “normal mapping”, “specular highlighting”, “cube-mapping”, etc. Ele também menciona que, durante o desenvolvimento, irão explorar ao máximo todos os recursos da Unity 3, tais como, por exemplo, “deferred lighting engine” e “beast light mapper”. Eles também pretendem utilizar novos efeitos de alta qualidade fornecidos pela engine, tudo isto para proporcionar um verdadeiro expetáculo visual.

A respeito do gênero FPS, Kim também menciona que durante o desenvolvimento, foram (e ainda são) inspirados por games tais como System Shock 2 e Deus Ex, devido à profundidade da narrativa e ao elemento RPG, dentre outros fatores. Ghost Recon e RS: Raven Shield também serviram de inspiração, devido à experiência realista que proporcionam e também devido ao seu gameplay tático. Kim também cita outras fontes de onde a Zero Point Software “bebeu” em sua jornada: as séries Half-Life e F.E.A.R. É claro que tudo isto, combinado com um modo co-op para até 4 jogadores e uma história atualmente em construção sobre uma equipe de quatro Marines pode fornecer uma experiência e tanto.

Algo que me intrigou desde o início no projeto Interstellar Marines foi a menção ao conceito “AAA Indie”. Segundo Kenneth, a idéia, basicamente, é deixar claro que a empresa trabalha em games de alta qualidade, do mesmo padrão, digamos, de CoD, Crysis, Battlefield e tantos outros games AAA, sendo no entanto uma empresa independente sem os mesmos recursos que uma Crytek ou uma DICE, por exemplo. E o mais importante de tudo, em minha opinião: mantendo o total controle sobre o projeto.

Percebemos que são os jogadores que no final são as nossas “publishers”, porque são os jogadores que compram nossos games“, disse Kenneth Andersen de forma muito apropriada e, talvez, contrariando aqui uma série de mitos criados entre e pela grande indústria de games. É interessante como eu concordo bastante com ele neste ponto, e em como vejo o fato de que, muitas vezes, a presença de uma distribuidora é prejudicial a um projeto/game.

A Zero Point pretende manter os jogadores envolvidos em todos os processos de desenvolvimento de seus games. Uma idéia genial. Espero que funcione, de verdade. O feedback da comunidade é muito importante para a empresa, segundo Kenneth, e isto, em minha opinião, é algo a se levar em grande conta. Ah, e por falar em idéias, vale mencionar que existirá, dentro de Interstellar Marines, uma parcela multiplayer chamada Deadlock, a qual será liberada primeiramente aos compradores da versão Spearhead do título.

Algo muito positivo também, em minha opinião, é o fato de que um game ainda em desenvolvimento, com poucos capítulos jogáveis disponibilizados, e quase sem nenhum review publicado pela imprensa especializada, conta com uma pontuação média de 9,2 por parte dos usuários, no GameTrailers. Isto mostra, mais do que tudo, a altíssima qualidade com a qual o projeto como um todo está impregnado. O Kenneth também menciona um artigo no Destructoid onde os comentários de alguns usuários foram muito positivos, causando a outros usuários a impressão de que se tratava de uma espécie de campanha viral, e de que a Zero Point havia criado usuários fake para comentarem e criar um certo hype em torno do game. É claro que os comentários positivos foram feitos por usuários que realmente gostaram do que viram, o que demonstra, mais uma vez, a qualidade do projeto.

Segundo Kim, e por incrível que pareça, pois o que vejo no projeto faz parecer que muito mais gente está envolvida, a Zero Point Software conta atualmente com 4 pessoas em sua equipe de desenvolvimento. O capítulo Bullseye foi criado com uma equipe de 8 desenvolvedores durante um período de 3 meses, e Running Man foi desenvolvido por 9 desenvolvedores em 5 meses. É, as coisas não são fáceis para quem adentra o “nicho” do desenvolvimento independente de games, mas tudo isto ao mesmo tempo possibilita um enorme ganho pessoal em termos de conhecimento.

O foco atual do pessoal da Zero Point é justamente o primeiro capítulo multiplayer do game, Deadlock, e para isto a empresa está levantando fundos para aumentar o número de membros na equipe. Algo que admiro demais em todos os desenvolvedores independentes é a sua capacidade de sonhar. De enxergar através das barreiras. De tornar possível aquilo que seria impossível, por exemplo, a algum pequeno desenvolvedor “amarrado” a uma publisher, mesmo que pequena, digamos.

As palavras de Kim Jørgensen são muito inspiradoras:

O nosso objetivo é criar o mais crível e imersivo FPS futurista que você já jogou. Nada de escudos de energia verde, nada de lasers, nada de aliens em forma de lula, etc. Quando você jogar IM, você se sentirá como se tivesse sido jogado na Matrix, e quando você “desplugar”, você estará limpando o sangue de suas roupas. Cada detalhe, desde o movimento dos personagens até o feedback relativo a cada arma comunicado a seus amigos no co-op, terá como foco assegurar a completa imersão de seu personagem.

Em outras palavras, e ainda segundo o co-fundador da desenvolvedora:

Interstellar Marines mudará as expectativas das pessoas a respeito dos games de ficção científica. A absoluta imersão no elemento FPS encontrará um gameplay cooperativo em um perturbador e realista universo de ficção científica, continuamente impulsionado por um enredo cativante e pela recompensa de poder desenvolver o seu personagem”.

Bom, o Kim e o Kenneth mencionam o fato de que nunca foram entrevistados por um site sobre games brasileiro, portanto, eis o debut da Zero Point Software no Brasil, através do XboxPlus. 🙂 Creio que Interstellar Marines é um game que tem um futuro muito promissor à sua frente. A Zero Point Software trabalha de uma maneira que eu, pelo menos, nunca vi antes. Pelo menos, não de modo tão forte e sério.

O game é interessantíssimo, e eu encorajo vocês firmemente a testarem os 3 capítulos jogáveis que constam no site do game, capítulos estes cujos links publiquei acima. Existe também uma página que ajuda a tirar algumas dúvidas básicas a respeito do game e, resumindo, é isto.

Vou acompanhar o projeto de perto, e aproveito a oportunidade para agradecer imensamente ao Kim e ao Kenneth pela imensa gentileza, e por terem dedicado um pouco de seu tempo para responderem nossas perguntas. Abaixo segue, novamente, o impressionante trailer de Interstellar Marines.

Thanks for all your kindness and support, Kim and Kenneth. 🙂

Link para o vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=dhk-2Wb_IyQ

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